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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Atenas, o berço do Ocidente


Atenas, o berço do Ocidente
Democracia, imperialismo, educação, arte e até malhação: as raízes do nosso mundo surgiram na cidade mais poderosa da Grécia antiga
Reinaldo José Lopes

É a festa da democracia em Atenas e todos os cidadãos, dos magnatas aos mais humildes, foram convidados. Quem passa pela ágora, a praça do mercado, logo vê os dez portões pelos quais entram os que vão votar. É dia de eleição e há um clima de ansiedade no ar: o cidadão que receber 6 mil votos ou mais será expulso sumariamente da cidade e do território em torno controlado por ela, por dez anos. Trata-se de um pleito de ostracismo. Os eleitores só precisam rabiscar o nome do "candidato" ao exílio num caco de cerâmica, o chamado ôstrakon (ou ôstraka, no plural), e depositá-lo num grande jarro. Um grupo de camponeses hesita perto dos portões: entrar ou não entrar? Eles não sabem escrever e estão inseguros, mas um homem de túnica elegante se aproxima para dar uma mãozinha. "Percebo que os senhores têm dificuldade com a escrita e seria uma injustiça não poderem participar. Eis aqui alguns votos já prontos", diz, enquanto oferece a eles as cédulas em que, maliciosamente, inscreveu, provavelmente, o nome do seu inimigo. Agradecidos, os camponeses já podem votar. A cena fictícia se passa na Atenas de 2500 anos atrás. Mas qualquer semelhança com o conhecido voto de cabresto, flagelo da democracia contemporânea, não é mera coincidência. Muito do pensamento e da vida do Ocidente, no século 21, foi antecipado pelos gregos, em especial pelos atenienses do século 5 a.C.

A lista é comprida. Além do sistema de participação política (com seus méritos e problemas), Atenas criou um modelo educacional voltado para a cidadania, levou para o teatro os dilemas existenciais da humanidade, aperfeiçoou a filosofia e a retórica, elevou o culto do corpo ao status de arte, integrou os relacionamentos homossexuais à sociedade com pouco ou nenhum preconceito. Também estava lá a mistura contemporânea de democracia com imperialismo, muitas vezes associada aos Estados Unidos, em que a ideia da liberdade vale muito internamente, mas pouco na política externa e no trato com os vizinhos.

Liberdade, liberdade
O grande sucesso da democracia ateniense, que acabou por transformá-la num império marítimo, é resultado direto da surra que as cidades-estado helênicas deram nos persas, quando eles invadiram a Grécia em 480 a.C. Uma das chaves da vitória foram os 200 navios de Atenas. "E esses navios eram remados justamente pela classe mais baixa entre os cidadãos atenienses, os chamados tetes", explica o historiador britânico Robin Waterfield, autor de Athens - A History ("Atenas - Uma História", inédito no Brasil). Nessa época, o governo da cidade já era democrático: as decisões relevantes para a sociedade eram tomadas por maioria simples da Assembleia, onde qualquer homem livre ateniense poderia participar diretamente, votando.

Mas nem todos eram iguais, distribuídos já em classes de acordo com sua riqueza. E a crescente influência exercida pelos integrantes da Marinha fez com que o equilíbrio de poder dependesse cada vez mais dos que a tripulavam. Durante muito tempo, os membros da nobreza foram as principais figuras da política ateniense, mas a vitória contra o rei persa Xerxes levou esses líderes a fazer de tudo para agradar os tetes, trabalhadores assalariados. É que as naus de Atenas, movidas por eles, também libertaram dos persas as cidades gregas da Ásia, que imploraram para se tornarem aliadas e protegidas dessa frota imbatível na guerra e no comércio marítimo. Formaram, assim, a Liga de Delos.

Os membros dessa aliança contribuíam, inicialmente, com navios e soldados, e depois com dinheiro para as forças armadas comuns. Não demorou, Atenas começou a desviar esses fundos para a construção de templos e para enriquecer seus cidadãos. "Além disso, os atenienses interferiam na política interna dos seus aliados, favorecendo governos simpáticos aos seus interesses e, às vezes, instalando guarnições militares nas terras aliadas", diz Waterfield. A aliança deu lugar a um imenso império, que justificava a força para "defender" a democracia em território alheio. Os lucros para Atenas e as vantagens políticas para os tetes, antes marginalizados, eram tão grandes que poucos se incomodavam com o contraste entre a valorização da democracia em casa e o uso de mão de ferro fora dela.

Política de sorte

À parte essa contradição na política externa, o fato é que, em seu auge, a partir da segunda metade do século 5 a.C., o governo democrático ateniense foi um dos mais radicais da História. "As pessoas usam o fato de que os escravos, as mulheres e os estrangeiros não tinham direitos políticos em Atenas para dizer que a democracia da cidade não era lá essas coisas, mas esquecem que nenhum governo constitucional deu direitos a esses grupos até o século 19", lembra Donald Kagan, professor de História e Estudos Clássicos da Universidade Yale (EUA). "Sob todos os aspectos, a democracia grega colocava o poder diretamente nas mãos dos cidadãos, de uma maneira que nós, que vivemos em democracias modernas, temos até dificuldade de imaginar", diz ele.

Para começar, quase não existiam eleições para cargos públicos em Atenas. A maioria era ocupada por sorteio. A ideia é que as votações favorecem pessoas influentes e ricas, com recursos para fazer campanha. A sorte seria, então, mais democrática. Conceito parecido está por trás da invenção do ostracismo. Trata-se de um instrumento para punir qualquer cidadão acusado de querer tomar o poder. É claro que alguns tentavam manipular o sistema: a cena inicial deste texto foi inspirada na descoberta real de centenas de ôstraka, ou votos de ostracismo, que pediam o exílio da mesma pessoa, escritos por poucas mãos - indício de grupos se organizando para "queimar" inimigos políticos.

Nessa época, o único cargo eletivo era o de estratego, ou general (reelegível, após um ano, indefinidamente). De resto, os mandatos duravam um ano, sem direito à reeleição (novo sorteio), o que conferia alta rotatividade aos cargos. Não havia burocracia estatal em Atenas. Até os juízes eram selecionados aleatoriamente. Mas, se todos podiam votar, nem todos podiam ser votados. Só podiam ser escolhidos para todos os cargos os mais ricos, em geral donos de terras, chamados pentacosiomedimnos, seguidos pelos cavaleiros e pelos zeugitas (comparáveis a uma "classe média"). "Temia-se que os tetes, por serem muito pobres, viessem a aceitar subornos", diz Waterfield.

Mas os órgãos que realmente mandavam eram o Conselho, formado por 500 cidadãos sorteados (inclusive entre a classe pobre), e a Assembleia, da qual todo cidadão (homem, filho de pai e mãe atenienses, com mais de 18 anos) era membro permanente. Até as decisões dos generais passavam por ela. O Conselho preparava a legislação a ser submetida à Assembleia, que era soberana para vetar a medida ou pedir modificações. "Como muitos dos cerca de 40 mil cidadãos atenienses viviam na zona rural e não eram ricos para possuir cavalos, entre 5 mil e 6 mil pessoas compareciam a uma Assembleia", diz Kagan. O quórum necessário para tomar decisões mais sérias, como declarações de guerra, era de 6 mil votos.

Toda essa gente se reunia 40 vezes por ano, nas encostas da Pnyx, uma colina no centro de Atenas. Escravos municipais iam buscar a multidão, que ficava enrolando, conversando na praça: eles carregavam cordas lambuzadas com tinta vermelha e iam "fechando" os grupos. "Ninguém queria ficar com a roupa manchada, por isso as pessoas iam deixando a ágora", afirma Kagan. Povão reunido, o arauto dizia apenas: "Quem quer falar?" Qualquer um podia se dirigir à Assembleia e, após os discursos, as leis eram aprovadas por maioria simples.

Malhação e paquera

Votar e ser eleito para cargos públicos soa familiar ao ocidental. "Mas e se a ida à academia fosse considerada uma das obrigações normais do cidadão, quase como pagar impostos?", pergunta o britânico Nigel Spivey, professor da Universidade de Cambridge, em seu livro The Ancient Olympics ("As Olimpíadas antigas", sem tradução). "Havia a expectativa política nas cidades-estado gregas de que os bons cidadãos deviam manter a boa forma, ou eumorphia", diz.

Na prática, figurões da Atenas do século 5 a.C., como o filósofo Sócrates (470-399 a.C.), o general Péricles (495-429 a.C.) ou o dramaturgo Sófocles (496-406 a.C.), passavam algumas horas por dia pelados e com o corpo coberto de azeite nos ginásios e nas palestras (ringues de luta). Para o ideal grego do kalôs kai agathôs (algo como "o belo e o bom/competente"), uma mente sábia não bastava: um corpo forte e bonito tinha de acompanhá-la. Entre os esportes, havia a corrida de um estádio (cerca de 200 metros), salto e luta livre. No fim de um treinamento, usava-se um estrigilo (raspador metálico, curvo como uma foice) para tirar a mistura de óleo e sujeira da pele. A limpeza podia, ainda, ser complementada por um banho de banheira.

Tal como no mundo moderno, as "academias" viravam locais de paquera, mas só entre homens. Senhores de meia-idade visitavam os ginásios e as palestras para admirar os jovens e cortejá-los. Não havia contradição no fato de um homem maduro, casado e com filhos se apaixonar por um rapaz. Esse amor literalmente pederasta (em grego, algo como paixão por meninos) era encarado como necessário ao desenvolvimento do adolescente. O mais velho (erastés, ou amante) serviria como tutor do rapaz (erómenos, ou amado), ensinando-lhe virtudes. Nenhum dos lados deveria parecer "afeminado" - o que atraía desdém social não era a relação homossexual, mas a eventual perda de virilidade. Como o sexo anal era considerado uma forma de submissão, digna de escravos, o romance entre dois homens livres idealmente envolvia apenas o chamado coito interfemural, pelo contato entre coxas (é assim que o sexo entre homens aparece em vasos e outros exemplos da arte grega).

As mulheres ficavam de fora desses jogos românticos. Com exceção das prostitutas, as atenienses, como na canção Mulheres de Atenas, de Chico Buarque, eram vistas como esposas e produtoras de filhos, a maior parte do tempo dentro de casa, trabalhando (veja infográfico na pág. 34). "A melhor coisa que se pode dizer de uma mulher é que não se fale dela em absoluto", teria dito o estratego Péricles (495-429 a.C.), principal político de Atenas em seu apogeu.

Vinho e teatro
As atenienses também não participavam de duas manifestações fundamentais da cultura grega: o simpósio, uma festa só para homens (com exceção de prostitutas e escravas), e o teatro. O simpósio consistia em jogar conversa fora e beber o máximo de vinho possível, sem cair embriagado. Como? Diluindo vinho na água. Os gregos consideravam a bebida alcoólica pura uma coisa para bárbaros, porque ela podia provocar a perda do autocontrole e a moderação já era, então, tida como uma virtude.

Nos famosos festivais de teatro de Atenas, todos os papéis eram desempenhados por homens - e ainda há dúvidas se as mulheres podiam integrar a plateia. As peças eram sempre encenadas em honra de Dionísio, o deus do vinho e das emoções fortes, e apenas uma vez. O Teatro de Dionísio, em Atenas, acomodava de 15 mil a 20 mil pessoas ao ar livre, de todas as classes sociais (menos os escravos).
É fácil perceber como a arte dramática ateniense moldou o teatro e o cinema ocidentais. Os gregos antigos foram os primeiros a entender o que gera audiência: a capacidade de o público se identificar com os personagens. Segundo o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.), ao experimentar, por meio deles, sentimentos fortes e acontecimentos trágicos, esperava-se que as pessoas purificassem as próprias emoções. Mais importante, as peças faziam a plateia refletir sobre os problemas centrais da condição humana, como a natureza do destino ou conflitos entre a compaixão e a Justiça. Nas tragédias ou na comédia - gênero que tem Aristófanes (446-386 a.C.) como grande representante -, os dramaturgos discutiam temas de interesse da cidade, satirizavam o governo ou até as mazelas da democracia. Tal como na Assembleia, a marca fundamental do teatro ateniense era uma grande liberdade de expressão, esse valor que, afinal, está no coração do Ocidente moderno.


Educação para a cidadania
Os meninos aprendiam a questionar e a defender suas ideias

Os fundadores da cultura ocidental, nascidos e criados em Atenas durante o apogeu da cidade, eram educados para serem os mais fortes e inteligentes, mas capazes de saber o que era melhor para o conjunto de sua sociedade. Além do básico - ler, escrever, contar, um pouco de música e canto -, os meninos atenienses aprendiam sobretudo os valores de sua cidade e classe social. Antes do século 5 a.C., quando apenas uma pequena elite tinha acesso à educação, esses valores eram basicamente os refletidos nos poemas atribuídos a Homero (século 9 ou 8 a.C.), a Ilíada e a Odisseia, que funcionavam como uma espécie de Bíblia da aristocracia grega. Os textos de Homero ensinavam a ser competitivo e a chegar na frente. O lema do maior herói homérico, Aquiles, era "sempre ser o melhor e superior aos outros". Melhor em quê? Primeiro, em coragem na batalha, mas inteligência e esperteza também eram valorizadas, como mostra o segundo maior herói do poeta, Ulisses (ou Odisseu, em grego), capaz de convencer a todos com sua lábia e de elaborar estratagemas engenhosos, como o do cavalo de Tróia, citado na Odisseia. Beleza, força e agilidade completavam o ideal homérico de aristocrata, pronto a vencer qualquer disputa. Com o fortalecimento da democracia em Atenas, ser o primeiro ainda é importante, mas é preciso convencer os cidadãos de que as suas ideias são as melhores. Surgem os sofistas, que ensinavam a arte de argumentar na Assembleia. Eis aí uma semelhança intrigante com o mundo de hoje: para muitos sofistas, como Protágoras (485-410 a.C.), o certo e o errado eram questão de ponto de vista, e o importante era saber defendê-lo. Diferentemente deles, pensadores como Sócrates e Platão (428/7-348/7 a.C.) acreditavam, contudo, que a mente humana é capaz de conhecer a verdade, por meio do questionamento incessante das ideias estabelecidas. Num método envolvendo perguntas e respostas, Sócrates tentava levar seus interlocutores a encontrar por si próprios as soluções para as questões propostas, sistema que ainda hoje inspira modelos educacionais. Seus sucessores fundaram círculos de mestres e alunos (o mais famoso é a Academia, capitaneada por Platão), para formar pessoas capazes de saber o que era melhor para o conjunto dos seres humanos e, principalmente, para a cidade.

Saiba mais
LIVROS

Athens: A History, from Ancient Ideal to Modern City, Robin Waterfield, Basic Books, 2004
Descrições vívidas de peças de teatro, simpósios e prostituição na metrópole grega.

A Constituição de Atenas, Aristóteles, Hucitec, 1995
Essencial para entender o desenvolvimento da democracia entre os atenienses.

Paideia: A Formação do Homem Grego, Werner Jaeger, Martins Fontes, 1989
Obra que mergulha fundo no modelo educacional no mundo helênico.

Mulheres de Atenas
A maior parte da ala feminina trabalhava duro e quase não saía

CASEIRAS

Elas tecem longos bordados

A principal ocupação das atenienses de todas as classes sociais era usar lã para fazer tecidos. O processo, longo e trabalhoso, envolvia desde a preparação do fio até a criação de peças em teares manuais.

Os novos filhos de Atenas

Cuidar das crianças também era ocupação exclusivamente feminina. Até os 7 anos, meninos e meninas passavam quase todo o tempo na barra da túnica da mãe. Depois, os meninos podiam estudar, enquanto as garotas continuavam em casa.

CAMPONESAS

Quando fustigadas não choram

As camponesas não precisavam ficar trancafiadas em casa, como ocorria com as atenienses urbanas ricas. Mas elas tinham de dar duro o ano inteiro. Uma de suas principais atividades era plantar e colher ervas, verduras e legumes.

Não fazem cenas

Alem de cultivar feijão, cebola, condimentos e verduras silvestres, era preciso limpar constantemente o jardim, para evitar ervas daninhas.

Ajoelham

As mulheres do campo também eram responsáveis pela pecuária. Elas ordenhavam cabras e ovelhas e usavam o leite para preparar queijo e coalhada. Ocasionalmente, ainda criavam abelhas para produzir mel. Tudo isso sem reclamar.

ESPOSAS

Vivem pros seus maridos

Fora o trabalho de fiar e de supervisionar os criados, as donas-de-casa abastadas deixavam quase todo o trabalho pesado para escravas domésticas. As crianças, e às vezes até a amamentação, podiam ficar por conta das cativas.

Quando amadas

Embelezar-se com joias e maquiagem, para receber o homem que retorna de terra estrangeira ou da lida diária, era parte das tarefas de uma mulher (e tomava tempo).

Se enfeitam

Todas a gregas usavam o cabelo longo. E as mais ricas se davam ao luxo de ter escravas para fazer nelas penteados elaborados, com várias tranças, cachos e coques, enfeitados por diademas, alfinetes de ouro ou tiras de metal.

AMANTES

Outras falenas

As únicas mulheres que podiam conversar com homens eram as hetairas ("companheiras" ou "acompanhantes"). Prostitutas refinadas, elas discutiam arte e literatura. Também esperava-se que tivessem algum talento: cantavam, dançavam ou tocavam instrumentos. A ponto de "flautista" ter virado sinônimo de prostituta na Grécia.

Revista Aventuras na Historia

Anos 20 - Arte e Cultura

Abaporu - quadro de Tarsila do Amaral, 1928.Paulicéia Desvairada (capa), 1922. São Paulo (SP. (UNICAMP)Alunos e Professores na Escola Nacional de Belas Artes, vendo-se Cândido Portinari (segundo da esquerda para a direita na primeira fila), 1922. Rio de Janeiro (RJ). (Projeto Portinari/AFRH 224)Capa da Revista Fon Fon, 1916. (Nosso Século - 1910/1930 - Abril Cultural)

Anos 20
Arte e Cultura


Em síntese: Na década de 1920 era nítida a preocupação de se discutir a identidade e os rumos da nação brasileira. Todos tinham algo a dizer - políticos, militares, empresários, trabalhadores, médicos, educadores, mas também artistas e intelectuais. Como deveria ser o Brasil moderno? Através da literatura, das artes plásticas, da música, e mesmo de manifestos, os artistas e intelectuais modernistas buscaram compreender a cultura brasileira e sintonizá-la com o contexto internacional. O marco de seu movimento foi a Semana de Arte Moderna de 1922. Mas havia também intelectuais preocupados com a reforma das instituições - a começar pela Constituição de 1891 -, que se dedicaram a apresentar propostas para a reorganização da sociedade brasileira.


A entrada do Brasil na modernidade foi parte de um processo complexo em que se entrecruzaram dinâmicas diferentes. Nas primeiras décadas do século XX aceleraram-se a industrialização, a urbanização, o crescimento do proletariado e do empresariado. De outro lado, permaneceram a tradição colonialista, os latifúndios, o sistema oligárquico e o desenvolvimento desigual das regiões. De toda forma, com a expansão dos centros urbanos, modificaram-se os valores da cultura cotidiana e os próprios padrões da comunicação social. As idéias de simultaneidade, concisão, fragmentação, velocidade e arrojo passaram a expressar os tempos modernos. As Kodaks, o cinema e as revistas ilustradas captavam um mundo feito de imagens. Era inevitável que a arte expressasse as transformações trazidas pela modernidade. Mas, no Brasil, outros problemas também preocupavam artistas e intelectuais. "Nós não nos conhecemos uns aos outros dentro do nosso próprio país." A frase, do escritor carioca Lima Barreto, caracteriza bem o espírito da década de 1920. Era um tempo de indagações e descobertas. A tarefa que se impunha era a de construir a nação, e isso significava também repensar a cultura, resgatar as tradições, costumes e etnias que haviam permanecido praticamente ignorados pelas elites. A questão da identidade nacional estava agora em primeiro plano: que cara tem o Brasil? Artistas e intelectuais buscaram responder a essa pergunta, e esse esforço foi uma característica importante do modernismo brasileiro. Isso não quer dizer que o modernismo tenha sido um movimento homogêneo. Ao contrário: produziu imagens e reflexões sobre a nacionalidade profundamente contrastantes entre si.

A Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo no ano de 1922, representou uma verdadeira "teatralização" da modernidade. Mas o movimento modernista não se resumiu à Semana. Na verdade começou antes de 1922 e se prolongou pela década de 1930. Tampouco se restringiu a São Paulo. Houve também uma modernidade carioca, e a proliferação de revistas e manifestos por todo o país indica que o raio de ação do movimento foi maior do que se supõe.

