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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Jeanne-Antoinette Poisson: A amante da França


Jeanne-Antoinette Poisson: A amante da França
Ela era apenas uma jovem burguesa, mas usou asedução para conquistar um lugar entre os nobres.Companheira preferida do rei Luís XV, Madame de Pompadour se tornou decisiva na política francesa
 Manuela Aquino
Madame Lebon, famosa cartomante parisiense do século 18, não teve dúvidas ao ler a sorte da pequena Jeanne-Antoinette Poisson: um dia, ela seria amante do rei Luís XV. A previsão teve efeito imediato sobre Louise-Madeleine de La Motte, a mãe da menina de 9 anos. A partir daquele dia, ela fez de tudo para que a filha virasse a preferida do monarca. Longe de representar uma desonra, ser amante do rei era conquistar um posto nos mais seletos círculos da nobreza. Mas a tarefa não parecia nada fácil. Enquanto Jeanne-Antoinette era só uma criança, o rei já estava casado com a polonesa Maria Leczinska e tinha cinco filhos – em termos de alpinismo social, fisgá-lo era como alcançar o Everest. Anos depois, entretanto, a profecia se realizaria. E a jovem, já rebatizada como Madame de Pompadour, seria capaz inclusive de influir nos rumos da política francesa.

Jeanne-Antoinette nasceu em 29 de dezembro de 1721, em Paris, numa remediada família burguesa. Era filha de Louise-Madeleine e François Poisson. O pai trabalhava para um influente servidor do governo, Pâris-Duverney, responsável por abastecer o exército francês com suprimentos. A mãe era uma dona-de-casa dedicada, mas passava muito tempo longe do marido, que viajava muito a trabalho. Segundo boatos que circulavam pela cidade, o verdadeiro pai da menina era o rico viúvo Charles Lenormand de Tournehem, coletor de impostos e diretor da empresa mercantilista Companhia das Índias. Fato é que, em 1725, François teve que fugir da França, acusado de sonegar impostos. Tournehem, que acompanhava Jeanne-Antoinette de perto desde o nascimento, passou também a patrocinar os estudos da menina na ausência do pai. Aulas de canto, cravo e recitação incrementaram seu currículo.

Quando François Poisson retornou à França, perdoado pelas autoridades, sua filha já tinha 15 anos. O objetivo de se tornar amante do rei não era mais apenas um desvario da mãe, apoiada por Tournehem: tinha se tornado uma meta também para a jovem Jeanne-Antoinette. Conforme amadurecia, ficava evidente que sua aparência serviria àquele propósito: alta, cabelos castanhos lisos, pele sedosa, olhos brilhantes e profundos. Outro traço que a fazia chamar muita atenção eram seus dentes perfeitos – uma raridade na época.

Aos 18 anos, Jeanne-Antoinette era conhecida por sua elegância, sofisticação e beleza. Mas, enquanto o dia de conhecer o rei não chegava, ela tinha que se casar com alguém – sob pena de ver cair sobre si a pecha de solteirona. Como era plebéia e não tinha um dote grande o suficiente para atrair um noivo da nobreza, suas opções ficavam bastante reduzidas. Mais uma vez, Tournehem entrou em ação: a jovem se casou com o sobrinho e único herdeiro dele, o coletor de impostos Charles-Guillaume Lenormand. Se de fato era filha de Tournehem, Jeanne-Antoinette estava assim se casando com seu primo – o que não era incomum naquele tempo.

Logo após o matrimônio, em 1741, a jovem passou a ser conhecida como Madame d’Etioles, numa referência à propriedade onde foi morar com o marido. Era uma elegante casa a poucos quilômetros de Paris, às margens do rio Sena (tudo bancado por Tournehem). Longe de qualquer romantismo, o casamento garantia à jovem um nome razoavelmente pomposo e a chance de começar a freqüentar os salões da nobreza. E Etioles era especialmente interessante aos propósitos de Jeanne-Antoinette, pois ficava muito próxima do Castelo de Choisy, que pertencia a Luís XV. O rei ia para lá todo mês de agosto, para uma visita anual de outono.

