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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Aristóteles no planalto


O que pensaria o célebre filósofo grego da Antigüidade diante do sistema político do Brasil contemporâneo? Reconheceria nele as idéias igualitárias da democracia ateniense?
por Edison Nunes


  
Aristóteles, óleo sobre tela, Francesco Hayes, 1811, Galeria da Academia, Veneza 

Aristóteles: o governo atual seria uma mistura de democracia e oligarquia

Não sei se foi por antiga magia ou tecnologia secreta que Aristóteles veio a dar em Brasília. Queria conhecer nossa Constituição, dizendo ser hábito seu empedernido. Encontrei-o por azar; expliquei lhe o básico, alguma bibliografia. E recolhi alguns de seus comentários.

Para ele o nosso sistema político não poderia ser chamado de “democracia” e, de fato, não o é, tecnicamente falando. A palavra designa somente regimes nos quais o povo detém o poder soberano; exercendo-o diretamente em assembléia, sem que tal poder conheça qualquer limite ou contrapeso institucional. Significa literalmente o “poder popular” e sua realização pressupõe a maior igualdade possível de todos perante a lei (isonomia) e quanto ao direito de participar da decisões públicas mediante a fala (isegoria). Tal igualdade fundamental torna impossível a representação política já que esta pressupõe a separação prática e formal entre representantes e representados, entre dirigentes e dirigidos. Assim, qualquer processo de escolha de magistrados, como votação ou concurso de provas e títulos, não é democrática pois toma os indivíduos pelas suas diferenças, ranqueando-os em melhores e piores. Por isso mesmo, a eleição popular de um presidente ou deputado; a de um juiz concursado, configurar-se-iam aristocráticas (de aristói – os melhores). O único método realmente democrático de seleção, quando não se pode decidir diretamente em assembléia, é o sorteio. Só aí não há discriminação de mérito, preservando-se a igualdade.
O governo que aqui se vê é uma mescla de oligarquia e democracia, o tipo mais comum de governo constitucional. Não existe nenhum poder ilimitado que subordine os demais; cada qual com sua autonomia e composição definidas pela Constituição. Compõem aristocracias o Judiciário e o Legislativo, selecionados seus membros entre os melhores do povo. O Executivo, ainda que por tempo limitado, encarna o princípio da realeza. O único componente realmente democrático do sistema encontra-se nas assembléias periódicas que elegem os magistrados (colégios eleitorais). A este governo misto, Aristóteles chamou de “politia” cuja tradução, pelo latim, é “república”.

Contudo, o que mais espantou Aristóteles é o estranho hábito que temos de garantir direitos políticos aos escravos. Calma, prezado leitor: custou-me também entender! É escravo por natureza aquele que não quis ou não pode desenvolver o hábito da escolha prudente, tornando-se assim incapaz de prever. Tal indivíduo necessita da direção de outrem não apenas na política como principalmente no trabalho, estabelecendo um laço de benefício mútuo com seu senhor: este planeja e organiza; aquele provê com sua energia. Note que não é o vínculo jurídico a caracterizar a escravidão, mas sua função: fica evidente que o assalariamento é uma espécie de escravidão por tempo! A questão que mais o perturbou foi a da qualidade da escolha de quem é desabituado dela até na direção de sua vida privada.

Depois de explicar-lhes os mecanismos de seleção de elites de nossa república; das diatribes de nossos sofistas (os marqueteiros); dos movimentos de nossos socialmente poderosos, tudo conspirando para a escolha responsável e melhor, entendeu que eu lhe fazia troça e foi à biblioteca ler nossa história política.

Edison Nunes é professor do Departamento de Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP.

Revista História Viva

Politicagem à brasileira: o gosto pelo poder

Politicagem à brasileira: o gosto pelo poder
Premiada pelo Arquivo Nacional em 2005, tese faz a gênese da velha arte de governar no Brasil.

A elite quer se perpetuar no poder. Para isso inúmeras estratégias são desenvolvidas por ela. Não importa o tipo de regime adotado, desde a independência em 1822 até o Estado republicano foi sempre do mesmo jeito. A elite quer participar e dar as cartas do jogo político. Seus integrantes são unidos por amplas teias de relacionamentos pessoais, negociações entre o público e o privado, entre grupos e instituições, com sucessivos realinhamentos. A dinâmica dessas relações, embora tenha um caráter aparentemente conjuntural, oculta a lógica do modelo político. Essa conclusão, óbvia à primeira vista, reflete muito bem o modo de fazer política na história do Brasil. Mas é dessa forma que a tese de Maria Fernanda Vieira Martins - A velha arte de governar: um estudo sobre política e elites a partir do Conselho de Estado (1842-1889) - se encerra.

A origem (ou pelo menos parte) do jogo político e das estratégias de poder no Brasil independente pode ser entendida nesse trabalho. O Conselho de Estado (1842-1889) era um órgão que atuava como Poder Moderador e tinha a função de arbitrar as questões nacionais inspirado pelo liberalismo europeu. Isto é, a isenção e o comprometimento com a lei desejáveis numa monarquia constitucional moderna.