Assim como a Exposição Universal do Rio de Janeiro de 1922, a Semana de Arte Moderna fazia parte da agenda oficial comemorativa do Centenário da Independência. O evento teve grande impacto na época, pois formalizou e discutiu questões que já se estavam esboçando na vida cultural. Por exemplo: como integrar tradição e modernidade? regional e universal? popular e erudito?

Mário de Andrade defendia a perspectiva de integração dinâmica do passado ao presente. No "Prefácio interessantíssimo" de seu livro de poemas Paulicéia desvairada (1922), definia o passado como "lição para meditar não para reproduzir". A tradição em si não tinha valor, a não ser que estabelecesse um elo vivo com a atualidade. Era esse o sentido dos estudos folclóricos a que se dedicou. Seu célebre livro Macunaíma (1928) mostra um herói que nasce índio, torna-se negro e no final é branco. O herói Macunaíma sobrevoa o Brasil nas asas de um pássaro. O que importava era destacar a nossa multiplicidade étnico-cultural, vislumbrar o conjunto da nacionalidade.

Outro autor modernista de renome, Oswald de Andrade, propunha no "Manifesto pau-brasil" (1924) uma síntese capaz de unir o "lado doutor" da nossa cultura ao lado popular. Já no "Manifesto antropofágico"(1928), sugeria um projeto de reconstrução da cultura nacional. Metaforicamente, deveríamos devorar e absorver de maneira crítica as influências do "inimigo" externo. As idéias do futurismo, do dadaísmo e do surrealismo poderiam ser integradas à nossa cultura desde que fossem reelaboradas. No quadro de Tarsila do Amaral intitulado "Abaporu" - que significa "o homem que come" - está expressa plasticamente a idéia da integração cultural.

O grupo dos verde-amarelos, por sua vez, tinha idéias bastante diferentes: propunha um "retorno ao passado", considerado como o depositário das nossas verdadeiras tradições. Via no popular, com sua índole pacífica, a alma da nacionalidade, a ser guiada pelas elites político-intelectuais do país. No manifesto "Nhengaçu verde-amarelo" (1929), defendia as fronteiras nacionais contra as influências culturais estrangeiras. Nesse ponto o grupo reforçava a tese do nacionalismo militarista de Olavo Bilac, fundador da Liga de Defesa Nacional e criador da figura do "poeta-soldado". As idéias dos verde-amarelos seriam mais tarde incorporadas pelo regime autoritário do Estado Novo (1937-1945).

Entre os intelectuais dos anos 20 cujas análises visavam à definição de novos rumos para o país, incluíam-se Oliveira Viana, Gilberto Amado, Pontes de Miranda. Eles escreveram ensaios que foram publicados em 1924 em uma coletânea organizada por Vicente Licínio Cardoso, chamada À margem da história da República. Na base de seu ideário estava o pensamento do político e escritor fluminense Alberto Torres.

Um dos nossos maiores problemas, na opinião desses pensadores, era a debilidade do governo federal. A Constituição de 1891 estava a seu ver ultrapassada, e isso por dois motivos principais: possuía inspiração externa e assegurava grande poder aos estados em detrimento do poder central. Urgia que o país construísse seu próprio modelo e criasse instituições adequadas à realidade nacional.

CPDOC - FGV

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Vendo o passado: representação e escrita da história




Manoel Luiz Salgado Guimarães

Professor Associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro / Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Largo de São Francisco 1, 2º andar, Centro, 20050-070, Rio de Janeiro – RJ, lecionando Teoria, Metodologia da História e Historiografia. Professor Adjunto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, lecionando História Moderna. Pesquisador do CEO/PRONEX CNPq/FAPERJ. E-mail: 

Pour savoir il faut simaginer
Georges Didi-Huberman

Notas sobre o presente do passado: vendo o passado como patrimônio
Tornou-se lugar comum a afirmação de que vivemos em um tempo marcado pela força das imagens – e da visão como um dos sentidos fundamentais para apreensão e decodificação do mundo que nos cerca; somos constituídos por uma cultura oculocêntrica, que, transformada a partir do Renascimento, adquiriu a centralidade em nossa contemporaneidade. A pergunta formulada por François Hartog1 em seu recente trabalho parece indicar o cerne da questão a ser investigada em nossa conjuntura historiográfica de final do século e começo de um novo. O que ver, quando parece que podemos tudo ver em virtude dos meios postos a serviço da escrita da história? Como refletir acerca dessa complexa relação entre o visível e o invisível, que está na raiz mesma do trabalho do historiador, quando os meios de visibilidade do passado parecem infinitamente alargados pela capacidade técnica de arquivamento do passado? Se, como afirma Didier-Huberman, o saber está intrinsecamente ligado à capacidade de imaginar-se, portanto, de criarem-se imagens que apelam ao sentido da visão, o saber a respeito do passado, na forma de um conhecimento acadêmico específico assim como nas diferenciadas formas de demanda das sociedades contemporâneas em torno deste conhecimento2, suporia igualmente uma relação importante com o mundo das imagens, com a capacidade de representar o passado através de figuras, com o olho associado à escrita. Estaríamos nos aproximando do sonho de uma escrita da história mais próxima de uma totalização, em virtude dessas infinitas e sofisticadas capacidades de produção do passado em arquivos?

É importante termos claro que, no caso do trabalho do historiador, essa relação entre o visível e o invisível parece revestir-se de uma peculiaridade, pois não se trata apenas de imaginar e visualizar o passado como algo irreal, fora da realidade presente à experiência sensorial, mas como algo anterior ao nosso tempo, o que configura, portanto, uma especificidade a este ausente a ser visualizado: o de ser anterior ao nosso tempo e que, por isso, mantém com ele certas relações3. Esta discussão implica necessariamente um cuidado, no sentido de precisar os termos com que operamos, que se torna evidente já na definição do que seria a visualização do passado, implicada tanto numa narrativa escrita sobre eventos pretéritos (que supõe do leitor uma imaginação do que está sendo narrado) como também num projeto de patrimonialização desse mesmo passado em instituições que dão suporte a esta visualização como, por exemplo, os museus.

Nesse sentido, as observações de Ulpiano Bezerra de Meneses4 constituem-se em indicações preciosas para este trabalho de precisão dos termos a serem operados. Visando a ir além de uma perspectiva apenas documentalista da imagem – largamente conhecida pelos historiadores de ofício e que, na realidade, tem no modelo da fonte escrita, definida segundo os cânones da disciplina no século XIX, sua fonte de inspiração –, Bezerra de Meneses nos adverte para a importância de diferenciar três ordens de questões ao enforcarmos o problema das imagens e seu tratamento pela história: a dimensão do visual, a do visível e a da visão, articuladas em feixe e procedimento enriquecedor para o tratamento dessa dimensão da experiência social. Aí também encontramos outra sugestão importante e complexificadora do trabalho do historiador com o universo das imagens, que deixaria de ser visto apenas como fonte para a história a ser narrada, e ganharia a dimensão de uma experiência social particular e, como tal, dotada de historicidade. Isso significa assumir que a imagem não pode ser tratada apenas a partir de sua dimensão documental, fonte de informações para a pesquisa. Assim como o texto literário, a imagem não se esgota como documentação, o que significaria tratá-la segundo os procedimentos que a crítica histórica definiu para as fontes escritas, perdendo, dessa forma, sua dimensão de criação que permite a experimentação, sob determinadas condições, de uma experiência do passado5. Ao tratar a dimensão do visual, segundo as indicações de Bezerra de Meneses, caberia um inventário das "condições técnicas, sociais e culturais de produção, circulação, consumo e ação dos recursos e produtos visuais"6, assim como das instituições que dão suporte aos sistemas visuais e que são também produtoras de narrativas sobre o passado a partir dessas imagens. O visível e o invisível, na proposta de Bezerra de Meneses, articulam-se a partir da dimensão do poder, daquilo que torna algo visível ou não; e, neste sentido, aproxima-se daquilo que, a partir de Certeau, poderíamos entender como constituinte de uma operação histórica. Uma operação que tornaria articulável uma certa visibilidade do passado, através de procedimentos de dar à visão, e que, no mesmo movimento, produziria o seu oposto: o invisível. Finalmente, a visão aponta na direção de um sujeito que vê; e das técnicas e modalidades do ver, supondo, portanto, uma ancoragem no tempo. Esse sujeito que vê é, ao mesmo tempo, produto da história e lugar a partir do qual certas práticas são articuladas.

Vivemos, igualmente, um tempo em que a força dos investimentos sociais nas tarefas de memória ganharam grande visibilidade em nossas sociedades contemporâneas: quer pensemos nas tarefas de patrimonialização e musealização do passado, objeto de políticas públicas do Estado e mesmo de organizações internacionais como a Unesco, quer consideremos, também, aquelas voltadas para a sua visualização através dos meios de comunicação de massa. Revistas de larga tiragem, vendidas em bancas de jornal, e séries televisivas disponibilizam aos consumidores de imagem de nosso tempo uma gama de passados desejados por um presente que se apresenta cada vez mais com maior força. Na esteira daquilo que se convencionou chamar de "dever de memória" – e como parte dos desdobramentos de experiências traumáticas como a do holocausto –, entramos num tempo em que nossa relação com o passado vem se alterando de maneira significativa. É preciso, no entanto, estarmos atentos para o fato de que mais lembrança, como parte das demandas de nossa contemporaneidade, não implica necessariamente em mais conhecimento do passado e, muito menos, em uma compreensão crítica dessas experiências pretéritas. É preciso ter claro que lembrança e esquecimento caminham juntos, como processos ativos e necessários à vida social, e que a escrita pode ser a forma mais rápida para o fácil esquecimento7. Vivemos aquilo que Andreas Huyssen8, de maneira tão aguda, denomina a sedução pela memória, um tempo em que nossas sociedades vivem uma verdadeira "inflação de memória", acompanhada por uma monumentalização das formas de relação com o passado. A sedução, que na formulação conceitual freudiana vincula-se à recordação de cenas vividas ou imaginadas, supõe, portanto, uma centralidade da lembrança e seus mecanismos de constituição de sujeitos. No caso da sugestão de Andreas Huyssen, é como se vivêssemos sob o imperativo da recordação, prisioneiros da necessidade de sempre e de tudo lembrar. Este imperativo nos leva à compulsão por arquivos e tarefas de arquivamento, esquecendo-nos, como aliás bem nos lembra Elisabeth Roudinesco9, de que se tudo está arquivado, anotado, controlado e vigiado, a história como criação não é mais possível, transformando-se o passado em espelho do próprio arquivo, transmutado em lugar da verdade, reificado e de-historicizado. O arquivo perde sua dimensão de escritura e, portanto, sua forma simbólica e necessariamente histórica de significação das experiências humanas. Perdendo-a – a dimensão de escritura –, perde com isso sua condição de permitir o acesso à imaginação do passado como forma de evocar experiências vividas por outras sociedades em outros tempos; em outras palavras, tornar o invisível, visível para os homens de outros tempos e outros lugares.

Vivemos uma conjuntura paradoxal: um significativo aumento na capacidade técnica de arquivamento e armazenamento do passado e a experimentação de uma velocidade do tempo que parece limitar esse mesmo arquivamento dos eventos e experiências vividas. Se o próprio presente quer fazer-se passado, sobretudo pela escrita com imagens, como construir sobre ele um conhecimento que se fundou exatamente no pressuposto de que passado e presente se constituiriam em duas ordens temporais radicalmente diversas e distintas, demandando o tempo como condição necessária de transformação de eventos e experiências em passado. Caberia igualmente interrogarmo-nos acerca dessa ordem particular do tempo, que nos impõe a necessidade de produção de múltiplas e diversificadas narrativas do passado, abrindo um enorme espaço para sua produção através das inúmeras possibilidades imagéticas: a produção midiática que, a cada vez, parece tornar o passado consumível pelos meios de comunicação, intenso processo de patrimonialização, que tem tornado a preocupação com a preservação dos bens do passado uma política não apenas de Estado mas também de organismos como a Unesco.

Dados recentes dessa organização indicam este esforço: a 29ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, reunida em Durban, na África do Sul, em julho de 2005, inscreveu na lista mundial de bens patrimoniáveis trinta novos bens, somando, até o momento, um total de 812 bens preservados em 137 países. O patrimônio como política tornou-se também uma preocupação globalizada. Para os que acompanham a política do Ministério da Cultura10, é perceptível um investimento nesse mesmo esforço de patrimonialização, através não só da criação de novos museus como também da definição de uma política para o patrimônio imaterial.

Enfim, o que importa apreender nesses diferentes movimentos é o sentido de temporalidade que está implícito nesse trabalho com o passado, que parece apontar para aquilo que Hartog11 tão agudamente indica como a força do presentismo como forma peculiar de uma ordem do tempo própria às sociedades contemporâneas. Uma ordem em que o presente é onipresente e massivo em sua força; e único horizonte disponível para as sociedades contemporâneas. Mas é, igualmente, um presente atormentado pela busca de suas raízes e pelas exigências de uma memória, reformulando constantemente seu projeto de lembrança/esquecimento dos grandes traumas do século XX: do Holocausto, passando pela guerra fria e pelas experiência do terrorismo de Estado em experiências políticas latino-americanas. À confiança no futuro, que marcara o projeto das sociedades oitocentistas, agrega-se agora um cuidado especial com a salvaguarda e a preservação12.

Em sua formulação, um regime de historicidade pode ser compreendido como a forma como uma sociedade trata seu passado e, igualmente, como uma maneira peculiar de definir uma consciência de si de uma comunidade humana. A política de patrimônio, portanto, não apenas indicaria o cuidado e a atenção com uma herança, com um legado que se acredita valioso o suficiente para ser conservado, com a posse de bens que seriam propriedade de uma sociedade, mas, sobretudo, apontaria na direção de uma relação com o tempo, mais especificamente com o passado, e um passado "cuja forma de visibilidade importaria para o presente"13. E, segundo ainda as sugestões de François Hartog, essa forma de visibilidade estaria ligada à capacidade de tornar visíveis os objetos de uma maneira distinta daquela própria ao momento de sua criação. Ao olharmos, portanto, para um objeto do passado – sejam aqueles colocados em exposição para o olhar nos museus, sejam aqueles monumentalizados no espaço de nossas cidades – é a partir de uma outra gramática que o vemos, articulado como objeto histórico; como patrimônio histórico. Perdem o sentido para o qual foram criados e adquirem um novo, conferido pela qualidade de histórico, estabelecendo, por esse procedimento, uma relação entre o visível do tempo presente e o invisível do passado.

É ao refletir sobre o tempo e sua centralidade para o trabalho do historiador que Hartog nos sugere uma entrada para o seu exame, através de uma cidade que, nas suas palavras, seria "uma cidade para historiadores"14: a Berlim de uma Alemanha reunificada, novamente capital de um país, cidade no centro da Europa, elo de ligação entre Oriente e Ocidente e cenário das experiências mais traumáticas da história recente: nazismo e holocausto, reconstrução e divisão pelo muro construído em 1961, capital que se quer memória e lembrança, considerando seus inúmeros projetos de investimento na história; mas, também, projeto e laboratório para o futuro. Para ficarmos com apenas alguns desses investimentos sociais em uma política do passado, basta lembrarmo-nos do novo projeto de um Museu de História Nacional, ocupando as antigas dependências do Museu com a mesma finalidade existente na Berlim antiga capital da República Democrática Alemã. Igualmente os projetos vinculados à lembrança coletiva do Holocausto (materializados no Museu Judaico e no monumento a céu aberto, para recordação do massacre de judeus) apontam para essa preocupação em relação a um passado que não pode passar15. Uma cidade onde o passado parece adquirir uma centralidade ímpar, e, igualmente, uma que investe em ser a referência urbana do século XXI, tendo em vista seus projetos arquitetônicos para ocupar os vazios deixados por uma experiência histórica que espalhou suas marcas na geografia da cidade. Neste sentido, busca preencher os vazios, apagar as ausências e lacunas, elas mesmas tão expressivas de uma história que se fazia presente pelo que deixava não preenchido.

Especialmente em relação ao projeto urbanístico de ocupação da área antes tomada pelo muro no antigo centro da capital berlinense da República de Weimar, é clara a intenção de preencher o enorme vazio que dividia a cidade, um vazio cheio de significados, ocupado por militares e torres de controle que vigiavam o espaço. O muro, que por quase quatro décadas dividira a cidade, transforma-se, com a reunificação, em peça de museu aberto, exposto à visitação pública, sendo agora objeto de uma assepsia que o afasta das inúmeras experiências dramáticas a que esteve ligado. Submetido a uma nova sintaxe, o muro pode transformar-se, assim, em objeto de museu, vestígio de um passado controlado pelas exigências da lembrança que se quer ter no presente, e que se deseja projetar para o futuro. Curiosa transformação a que se desenrola no espaço da cidade, lugar onde a história se escreve com outros sinais e materiais, operando a partir do ato de lembrar-se. Ocupam-se os vazios com a lembrança possível de um passado que se quer superado, mas, também, com investimentos para um recordar-se num futuro.

Essa consciência da necessidade imperiosa de lembrar um passado expressava-se já de maneira bastante clara nas palavras do prefeito da cidade, por ocasião das comemorações dos 750 anos de Berlim, em 1987. Na introdução ao catálogo da exposição que pretendia visualizar o passado da cidade, desde a fundação à contemporaneidade, escrevendo com imagens e objetos uma narrativa para uma cidade que se via dividida e parecia buscar no passado a possibilidade de sua unidade perdida, Eberhard Diepgen afirmava:

Raramente uma cidade, num espaço de tempo tão curto, moldou e experimentou a história como Berlim. Berlim provoca não apenas uma reflexão acerca de formas de lidar com a história como sobretudo acerca da história contemporânea. Sua posição no centro da Europa coloca inapelavelmente a questão em torno de como serão suas relações com o continente europeu16.

Uma política para o passado é, necessariamente, uma demanda da política do presente, e Berlim parece constituir-se no locus ideal para a investigação dos investimentos contemporâneos numa política de memória e lembrança assim como numa preocupação com relação à visualização e exposição do passado17. Ao final de 2004, preparando-se para a lembrança dos 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, o Museu Histórico Alemã, na capital berlinense, inaugura uma exposição – Mitos das Nações. Arena das Lembranças. Partindo do pressuposto que a lembrança da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto são elementos fundamentais da nova identidade européia em gestação, a exposição visava a trazer ao público as diversas visões, produzidas em diferentes sociedades que viveram a Guerra, acerca do fim dos conflitos em maio de 1945. Segundo a concepção da curadoria, as sociedades saídas do confronto bélico não recordavam o morticínio que a guerra significou, mas construíram o mito da luta de resistência. Uma lembrança necessária às tarefas de reconstrução nacional no pós-45. Mitificação e repressão aliaram-se para a produção de um passado suportável, diante das tarefas de reconstruir sociedades material e simbolicamente esgarçadas. No entanto, como o título da exposição sugere, este é um terreno de disputas, uma arena de lembranças18.

Assim, nossa relação contemporânea com o tempo, marcada pelo regime de historicidade definido por François Hartog como presentista, supõe não apenas refletir sobre a escrita da história no seu sentido acadêmico, como produção do conhecimento, mas igualmente refletir sobre os usos do passado em nossa contemporaneidade. Implica, ainda, em formas peculiares de visibilidade para esse passado, entendendo-a como parte de uma estratégia social e política, se quisermos essa visibilidade como parte dos usos possíveis e necessários do passado.

Refletir sobre o patrimônio, segundo entendo, como uma das formas possíveis de produção dessa visualização, impõe-nos uma reflexão em torno de uma forma específica das sociedades modernas e contemporâneas lidarem com a experiência do transcurso do tempo e seu resultado para o conjunto das realizações humanas. Significa, então, operar a partir de um duplo incontornável: a ausência e o sentimento que ela provoca, especialmente num tempo marcado pela sensação de velocidade e fugacidade. Essas mesmas experiências passadas só podem ser significáveis através dos traços/restos/indícios que nos chegam. Traços que poderão, assim, ressignificar as construções materiais das sociedades passadas, fazendo com que seus objetos possam ser vistos como algo diferente daquilo que o foram quando criados. Reinscritos e lidos sob nova chave, viabilizam formas peculiares de visualidade para o passado, aquela necessária ao nosso presente.