Os primeiros encontros entre Jeanne-Antoinette e o monarca ocorreram justamente na região de Choisy, onde, depois de casada, ela costumava passear com sua mãe e Tournehem. Ao cruzar vez por outra com a comitiva real, a jovem percebia que era notada por Luís XV, mas o contato era apenas visual. Nascido em 1710, o rei assumiu o trono em 1723, quando já estava noivo da princesa polonesa Maria Leczinska, sete anos mais velha, com quem se casou pouco tempo depois. Após o nascimento de sua primeira filha, Luís XV iniciou a tradição de sempre ter amantes. Em 1742, ano em que viu Jeanne-Antoinette pela primeira vez, sua preferida era Marie-Anne de Châteauroux, que morreu em dezembro de 1744. Isso abria caminho para outra amante oficial – sim, elas eram reconhecidas como tal pela corte e mesmo pela rainha.

A aproximação entre Jeanne-Antoinette e Luís XV foi recheada de politicagem. Naquela época, a França estava em guerra contra a Áustria e a Grã-Bretanha. Poder influir nas decisões militares do país era um grande negócio para o fornecedor do exército Pâris-Duverney e para seu irmão, Pâris de Montmartel, banqueiro e padrinho de Jeanne-Antoinette. Eles perceberam que colocá-la no lugar da falecida amante era a oportunidade de que precisavam: o soberano era muito indeciso, e suas companheiras de alcova eram capazes de influenciá-lo politicamente. Chegava o momento para o qual a jovem tinha sido preparada a vida toda. Restava afastá-la do marido, que não tinha sido mais que um mero trampolim. O sempre presente Tournehem não hesitou fazer com que seu sobrinho fosse enviado a uma viagem de negócios, deixando sua esposa livre para ir ter com Luís XV.

Investida real

Não se sabe quando Jeanne-Antoinette e o rei foram apresentados pela primeira vez. Aparentemente, isso ocorreu no início de 1745 – pode ter sido, por exemplo, numa audiência conseguida pelos irmãos Pâris. Mas não há dúvida de que, uma vez dada a chance de seduzir o monarca, a jovem não a desperdiçou. Em 8 de fevereiro daquele ano, o duque de Luynes, cronista da corte, já se referia à nova conquista de Luís XV: uma “bela desconhecida”, com quem ele tinha sido visto dançando em bailes de máscaras. Já em 10 de março, o mesmo cronista informava o nome da jovem, Madame d’Etioles, e confirmava que, embora muito bonita, ela não tinha origem nobre. Isso teoricamente a impediria de ser oficializada como amante – na visão da alta sociedade que acompanhava o desenrolar dos fatos, aquilo poderia render, no máximo, um affair passageiro.

Mas, em pouco tempo, Jeanne-Antoinette recebeu um cômodo para si no imponente palácio de Versalhes, nas cercanias de Paris, onde residia a realeza. Era uma pequena suíte, estrategicamente posicionada perto dos petits cabinets – pequenos aposentos que o rei compartilhava com amigos íntimos. Em 27 de abril, o cronista Luynes foi obrigado a reconhecer: “Dizem que ela está loucamente apaixonada pelo rei e que essa paixão é recíproca”. Ao marido legítimo, restou um recado dado pelo tio, Tournehem (o mesmo que um dia tinha patrocinado o casamento), dizendo que não restava a ele outra opção senão se separar da mulher.

Um primeiro traço da grande influência de Jeanne-Antoinette sobre o rei pode ser reconhecido na rapidez com que ela foi declarada sua amante oficial. Antes de mais nada, era necessário encontrar um título de nobreza que ela pudesse ostentar na corte. O escolhido foi marquesa de Pompadour, referente a uma propriedade que não tinha posse definida naquela época. Em setembro de 1745, ela finalmente foi nomeada, cumprindo a profecia feita 15 anos antes. Jeanne-Antoinette tinha um novo nome e uma nova posição social. E se eternizaria na nobreza francesa como Madame de Pompadour.