Criado em 1823, logo após a Independência, o Conselho de Estado foi extinto em 1834 na reforma constitucional. Recriado em 1841, após a declaração da maioridade de D Pedro II em julho, que acontecera em 1840, atuou de 1842 até as vésperas da proclamação da República em 1889, quando foi extinto.
Para estudar o Conselho, a autora investigou a origem dos membros desse grupo, ou seja, a elite. Maria Fernanda entende como elite brasileira os grupos econômicos ligados aos novos setores (lavoura cafeeira) e a velha nobreza rural. Os homens, filhos dessas poderosas famílias - concentradas nos estados do Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais -, foram influenciados pelos pensamentos liberais europeus e americanos durante seus estudos de direito, principalmente na Universidade de Coimbra. Muitos desses membros da elite alcançavam altos postos na administração pública e poderiam ser simultaneamente capitalistas, negociantes, intelectuais e políticos. Portanto, para entender o Conselho de Estado, diz a autora, é fundamental entender sua relação com as elites.

Esses indivíduos eram políticos de diversas origens e tendências. O cargo era vitalício, e todos os membros deviam atender as consultas dos ministros e do imperador. Deveriam também arbitrar negociações de guerra e paz com outras nações, conflitos entre autoridades administrativas e judiciárias e os abusos da Igreja.

A ênfase desse trabalho vai muito além de simplesmente entender a atuação do Conselho de Estado na política imperial, mas sobretudo em detalhar as redes de relações e estratégias políticas construídas pelos 72 membros que formaram esse grupo, ou, nas palavras da autora, redes de sociabilidade e parentesco. Essas redes definiram as decisões, objetivos e propostas vinculadas aos laços e compromissos assumidos entre os membros dessa elite. É importante ressaltar que a autora entende essas redes tanto como transações inerentes ao próprio Conselho quanto na sua relação com a sociedade, pois muitas vezes os membros estavam ligados entre si por laços de parentesco ou outros tipos de alianças. Para isso recorre aos historiadores da micro-história (Giovanni Levi, Michel Trebitsch, Henrique Espada Lima, entre outros) com o objetivo de analisar o grupo na sua particularidade e na sua relação com o coletivo.

Assim, esses conselheiros encarregados de decidir e aconselhar a política da nova monarquia constitucional muitas vezes trabalhavam em benefício próprio. A lei, representação máxima do Estado moderno, nas mãos de instâncias não representativas - nesse caso as elites deliberando para o Conselho - assume um caráter coercitivo a fim de alcançar seus objetivos e interesses.
O trabalho foi dividido em três partes que comportam um total de cinco capítulos. A primeira delas, "Estado, monarquia e elites do segundo reinado" - capítulo 1 -, contextualiza o cenário político após a independência e as bases do Estado imperial brasileiro no século XIX.

Na segunda parte, "Trajetórias e Redes" - capítulos 2 e 3 -, a autora problematiza o perfil da elite imperial: suas origens, seus bens, sua formação e produção intelectual. Além disso, nessa parte são analisadas as relações de sociabilidade e parentesco. Nesse momento, a tese toma proporções. Percebe-se no detalhe a importância das relações interpessoais, os interesses de grupo e suas estratégias políticas.

Na terceira parte, "A prática institucional" - capítulos 4 e 5 -, a autora mostra a prática política do Conselho de Estado e sua principal função de auxiliar a monarquia a exercer o papel de árbitro dos conflitos e a conciliação de interesses. O último capítulo traz uma reflexão acerca da fase final do Conselho e sua postura diante da escravidão, do declínio de sua ação às vésperas da Proclamação da República em 1889, quando se extingue, consolidando o projeto político da elite no modelo de Estado que foi construído no Brasil.

Com essa tese, Maria Fernanda inova e consolida seu trabalho na historiografia brasileira. Para além da bipolaridade das relações entre conservadores e liberais ou burocratas e a classe senhorial no interior das elites - comuns às análises da historiografia de referência de Ilmar R. Mattos e José Murillo de Carvalho, entre outros -, a autora propõe uma nova abordagem. Esta leva em conta as múltiplas direções que esse processo apresenta na história dessas elites, de sua cultura política e de sua necessidade de manter-se no poder, mesmo que a estrutura estatal mude.

Defendida na Universidade Federal Fluminense em maio de 2005, a tese teve a orientação de João Luís Ribeiro Fragoso e contou com a banca de argüição de Angela de Castro Gomes (UFF), Lúcia Maria Paschoal Guimarães (UERJ), Maria de Fátima Gouvêa (UFF) e Marieta de Moraes Ferreira (UFRJ). Recebeu o prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa no ano de 2005 e será publicada no ano que vem.
Sobre o trabalho
TÍTULO: A velha arte de governar: um estudo sobre política e elites a partir do Conselho de Estado (1842-1889)
AUTORA: Maria Fernanda Vieira Martins
INSTITUIÇÃO: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
ORIENTADOR: João Luís Ribeiro Fragoso
DEFESA: abril de 2005
Revista História Viva

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