Como forma peculiar de visualização própria ao nosso presente, os esforços em torno do trabalho do patrimônio e sua preservação indicam, portanto, uma das possíveis formas de sintomatização de nosso tempo – indício valioso para percebermos nossa peculiar relação com sua passagem – e os sentidos que a ela podem ser atribuídos. Outras formas de visualização do passado, por sua vez, podem significar igualmente um caminho fecundo para a compreensão das experiências sociais ao logo do tempo, tarefa por excelência do ofício de historiador.



Historicizando um problema: a relação entre o escrito e a imagem

As tensões implicadas na relação entre o escrito e a imagem podem remontar à tradição judaica e à implantação das religiões monoteístas como religiões baseadas na escrita e na lei, definindo-se como assentadas na crença, e não, no culto. Como religiões de crença, fundamentam sua prática a partir da noção de uma revelação que não é dada à percepção e à sensibilidade humanas e, por isso, só pode ser inteligível pela crença. Por este caminho, define-se igualmente uma opção que valoriza o escrito em detrimento das imagens, que passam a ser associadas aos cultos pagãos, ao erro e à incapacidade de atingir o verdadeiro Deus. Importa, contudo, lembrarmo-nos de que a escrita se realiza através de um conjunto de sinais, e que estes guardam evidentemente uma dimensão visual19. São significativas as conseqüências, assim como tortuosos os caminhos, que farão possível a incorporação das imagens à tradição monoteísta cristã. Em um instigante trabalho, Jan Assmann20, relendo o clássico de Freud Moisés e o Monoteísmo, denomina de "decisão mosaica" a constituição de duas esferas culturais demarcadas a partir de distintas heranças religiosas. Para o autor, o que importa ressaltar é o fato de ser o espaço cultural – criado por esta diferenciação entre falso e verdadeiro no campo da religião – o espaço do monoteísmo, espaço cultural e espiritual habitado pelos europeus há pelo menos dois mil anos. O espaço produzido por esta diferenciação apresenta-se como algo totalmente novo se comparado com a experiência das religiões antigas, politeístas, uma vez que estas operavam como traduções culturais, pondo culturas distintas em contato. Essa nova religião e o espaço cultural produzido pela experiência do monoteísmo impediram a tradução cultural, uma vez que, ao estabelecer um deus verdadeiro e outros deuses como não verdadeiros, impossibilitou que se pudesse formular a tradução de um deus considerado não verdadeiro, um contra-senso para esse universo cultural forjado pela experiência do monoteísmo. As conseqüências deste espaço cultural aberto pela experiência da "decisão mosaica" apontavam para uma tensão específica: de um lado, a verdade como única e baseada na força do texto, abrindo espaço para a eliminação daquilo considerado falso e mentiroso e, por isso, ameaçador da verdade da lei; por outro, um caminho aberto a uma maior racionalização do mundo e à fundamentação das ações humanas – uma ética da ação – a partir de constrangimentos de ordem moral e jurídica. Segundo Assmann, a "decisão mosaica" introduz um novo tipo de verdade, "absoluta, revelada, metafísica, ou verdade da crença"21.

Uma vez estabelecida a diferenciação cultural, entre o falso e o verdadeiro, entre o monoteísmo e o politeísmo, é importante o trabalho de lembrança para que os espaços culturalmente divididos possam ser não apenas lembrados como também possam ganhar em extensão temporal. Dessa forma a lembrança tende a tomar a forma de uma narrativa grandiosa, de um mito fundador que, no caso da mosaische Unterscheidung (decisão mosaica), é a narrativa do êxodo, que igualmente separa judeus de egípcios, associando a este povo a idéia de pagãos e condenando uma das práticas recorrentes dessa cultura – o culto às imagens –, que se torna, portanto, o pior dos pecados, que passa a estar associado à mentira: a idolatria. Desta forma os quadros/imagens são considerados como outros deuses, uma vez que o verdadeiro deus não se deixa representar pela imagem.

Importante de se sublinhar é o fato de que a lembrança, o ato da recordação, torna-se duplamente importante na definição dos espaços culturalmente definidos pela "decisão mosaica". Por um lado, Assmann adverte-nos para o próprio fato de que Moisés é, em si, uma figura da lembrança, uma vez que carecem evidências históricas de sua existência; por outro lado a lembrança é que assegura o caráter instituinte de uma diferença entre o falso e o verdadeiro, entre o deus verdadeiro e os falsos. Mas lembranças não implicam também na capacidade de produção de imagens? Ao sublinhar a centralidade da cultura da lembrança como parte do universo cultural forjado pelo monoteísmo, Assmann começa por apontar um curioso paradoxo: aquele existente entre um mapa geográfico – em que Israel e Egito partilham um mesmo território de trocas e conexões – e o que chama um mapa da memória (território da memória) – em que estas regiões aparecem como dois mundos separados. O monoteísmo estabelece, portanto, dois territórios culturais, que se diferenciam não através de um processo evolutivo mas através de um movimento de revolução/ruptura, que vem de fora através de uma "aparição". Neste sentido o Êxodo, como momento inaugural, simboliza o momento temporal da separação entre passado e futuro, entre duas épocas distintas da história da humanidade. Egito representa, assim, não apenas o reino da idolatria, mas sobretudo a superação de um passado. Lembrar esse passado significa não apenas lembrar-se de uma conversão e, portanto, de uma diferença, como também assegurar a identidade dessa diferença, fundada no escrito e não na imagem. A recusa da imagem abre o caminho para o mundo do espírito que, por sua vez, significaria um afastamento do mundo sensível e, segundo Assmann, lendo Freud, a proibição das imagens trazia consigo implicitamente três princípios fundamentais da religião monoteísta: "a idéia de um único Deus, o descrédito dos cerimoniais mágicos e a ênfase nas exigências de natureza ética"22.

Assim, nos primeiros momentos de sua história, o cristianismo reafirma uma tradição segundo a qual o mundo do visível estaria negado ao espírito, reafirmando uma atitude antiidolátrica, expressa de maneira clara por figuras centrais para a cultura cristã, como o apóstolo Paulo. Para ele, no mundo sensorial, não poderia haver a esperança cujo objeto é a salvação para o cristão. Essa cultura caracteriza-se por uma clara negação dos prazeres dos sentidos. "Pero esperar lo que no vemos, es aguardar con paciencia..."23 Poderíamos supor, nessa formulação, uma importante herança a ser reescrita pela disciplina histórica no século XIX, ensinando os homens a desejarem o futuro, que não vêm, mas que imaginam; e, por esse caminho, aguardá-lo com paciência e esperança na sua realização.

No entanto, a tensão que viria a expressar-se com o filho de Deus se fazendo carne apontaria para importantes alterações na relação entre a cultura monoteísta e o significado das imagens. Se o próprio filho de Deus se fizera homem como nós, abria-se uma nova dimensão para pensar e valorizar a dimensão carnal da experiência humana, vinculada às experiências sensoriais do mundo. O reconhecimento da divindade do filho implicava, em alguma medida, a aceitação da matéria no espírito; e especialmente a partir do Concílio de Éfeso, proclamando a maternidade divina de Maria, deificava-se a carne do Filho de Deus, do Salvador. Como prosseguir na estrita separação entre verdade do espírito e falsidade da carne, quando o próprio filho de Deus se tornava carne? Como então compatibilizar escrito e imagem como possibilidades iguais de acesso a uma verdade, antes concebidas apenas pelo caminho do escrito, lugar da verdade? De fato a progressiva substituição de uma religião do pai por uma religião do filho, com a conseqüente valorização de sua realidade carnal, de sua experiência no mundo dos homens, acompanhou o progressivo processo de valorização das imagens e da sensorialidade que a ela correspondia.

Segundo Facundo Tomás24, uma mudança na forma de valorização das imagens, e no seu significado para a cultura ocidental, representou, a partir dos séculos III e IV, especialmente após o cristianismo ter se tornado uma religião oficial, a assimilação de aspectos significativos da cultura do império romano e dos diferentes povos que o integravam, aspectos que valorizavam sobremaneira a dimensão imagética, conformando o que o autor denomina "uma cultura icônica romana". Segundo ainda o mesmo autor, a força desta sensorialidade icônica teria sido fundamental para que o cristianismo pudesse sintetizar a história e, no mesmo movimento, afirmar-se com um projeto universal. O papel das imagens, anteriormente percebidas exclusivamente como fonte do erro e do pecado, passam a ser vistas como impulsionadoras da recordação e, por esse caminho, poderiam estimular o pensar e o aproximar-se das forças incorpóreas, mais próximas à verdade da fé cristã. Ao inventarem-se imagens que teriam por função recordar a existência de um divino e de um sagrado, estimulava-se o intelecto a se aproximar destas forças incorpóreas e invisíveis ao homem, agindo a imagem, portanto, numa dupla chave: a da recordação de um mundo invisível e a da ligação entre esses dois mundos. Quanto destas heranças não poderíamos perceber nas diferentes formas de visualização do passado que as sociedades modernas irão produzir para sua relação com este invisível, assim tornado pela passagem do tempo? Facundo Tomás sublinha, contudo, que este não foi um caminho desprovido de tensões e disputas, uma vez que a alta hierarquia da Igreja continuava mantendo um discurso antiimagético e bastante reticente quanto ao valor e significado das imagens para a vida religiosa, quando na verdade seus fiéis imergiam num mundo das representações imagéticas para representação de sua religiosidade. Educados na religião do filho feito carne para salvar os homens, essa massa de fiéis necessitava "contemplar a Deus com seus olhos, senti-lo próximo e tangível, adorar algo mais perto do que o espírito paterno imaterial sobre o qual se podia pensar com o intelecto mas não captar com os sentidos"25. O lento caminho que tornava as imagens valorizadas pela cultura cristã impunha, contudo, restrições evidentes, sobretudo quanto à interpretação de seus significados, submetidos a uma lógica rigorosa que impedia qualquer possibilidade de ambigüidade com relação ao sentido.

Recuperada em sua dignidade, a imagem, ao lado do escrito, assume diferentes significados na cultura moderna como possibilidade de visualização do passado, como forma de oferecer à visão o invisível do passado.



Produzir o passado como visibilidade: Cultura antiquária e colecionismo
Os objetos para darem recreação à vista estão todos lá: livros,
ânforas, tinteiros, esferas armilares, relógio, gaiola de papagaio,
espelhos abertos, instrumentos musicais.
Adalgisa Lugli26




Duas características centrais da cultura colecionista, do amadorismo, estão presentes na citação: em primeiro lugar, a diversidade de objetos que compõem a coleção, que pode reunir objetos do mundo natural como igualmente objetos do passado, documentos, moedas, livros: quer as naturalia quer as artificialia. Um certo sentido universalista parece marcar a atitude colecionista. Em segundo lugar, os objetos expostos à visão devem provocar recreio, satisfação, inscrevendo-se num projeto bastante peculiar em que a coleção é parte do tempo ocioso, ligada às atividades de repouso e meditação, com fortes traços da herança monástica. Como compreender a visibilidade inscrita nesse projeto colecionista, que transforma os objetos em semióforos, segundo a sugestão de Pomian, capazes de articular o aqui e o além? Essa visibilidade só pode ser compreendida se levarmos em conta não apenas o que significa ver nesta cultura, como também os lugares responsáveis por esta visibilidade. Sendo igualmente um sistema que dispõe objetos à visão de um espectador em forma de escrita do passado, os procedimentos antiquários e colecionistas acabaram por se transformar em sinônimos de uma atitude desprovida de sentido e finalidade, lidos pela chave interpretativa da filosofia da história, que condenou tais práticas. Segundo a clássica definição de Pomian uma coleção como "qualquer conjunto de objetos naturais ou artificiais, mantidos temporária ou definitivamente fora do circuito das atividades econômicas, sujeitos a uma proteção especial num local fechado preparado para este fim, e expostos ao olhar do público"27, traz consigo explicitamente a centralidade da exposição ao olhar. Dispostos segundo uma gramática, os objetos assim reunidos estão ali para serem vistos e viabilizam uma relação entre o visível e o invisível, seja esse concebido temporal ou espacialmente. A coleção, na forma como praticada pelas sociedades modernas a partir dos séculos XVI-XVII, materializaria o passado, tornando-o visível, tangível e, por isso, presente aos observadores contemporâneos. A obra de Walter Scott, O Antiquário, publicada em 1816, constitui-se numa oportunidade de entrarmos no universo da cultura antiquária, ainda que, em seu texto, o autor traduza a chave interpretativa que acaba por desqualificar a forma específica de relação com o passado embutida nesta proposta. O escritor, celebrizado por novelas como Invanhoé, retomava na verdade um tema que, durante o século XIX, começa a ganhar popularidade entre os círculos letrados e cultos: o interesse pelo passado, agora não mais apenas o passado greco-romano, mas o passado mais próximo, o das sociedades européias. O passado nacional. A grandeza e a nobreza do passado, tidas como característica única e exclusiva da Grécia e da Roma clássicas, passam a ser possíveis também para as sociedades existentes antes da conquista romana, incentivando um movimento de interesse pelo conhecimento e preservação das chamadas "antiguidades nacionais"28. Especialmente nos países anglo-saxões, esta valorização de um passado pré-romano incentivara não só um interesse pela história como, sobretudo, pela arqueologia, e pela preservação dos restos desse passado distante e sem referência nos textos clássicos. Em países como a Inglaterra e a Dinamarca, este interesse está na raiz de políticas estatais visando à preservação, à pesquisa e à difusão dos conhecimentos sobre tal passado. Ao escrever sobre ela, Walter Scott estava familiarizado com esta tradição, encarnada na figura de seu personagem principal: os temas – assim como as questões que integram o debate interno próprio ao saber antiquário – vão aparecendo ao longo do texto scottiano. Quando, ao longo do sexto capítulo, apresenta uma discussão entre dois personagens acerca da origem gótica ou celta para o nome de uma população, a argumentação em defesa de uma ou de outra postura recorre aos postulados da cartografia histórica, formulados por William Camden, segundo os quais o estudo lingüístico da toponímia poderia contribuir para distinguir as diferentes origens históricas das regiões em estudo, considerando especialmente seu povoamento e ocupação. Camden era autor de uma obra que conhecera enorme sucesso de publicação, intitulada Britannia, em que realiza descrição histórica e geográfica das ilhas britânicas. Publicado em 1586, seu livro terá seis edições em latim e, em inglês, uma primeira edição no ano de 1610, reimpressa em 1637. Ao longo do século XVIII, o trabalho de Camden é reeditado inúmeras vezes, com uma reimpressão no começo do século XIX, vindo a constituir-se em obra de referência para os estudos antiquários. Cada um dos personagens do romance scottiano invoca, assim, a autoridade de um especialista em antiguidades para sustentar sua hipótese29.

O romance de Walter Scott aparece, portanto, num momento inicial de valorização das "antiguidades nacionais", cujo emblema maior ainda é a figura do antiquário. Ao longo do século XVIII, as descobertas arqueológicas do passado romano da Inglaterra iriam estimular o interesse antiquário, presente já nas coleções de moedas de Oxford e de outros colleges desde o século XVI. Progressivamente, ao longo das décadas seguintes, esse interesse crescerá, procurando dotar a pesquisa arqueológica de procedimentos científicos os mais atualizados. Neste sentido, a viagem de Worsaae (figura que viria a constituir-se em personagem central da arqueologia européia no século XIX), durante nove meses dos anos de 1846-1847 pela Inglaterra, Escócia e Irlanda, tinha como finalidade provocar um interesse maior pelas antiguidades nacionais inglesas, de forma a constituir espaços especializados e adequados para sua conservação e exposição. A divulgação da teoria das três idades – pedra, bronze e ferro – entre as sociedades de letrados das ilhas britânicas propunha, para o estudo das antiguidades nacionais inglesas, uma cronologia que se assemelhava àquela estabelecida para o caso dinamarquês30.

Esta cultura antiquária revela-se como uma cultura do objeto, uma valorização por excelência dos procedimentos da autópsia, com a conseqüente valorização da visão em detrimento do escrito. Trata-se, na verdade, da disputa entre procedimentos que ainda têm na escrita a fonte para o conhecimento dos objetos dispostos ao olhar e aqueles que buscam uma autonomia do objeto em relação ao escrito. Esta disputa pode ser exemplificada pelas concepções de Caylus (1692-1765) e Johann Joachim Winckelmann (1717-1768), respectivamente. Enquanto o primeiro procura uma absoluta autonomia do objeto em relação ao texto, o segundo, ainda que também valorizando o objeto e a visão como procedimento fundamental para o conhecimento, busca fundar uma hermenêutica da visão que ainda obedece às mesmas regras aplicáveis ao texto escrito31. Caylus, membro da alta nobreza, e bem relacionado com os antiquários de sua época, foi crítico sistemático dos procedimentos interpretativos originados da tradição filológica, advogando uma prioridade do objeto sobre o texto, acreditando que uma parte da história desses objetos deveria ser buscada neles próprios, desde que fossem deixados falar de maneira adequada32. Segundo a análise de Elisabeth Découltot, a hermenêutica do antiquário é ainda aquela do filólogo. Somente no século XIX se operaria a ruptura radical com a tradição filológica que marcara o trabalho daqueles envolvidos com o conhecimento dos objetos do passado.

Contudo, a imagem desse homem interessado pelo passado e pela coleção de seus restos materiais (que nos chega pela mão de Scott) reproduz de certa maneira um estereótipo que, desde o século anterior, vinha se configurando em relação a este "amante das coisas do passado": erudito desprovido de um sentido mais contemporâneo para sua atividade colecionista, alheio às questões centrais de seu tempo e devotando ao passado um culto religioso, sacralizando os seus objetos pelo próprio fato de trazerem inscritas "em si" as marcas de um tempo passado e distante, como que um signo suficiente para o seu valor. No terceiro capítulo de seu romance, ao descrever a visita do jovem Mr. Lovel ao antiquário Jonathan Oldbuck, o personagem principal, ao conduzir o jovem visitante em direção a sua coleção de antiguidades, refere-se ao lugar como sanctum sanctorum e à sua vida como a de um cenobita em meio àqueles restos e provas materiais da existência do passado33. Após uma caminhada por aquilo que o autor nos faz parecer um verdadeiro labirinto, pouco iluminado e guardando perigos a cada passo, chegam finalmente à sala onde Mr. Oldbuck guarda suas relíquias do passado e as descortina para um jovem Mr. Lovel, um tanto perplexo pelo desarranjo dos objetos misturados a documentos e papéis diversos, impressionado pelas explicações fornecidas pelo antiquário para os objetos que tinha diante dos olhos, explanações fundamentadas a partir de referências a documentos históricos cujos autores desconhecia por completo.

A large old-fashioned oaken table was covered with a profusion of papers, parchments, books and nondescript trinkets and gewgaws, which seemed to have little to recommend them, besides rust and the antiquity which it indicates. In the midst of this wreck of ancient books and utensils, with a gravity equal to Marius among the ruins of Carthage sat a large black cat, which, to a superstitious eye, might have presented the genius loci, or tutelar daemon of the apartment. The floor, as well as the table and chairs, was overflowed by the same mare magnum of miscellaneous trumpery, where it would have been as impossible to find any individual article wanted, as to put it to any use when discovered34.