Na condição de amante oficial, ela teve que aprender a etiqueta e o protocolo necessários para viver no castelo. E, apesar de ser vista com olhares tortos por alguns, já que não tinha ascendência nobre, Pompadour conquistou um amigo e tanto: o eminente filósofoVoltaire, que a ajudou em sua instrução literária. “A França era o centro do Iluminismo, que pregava reformas no regime absolutista”, diz Modesto Florenzano, professor de História Moderna da Universidade de São Paulo. “Mesmo assim, os pensadores freqüentavam os palácios com todas as regalias.”

Em Versalhes, Maria Leczinska, a rainha, estava acostumada a ficar em segundo plano, diante da infidelidade do monarca. Na medida do possível, ela ignorava Pompadour. Já o filho Luís, herdeiro do trono, vivia isolado e maldizendo membros da corte (segundo o livro Madame de Pompadour, de Christine Algrant, ele se referia à nova amante do pai como maman putain – algo como “mamãe prostituta”). Diante dessas figuras inexpressivas, Pompadour conquistou seu espaço. O duque de Croÿ, que costumava passar semanas em Versalhes, relatou o que vira por lá no fim de 1747: “Praticamente nenhuma graça era concedida sem a participação dela, o que levava a corte inteira à sua presença como se ela fosse o primeiro-ministro”.

Entre os opositores declarados de Pompadour estava o duque de Richelieu, que cobiçava o cargo de primeiro-ministro. “A nobreza francesa nessa época se caracterizava pelas intrigas e pequenas conspirações em busca de poder”, afirma Florenzano. Mal sabia o duque que a nova preferida do rei tinha o poder de influenciar não só na decoração de Versalhes, mas também em decisões políticas importantes. Pompadour tratou de dizer a Luís XV o quanto se irritava com a presença de Richelieu. Como resultado, ele foi rapidamente dispensado do convívio real.

Percebendo sua influência sobre Luís XV, Pompadour começou a se interessar cada vez mais por questões diplomáticas. Assim, conseguiu estabelecer um laço com o rei que não fosse apenas baseado no sexo: tornou-se uma conselheira de primeira hora. “Ela tinha influência sobre o rei porque era uma das únicas pessoas em quem ele confiava”, afirma Christine Algrant. “Apesar de ela mesma se definir como fria na cama, ele gostava muito da companhia dela.”

Mas o ápice da demonstração do poder de Pompadour estava por vir. Em fevereiro de 1756, Luís XV a nomeou dama de companhia da rainha – que, por mais constrangida que estivesse, foi obrigada a aceitar o fato. Esse era o posto mais prestigioso que as francesas podiam conquistar, reservado só a nobres da mais alta estirpe. Com sua posição social consolidada, Pompadour preparava sua grande jogada política. No mesmo ano, foi assinado o Tratado de Versalhes, no qual as antigas inimigas França e Áustria se comprometeram a ficar uma ao lado da outra contra qualquer outra aliança, a não ser que o conflito fosse entre França e Grã-Bretanha. Por trás disso estava o dedo da amante, que vivia um momento de admiração e paparicos mútuos por Maria Tereza, rainha da Hungria e arquiduquesa da Áustria. “A decisão final foi feita pelo rei, mas Pompadour o influenciou num episódio que culminou numa guerra desastrosa para a França”, diz Christine.

Embora o tratado parecesse ser garantia de paz duradoura, logo após sua assinatura, Maria Tereza enviou suas tropas para a fronteira com a Silésia, território que havia sido tomado pelos prussianos na década anterior. O rei Frederico da Prússia, exímio estrategista militar, resolveu então confrontar a Áustria. Luís XV ficou espantado com a atitude prussiana e ficou sem alternativa a não ser socorrer Maria Tereza. Estava iniciada a Guerra dos Sete Anos, em que as forças franco-austríacas acabaram derrotadas. O conflito também acabou opondo a França à Grã-Bretanha (aliada da Prússia) e, quando terminou, fez com que os franceses perdessem para os britânicos boa parte de suas posses na América do Norte e na Índia.