A passagem de Scott reúne o conjunto de sinais que, desde o século XVIII, passam a ser associados à atividade do antiquário: falta de método na coleção dos objetos que guarda, amadorismo e, sobretudo, uma suposta falta de utilidade para um esforço colecionista desta ordem. Mesmo quando se conseguisse encontrar documentos ou objetos em meio à desordem da coleção antiquária, esses não teriam qualquer utilidade. O sentido desse esforço colecionista deve, segundo os cânones de um novo interesse pelo passado, ser capaz de tornar esse passado útil aos homens do presente a partir de uma pragmática que visa à ação. Olhar o passado e interessar-se por ele sem o sentido do presente parece significar a atividade do diletante, daquele que tem na atividade intelectual apenas o remédio para o ócio. Certamente não foi sempre esta a imagem dos antiquários e de sua atividade de colecionadores, sendo seu interesse pelo passado considerado tão legítimo quanto o conhecimento histórico balizado a partir de novos referenciais, como o que praticamos hoje. Quando e porque esta imagem se altera e que elementos estão em jogo para legitimação de uma nova forma de interesse pelo passado, que necessariamente desautoriza a prática antiquária, são questões importantes de serem retomadas para compreendermos o complexo processo de constituição de uma escrita científica da história. Continuar apenas reafirmando a superação da tradição antiquária não significa compreender os mecanismos de incorporação da tradição, ou melhor, o jogo de constituição desta mesma tradição a partir dos critérios que definirão o que será ou não legítimo em termos de sua incorporação. Em outras palavras, importa sobretudo considerar as diferentes formas próprias de nossa cultura de incorporação e de sensibilização em relação às experiências do passado, ora tendendo a vê-las como tradição, ora percebendo este mesmo passado como história35. A menos que consideremos a história como uma evidência, expressão de uma natureza dos homens, igual à existência do passado registrado das mais diferentes formas, torna-se necessária a compreensão desse processo que transforma o passado e suas experiências mais diversas e distintas em um todo organizado e dotado de sentido que passamos a conhecer pelo nome de história. É preciso, portanto, romper com a démarche ingênua de que a existência pura e simples das experiências passadas é a garantia segura para a história como disciplina. Se a ocorrência dessas experiências humanas num tempo recuado é condição para que possa existir sua incorporação como história, passível, inclusive, de um conhecimento rigoroso e controlado, ela não é o certificado de evidência da história. Se, Antiquários e Historiadores modernos, temos no passado um espaço privilegiado para nossas reflexões, não se trata certamente de um mesmo passado, e nem mesmo de uma mesma forma de compreender as relações deste passado com o presente. São exatamente neste sentido as perguntas e interesses dirigidos ao passado, num esforço de interrogá-lo a partir de experiências históricas que fundarão a possibilidade da tradição, recortando deste passado as respostas "adequadas" para nossas perguntas. As antiguidades nacionais, valorizadas, como dissemos, a partir do começo do século XIX, sempre estiveram existindo em sua materialidade nos lugares onde pretensamente serão "descobertas" ao longo do oitocentos. Contudo não foram captadas como antiguidades senão quando um olhar modernamente constituído pode incorporá-las como parte da tradição e do passado dessas sociedades nacionais. Sem o exame deste olhar que capta o passado e seus restos e os constitui como Antiguidade, continuaremos prisioneiros de procedimentos canonizados a partir da institucionalização da história ao longo do século XIX, que procura afirmar a Antiguidade como um valor intrínseco aos objetos em si, mensurável e quantificável, fornecendo, com isso, a ilusão de uma objetividade do tempo decorrido. Prisioneiros desta mesma memória disciplinar, reafirmamos as demarcações e as rupturas que era necessário este procedimento disciplinar constituir para se afirmar como portador de um conhecimento legítimo sobre o passado, deixando de perceber não apenas certas continuidades, mas, sobretudo, o jogo de silenciamento e de escolhas a que se procedeu para que os antiquários fossem vistos como incapazes de conhecer verdadeiramente o passado. Com isto, queremos afirmar que a prática dos antiquários assim como a dos historiadores modernos constituem duas possibilidades distintas e diversas de acionar práticas tendentes a uma relação com o passado e que implicam em procedimentos e regras que envolvem não apenas a memorização como também a transmissão, dando origem a uma escritura que definirá o legítimo ou ilegítimo em relação ao conhecimento deste passado. O primeiro – o antiquário – torna o passado em presença materializada nos objetos que o circundam; o segundo – o historiador – torna o passado distante e objeto de uma reflexão científica, cognoscível apenas por este procedimento intelectual capaz de apreender este passado como processo, como um vir-a-ser do presente. Enquanto o olhar do antiquário parece aproximar o passado do presente, estabelecendo uma relação entre o visível e o invisível segundo determinados dispositivos, produz, para este mesmo passado, uma visibilidade segundo a qual não são os dispositivos de uma cronologia (por vezes associada a uma rígida relação de causação) que estabelecem os nexos entre o que se pode ver e aquilo que se torna, pelas mesmas razões, invisível.



A visibilidade do passado pela disciplina histórica oitocentista

Tornou-se consenso que os fundamentos disciplinares da história, concebida como projeto científico, foram lançados pelo trabalho de Ranke e pela clara definição e diferenciação entre fontes primárias e fontes secundárias. A base da escrita histórica estaria assentada no trabalho de pesquisa das primeiras, suporte da escrita do passado. E por fontes primárias entendia-se basicamente as fontes escritas, registro considerado prioritário para as tarefas da nova disciplina que buscava afirmar-se no espaço acadêmico prussiano da Universidade de Berlim. No entanto, também datam do final do século XVIII e começo do século XIX, especialmente na França pós-revolucionária, os esforços no sentido de organização do passado através de sua visibilidade nos museus. Nessas instituições – que são criadas como parte de uma política do Estado voltada para a administração do passado francês –, o visitante, informado por um conhecimento livresco, adquirido pela leitura dos textos sobre o passado, deveria encontrar conforto para seu conhecimento, uma vez que tais espaços seriam capazes de produzir para o visitante um efeito do real36. Os objetos, dispostos segundo um princípio historicista, assegurariam ao visitante a certeza do passado, possibilitando assim uma visibilidade do invisível e, sobretudo, a certeza de sua realidade passada. Mas não apenas objetos estariam sendo colecionados no museu oitocentista, e, sim, também lugares: uma vez que, arrancados de seus espaços primitivos, tais objetos poderiam evocar também seus lugares de origem, combinando, portanto, nessa operação de visualização, espaço e tempo. Numa certa medida é como se esta visualidade permitida pelos objetos dispostos engendrasse lembranças e recordações que ultrapassariam os limites da própria coleção reunida. Assim escrita e imagem articulam-se de forma peculiar na cultura histórica oitocentista, para conferir um novo sentido ao passado, agora pensado segundo as demandas de uma produção identitária específica ao século XIX. A imagem – nos espaços dos museus criados ao longo do século XIX na França – deveria não apenas ensinar, parecendo agregar o poder de ressuscitar o passado, despertando a história, segundo o relato de Michelet descrevendo sua visita ao Museu dos Monumentos Franceses, obra de Alexandre Lenoir37. Tornar os homens do passado novamente presentes ao olhar dos contemporâneos do século XIX era organizá-los segundo uma nova visibilidade: aquela que os transformava em grandes homens a serem lembrados no movimento de produção de uma identidade nacional francesa38. Ressuscitados pela lembrança, tornam-se os elos de uma cadeia que articula os homens do presente e do passado numa associação pela história, necessária à produção de uma identidade específica. Ao lado do Museu de Lenoir, outros projetos de exposição do passado são ativados por esta cultura histórica, como o Museu Napoleão, dirigido por Dominique Vivant-Denon entre os anos de 1802 e 1815 e instalado no Louvre; o Museu de História da França, na cidade de Versailles, criado em 1837; e o Museu de Cluny, organizado no ano de 1843 a partir da coleção de Alexandre du Sommerard. O museu de Versailles é o primeiro museu a se autodenominar de história e tinha por finalidade tratar de toda história da França, sendo por isso concebido, nas palavras de seus idealizadores, como "o encontro de nossa história nacional"39. A estas iniciativas localizadas na capital francesa, ou em suas proximidades, somaram-se outras nas diversas províncias voltadas para o recolhimento "dos arquivos dos tempos passados"40, sistematizando e organizando o interesse pelo passado próprio dessa cultura, enfim, dando visibilidade ao invisível do passado francês ameaçado pelo processo de transformações profundas sinalizadas pela revolução de 1789.

Um outro texto literário pode nos fornecer pistas interessantes e "boas para pensarmos" a relação entre a visibilidade das ruínas do passado e o entendimento do presente como resultado de uma cadeia histórica que articula eventos diversos no tempo. Esta visualização do passado encontra-se, como nos museus organizados pela cultura histórica do oitocentos, a serviço de um projeto em que o futuro parece informar o interesse pelo passado e difere, por isso, das formas de visualização do passado próprias à cultura antiquária. Aqui, uma finalidade especificamente histórica confere o sentido para as imagens expostas do passado, quer se tratando de uma instituição como os museus, quer se tratando de uma visita a uma cidade símbolo de uma viagem ao passado, como é o caso da cidade de Roma, cenário do romance de Mme. de Stäel a que faremos referência.

Ao entrar na cidade de Roma, Corinne, personagem título do livro de Madame de Staël, conduz o seu amado Oswald, lord Nelvil, pelas ruínas da cidade emblema do passado e de sua grandeza, itinerário obrigatório para a boa formação do letrado europeu das Luzes (e cidade também visitada pela autora do romance). A tensão dramática tem como cenário a própria história, presença visível através de seus restos materiais e constante indispensável para a cultura letrada do oitocentos, ela mesma se definindo como uma cultura histórica por excelência. Triunfo da história na sua capacidade de significar a vida dos homens, dando-lhes um sentido de continuidade para além do tempo presente de suas experiências finitas.

Je vous ai fait parcourir bien rapidement, dit Corinne à lord Nelvil, quelques traces de lhistoire antique; mais vous comprendrez le plaisir quon peut trouver dans ces recherches, à la fois savantes et poétiques, qui parlent à limagination comme à la pensée. Il y a dans Rome beaucoup dhommes distingués dont la seule occupation est de découvir un nouveau rapport entre lhistoire et les ruines. Je ne sais point détude qui captivât davantage mon intérêt, reprit lord Nelvil, si je me sentais assez de calme pour my livrer: ce genre dérudition est bien plus animé que celle qui sacquiert par les livres: on dirait que lon fait revivre ce quon découvre, et que le passé reparaît sous la poussière qui lensevelit41.

A história como parte central da cultura do oitocentos aparece agora, pelas palavras da personagem título do romance, não apenas como um conhecimento que pode evocar o prazer estético, da mesma ordem que o da poesia, mas com seu conhecimento pode advir um conhecimento savante, que satisfaça, ao mesmo tempo, à imaginação e ao pensamento, entendido como uma forma de conhecimento racional acerca das coisas do passado. Um conhecimento combinando, assim, o prazer estético e a démarche racional exigida pelos cânones da cultura iluminista. Agora o passado deve ser racionalmente apropriado e, para isso, o trabalho de pesquisa se faz necessário e indispensável, o que, ainda segundo a personagem do romance, tem estimulado o trabalho de um novo "homem cultivado": justamente aquele que se ocupa de estabelecer as relações entre os restos visíveis na cidade de Roma e o seu passado. Estes traços e marcas do passado não se prestam apenas ao gosto do amante erudito do passado, cioso da sua conservação, mas sobretudo ao olhar que, ao pousar sobre essas ruínas, busca estabelecer relações que transformem a experiência do passado em explicação para o presente das sociedades humanas. E, segundo o seu interlocutor, o nobre inglês Nelvil, esta seria uma profissão a que se dedicaria com prazer – ao invés de à carreira das armas a que sua condição de nobre o obrigava –, visto que a vê como uma forma de erudição superior à que se adquire pelos livros no sossego de sua biblioteca. Mas o que seria exatamente novo nesta forma de erudição? O conhecimento que se adquire pela pesquisa das coisas do passado, significando desta forma que pode haver o que se conhecer deste passado, superando uma perspectiva segundo a qual a erudição não alteraria substantivamente o conhecimento existente acerca do passado das sociedades humanas. Vitória definitiva dos modernos, que, ao derrotarem a erudição, transformam definitivamente o passado em história.

Segundo as palavras da protagonista do romance:

Les érudits qui soccupent seulement à recueillir une collection de noms quils appellent lhistoire sont sûrement dépourvus de toute imagination. Mais pénétrer dans le passé, interroger le coeur humain à travers les siècles, saisir un fait par un mot, et le caractère et les moeurs dune nation par un fait, enfin remonter jusques aux temps les plus reculés, pour tâcher de se figurer comment la terre, dans sa première jeunesse, apparaissait aux regards des hommes, et de quelle manière ils supportaient alors ce don de la vie que la civilisation a tant compliqué maintenant; cest un effort continuel de limagination, qui devine et découvre les plus beaux secrets que la réflexion et létude puissent nous révéler42.

Prosseguindo seu percurso pela cidade de Roma e pela visita de seus monumentos históricos, um outro sentido central da cultura histórica do oitocentos delineia-se com clareza para os homens do presente: ao defrontarem-se com a história dos homens do passado, poderiam aprender pelo exemplo, a história readquirindo assim o seu papel magistral. O mesmo papel, aliás, conferido pelos próprios romanos às experiências passadas dignas de lembrança, como forma de emulação para as novas gerações.

Vous le savez, mylord, loin que chez les anciens laspect des tombeaux décourageât les vivants, on croyait inspirer une émulation nouvelle en plaçant ces tombeuax sur les routes publiques, afin que retraçant aux jeunes gens le souvenir des hommes illustres, ils invitassent silencieusement à les imiter43.

Finalmente, a contemplação de Roma e de seu passado poderia estar a serviço de outro importante componente da cultura histórica das Luzes européia: desde os etruscos (agora já integrados à história de Roma) até o presente, o estudioso do passado poderia acompanhar a evolução do "espírito humano" através de suas realizações materializadas naquela cidade. Portanto, contemplar o passado adquire um sentido preciso. O de poder constatar e mesmo provar esta evolução que, para além de marcar as particularidades da sociedade romana, seria o sentido mesmo de os homens estarem no mundo, cabendo assim à história o papel de fundamentar esse sentido. Nas palavras da personagem principal, Roma como cidade não é apenas uma aglomeração de habitações, mas é sobretudo "lhistoire du monde, figurée par divers emblèmes, et représentée sous diverses formes"44. Visitar Roma era, assim, para os cânones desta cultura iluminista, muito mais do que visitar uma cidade, era a própria possibilidade de acesso à história dos homens materializada de forma privilegiada no espaço da cidade. A visão do passado, mais do que a própria leitura dos textos, confere um novo poder de convencimento e persuasão para esta cultura iluminista, contribuindo para que o estudo desse passado adquira um novo valor e significado:

Cest en vain que lon se fie à la lecture de lhistoire pour comprendre lesprit des peuples; ce que lon voit excite en nous bien plus didées que ce quon lit, et les objets extérieurs causent une émotion forte, qui donne à létude du passé lintérêt et la vie quon trouve dans lobservation des hommes et des faits contemporains45.

Na verdade, a partir da cultura das Luzes, o interesse renovado pela cidade de Roma inscreve-se numa tradição da cultura humanista que, desde o Renascimento, sublinhava o papel central da cidade para a história dos homens. Isto por duas razões, segundo a análise de Alain Schnapp: em primeiro lugar, pelo papel privilegiado da cidade quanto à existência de manuscritos gregos e latinos e, em seguida, pela possibilidade evidente de descobrir na paisagem mesma da cidade a presença material da Antiguidade46.

Aproximar os homens do passado do presente pela via da história e da sua visualização, eis a definição deste projeto historiográfico próprio da cultura das Luzes e cujos desdobramentos e heranças para nossa concepção de História são evidentes.

A vitória desta cultura histórica – que busca conferir ao interesse erudito pelas coisas passadas um sentido presente no esforço de reflexão sobre o passado – viabilizou a criação de diferentes formas institucionais capazes de pôr em marcha o projeto de uma história que, ao mesmo tempo, apropriava-se da tradição e dos métodos da pesquisa erudita, buscando agora submetê-los às exigências de uma cultura histórica modificada. Muitas das vezes este processo complexo de reelaboração intelectual de diversas heranças ficou submetido ao sentido vitorioso de uma história acadêmica, que, ao refletir sobre sua própria trajetória, tendeu a ver o passado como a lenta e progressiva caminhada da história em direção à sua cientifização, evidentemente percebida como a forma mais organizada, racional – e portanto verdadeira – de acesso e conhecimento do passado. Neste sentido, a herança antiquária foi muitas vezes desconsiderada, quando não, percebida como uma forma primária do conhecimento histórico, definitivamente superada pela sua cientifização na primeira metade do século XIX. E este processo de cientifização submete a visão às fontes textuais, mesmo naqueles projetos de visualização do passado como o pretendido pela pintura histórica, que assentava a produção de imagens à pesquisa e ao conhecimento das fontes escritas. As imagens são lidas como fontes, tradição que acabou por encontrar uma larga aceitação entre os historiadores, sobretudo a partir do século XX.



Voltando ao começo para concluir

Ver o passado, em nossa contemporaneidade e segundo a relação particular que as sociedades atuais vêm estabelecendo com o tempo, implica em repensar igualmente o lugar e as condições de produção das diferentes narrativas acerca do passado. A imagem virtual, rompendo definitivamente com a idéia de um referente, de um suporte, implica em repensar os diferentes sentidos que puderam ser produzidos para a imagem e sua relação com o texto e com a possibilidade de visualização de um invisível. No caso das visualizações do passado, um invisível, que, no entanto, já teve a visibilidade da existência efetiva. Mas, como lidar com a nova experiência sensorial permitida pelos meios eletrônicos e virtuais, quando entram nos espaços consagrados à história e ao passado, permitindo a simulação de uma interação com o passado, um transporte para uma outra época? Correríamos nós o risco de perder a profundidade histórica, tornando essa ida ao passado um mero jogo de consolo para um presente experimentado como pouco atraente? A história e o ocupar-se com ela estariam, então, a serviço não de uma inspiração para a ação, para a recriação do mundo humano, mas tão-somente para o reencontrar-se no passado, reafirmando uma identidade do presente, que parece não querer passar? Como nos ensina Italo Calvino em suas reflexões para o milênio em que já entramos, as respostas para essas perguntas só as teremos fazendo e pensando sobre a história a partir da certeza que nos é possível: a de que pensar sobre o passado, imaginá-lo, e por isso poder conhecê-lo, trazendo à visão o invisível, comportou inúmeras possibilidades com diferentes formas. Vê-lo e escrevê-lo, para nós e para os que virão, talvez nos ajude a ver e escrever o nosso presente.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142007000200002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material

Relíquias sagradas e a construção do território cristão na Idade Moderna

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Relíquias sagradas e a construção do território cristão na Idade Moderna

Renato Cymbalista


Arquiteto e Urbanista, Mestre e Doutor pela FAUUSP, pesquisador do Instituto Pólis (São Paulo), professor de História da Cidade da Faculdade de Arquitetura Escola da Cidade (São Paulo). Este texto integra a pesquisa de doutorado "Sangue, ossos e terras: os mortos e a ocupação do território luso-brasileiro, séculos XVI e XVII", desenvolvido na FAU/USP entre 2002 e 2006 com apoio de bolsas de pesquisa da Cátedra Jaime Cortesão-Instituto Camões e da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP. E-mail: <renato@polis.org.br>

Do ponto de vista técnico, a ocupação física de um território préexistente tratava-se de processo relativamente simples para os europeus do início da Idade Moderna, há séculos acostumados a construir cidades e reinos. Por outro lado, sob o aspecto da religiosidade vigente, essa ocupação desdobrava-se em uma série de desafios bastante mais complexos: o reconhecimento desse território na memória e na história cristã, sua inserção em uma perspectiva de futuro alinhada com a escatologia cristã, a criação de mecanismos de tradução dos significados religiosos da ocupação do território junto aos habitantes nativos, a promoção de uma coesão social em torno desses significados, a oferta das relações territoriais relacionadas aos serviços religiosos e à salvação das almas para a população vinda da metrópole, além, é claro, do traslado de atores sociais capazes de promover essa sofisticada "conversão territorial". Não devemos nos esquecer de que, pelo menos até meados do século XVII, os parâmetros da espiritualidade exerceram influência decisiva na construção do mundo e da realidade dos cristãos.

Este texto investiga um elemento estratégico para promover essa cristianização do território da América Portuguesa: as relíquias sagradas, restos físicos dos santos, principalmente seus ossos, mas também outros artefatos com os quais os santos tiveram contato. Os atributos simultâneos de sacralidade e mobilidade da maior parte das relíquias, sua condição de repositório portátil da história e da memória católicas, deram a esses artefatos uma posição altamente privilegiada como agentes da duplicação do território cristão na América.

Mas as relíquias sagradas na época colonial informam ainda mais do que isso: evidenciam aspectos do conflito religioso entre católicos e protestantes, que também aconteceu na América, e, sobretudo, constituíram objetos em torno dos quais missionários e índios estabeleceram um campo de traduções e interlocuções, levando adiante, nas vertentes católica e ameríndia, o difícil trabalho de reconhecimento e apropriação do outro.



A veneração às relíquias
A religião católica, fundada por uma narrativa de martírio e morte, desenvolveu uma relação bastante peculiar com os corpos dos seus santos. Os túmulos dos mártires foram os primeiros locais de culto dos cristãos, locais de contato entre o universo cotidiano e o sagrado, e o mundo dos vivos e o dos mortos, estruturando a própria noção de espaço público da cristandade (GEARY, 1978; BROWN, 1981; ANGENENDT, 1997). No entanto, a partir do final da Antiguidade e com o crescimento territorial do universo cristão, colocava-se um grande desafio: como articular os túmulos dos santos com a questão da consagração do território, à medida que, já nos primeiros séculos, o Cristianismo expandia-se rumo a locais onde não houve perseguições e martírios? Ampliava-se o número de locaisde culto.Eram fundadas pequenas comunidades por toda a Europa, norte da África e Ásia Menor, locais desejosos de mártires para integrar-se efetivamente ao universo cristão. De alguma forma era necessário o atributo da mobilidade dos corpos sagrados (BROWN, 1999, p. 11-12).

Para dar conta desse desafio, a religião cristã produziu uma engenhosa resposta, que permitia a expansão territorial do culto cristão e, ao mesmo tempo, não abria mão do culto aos restos de seus mártires. Não jazia unicamente no território o caráter divino, que aproximava céu e terra no local de sepultamento dos santos e mártires, mas também no próprio corpo do santo, já que era ele o artefato que consagrava o território como porta divina. E uma das formas de consagrar novos territórios para a fé cristã podia justamente acontecer por meio da extração dos restos dos santos - ou, alternativamente, dos instrumentos de seu martírio - de seus locais de sepultamento e seu transporte a novos locais de culto.

A possibilidade de transporte do corpo do mártir dava respostas também de caráter intra-urbano. A maior parte das sepulturas dos mártires do início da era cristã situava-se no exterior das muralhas das cidades, ou na periferia destas. A partir do fim da Antiguidade, seus corpos começaram a ser instalados no interior das cidades, reforçando assim, onde necessário, o poder dos bispos instalados nas catedrais, que em geral se situavam no centro geográfico das cidades (MARKUS, 1990, p. 139-155).

Além de dar uma resposta aos desafios da expansão do culto cristão e dos arranjos da geografia intra-urbana do poder, a possibilidade de manejo dos restos de santos também permitia soluções a situações críticas em que os cristãos eram expulsos deseus territórios por infiéis, o que durante séculos ocorreu largamente no Norte da África, Ásia Menor, Leste da Europa e Península Ibérica: os cristãos podiam levar seus santos consigo, ou escondê-los até que alguém o fizesse. Desta forma, a cristandade pôde desenvolver novos e importantes centros de fé e poder, distantes dos locais onde os martírios dos santos haviam acontecido.

Como a integralidade do santo estava presente em suas partes, mesmo nas menores, seus corpos podiam ser fragmentados e distribuídos por onde sua presença era demandada. A capacidade de multiplicar-se e fazer-se presente em todos os lugares aonde suas relíquias fossem levadas era, aliás, uma das grandes provas dos poderes dos santos1. Estavam inventadas as relíquias sagradas: corpos dos mártires e santos - normalmente seus ossos, mas também cabelos, unhas, sangue, lágrimas -, ou os objetos por meio dos quais foram martirizados: cruzes, pregos, lanças, setas, correntes. Até alguns poucos séculos atrás, não havia dúvidas de que o santo em si estava presente na relíquia, por menor que fosse (GEARY, 1994, p. 194).

O culto às relíquias atravessou toda a Idade Média como elemento estruturador do território das cidades cristãs. Durante todo esse período, foi impensável a existência de uma cidade, igreja ou até mesmo altar sem uma relíquia. As relíquias mais importantes eram os restos físicos dos santos, seus ossos, cabelos, lágrimas ou sangue, e, destas, as mais antigas eram, em geral, mais preciosas. Eram também considerados relíquias os instrumentos de martírio dos santos, a começar pelo próprio Santo Lenho - fragmentos da cruz de Cristo - além de espinhos, correntes, flechas, setas. Serviam também as chamadas relíquias de contato, artefatos que tiveram contato com os santos: pedaços de roupas, terra de sepulturas, lenços que estiveram em contato com as relíquias orgânicas.

O poder das relíquias não se resumia a uma expectativa de futuro, pois durante toda a Idade Média estiveram cercadas de acontecimentos maravilhosos: tinham poderes de proteção e cura, que justificavam romarias e peregrinações, emitiam perfumes, luzes e óleos milagrosos, ressuscitavam mortos, protegiam cidades inteiras. Em meados do século XV, após uma frustrada tentativa de acionar uma cruzada contra os turcos que, em 1453, haviam tomado Constantinopla e avançavam sobre os territórios cristãos, o papa Pio II distribuiu pedaços do crânio de santo André à multidão de Roma, para proteger o mundo cristão de seus inimigos (HIBBERT, 1985, p. 124). As relíquias eram também símbolo de riqueza, de prosperidade e de nobreza, e, no Ocidente, acompanharam, através dos séculos, os detentores das maiores fortunas e de prestígio.

Alguns dos corpos de santos permaneciam por séculos em estado incorrupto. Era o caso de várias relíquias: de santa Ágata, mantidas em vários relicários em Catânia; de são Romualdo, exumado em 1460 em Ancona; de santa Rosa de Viterbo, cujo corpo havia sobrevivido incólume a um incêndio que destruiu a igreja onde estava sepultada em 1357, na cidade de Pódio; do corpo de santa Esperandia, exposto noaltar-mórda igreja do convento beneditino de Cingoli (CRUZ, 1977, p. 47-86).

Foram muitos os casos de relíquias que percorreram grandes distâncias, dos locais onde os santos haviam morrido até suas novas comunidades adotivas, o que era tratado como expressão da vontade do próprio santo. Já no século I, o corpo de são Tiago aportou milagrosamente nas costas da Galícia em um barco sem leme, e, depois disso, orientou dois touros tidos como indomáveis até levá-los em um carro ao local onde foi construída uma igreja em sua homenagem, em Compostela (VARAZZE, 2003 [1293], p. 561-564). O corpo de são Marcos foi levado, por mercadores, de Alexandria a Veneza em 468, e, como prova de que estava indo de bom grado para sua nova moradia, danificou o navio onde viajava um incrédulo que duvidara ser aquele o corpo do santo. Evidentemente, se o santo não desejasse ser transportado, jamais teria permitido aos homens movê-lo de seu sepulcro original2. O corpo de santo Agostinho teve de deixar a Sardenha, que estava "despovoada pelos sarracenos", rumo a Pavia. Encontrando-se em Gênova, santo Agostinho recusou-se a partir até que obteve do rei a promessa de que, caso o santo se deixasse levar, construiria naquele lugar uma igreja em seu nome. O mesmo aconteceria no dia seguinte na cidade vizinha de Casal. Como o rei viu que esse procedimento agradava ao santo, ordenou que em todos os locais onde o santo pernoitasse se construísse uma igreja da mesma invocação (VARAZZE, 2003 [1293], p. 719-720).

As curas, as emanações maravilhosas, os traslados milagrosos, a incorruptibilidade eram as provas de que os santos estavam privando da companhia de Cristo, de que suas relíquias eram artefatos divinos que rompiam as barreiras do tempo e do espaço. Justamente por serem investidas de enormes poderes, as relíquias sagradas estiveram no centro das disputas religiosas na Europa no início da Idade Moderna.



O século XVI: repúdio e renovação do culto às relíquias na Europa
No início século XVI, as relíquias continuavam protegendo edifícios e cidades, promovendo curas milagrosas, sendo levadas em solenes procissões pelas ruas, sacralizando altares de igrejas por toda a Europa, em uma notável continuidade em relação ao papel que haviam desempenhado havia mais de mil anos no continente. Mas, em meados daquele século, essa situação tinha se transformado. O culto às relíquias foi fortemente repudiado pelos reformadores protestantes, que pregavam uma igreja invisível, rejeitando os objetos de mediação da relação entre os fiéis e Deus, indignados com a veneração de restos humanos. Trataram o culto como idolatria, mais ligada à magia e à superstição do que à fé cristã, e procederam destruições em grande escala de relíquias e imagens.

Lutero escandalizou-se com a gigantesca coleção, em Wittemberg, de mais de 17 mil relíquias do castelo de Frederico, o Sábio, príncipe posteriormente convertido ao luteranismo (DELUMEAU, 1989, p. 89). Em 1527, um exército antipapista, comandado por Carlos V, saqueou Roma, profanou túmulos e despojou cadáveres de suas jóias e vestimentas. Enquanto 500 homens eram massacrados sobre o túmulo de são Pedro, relíquias eram queimadas ou destruídas. Os invasores ridicularizaram as relíquias: a cabeça de santo André foi atirada no chão, a cabeça de são João chutada nas ruas como bola de futebol, um alemão desfilou pelas ruas portando a lança sagrada que flechou o torso de Cristo, o lenço sagrado de santa Verônica foi posto à venda em uma estalagem (HIBBERT, 1985, p. 158)3. Em 1562, os huguenotes franceses destruíram, em Tours, o corpo de são Martinho e, em Poitiers, o de santo Hilário, entre outros santos, "espalhando pelos campos as relíquias de uns e queimando as de outros" (CASTRO, 2001, p. 49). O mesmo destino teve o corpo de são Francisco de Paula (CRUZ, 1983, p. 249). O reinado de Henrique VIII, na Inglaterra (1509-1547), de ruptura com Roma, significou a destruição de inúmeros corpos de santos (CRUZ, 1977).

Os católicos também praticavam a destruição de relíquias de outras religiões. No século XVI, em um ato público, o arcebispo de Goa reduziu a pó um dente de Buda, pilando-o em um almofariz (BOXER, 2002 [ 1969], p. 89). Mas, evidentemente, a destruição sistemática de relíquias dos santos católicos era sinal de uma crise, ainda mais praticada por outros cristãos. A Igreja Católica reagiu às dissidências protestantes potencializando suas próprias reformas, com o intuito de retomar o controle sobre as partes da cristandadee adaptar a estrutura da Igreja aos desafios colocados pela nova situação política e espiritual por que passava o mundo cristão. A resposta mais sistematizada veio pelo Concílio de Trento, que, em relação às relíquias, emitiu uma sinalização dupla: por um lado, reforçou o poder milagroso dos corpos dos santos, reafirmando a sua presença física e integral mesmo nos menores fragmentos, e condenando aqueles que desafiavam esse poder. Agregava-se, aos significados já anteriormente atribuídos às relíquias, uma nova intensidade de militância. As regiões que tinham permanecido na fé católica continuavam venerando as relíquias em continuidade às antigas tradições, mas também como parte do efeito de demonstração da fé católica como a verdadeira portadora da tradição de Cristo e seus apóstolos, em contraponto às heresias protestantes.

Por outro lado, o culto às relíquias não ficou imune à moralização dos costumes e à centralização do poder, promovidos pelo Concílio de Trento em tantos aspectos da fé católica. Dali em diante, os bispos e outras autoridades tornaram-se os responsáveis pela certificação das relíquias e por promover o decoro no seu culto, representando uma centralização de poderes e aumento de suas responsabilidades pedagógicas. O movimento centralizador foi além disso: a própria autonomia dos bispos era circunscrita, pois o Concílio estabelece também que "nada de novo, e até o presente nunca usado se decrete, sem se consultar o Santíssimo Romano Pontífice"4.

Com a reiteração do poder das relíquias pelo Concílio de Trento, os católicos mostraram-se mais fervorosos do que nunca no seu culto. Inúmeros corpos encontrados em 1578, em uma catacumba na Via Salaria, em Roma, foram convenientemente tratados pelo papa como santos, o que exponenciou a disponibilidade de relíquias a serem distribuídas a partir de Roma segundo seus critérios (ANGENENDT, 1997, p. 250). Foi a primeira de mais de trinta catacumbas descobertas posteriormente na cidade (HSIA, 1998, p. 130). Na verdade, a descoberta dessas "minas de relíquias", veio bem a calhar para um Vaticano que, com a reforma de Trento, reiterava o poder das relíquias, mas, ao mesmo tempo, centralizava sua gestão, o que nem sempre foi bem recebido pelas partes do Império cristão5.

Em 1599, foi aberto o caixão de madeira onde o papa Pascoal I havia encerrado os restos de santa Cecília, para que fossem transportados do cemitério de Calixtus à basílica erigida em sua memória em Trastevere. Para assombro dos presentes, o corpo estava intacto, como se a santa estivesse dormindo desde o dia de sua morte, repousando sobre o seu lado direito, com os joelhos levemente dobrados. O papa foi chamado para contemplar o milagre do corpo incorrupto, e ordenou que a santa permanecesse intocada. O escultor Stefano Maderna foi comissionado para perpetuara imagem em uma conhecida escultura (MALE, 1949, p. 177).

Era nesse contexto de reiteração militante do poder das relíquias e de centralização da sua gestão que a Europa católica se encontrava na segunda metade do século XVI, quando intensificaram-se as iniciativas de ocupação do território da América pelos portugueses. Veremos, a seguir, que naquele período, as relíquias foram elemento estratégico para o redimensionamento do corpo da cristandade, abrangendo a nova escala territorial e, assim, viabilizando a inserção das regiões recém-descobertas na narrativa cristã. Isso será feito a partir de três chaves de leitura: as descobertas de relíquias, elementos de conexão dos tempos modernos com o início da era cristã; os traslados de relíquias, procedimentos de transplante da memória sagrada; e a produção de novas relíquias, que revela a capacidade de criação permanente da sacralidade É importante percebermos que esses três procedimentos não eram exclusivos da América; estavam acontecendo naquele período também na Europa, reforçando a idéia de que o esforço de ocupação territorial do início da Idade Moderna foi um movimento marcado pela busca do reconhecimento daquilo que já era conhecido pelos cristãos.



Descobertas de relíquias na reconquista da Península Ibérica
Ainda que Hespanha fosse destruída pela entrada dos Godos,
e depois assolada pela invasão dos mouros, sempre as relíquias,
que ficaram de alguns cristãos, conservaram a imemorial tradição
de vir o corpo do nosso santo a este reino, e nele ser sepultado
no seu famoso templo.

Estevão de Lis, 17466.

O trecho acima faz parte de um tipo de obra bastante recorrente na Península Ibérica nos séculos XVI e XVII: os relatos das vidas de santos patronos de uma cidade específica, em iniciativas locais de exaltação do papel de seu próprio território no corpo da cristandade. Evidentemente, os santos eram seres muito especiais, e suas biografias não se encerravam com a morte; pelo contrário, a passagem iniciava uma nova etapa em sua trajetória: a documentação dos milagres operados por suas relíquias, eventuais traslados de seus corpos, sempre acompanhados de sinais milagrosos, provas, enfim, de sua condição de santos. O contexto específico da Península Ibérica trouxe muitas vezes um período de latência das relíquias de santos durante a ocupação árabe, quando estiveram escondidas ou desaparecidas. A descoberta milagrosa de suas relíquias acontecia durante ou após a reconquista cristã do território, em uma clara construção simbólica que reconectava as terras recém-reconquistadas ao corpo total da cristandade.

Em Portugal, eram permanentemente reatualizadas as narrativas de descoberta de corpos sagrados após a reconquista do reino aos mouros no século XII. Episódio espetacular foi o de são Vicente, encontrado no chamado "Promontório Sacro" (depois Cabo de São Vicente), o ponto mais ocidental do reino, pelo primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, em 1173, e levado a Lisboa. A memória coletiva construída em torno dessa descoberta evocava o próprio nascimento do reino português, centralizado em sua capital: o corpo de são Vicente já havia sido procurado por D. Afonso Henriques assim que se autoproclamara rei de Portugal mais de 30 anos antes, sem sucesso. A crença generalizada atribuiu esse fracasso ao fato de a cidade de Lisboa, predestinada a ser a morada definitiva do santo, encontrar-se ainda corrompida pelo domínio dos árabes. São Vicente assumiu, então, a dupla função de patrono de Portugal e da cidade de Lisboa, que progressivamente assumiria suas funções de capitalidade no reino7.

Os livros reatualizavam também a descoberta de corpos de outros santos, como santa Iria, padroeira de Santarém, cujo corpo havia ficado escondido sob as águas do Tejo durante a ocupação moura, para, depois da libertação, reaparecer milagrosamente, incorrupto e ainda vertendo sangue, em uma baixa das águas do rio. O clero de Santarém tentou sem sucesso remover o corpo para a terra firme, e o rio voltou a cobrir para sempre o corpo da santa, permitindo ser visto apenas uma vez por outra santa, a rainha santa Isabel, no século XIV (BERREIRA, 1618).

Além das narrativas reiteradoras da memória coletiva, no final do século XVI e início do XVII aconteceram vários episódios de descoberta de relíquias na Península Ibérica, principalmente no sul da Espanha, território mais recentemente reconquistado dos árabes. A presença de relíquias sagradas provocava peregrinações e esmolas, enriquecia as igrejas e as cidades, construía centralidades e focos de poder. Por isso mesmo, essas descobertas revelam vários aspectos das tensões e negociações entre o poder central do Vaticano e a busca pela afirmação dos poderes locais a partir dos bispos e arcebispos, a partir da nova hierarquia estabelecida pelo Concílio de Trento.

Em 1575, durante obras na Igreja de São Pedro em Córdoba, foram encontradas muitas relíquias que os cristãos haviam escondido dos árabes havia cinco séculos, acompanhadas de uma lápide com os nomes dos santos ali presentes. O bispo de Córdoba declarou autênticas as relíquias em 1577, mas advertiu "que não se reverenciem, nem adorem por relíquias de santos, até que sua Santidade dê licença para isso". Os autos do processo de qualificação das relíquias foram enviados a Roma, e o papa Gregório XIII legitimou as relíquias por um breve (uma das modalidades de comunicado oficial do papa) publicado em 1581, que concedia perdão aos pecados até mesmo daqueles que visitassem as relíquias nos aniversários da descoberta. O breve colocou ainda a conveniência de se realizar a qualificação das relíquias no nível regional, convocando-se um concílio provincial, instrumento também previsto no Concílio de Trento. Ao remetera definitiva qualificação das relíquias para o nível provincial, na verdade o papa estava se eximindo de tomar partido em uma disputa em torno das relíquias de um dos santos. No ano seguinte, o debate foi levado a uma reunião do concílio da província de Toledo, onde se inseria o bispado de Córdoba, na presença das maiores autoridades eclesiásticas da região (ROA, 1615). Naquele momento, eclodiu a disputa: os clérigos de um convento que sustentava possuir o corpo de são Ascisclo, um dos mártires cujos nomes estava escrito na lápide encontrada na Igreja, não queriam abrir mão de seu tesouro8.

Em outros episódios de descoberta de relíquias, Roma interferiu bem mais nos assuntos locais. O papa Sisto V praticamente induziu o achado das relíquias de são Torpes, na cidade portuguesa de Sines, no final do século XVI, emitindo uma bula ao arcebispo de Évora para que "se mandassem fazer as possíveis diligências por descobrir os ossos do glorioso Mártir". O "cheque em branco" dado pelo papa, para que se encontrassem os ossos de são Torpes, foi uma prova do poder do arcebispado local, e talvez nunca venhamos a descobrir as razões políticas dessa operação9.

Nem sempre o papa estimulou o achado de relíquias, o que mostra que não via necessariamente com bons olhos o surgimento de novas centralidades de devoção. Em 1628, foram encontradas relíquias sagradas no povoado de Arjona, no bispado deJaen; e, em seguida, o bispo enviou um memorial dos acontecidos ao papa, solicitando a autorização do culto aos mártires encontrados. Roma respondeu com um longo silêncio até que, em 1639, o bispo encomendou a um teólogo um memorial para encaminhara questão no nível local. Na ausência de uma resposta vinda de cima, este memorial busca - na história, nas hagiografias e martirológios tradicionais - a fundamentação para o culto às relíquias encontradas em Arjona, em um interessante artifício para contornar o silêncio papal10.

Um dos mais conflitivos episódios de descoberta de relíquias teve início em Granada. Em 1588, em uma torre que estava sendo demolida para a construção da catedral da cidade, foi encontrada uma caixa de chumbo recoberta de betume, que continha, em seu interior, um osso de santo Estevão, um dos primeiros mártires, morto em Jerusalém, cujas relíquias logo teriam sido transferidas à Espanha (D'AVILA, 1611, p. 286), além de outras relíquias sagradas. Alguns anos depois, foi encontrada grande quantidade de relíquias em grutas no chamado Sacro Monte, nas imediações da cidade, entre as quais os restos de são Cecílio, primeiro bispo da cidade, e são Hiscio, primeiro bispo de Tarifa. Tratava-se de um grande tesouro, pois as relíquias quanto mais antigas, mais valiosas eram, e estas datavam do século I. As relíquias dos mártires de Granada foram autenticadas, mas alguns livros feitos de folhas de chumbo, encontrados no mesmo Sacro Monte, também considerados como relíquias pelos locais, não tiveram o mesmo destino: foram solicitados por Roma para averiguações, declarados heréticos e, a despeito de constantes pedidos, não foram mais devolvidos a Granada. A cidade produziu extensa literatura procurando fundamentar a legitimidade das relíquias até o século XVIII, em um claro embate com o poder centralizador de Roma. O centro editor dessa literatura foi, em grande medida, uma abadia beneditina edificada no próprio Sacro Monte, onde as relíquias haviam sido encontradas (Figura 1)11.