Durante o conflito, Pompadour chegou até mesmo a indicar generais (ao mesmo tempo em que tentava se livrar das novas amantes do rei, que passara a procurar moças mais jovens que ela). Depois do fim da guerra, em 1763, sentindo-se culpada pelo fracasso militar, Pompadour adoeceu e sua saúde se tornou frágil. Tinha uma respiração difícil e vivia com dores de cabeça e febre. Um ano depois, aos 42 anos, após ficar um mês de cama, ela morreu. Foi enterrada ao lado da mãe, na cripta do Convento do Capuchinhos, em Paris. O rei assistiu discretamente ao cortejo e mostrou sua dor apenas aos criados mais próximos, derramando algumas lágrimas. Com a morte, os bens de Pompadour foram tirados do palácio e guardados em depósitos na capital parisiense. Não acumulou muita riqueza. Em seu testamento deixou pequenas jóias aos amigos. E não se esqueceu de quem deu o pontapé inicial a sua trajetória: a cartomante Madame Lebon foi agraciada com uma boa soma em dinheiro.



O amor e o poderTrês outros exemplos de mulheresque se tornaram muito influentes após conquistar o coração de grandes líderes
A carismática

Caso clássico de mulher que sobe na vida depois de conhecer – e agradar – um homem poderoso, Maria Eva Duarte nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1919. Pobre, Evita sonhava com o estrelato. Depois de atuar como figurante de cinema, foi trabalhar no rádio como atriz e cantora. Nessa época conheceu Juan Domingo Perón. Virou sua amante, mas só trocou o rádio pela política quando Perón foi preso, em 1944, por sua oposição ao governo vigente. A moça organizou comícios para que ele fosse libertado. Dois anos depois, quando Perón se tornou presidente, ela não se conteve em ser primeira-dama. Fundou o Partido Feminista Peronista e fez campanha para aumentar o salário mínimo, além de se engajar em obras sociais.

A impiedosa

Jiang Qing viu no casamento com Mao Tsé-tung a chance de exercer poder e dar vazão a toda sua ambição. A chinesa, filha de uma prostituta, fugiu de casa para estudar e se filiou ao Partido Comunista Chinês, do qual Mao já era um dos líderes, em 1933. Ela o conheceu pessoalmente em Xangai e, em 1939, se tornou sua terceira mulher. Dez anos depois, com a vitória da revolução e a subida de Mao ao poder, ela foi nomeada ministra da Cultura e passou a ser uma das pessoas mais influentes do país. Tinha permissão de seu marido para fazer o que quisesse. Ganhou o apelido de “demônio de ossos brancos”, pela perseguição implacável contra seus inimigos durante a Revolução Cultural, nos anos 60.

A benevolente

Até na Bíblia há um exemplo de como a lábia feminina é capaz de dominar um homem: a história de Ester, mulher do rei Assuero, monarca que governava territórios que iam da Índia à Etiópia. O segundo em comando no reino era Haman, diante do qual todos se curvavam. O único que não o apoiava era Mordechai, pai de criação de Ester, nascido em Jerusalém. Isso despertou o ódio de Haman contra os judeus. Alegando que esse povo não respeitava o soberano, ele conseguiu de Assuero uma ordem para matar todos os judeus em um único dia. Perto da data marcada, a ordem foi revogada, graças a um pedido especial da rainha. O monarca sucumbiu aos encantos de sua esposa, cuja beleza não cansava de exaltar.


Saiba mais
Livro

Madame de Pompadour: Senhora da França, Christine Pevitt Algrant, Objetiva, 2005 - A autora cita vários textos da época para reconstituir a ascensão de Pompadour, as intrigas da corte e a vida da nobreza na França do século 18.