A descoberta de relíquias em um determinado local significava um grande aumento no número de peregrinos, esmolas e doações, significando o crescimento da importância e da autonomia de um bispo ou arcebispo. Percebemos, assim, porque Roma exercia tão seletivamente o poder de legitimação das relíquias que lhe fora dado pelo Concílio de Trento, revelando aspectos das tensões entre o Vaticano e os bispos. Também entendemos as razões dos lamentos e expectativas das cidades que não eram agraciadas com a descoberta de relíquias12.

Embora os embates institucionais sejam evidentes nesses episódios, é um erro tratarmos a descoberta de relíquias do início da Idade Moderna como simples tema de política que envolvia bispos, arcebispos, papas e reis. Tais descobertas apoiavam-se em uma profunda crença no poder das relíquias, compartilhada por todos os grupos da sociedade. A descoberta das relíquias acontecia via de regra em locais já tidos anteriormente como sagrados13. Os sinais divinos, principalmente luzes, intensificavam-se no período imediatamente anterior e posterior às descobertas14.

As relíquias continuavam efetivando inúmeros milagres, como o de curar pessoas das mais diversas enfermidades (ROA, 1615, p. 177). Curavam e protegiam também as cidades: um braço de são Sebastião protegeu Lisboa da epidemia de peste de 156915. Algumas delas, levadas em procissão pela cidade de Córdoba, encerraram uma epidemia de peste que já durava dois anos no início do século XVII (ROA, 1615, p. 176v).

Portugueses e espanhóis não foram apenas os agentes da recomposição do corpo da cristandade européia após a expulsão dos mouros da Península. Ao mesmo tempo em que reencontravam relíquias de mártires em suas próprias terras, eles protagonizavam, também, um movimento muito mais desafiador (pelo menos do ponto de vista teológico): o da incorporação de imensos novos territórios, em todos os continentes, na espacialidade e na temporalidade cristã. Veremos, a seguir, que procurou colocar-se em curso o procedimento de reencontro com o passado e expansão do território cristão por meio da descoberta das relíquias de um apóstolo específico: são Tomé.



Os rastros de são Tomé e a expansão colonia

Em um mundo católico estruturado pela religiosidade, a reconquista da Península Ibérica era parte de um contexto maior de reconquista de toda a terra pelo Cristianismo. Acreditava-se que todas as partes da terra haviam sido tocadas pela palavra de Cristo por meio de seus apóstolos, e que o Diabo e seus servidores haviam desviado grande parte da humanidade desse caminho16.

Era praticamente consensual que o apóstolo que teria vindo aoBrasil foi são Tomé, cujos passos eram perseguidos pelos cristãos há séculos na Índia, onde havia registros da presença do santo e de uma comunidade cristã há muito separada do corpo principal da cristandade (HOLANDA, 2000 [1959], p. 133-160; THOMAZ, 1991). A busca pelo túmulo de são Tomé está por trás da própria armadaque descobriu o Brasil, capitaneada por Pedro Álvares Cabral, que rumava às Índias. Efetivamente, ao chegar à Índia após partir do Brasil, os portugueses tiveram notícias de uma comunidade cristã e da localização do túmulo de são Tomé em Meliapor, e receberam dos governantes locais relíquias do santo17. Na mesma carta em que comunica aos reis da Espanha Isabel e Fernando a descoberta do Brasil, o rei de Portugal D. Manuel discorre com muito mais detalhe sobre a localização do túmulo de são Tomé, mencionando que todos "vão à sua casa em Romaria, pelos grandes milagres que faz"18.

Como inicialmente se acreditava que o Brasil nada mais era que a costa oriental da Índia, a conclusão foi a de que são Tomé teria pregado também por estas terras. E a crença provou-se altamente duradoura, sobreviveu em muito à descoberta de que o Brasil, na verdade, fazia parte de um continente isolado e distante da Índia; e documentos de missionários dos séculos XVI a XVIII referem-se à presença de são Tomé no Brasil, e seu registro na memória dos índios (HOLANDA, 2000 [1959]).

O mais importante para nós é a memória que são Tomé teria deixado no território da América. Se o apóstolo presenteou a Índia com o seu corpo, efetivamente descoberto em Meliapor na primeira metade do século XVI, não descuidou de deixar relíquias no Brasil. Foram as chamadas "relíquias de contato", objetos consagrados pelo contato com o corpo do santo. Em 1549, Nóbrega já se refere a algumas pegadas que são Tomé deixara marcadas no solo brasileiro, dizendo que os índios "têm notícia de São Tomé e de um seu companheiro, e nesta Baía [de Todos os Santos] estão umas pegadas em uma rocha que têm por suas, e outras em São Vicente [...]"19.

Esse tipo de marca no território era já conhecido na Península Ibérica. O corpo de são Tiago, ao desembarcar na Galícia, vindo de Jerusalém no ano de 45, moldou a pedra em que foi depositado20. Santa Orósia, filha dos reis da Boêmia (martirizada pelos mouros a caminho do casamento com o rei de Aragão no século IX), deixou marcas de seus joelhos em oração, no monte de Yebra21. Na freguesia de Cobide, região de Geyra, nos arredores de Braga, próximo a uma capelinha dedicada a santa Eufémia, martirizada no tempo das perseguições romanas, encontrava-se uma pedra onde se viam sinais dos joelhos da santa22. Mas, na América, as marcas de são Tomé tinham aderência também com as crenças dos nativos:

Dizem eles que S. Tomé, a quem eles chamam Zomé, passou por aqui, e isto lhes ficou por dito de seus passados e que suas pisadas estão sinaladas junto de um rio; as quais eu fui ver por mais certeza da verdade e vi com os próprios olhos, quatro pisadas mui signaladas com seus dedos, as quais algumas vezes cobre o rio e passara por meio dele a outra parte sem se molhar, e dali foi para a Índia. Assim mesmo contam que, quando o queriam flechar os índios, as flechas se tornavam para eles, e os matos lhe faziam caminho por onde passasse. [...] Dizem também que lhes prometeu que havia de tornar outra vez a vê-los. Ele os veja do Céu e seja intercessor por eles a Deus (NÓBREGA, 1988, p. 101-102).

Os meninos órfãos que, pela Companhia de Jesus, em 1550, foram de Lisboa ao Brasil escrevem sobre uma "romaria das pegadas" que teriam feito em companhia dos índios, indicando que as provas materiais da presença do santo no Brasil adquiriam significados especiais, já eram marcos no território e engendravam edificações mais permanentes:

A pedra deu lugar a seus pés como se fosse barro [...] estando nós lá por um espaço dando louvores a nosso Senhor por aquele mistério, porque nosso Senhor não permite nada em vão, senão para aviso e exemplo [...], logo dali [os índios] foram a cortar dois paus largos e fizeram uma cruz grande [...] achamos os negros [índios] tão bons que teve que ficar ali um Irmão com dois meninos para ensiná-los e fazer uma casa nas pegadas onde se recolham meninos e aprendam23.

Em meados do século XVII, o jesuíta Simão de Vasconcellos teria visto cinco dessas pegadas, em lugares diversos do Brasil, da Paraíba a São Vicente (VASCONCELLOS, 1865 [ 1663]). No século XVIII, o franciscano frei Jaboatão refere-se a um pé esquerdo,

[...] tão admiravelmente impresso, que à maneira de sinete em líquida cera, entrando com violência pela pedra, fez avultar as fímbrias da pegada, arregoar a pedra e dividir os dedos, ficando todo o circuito do pé a modo que se levanta mais alto que a dita pedra sobre que está impressa a pegada (JABOATÃO, 1858 [1761 ], t. II, p. 29).

Nascida na colônia, a crença nas pegadas de são Tomé foi também legitimada na metrópole. Jorge Cardoso, que sistematizou o panorama histórico dos santos portugueses no século XVII, na extensa obra denominada Agiológio Lusitano, confirma:

A dilatada Província do Brasil [...] na qual há tradição [que] pregou o Apóstolo S. Tomé, por se venerarem em várias partes dela suas pegadas, e dizerem seus naturais, que ele plantou a mandioca, raiz de que se faz a farinha de pão, sustento universal desta Província (CARDOSO, 2002 [1657], t. 1, p. 35).

No início do século XVII, o grande chefe tupinambá Pacamã, do Maranhão, declara a Yves D'Evreux também conhecer esses sinais:

Soube também que Maria era Mãe de Tupã [Deus], sendo Virgem, porém Deus mesmo fez o corpo para si no ventre dela, e quando cresceu mandou maratás, apóstolos, para toda a parte, nossos pais viram um, cujos vestígios ainda existem (EVREUX, 2002 [1615], p. 333-340).

Na terceira década do século XVII, frei Vicente do Salvador menciona uma pegada de são Tomé na Bahia (relacionada à vinda do santo que teria ensinado a verdadeira fé aos índios), onde foi feita uma ermida em invocação ao santo:

Também é tradição antiga entre eles [os índios] que veio o bem-aventurado apóstolo São Tomé a esta Bahia, e lhes deu a planta da mandioca e das bananas de São Tomé [...] e eles, em paga deste benefício e de lhes ensinar que adorassem e servissem a Deus e não ao Demônio, que não tivessem mais de uma mulher nem comessem carne humana, o quiseram matar e comer, seguindo-o com efeito a uma praia de onde o santo se passou de uma passada à ilha de Maré, distância de meia légua, e daí não sabem por onde [foi]. Devia de ser indo para a Índia, que quem tais passadas dava bem podia correr todas essas terras, e quem as havia de correr também convinha que desse tais passadas. Mas, como esses gentios não usem de escrituras, não há disto mais outra prova ou indícios que achar-se uma pegada impressa em uma pedra em aquela praia, que diziam ficara do santo quando se passou à ilha, onde em memória fizeram os portugueses no alto uma ermida do título e invocação de São Tomé (SALVADOR, 1982 [1627], p. 112).

As rochas de são Tomé eram raspadas e carregadas como relíquias, sendo este costume apontado como um dos fatores de desaparecimento das marcas. Frei Gaspar da Madre de Deus relata que, no século XVIII, pedras com as pegadas na praia de Embaré, entre Santos e São Vicente foram quebradas e removidas para serem utilizadas na reconstrução da matriz de São Vicente (MADRE DE DEUS, 1975 [1797]), p. 234-235). Em Embaré, assim como na Bahia, existem notícias de fontes que brotavam nas imediações das pegadas, dentre outras maravilhas operadas por elas e pela presença de são Tomé em terras tão distintas como o Brasil, o Paraguai, o Camboja, o Peru e o Ceilão (MADRE DE DEUS, 1975 [1797], p. 234-235; HOLANDA, 2000 [1959], p. 133-159).

Não posso falar dos outros territórios, mas vários dos trechos acima deixam bastante evidente que, no Brasil, ocorreu a aderência da narrativa de são Tomé com um mito ameríndio total ou parcialmente pré-existente, o mito de Zumé ou Sumé. Essa interlocução foi possível devido à presença dessas "relíquias de contato", marcas físicas, sobre as quais foi possível estabelecer um campo de significados e traduções. Voltaremos a este ponto com exemplos similares.

Por ora, basta sinalizar que a transformação das marcas na pedra em relíquias de são Tomé desempenhou, para os portugueses, uma dupla função de inserção da América no Cristianismo: por um lado, no espaço, oferecendo marcas físicas suficientes para integrar as novas terras no corpo místico da Igreja, compartilhando marcas semelhantes que o Cristianismo apresentava por todo o mundo; por outro lado, no tempo, recompondo a trajetória de evangelização dos apóstolos, incorporando, assim, as novas terras na memória, na história e em um futuro cristão. Estabeleceu-se também um notável aspecto de continuidade entre a reconquista da Península Ibérica dos mouros e a reocupação cristã do mundo, permitindo aos cristãos uma moldura histórica bastante confortável para uma situação tão desafiadora como o projeto de ocupação das terras recém-descobertas.



Traslado de relíquias

A descoberta de relíquias evidenciava o pertencimento de determinado local à história cristã, mas não era a única forma de acesso a essa história. Desde o seu surgimento, o atributo mais evidente das relíquias sagradas era justamente o fato de serem móveis, transportáveis e, dessa forma, agentes privilegiados para adaptar o corpo da cristandade às permanentes mudanças de suas fronteiras. Para a comunidade receptora, a chegada de uma relíquia era uma grande honra: o santo havia escolhido uma nova "pátria adotiva", do contrário jamais consentiria em ser transportado24.

Muitas das relíquias mais importantes de Portugal haviam sido trasladadas de outros locais. O próprio corpo do patrono são Vicente, como já mencionado, chegara de Valência ao Promontório Sacro em um barco, vigiado por dois corvos, que depois se transformaram no brasão da cidade de Lisboa. O corpo de santa Iria foi trazido pelas águas do Tejo (BERREIRA, 1618), que também trouxe milagrosamente à cidade de Belver um cofre repleto de relíquias, que foi colocado na capela de são Brás25. No Porto, no século XV, desembarcam as relíquias de são Pantaleão, supostamente trazidas por imigrantes armênios cristãos fugidos após a queda de Constantinopla em 1453 (SOALHEIRO, 2003). Foi também pela via aquática que aportaram, em Lisboa, em 1517, as relíquias de santa Auta, uma das Onze Mil Virgens, martirizadas pelos hunos em Colônia no século III, tesouro depositado no Convento da Madre de Deus, em Lisboa. Diferente de outros relatos, a chegada destas relíquias não foi iniciativa divina, mas do imperador Maximiliano, que as ofereceu à sua irmã, a rainha D. Leonorde Portugal, revelando que, no século XVI, a política dos reis adquiriu maior proeminência em relação aos assuntos do sagrado (FALCÃO, 2000, p. 216-218).

Em 1505, em meio a sucessivas epidemias de peste, a pedido do rei D. Manuel, a cidade de Veneza doa a Lisboa uma relíquia de são Roque, santo conhecido por sua capacidade de enfrentar a peste. Recebida em Lisboa, a relíquia foi levada, em cortejo, para fora das muralhas da cidade, ao local onde havia um cemitério onde jaziam as vítimas da epidemia (MORNA, 1999, p. 9). Nesse preciso local, foi edificada a ermida de são Roque, conforme relata o padre Baltazar Telles, cronista da Companhia de Jesus (que dali a algumas décadas se apropriaria da ermida para ali construir sua monumental Igreja de São Roque): "Assim como os capitães mais valerosos e de maior confiança se põem nas instâncias mais perigosas e nos lugares mais arriscados, assim se entregou a este forçado capitão [são Roque, ou seus ossos] esta praça temerosa do campo dos mortos, para dali cobrarem saúde dos vivos" (TELLES, 1647).

O século XVI trouxe uma escala inédita no reposicionamento das relíquias sagradas no mundo. Uma das razões disso foi a já mencionada descoberta das catacumbas romanas, que aumentou imensamente a oferta de relíquias. Vieram das catacumbas relíquias como aquelas dos santos Urbano, Aniceto, Fabião, Bonifácio, Patrício, Marnilino, Júlio, Brás, Sérgio, Teodoro e outros, que o frei Damião Vaz obteve para o Convento de Aviz em 1601, mas que só chegaram 16 anos mais tarde (CARVALHO, 2001, p. 103).

Outro elemento de aumento da oferta e mobilidade foi o repúdio dos protestantes às relíquias, que significou que muitas delas tiveram de ser urgentemente removidas, sob os ciumentos olhos de seus guardiões26. Esse desprezo foi também uma gigantesca oportunidade para comerciantes e colecionadores, que aproveitaram a disposição de inúmeras igrejas de se desfazerem de seus mais preciosos tesouros, para reposicionarem sua localização. O roubo de relíquias, atividade tradicional, também encontrou grandes oportunidades no século XVI27. Desta forma, na segunda metade do século, grandes colecionadores de relíquias, como João de Borja e Sancho D'Ávila, enriqueceram suas coleções com os milhares de relíquias que estavam sendo desalojadas na Europa Central e do Norte. Foi também nessa época que o rei espanhol Filipe II consolidou uma incrível coleção de relíquias que instalou em seu palácio-sepulcro, o Escorial (SIGUENZA, 1881 [1605], p. 467-476).

A chegada das relíquias vindas das regiões onde estavam ameaçadas possuía funções militantes: as cidades católicas ofereciam asilo aos santos exilados de suas pátrias originais. Conforme o século XVI caminhava para o fim, os recebimentos de relíquias foram transformando-se em festas urbanas cada vez mais ostentatórias, como a entrada das relíquias doadas por João de Borja à Igreja de São Roque de Lisboa em 1588, o recebimento de relíquias dos santos Fulgêncio e Florentina em Murcia em 1594, cujo relicário exigiu cinco grandes carros, ou as festas referentes ao recebimento de relíquias provenientes de Roma e Madri rumo ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em 1595 (CARVALHO, 2001, p. 95-155). Um dos mais monumentais traslados de relíquias foi o que aconteceu, da cidade de Colônia ao Escorial de Filipe II, em 1598, após um imenso percurso por vários reinos europeus (ESTAL, 1964).

A terceira razão do aumento nos fluxos de relíquias no início da Idade Moderna foram os descobrimentos. As novas terras a serem incorporadas à cristandade pressupunham uma ocupação pelos corpos dos santos. Como um dos instrumentos básicos de consagração do território, o traslado das relíquias sagradas desempenhou também papel importante nos processos de ocupação da América. Por meio das relíquias, era possível revelar o Velho Mundo no Novo, inseri-lo na temporalidade e territorialidade cristãs, preparando o solo para o momento da ressurreição, que, alguns pensavam, viria em pouco tempo. Conforme aponta Manuela Carneiro da Cunha (1996, p. 81), as relíquias eram "veículos de transporte de lugares". Nada mais adequado para cumprir o desafio da ocupação cristã do território, onde este não estava abençoado pelas pegadas de são Tomé.

Pelos registros, as últimas décadas do século XVI foram o período de início do traslado de relíquias de Portugal ao Brasil, vinculados às iniciativas de povoamento mais definitivo da colônia. A ocupação permanente significava não só a inauguração de uma institucionalidade portuguesa na América - câmaras municipais, padroado, justiça - mas também de sua contrapartida espiritual, que era obtida tanto a partir de uma assistência religiosa e de seus edifícios, quanto da transferência de provas materiais da verdade e do passado cristão, entre as quais as relíquias estiveram dentre as mais cobiçadas.

Algumas relíquias perdiam-se ainda na travessia. Quando o mar se mostrava revolto, era atirando-se relíquias que se garantia que Deus retomasse o controle, como a tempestade pela qual a nau Santiago passou em 1585: "Mas quis nosso senhor que amainou logo o vento pela virtude dos agnus deie relíquias que deitaram no mar"28. Uma cruz de ouro "em que trazia uma partícula do Santo Lenho da Vera Cruz e outras muitas relíquias" salvou a nau Santo Antônio de uma tormenta em 156529. Uma cruz que continha um pedaço do Santo Lenho também salvou as vítimas do naufrágio da nau Santiago em uma jangada30. O relato do martírio da nau São Paulo, em 1560, na Índia, menciona uma "Bandeira das Relíquias" protegendo os viajantes em todo o percurso31.

Outras vezes, as relíquias eram vítimas das guerras religiosas, que também se travavam no mar. Em 1570, o padre Inácio de Azevedo levava muitas relíquias para o Brasil quando foi aprisionado e morto pelos franceses no oceano, juntamente com seus 40 colegas de martírio. As relíquias, dentre elas um pedaço do Santo Lenho e uma cabeça das Onze Mil Virgens, foram retiradas de seus relicários, despedaçadas e jogadas pelo convés da nau. Salvaram-se as relíquias levadas pelos padres Diogo Mendes e Francisco Lopes, aprisionados na mesma ocasião, algum tempo depois que vieram ao Brasil (CARVALHO, 2001, p. 101). Os próprios ossos dos mártires foram tratados como relíquias, como as que foram reunidas em uma arca depositada na Igreja da Madre de Deus (Figura 2).



Quando os navios passavam por grandes provações no mar, mesmo eles eram tratados como relíquias. Em 1565, após um naufrágio, uma batalha contra luteranos franceses e uma incrível travessia, a nau Santo António, comandada por Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, conseguiu salvar-se e foi rebocada até Lisboa, onde o cardeal Infante D. Henrique mandou atracá-la em frente à Igreja de São Paulo, onde ficou exposta como uma grande relíquia32. Em 1514, D. Manuel mandou que os restos da nau em que Américo Vespúcio havia navegado pela última vez fossem pendurados como troféus nas abóbadas da Sé de Lisboa (CASTILHO, 1948, p. 81). O rei espanhol Filipe II demonstrou grande apreço pelos restos do naufrágio de um navio português, com cuja madeira mandou fazer o próprio caixão em que foi levado ao túmulo em 1598 (EIRE, 1995, p. 278).

Esses casos foram excepcionais pela intensidade, mas as naus portuguesas, artefatos que viabilizaram a expansão da cristandade, eram geralmente investidas de sacralidade. Antônio Vieira chama-as de "cidades nadantes" e "carroças da salvação", evidenciando simultaneamente atributos de urbano e de sagrado33.

Quando aportavam no Brasil, as relíquias eram recebidas com grandes honras. Em 1575, a cidade de Salvador ganhou duas cabeças das Onze Mil Virgens. Foram as primeiras relíquias importantes que chegaram à colônia, razão pela qual o bispo de Salvador declarou-as padroeiras do Brasil, e recomendou que se lhes fizessem festas anuais nas cidades onde houvesse alguma cabeça das virgens, em um movimento de ordenamento do calendário das cidades brasileiras de acordo com seus santos padroeiros34. Em 1584, Fernão Cardim refere-se à celebração dessa trasladação em Olinda35.

A adoção das Onze Mil Virgens como padroeiras das cidades brasileiras não parece casual. Na segunda metade do século XVI, os portugueses já sabiam da imensidão do território a ser controlado na América Portuguesa, e a construção de uma continuidade territorial era um desafio muito diferente do enfrentado pela ocupação na Índia, baseada em núcleos descontínuos com caráter de entrepostos comerciais. Do ponto de vista do regime religioso, a adoção de um patrono único seria elemento de reforço dessa unidade, e as Onze Mil Virgens eram as patronas perfeitas nesse caso: poderiam vir da Europa tantas cabeças quantas fossem necessárias, cumprindo ao mesmo tempo o papel da consagração do território por meio do corpo físico do santo, e da homogeneização de um calendário festivo nos locais onde houvessem cabeças das virgens. Além de constituir parte do corpo da cristandade e do Império, as cidades da América Portuguesa constituíam em si um corpo de identidade própria, cuja coesão era dada pelas cabeças das onze mil virgens.

Esse projeto de unidade territorial era encampado também pelos jesuítas. Anchieta foi nomeado Provincial dos jesuítas em 1577, e ficou no cargo até 1588, período em que visitou continuamente as casas da Companhia no Brasil a bordo de um pequeno navio, com o sugestivo nome de Santa Úrsula, a líder das Onze Mil Virgens, cujo martírio ocorreu também a bordo de um navio (CARDOSO, 1977, p. 18). É possível que Santa Úrsula (o navio) levasse a bordo as onze mil virgens (por meio de suas relíquias) em suas visitas, promovendo assim a comunhão entre as distantes casas da Companhia no Brasil. Em 1652, Vieira refere-se ao significado especial do dia das Onze Mil Virgens (21 de outubro), atribuindo especial importância ao fato de, nesse dia, o rei de Portuga ter escrito a ele uma carta, dando-lhe a atribuição da conversão do gentio do Maranhão (VIEIRA, 2003 [ 1652], p. 124). Mas ocorreram disputas, já no início do século XVII, em torno desse calendário que punha em comunhão as várias cidades da colônia no dia das onze mil virgens, talvez um aspecto da disputa entre jesuítas e o clero secular36.

Outras cabeças das Onze Mil Virgens aportaram no Brasil após as duas que chegaram a Salvador. Em 1577, uma dessas cabeças chegou a São Vicente, o que colocou toda a Capitania em festa (CARDOSO, 1977, p. 18). Fernão Cardim narra que, na visita que Cristóvão de Gouveia, padre Visitador da Companhia de Jesus, fez ao Brasil em 1582, ele trouxe muitas relíquias, fartamente distribuídas aos colégios da Companhia. A maior parte dos relatos em torno da chegada de relíquias empossa o navio como artefato que traz o elemento sagrado, reforçando seu papel como elemento privilegiado de transplante do passado cristão, do Velho para o Novo Mundo. Uma das mais preciosas relíquias que o padre visitador trouxe a Salvador foi mais uma cabeça das Onze Mil Virgens, recebida com uma peça de teatro em que um dos personagens era a Sé da cidade, regozijando-se com o tesouro37.

No dia 3 de maio de 1582, celebrou-se a inauguração do imponente novo relicário para o colégio dos jesuítas na Bahia, pois estas antes "estavam mal acomodadas". Esse novo relicário construiu-se em uma nova capela na igreja, e nesse dia fez-se a solene trasladação das relíquias à sua nova casa. A cerimônia era importante não apenas para a Companhia de Jesus. O evento foi altamente concorrido pela população da Bahia, que chegou a causar um grande tumulto e invadir o recinto isolado dos padres. Na ocasião, a população fez muitas doações à nova capela (CARDIM, 1980 [1625], p. 160).

No navio em que aportou no Rio de Janeiro, o visitador trouxe consigo "uma relíquia do glorioso Sebastião engastada em um braço de prata", que foi muito festejada pelos moradores e estudantes do Rio de Janeiro, "por ser esta cidade do seu nome, e ser ele o padroeiro e protetor". Em homenagem à entrada da relíquia na cidade, foi feita uma procissão, que começou no mare prosseguiu em terra, até a Igreja da Misericórdia, onde a relíquia foi depositada, e encenado um auto (CARDIM, 1980 [1625], p. 169).

Essa representação deve ser o Auto de São Sebastião, composto por José de Anchieta, no qual um anjo canta a associação entre o santo, o dia de sua festa, a proteção à cidade, a alegria de seus habitantes e a consagração do edifício da igreja:

Chamas-te Sebastião:
Jesus te santificou.
Muita flecha te crivou
Para tua exaltação
Os habitantes da aldeia
Festejam a tua glória,
Visitando a igreja cheia:
Dia que assim os recreia,
Sagrou-o tua vitória
Oh, vem sempre d'ora em diante
Visitar a nossa igreja:
Do mal teu amor proteja
A todo seu habitante
[...]
Faze com que os homens todos
Observem as leis divinas:
Mulheres, velhas, meninas
Afastem do mal os lodos
Destas plagas peregrinas38.

A chegada da relíquia promovia a igreja e a cidade, e a terceira estrofe é bastante importante: ao pedir que o santo visite a igreja dali em diante, evidencia-se aquele dia como marco inaugural de um novo período. Além disso, esta estrofe faz uma equivalência entre os habitantes da igreja e os habitantes da cidade, construindo uma imagem de que toda a cidade é igreja. A quarta estrofe relaciona a chegada da relíquia à correta observação dos costumes cristãos, semelhante ao que se passara quando da descoberta das relíquias em Arjona, evidenciando a nova conexão entre o poder das relíquias e a pauta estabelecida pelo Concílio de Trento. Após o teatro, o padre Fernão Cardim fez uma pregação em torno das graças de são Sebastião, e acabada a missa "deu o padre Visitador a beijar a relíquia a todo o povo". Depois disso, a relíquia foi colocada no sacrário do colégio, "para consolação dos moradores, que assim o pediram". No sacrário, são Sebastião encontrou como companheira uma outra cabeça das Onze Mil Virgens (CARDIM, 1980 [1625], p. 170).

A chegada do visitador a São Paulo foi planejada para acontecer no dia 25 de janeiro de 1585, dia da conversão do mártir são Paulo, padroeiro da cidade. Os principais homens da cidade deslocaram-se três léguas para receber Cristóvão de Gouveia, e a recepção se deu a cavalo. O visitador trazia consigo algumas relíquias, entre elas uma do Santo Lenho, e outra dos santos tebanos da legião de são Maurício, que foram devidamente veneradas39.

A população da vila do Espírito Santo, particularmente devota, em meio a uma epidemia de peste, reforçou sua devoção às relíquias que tinham em sua igreja, dando uma coluna de prata para uma relíquia das Onze Mil Virgens que fazia companhia à relíquia de são Maurício que ornava a mesma igreja. Em 1585 ou 1595, Anchieta compôs um auto, em que dois meninos saúdam a chegada dessa relíquia no porto da cidade, vinda de barco, antes de ser acompanhada em procissão até ser depositada na Igreja de São Tiago. A relíquia com a cabeça da virgem é festejada por dar uma nova luz aos habitantes da Vila:

Cordeirinha linda
Como folga o povo!
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
Fugirá depressa,
Pois vossa cabeça
Vem com luz tão pura.
Vossa formosura
Honra é do povo,
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo.
Virginal cabeça
Pela fé cortada,
Com vossa chegada
Já ninguém pereça.
Vinde mui depressa
Ajudar o povo;
Pois com vossa vinda
Lhe dais lume novo40.

Em 1595, Anchieta escreveu um outro auto, a pedido da confraria de São Maurício, em Vitória (que é também chamada "Vila de São Maurício"), para celebrar o dia de seu protetor, de quem a confraria tinha uma relíquia que era venerada como protetora contra a epidemia e a seca. É o auto de Anchieta que trata de forma mais explícita a presença de relíquias em uma cidade como causa e efeito das virtudes de seus moradores, e seu papel de proteção do local, mas reivindicando devoção permanente em troco. A fé do povo de Vitória em seu santo é posta à prova contra vários inimigos: os protestantes, um castelhano que quer levar a relíquia para o Rio da Prata41, além de dois demônios, Satanás e Lúcifer e, talvez a principal delas, a falta de fé do povo de Vitória. A Vila, que também é personagem da peça, está de início bastante desesperançada42.

O auto representa a chegada de barco, ao porto da Vila, da cabeça de são Maurício e de outras relíquias. Aí são saudadas por dez meninos, que cantam o caráter voluntário da presença do santo e o papel de proteção desempenhado pela relíquia sobre a cidade, contra os franceses e ingleses:

Com tais mortes merecestes
triunfos mui gloriosos
e que vossos fortes ossos
que defender não quisestes,
sejam defensores nossos [...]
O pecado nos dá guerra,
em todo tempo e lugar;
e pois quisestes morar
nesta nossa pobre terra,
ajudai-a sem cessar;
porque, cessando o pecar,
cessarão muitos reveses,
com que os hereges franceses
nos poderão apertar
e luteranos ingleses43 [grifos meus].

Os protestantes estão presentes como ameaça também em outra passagem da peça, o Monólogo da Ingratidão, em que Anchieta simula o discurso de um reformista na América, desdenhando do culto católico aos mártires, "criados de Deus"44. Ao final, a Vila de Vitória, apoiada por outros dois personagens, o Amor de Deus e o Temor de Deus, acaba por merecer a relíquia, com a qual espanta todas as ameaças45. A peça encerra-se com quatro meninos levando a cabeça de são Maurício à sepultura em um esquife ("tumba"), assim permanecendo na Vila.



Criação de relíquias
Já vimos que a descoberta de relíquias e o traslado de relíquias eram dois procedimentos de consagração do território, presentes tanto na Europa quanto na expansão do corpo da cristandade no início da Idade Moderna. Ainda um terceiro procedimento merece ser investigado: a produção de novas relíquias, que acompanhava a produção de novos mártires.

Excetuando-se as relíquias de menor valor, que se obtinham colocando tecidos ou outros objetos em contato com as relíquias já existentes, ou matéria como terra extraída dos sepulcros dos santos, a única forma de novas relíquias serem produzidas era a partir de restos de novos santos. Isso não era algo fácil, pois as reformas católicas do século XVI significaram uma centralização nas mãos do Vaticano dos processos de beatificação e canonização, em contraponto aos costumes da Idade Média, quando proliferavam devoções difusas de inúmeros santos, muitos deles restritos a um culto local. A santificação foi uniformizada, critérios exigentes de averiguação de milagres foram estabelecidos e foram proibidos cultos locais não reconhecidos pelo papa (HSIA, 1998, p. 126).

Mas a centralização dos processos de santificação não impediu a veneração a restos de mártires e outros mortos considerados santos. Pelo contrário, como eram necessárias, a partir da segunda metade do século XVI, provas de santidade para se abrirem processos no Vaticano, os fiéis, e principalmente as ordens religiosas, ocuparam-se em sistematizar, documentar e circular as informações sobre eventuais candidatos a santos e suas relíquias. Ainda que fosse necessária a autorização papal para o início do culto a um beato ou santo - autorização nem sempre obtida -, mesmo antes disso já se davam atributos sagrados às relíquias daqueles que eram considerados santos.

Havia um sentimento comum de que o martírio conferia santidade automática à vítima, e os restos dos corpos dos novos mártires católicos eram cobiçados como verdadeiras relíquias. Partes do corpo e roupas dos mártires católicos, na Holanda e na Inglaterra, eram avidamente disputados pelos seus correligionários. Relíquias de Edmund Campion foram enviadas ao Colégio Inglês, em Roma, onde os jesuítas se preparavam para o martírio na Inglaterra. As relíquias dos mártires de Gorcum eram veneradas em Bruxelas, colocadas em duas ricas arcas que passeavam pela cidade em procissões, ainda que eles não tivessem sido reconhecidos pelo papa (GREGORY, 1999, p. 298-303).

Um corpo incorrupto, perfumado e flexível esteve no centro de uma grande disputa no final do século XVI na Espanha, no período em que Portuga estava sendo regido pelo espanhol Filipe II. O Convento das Carmelitas de Alba de Tornes, nas proximidades de Salamanca, na Espanha, ganha, em 1582, o maior tesouro imaginável: o corpo de Teresa de Ávila, espanhola de família aristocrática, fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças e que, ainda em vida, tinha fama de santa. Quando, já doente, a caminho de seu Convento de São José, em Ávila, após fundar um novo convento em Burgos, Teresa recebeu de seu superior, o provincial frei Antonio de Jesus, a ordem de ir ao Convento de Alba, onde a Condessa de Alba requisitava a sua presença. Contrariada, obedeceu às ordens de seu superior, e prosseguiu até Alba, onde sua saúde piorava a cada dia. Após oito dias, recebeu de Deus o aviso de que se aproximava a hora de seu descanso.

As monjas também começaram a receber sinais disso, algumas delas viram luzes e resplandecências brilharem sobre a igreja onde estava santa Teresa. Nos últimos momentos, o próprio rosto da santa era tão brilhante que não se podia olhá-lo (YEPES, 1615, p. 221-222.). Pouco antes de sua morte com todos os sinais de santidade, frei Antonio de Jesus perguntou a Teresa se ela desejava ser sepultada em Alba ou em Ávila, ao que ela responde, em prova de sublime humildade: "Tenho eu que ter coisa própria? Aqui não me dariam um pouco de terra?" No momento de sua morte, uma freira viu que passavam pelo claustro da igreja muitas pessoas resplandecentes, todas vestidas de branco, e entraram no quarto onde ela estava com grandes demonstrações de alegria. Outra freira viu sair de sua boca uma pomba branca, assim como várias outras freiras tiveram visões semelhantes (YEPES, 1615, p. 224-225).

O corpo de santa Teresa assumiu uma beleza sublime após sua morte. O rosto, "branco como o alabastro, sem ruga nenhuma, ainda que antes tinha muitas por ser velha, as mãos eos pés com a mesma brancura [...] e tão tratáveis, tão suaves ao tato, como se estivesse viva". A fragrância que emanava de seu corpo no momento em que a vestiam e adereçavam para seu sepultamento era tão forte que se espalhava por todo o edifício, e nada na terra se parecia com aquele perfume, "porque era verdadeiramente um perfume celeste". O perfume impregnou toda a enfermaria, cama e roupas de santa Teresa, assim como todas as coisas em que ela tocou quando doente - perfume, aliás, que já saía de sua boca em vida. Mais de vinte anos após sua morte, suas relíquias ainda exalavam esse perfume (YEPES, 1615, p. 227).

Logo as religiosas do Monastério de Alba começaram a venerar como relíquias não só o corpo da santa, mas também tudo aquilo que ela havia tocado, "como aos instrumentos nos quais esperavam que Deus haveria de mostrar sua virtude". E assim, começaram a distribuir suas roupas pelos monastérios de frades e monjas carmelitas e também a outras pessoas importantes, que logo começaram a produzir milagres (YEPES, 1615, p. 228). Antes mesmo de ser enterrado, o corpo de santa Teresa começou a operar milagres entre as monjas de Alba. Estas enterraram rapidamente o corpo, de forma a dificultar a sua exumação, sob grandes quantidades de pedra, tijolo, terra, cal e água, bem compactados. Era evidente o temor de que as freiras de Ávila reivindicassem o cadáver de Teresa.

Mas, nove meses depois disso, arrependeram-se por não dar à santa uma posição de maior visibilidade, e exumaram o cadáver, sob o atento controle do duque de Alba, que já considerava o corpo de Teresa "a maior jóia de suas terras". Encontraram o cadáver incorrupto, que continuava exalando um perfume maravilhoso, que aderia a tudo o que tocava o corpo da santa. A despeito dos temores do duque e das freiras de Alba, iniciou-se naquele momento um processo de fragmentação e distribuição dos pedaços do corpo da santa. Tamanha graça não podia ficar restrita a um só local, ainda mais um convento tão longínquo e isolado como o de Alba, e deveria correr o mundo para proteger outros locais.

Logo nessa primeira exumação, o padre provincial Jerônimo Gracián cortou sua mão esquerda e um dedo da direita. Ficou com o dedo para si, que carregou pelo resto de sua vida, e enviou a mão esquerda para o convento de SãoJosé de Ávila, cujas freiras reclamavam o retorno do corpo à sua casa. Às freiras de Alba, esta pareceu uma atitude conciliadora, mas na verdade a doação da mão - que mais tarde seria doada ao Convento das Carmelitas de Lisboa, onde provocou inúmeros milagres - foi uma manobra dissimulatória: a rea intenção do padre Gracián era levar todo o corpo de Teresa para Ávila.

A alegria das freiras de Alba com a presença da relíquia durou pouco. Por trás do lobby para levar o corpo para Ávila, estava o poderoso bispo de Palencia, D. Álvaro de Mendoza, que anos antes tinha feito um acordo com as carmelitas de Ávila e doado uma soma considerável de dinheiro para que a capela do Mosteiro de São José de Ávila fosse reconstruída, atribuindo centralidade a dois jazigos: o de Teresa e o seu próprio. Em 1585, o corpo é novamente exumado, examinado e verificado incorrupto. Para desapontamento das freiras de Alba, os padres ordenaram que o corpo fosse transportado para Ávila, mas o convento de Alba foi indenizado com o braço e ombro direitos da santa.

As freiras de Ávila e o bispo Álvaro de Mendoza ficaram exultantes com a volta de sua patrona ao Convento, mas o caso não estava encerrado. O poderoso duque de Alba, que vinha de uma das mais influentes famílias da Espanha, processou o Convento de Ávila pelo roubo. Entre outras coisas, alegava que, segundo a norma canônica, a trasladação de um santo não poderia ser feita às escuras, mas cercada de pompa e rituais. Até mesmo o papa Sisto V foi acionado, e ordenou a imediata restituição do corpo de Teresa a Alba. A despeito de protestos em Ávila, o corpo nunca mais saiu de Alba - a não ser por inúmeros fragmentos de sua pele, carne e ossos retirados e espalhados pelo mundo, exemplificando a proximidade entre o artefato sagrado que os corpos dos santos eram e as relações de domínio e reciprocidade (EIRE, 1995, p. 423-441) .

São Francisco Xavier morreu em 1552, na Ilha de Sanchoão, na província de Cantão na China e, no ano seguinte, quando seu corpo foi trasladado para ficar junto aos cristãos, estava também em estado incorrupto46. O corpo foi levado para Malaca, onde ficou exposto à visitação de inúmeros fiéis, e já começou a operar milagres antes de ser novamente enterrado. Mas este não foi o último repouso do santo: alguns meses depois, foi desenterrado para ser levado a Goa, quando foi mais uma vez constatado seu estado de incorruptibilidade e o perfume paradisíaco que emanava do corpo. Em março de 1554, o corpo chegou a Goa, onde foi recebido com grandes festas e sepultado na Igreja do Colégio de São Paulo dos Jesuítas. Também lá, o corpo de Francisco Xavier logo começou a promover milagres: exalou sangue fresco de uma chaga próxima a seu coração, curou várias pessoas, devolveu a visão a um homem (LUCENA, 1989 [ 1600], p. 201 -209). Uma relíquia de são Francisco Xavier aportou em Salvador e, levada em procissão em um andor em meio a uma epidemia em 1686, devolveu a saúde à cidade, que adotou então o santo como seu padroeiro (Figura 3).



A América Portuguesa foi também território onde se produziram relíquias. Está em jogo aqui a defesa da capacidade da colônia de produzir o sagrado, de certa forma libertando-se da sua importação. Os exemplos disso são vários. Ao relatar o martírio de Pedro Correia e de João de Souza, em São Vicente, em 1554, Anchieta anuncia:

Já brilham coroados e revestidos com uma estola de glória, mas esperam outra de que serão vestidos os seus corpos, agora entregues como alimento aos animais da terra e às aves do céu. Não houve quem os sepultasse, mas nem sequer lhes perecerá um cabelo da cabeça. Trabalharemos quanto pudermos para recolher alguns ossos47.

Os ossos deveriam ser recolhidos, porque não era decente deixar os restos humanos sem sepultamento no sertão, abandonados "aos animais da terra e às aves do céu", mas é também evidente o esforço de construção de relíquias sagradas, pontes entre céu e terra, pois aqui estão presentes atributos dos santos, como o brilho e a incorruptibilidade de seus corpos.

Provavelmente, as relíquias mais consagradas foram as do próprio José de Anchieta, que morreu em Reritiba, no Espírito Santo, em 9 de junho de 1597, e ficou sepultado em Vitória até 1609, quando seus ossos foram trasladados para Salvador. Posteriormente, seu culto foi autorizado por um breve do papa Urbano VIII (papado de 1623 a 1644), e seus ossos, distribuídos como relíquias, logo começaram a fazer milagres48.

Em uma carta de 1626 à Companhia de Jesus, Antônio Vieira relata um prodígio operado pelo recém-falecido irmão Antônio Fernandes:

Outra vez acaso encontrara um dos nossos padres, que mostrava andar enfadado; e sabida a causa, era por ter perdido um dente do santo José Anchieta, que muito estimava. Consolou-o ele dizendo que o encomendaria a Deus e, detendo-se um pouco sem se mover do lugar, o levantou [o dente de Anchieta] do chão, em parte onde se tinha buscado com muita diligência (VIEIRA, 2003 [1626], p. 81).

O movimento aqui é de sobreposição: reforçar tanto o poder sagrado da relíquia de Anchieta quanto o do padre Antônio Fernandes que a fez levitar do chão. Na narrativa, Vieira aponta outros aspectos sagrados da morte do padre: ele morrera no dia de santo Antônio, a quem emprestava o nome, e sabia da proximidade de sua morte, para a qual preparou-se. Vieira também relata que uma relíquia de Anchieta foi colocada na popa de uma nau que saiu de Pernambuco para socorrera Bahia, que havia sido invadida pelos holandeses, e protegeu aquela parte do navio, enquanto outras foram severamente atingidas.

Tudo se atribuiu, com muita razão, aos merecimentos do santo padre José Anchieta. Sua canonização se espera e deseja com grande alvoroço de toda esta província [do Brasil da Companhia de Jesus], assim dos de casa [os jesuítas] como dos de fora, e não duvidamos de haver de ser um grande meio para uns se emendarem e outros se melhorarem (VIEIRA, 2003 [1626, p. 117).

Os corpos de alguns franciscanos também constituíam relíquias. Os restos de frei Palácios, morto em Vila Velha em 1570, foram trasladados para o convento franciscano de Vitória em 1609, a contragosto do povo de Vila Velha, e durante o traslado se curaram vários doentes (WILLEKE, 1972, p.14). No século XVIII, temos notícia de que conservavam-se "em honorífico lugar as que escaparam de piedosos roubos" (CONCEIÇÃO, 1733, p. 112). Os padres José de Santa Maria e Martinho da Conceição foram cruelmente martirizados pelos índios em 1701, "cujos veneráveis cadáveres, depois de passados seis meses, estando expostos ao rigor das feras, se acharam tão incorruptos, e de bom semblante, que causavam gozo, e consolação nos que os viam" (CONCEIÇÃO, 1733, p. 128-129).

Excepcionalmente, os corpos de não-religiosos podiam ter atributos de relíquias. Estácio de Sá, o capitão-mor da armada que reconquistou o Rio de Janeiro aos franceses, foi ferido em combate e morreu logo depois, "com sinais de virtude". Foi considerado um mártir, "por cujo sangue [a cidade] goza a liberdade em que hoje [século XVII] se vê". Testemunhas relataram que, quando seus ossos foram trasladados, "saía dele um cheiro suave, como sinal que gozava sua alma da felicidade da glória" (VASCONCELLOS, 1672, p. 126-127).

Assim como no Velho Mundo, também na América os instrumentos de martírio eram considerados relíquias. O tacape de madeira com o qual o padre Francisco Pinto foi martirizado pelos índios no início do século XVII foi levado para o colégio dos jesuítas na Bahia, onde era tido com grande veneração (CARNEIRO DA CUNHA, 1996, p. 75). Em 1654, Vieira refere-se a "um terreiro grande, com um pau fincado no meio, o qual ainda conservava os sinais do sangue [de jesuítas martirizados pelos índios]", possivelmente na expectativa de recolher o pau como relíquia, ou de consagrar tal terreiro para uma igreja (VIEIRA, 2003 [1654], p. 173).

Já identificamos as questões relacionadas às iniciativas portuguesas (principalmente missionárias) de descobertas, traslado e criação de relíquias. Vamos agora investigar a recepção das relíquias pelos habitantes originais da América.



O outro lado

A menos que acreditemos na hipótese de que a cultura e a religiosidade ameríndias eram a "folha em branco" esperando pela evangelização, como alguns missionários do século XVI afirmavam, é necessário avançar um pouco na compreensão dos significados que os índios atribuíram a esses ossos tão especiais. Parece válida a hipótese de que as relíquias sagradas foram um dos elementos por intermédio dos quais índios e portugueses puderam estabelecer códigos de comunicação, ou traduções, segundo a terminologia de Cristina Pompa (2003).

Ao mesmo tempo em que rejeitava as idolatrias, xamanismos e animismos, a doutrina católica aceitava o uso das relíquias sagradas em processos de cura (CERVANTES, 1999, p. 278). Enquanto, de uma forma geral, a cultura católica separava irremediavelmente pessoas e coisas em grupos distintos e incomunicáveis, as relíquias estavam entre os poucos artefatos que podiam pertencer simultaneamente às duas categorias49.

A separação entre pessoas, coisas e animais era bem menos clara para os índios, que acreditavam na propriedade da metamorfose. Hans Staden condenou o chefe Cunhambebe por comer carne humana, dizendo que "mesmo um animal irracional raramente devora seus semelhantes, por que então um homem iria devorar os outros?". Ao que Cunhambebe respondeu, entre uma mordida e outra: "Sou um tigre, isso está gostoso" (STADEN, 1998 [1548], p. 106). Alguns nomes de chefes Tupis do século XVII exemplificam isso: Sauçuacã (cabeça de corça), Metarapua (pedra branca), Auati (milho negro), Tamano (pedra morta), Tatu-açu (fogo grande), Tecuaré-Ubuí (maré de sangue), Itapucusã (ferro com que se prendem os pés), Mutim (Miçanga Branca), Quatiare-Uçu (carta ou letra grande), Uirapapeup (arco chato), Canuaaçu (tintura), Tocaiaçu (galinheiro grande), Itaongua (pilão de pedra), Uitin (farinha branca). O filho mais velho do feiticeiro de Tapuitapera, no Maranhão (hoje Alcântara), chamava-se Chenambi, ou "minha orelha" (EVREUX, 2002 [1615])50.

Também os maracás - as cabaças mágicas que os Tupinambás mantinham, traspassadas por varetas e recheadas com pedrinhas, constituindo chocalhos - tinham esse atributo de ser tanto pessoas quanto coisas. Esses instrumentos recebiam os espíritos dos antepassados dos Tupi, quando tocados pelos pajés em suas visitas às aldeias, uma vez por ano (Figura 4)51.



Os ossos dos grandes guerreiros também tinham significados especiais para os Tupinambás. Hans Staden afirma que, em algumas tribos, era costume espetar em estacas na entrada da aldeia as cabeças dos inimigos comidos (STADEN, 1998 [1548], p. 72, 136) (Figura 5). Os chefes Tupinambás eram enterrados com suas cangoeiras, flautas feitas com os ossos de seus inimigos (SOUZA, s.d [1587], p. 285). Jean de Léry aponta a conservação de caveiras, de ossos das coxas, braços, e de dentes dos inimigos52.



Gabriel Soares de Souza usa, inclusive, o termo "relíquia" para designar os restos dos inimigos mortos, revelando aliás boa sensibilidade etnográfica, pois de fato os Tupi comiam aquilo que lhes era sagrado:

E há alguns destes bárbaros tão carniceiros que cortam aos vencidos, depois de mortos, suas naturas, assim aos machos como às fêmeas, as quais levam para darem às suas mulheres, que as guardam depois de mirradas no fogo, para darem a comer aos maridos por relíquias (SOUZA, s.d. [1587], p. 276).

Sobretudo essa propriedade das relíquias - de transportar o que é sagrado - deve ter tido um grande apelo entre os Tupi e outras tribos, cuja cultura baseava-se em um regime de migrações constantes. O capuchinho Claude D'Abbeville relata a dificuldade dos índios Tupinambás em compreender o significado da consagração do território e da consolidação de assentamentos permanentes, ao mesmo tempo em que ficavam fascinados com a ereção de uma cruz na aldeia maranhense de Juniparã e resistentes a abandonar as transferências no local das aldeias:

Nessa ocasião [de levantamento da cruz], disse Japiaçu [o chefe] que o único pesar que ele e os seus sentiam era o de terem de abandonarJuniparã e irem residir por cinco ou seis luas num lugar longe daí um quarto ou meia légua (porque costumavam mudar de lugar e de casa de cinco em cinco, ou de seis em seis anos) lamentando todos o deixar a cruz agora erguida. "Contudo (ele dizia) prometo que, quando sairmos daqui, levaremos a cruz para onde formos no firme propósito de fixarmos residência, e não andarmos como até aqui." Nós lhes respondemos que não tirassem a Cruz, e que era melhor aí deixá-la como eterna lembrança, e, para consolá-los, que bem podiam fazer outra, que seria benzida pelo padre que com eles viesse morar, e depois levantada, como praticaram com esta (ABBEVILLE, 2002 [1614], p. 130).

Esse tipo de mal-entendido não acontecia com as relíquias, móveis por natureza. O episódio que mais evidencia a apropriação das relíquias pelos índios foi um conflito em torno das relíquias do padre Francisco Pinto, no Ceará (Figura 6). O padre havia sido martirizado pelos Tapuia no início do século XVII, e seus ossos eram tidos como sagrados pelos índios, que a eles creditavam o dom de regular o tempo, trazendo chuva e sol nos momentos certos, donde recebeu o nome de Amanaira, ou senhor da chuva (CASTELNAU-L'ESTOILE, 2000, p. 443). Em 1615, um outro jesuíta, o padre Manuel Gomes, foi incumbido de procurar as relíquias do padre Francisco Pinto para levá-las ao colégio de Pernambuco, mas, ao receberem a demanda, os índios avisaram que defenderiam com armas os ossos do padre:

Se consentissem tirar-lhes um só osso do seu S., a quem eles tinham por pai, e que nos tempos passados faltando-lhe a chuva, às vezes ano inteiro, e por essa causa os mantimentos e frutos depois, que tiveram ao S. corpo em sua companhia parece [que] mudava o céu, o clima [...] não lhe faltando a chuva e sol a seu tempo, e quando ameaçava esta faltar se iam ao S. falando com ele, diziam Pai Pinto dai-nos água, ou dai-nos sol conforme sua necessidade, como se fora ele o Senhor dos tempos [...] e Deus Nosso Senhor para honrar seu servo lhe concede tudo à medida de seu desejo, porque dele se valem em suas enfermidades, e ainda que me fora fácil com duas companhias de arcabuzeiros tirá-lo à força tive por melhor deixá-los gozar daquele tesouro, com que Deus os enriquecia, dando-lhes saúde e vida, que ouro nem prata pode conceder (GOMES, 1615).



Embora afirmasse que deixaria os índios "gozar daquele tesouro", o jesuíta não desistiu de procurar o corpo santo, e pediu a um vigário que, à noite, fosse à ermida onde estava o corpo e pegasse alguns ossos e os levasse ao colégio de Pernambuco, "porque lhe não poderia levar pedras de mais estima". O vigário, cavando o local, não achou o caixão, pois os índios o haviam mudado de lugar, temerosos de que o corpo lhes fosse roubado. Em seu caminho de volta, os índios cercaram o vigário e o fizeram abrir todas as suas trouxas para verificar que ele não levava as relíquias do padre (GOMES, 1615).

Ao que se sabe, o conflito pelas relíquias do padre Francisco Pinto não foi adiante. Os jesuítas conformaram-se em não levar os ossos, encontrando até mesmo aspectos positivos no episódio: "Assim honra Deus a seus servos, que quando parece, que hão de ficar sepultados no esquecimento, os faz reverenciar e estimar da própria gentilidade" (GOMES, 1615). Para nós, o episódio importa por revelar consensos e tensões em torno de significados: além de discordarem em torno da posse das relíquias, índios e jesuítas discordavam em torno da localização adequada para elas. Os jesuítas buscavam urbanizar as relíquias, levando-as para o colégio de Pernambuco. Os índios, por outro lado, buscavam manter as relíquias consigo, mudando-as até mesmo de lugar. Enquanto para os padres a igreja era o local por excelência de depósito das relíquias, essa relação não parece ser tão importante para os índios, que já as haviam desenterrado da ermida onde estavam. Também discordavam quanto à distribuição dos ossos: enquanto para os jesuítas a fragmentação do corpo era algo razoável e até mesmo desejado, para os índios era fundamental a integridade do esqueleto, que tratavam como o de um grande xamã e, como tal, investido de capacidade de ressuscitar a si mesmo (SZTUTMAN, 2005, p. 336-344). Por outro lado, índios e jesuítas concordavam em serem as relíquias especiais, o que, em jargão ocidental, podemos traduzir por sagradas e milagrosas, o que é suficiente para sustentar a posição de que foram matéria de interlocução entre católicos e ameríndios.



Considerações finais

A busca pela descoberta, o traslado e a produção de relíquias mostram que a ocupação do território da América Portuguesa pressupunha a incorporação dessas novas terras no espaço e no tempo cristão; e que, para os cristãos, as relíquias desempenhavam nas cidades da colônia papéis similares aos que tinham do outro lado do Atlântico: regulação do tempo e do espaço, enobrecimento das cidades receptoras, proteção, cura, apoio nas batalhas contra o Demônio e os hereges protestantes.

De uma forma geral, as relíquias trasladadas habitavam os espaços urbanos, não há nenhuma notícia de traslado de relíquias para territórios rurais. Mesmo as relíquias de são Tomé, encontradas em lugares desocupados, por vezes estimularam a ocupação permanente do local onde foram encontrados ou, em um momento semelhante, foram deslocadas rumo aos espaços urbanos.

Isso tudo vai no sentido da existência um "projeto urbanizador" já desde o século XVI, em termos bastante diversos das iniciativas de urbanização centralizadas pela Coroa, estas baseadas em cidades fortificadas, situadas em locais estratégicos para a defesa do território53. Trata-se de uma "urbanização espiritual", conversão de um território selvagem em parte do corpo da cristandade, que teve como centralidades suas capelas e igrejas, ao redor das quais foi se alojando a ocupação permanente, promovida principalmente pelas ordens religiosas. O modelo dessa urbanização não deve ser buscado em Lisboa ou na expansão portuguesa, mas na Roma dos mártires, das relíquias e das peregrinações.

Ainda que sejam dois processos identificáveis e distintos, a urbanização religiosa e a urbanização administrativa não constituíram, nos dois primeiros séculos, procedimentos contraditórios, mas sobrepostos e em vários aspectos complementa res, profundamente identificados entre si. As diferenças, contradições e incompatibilidades vão revelar-se mais adiante, principalmente na campanha urbanizadora portuguesa do século XVIII, que subjugou os aspectos religiosos à estratégia da Coroa e combateu os projetos missionários territoriais, como os dos jesuítas54.

Por outro lado, a própria capacidade de "transportar lugares", inerente às relíquias, que parece ter permitido a construção de campos de interlocução entre índios e missionários, fez delas objetos privilegiados, a partir dos quais podemos investigar esse processo de cristianização e ocidentalização do território brasileiro; e os papéis que cristãos e índios assumiram no processo. Para viabilizar mesmo as menores urbanizações, um consenso primordial teve que ser estabelecido: o de que os assentamentos eram algo permanente, destinado a sediaros elementos sagrados da sociedade; e não algo móvel, modelo ameríndio - o que por si só já destruía parte significativa da territorialidade dos índios. Episódios como o da disputa pelas relíquias do padre Francisco Pinto (e a iniciativa deJapiaçu de incorporação da cruz dos missionários na suas migrações) mostram que o processo nem sempre foi consentido, ou seja, a sedentarização do sagrado no território foi um processo bem menos óbvio do que parece. Os próprios jesuítas parecem ter aventado a hipótese de aldeamentosseminômades55. Mas, onde e quando essa fixação efetivamente ocorreu, ela muitas vezes foi auxiliada por alguns ossos muito especiais.

Avançar no conhecimento dessa urbanização religiosa pode contribuir para conhecermos melhoras cidades brasileiras dos dois primeiros séculos, e isso não a partir de uma negatividade vazia de capacidade descritiva (elas foram tantas vezes descritas como "esvaziadas", "desvitalizadas", "intermitentes", meros "apêndices do rural")56 - mas a partir de elementos positivos em torno dos quais efetivamente se organizou a vida e o cotidiano urbano, que podem nos ajudar a qualificar positivamente este ainda desconhecido objeto que é a realidade urbana colonial.

Ao mesmo tempo em que ajuda a encaminhar o debate acerca da ocupação territorial na América Portuguesa, a investigação do papel das relíquias sagradas cumpre uma função altamente contemporânea no debate em torno do encontro, a partir do início da Idade Moderna, entre as culturas européia e as de suas colônias. Após os focos prioritários da maior parte da segunda metade do século XX nos processos de destruição de culturas e no binômio dominação/resistência - ambos relegando a cultura a uma posição subalterna em relação aos processos econômicos e sociológicos -, uma série de estudos vem priorizando crescentemente o vocabulário simbólico em torno do qual colonizadores e colonizados viabilizaram a gigantesca empreitada do encontro, configuraram traduções recíprocas entre culturas. Opera-se, assim, uma mudança de foco: mais do que as conformações culturais, interessam as mediações culturais, como formas de produzir os fundamentais nexos entre o local e o global, questão de sobrevivência tanto para colonizadores como para colonizados, em uma situação de perplexidade como aquela dos descobrimentos. Os estudos que compreendem como os agentes em interação acessam alguns dos elementos de suas culturas como instrumental para essas mediações culturais estão na ordem do dia e revelam quais elementos - e por que eles - são privilegiados em detrimento de outros nesses processos (MONTERO, 2006b, p. 51). Acredito ter dado uma pequena contribuição a esse debate, ao identificar e justificar as relíquias sagradas como um dentre outros vocábulos acionados - no encontro entre portugueses e Tupi - que viabilizaram a interlocução e a tradução cultural.

Ainda que lastreada na História, esta abordagem revela uma preocupação em obter respostas a desafios dados pela contemporaneidade, como os limites e inversões dos processos de assimilação e incorporação de grupos tradicionais na cultura ocidental, algo considerado como certo até muito recentemente (MONTERO, 2006a, p. 9). Trata-se de qualificar, via elementos culturais, os limites dos processos de modernização, algo não só necessário, mas urgente em um mundo como o de hoje, em que padrões de espiritualidade e religiosidade parecem guiar cada vez mais o comportamento de grupos e sociedades inteiras. Tal debate vem passando, em grande medida, ao largo dos estudos urbanos coloniais.


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