Revista Aventuras na Historia

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Balzaquiana, a mulher de 30 anos

Balzaquiana, a mulher de 30 anos
Romance do escritor Honoré de Balzac retrata a jovem senhora do século 19
por Angélica Moura
Que balzaquiana é sinônimo de mulher de 30 anos, ninguém discute e nunca discutiu, nem nos tempos do francês Honoré de Balzac (1799-1850). O que é discutível de lá para cá são os adjetivos que compõem o estigma - ou o elogio - que o termo representa. Em 20 de maio, comemoram-se os 210 anos de nascimento do escritor, dono de um respeitável conjunto de obras que inclui ficção e filosofia. De todo seu legado, nenhum foi tão perene quanto a expressão "balzaquiana", que nunca envelheceu, ao contrário das mulheres de 30, que inevitavelmente tiveram ou terão que se despedir do apelido literário para serem chamadas de quarentonas, cinquentonas ou coroas.

Balzac duplicou a idade do amor. Até então, na ficção ou na vida real, o amor era privilégio das jovens. "Balzac valorizou a mulher mais velha, expressando sua vitalidade e mostrando-a como sedutora", explica Maria Cecília Queiroz de Moraes Pinto, professora de Literatura Francesa da USP.
A Mulher de 30 Anos é um romance escrito entre 1828 e 1844, época em que a sociedade francesa assistia ao período de Restauração, após a queda de Napoleão Bonaparte, em 1815, e início das mudanças sociais provocadas pela Revolução Francesa. Os valores burgueses aparecem na literatura. Os personagens Carlos de Vandenesse e Julia D’Aiglemont apaixonam-se perdidamente. Ambos têm 30 anos, mas Carlos é um "homem jovem" e Julia uma mulher "mais velha". Ela é tão submissa que seu recato e resignação encantam o rapaz. Ele tece uma vasta lista de comparações entre jovens e maduras e, em todos os quesitos, a balzaquiana é superior.

Universo feminino
As transformações em dois séculos

Vida longa à Rainha do lar

Hoje parece estranho dizer que uma mulher de 30 anos está velha. Mas, no século 19, não haveria nada de anormal em um comentário assim.A expectativa de vida da francesa era de 40 anos. No Brasil, a balzaquiana estaria literalmente com o pé na cova, pois vivia somente até os 27 anos. Fatores como a descoberta da penicilina, a cura da tuberculose e avanços da ciência dobraram a longevidade feminina. Hoje mulheres de todo o mundo vivem, em média, até os 75 anos de idade.

Amor e castidade

Na aristocracia, fidelidade e recato não eram qualidades indispensáveis a uma moça de família. Os casamentos eram por conveniência e ter amantes era normal. A sociedade burguesa instaurou a união por amor. Castidade e submissão passam a ser o maior tesouro das mulheres. Elas protagonizam romances, como explica Sandra Vasconcelos, professora de Literatura Inglesa da USP, mas “confinadas à esfera privada. Na literatura e na ficção, elas eram modestas, humildes e delicadas”.

Do espartilho à plástica

No século 19, o espartilho ainda era soberano. A moda era usar vestidos colados na cintura que exaltassem os quadris, o busto avantajado, no chamado perfil em “S”. O embelezamento se prestava mais a dignificar e elevar o status da mulher que a fazer com que ela se sentisse efetivamente mais bonita. Hoje, a busca da beleza independe do status e está intimamente ligada a brigar contra o tempo. Silicone e botox são as atuais fontes da juventude.

Revista Aventuras na História

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A heroína do Novo Mundo



“Maria de Sanabria – a lendária expedição das mulheres que atravessaram o Atlântico no século XVI”, do ítalo-uruguaio Diego Bracco, é um romance histórico sobre a aventura dessa nobre sevilhana que, em 1550, chegou ao litoral de Santa Catarina
Dida Bessana


Cervantes os chamou de “o povo do rio”. Eles eram de todos os tipos na cidade de Sevilha, a mais meridional de Castela e a mais populosa do reino, com 45 mil habitantes. Capital da Andaluzia, cortada pelo rio Guadalquivir, era o principal porto fluvial dos domínios da rainha Isabel no século 16. A 130 quilômetros do mar, operava como porto de embarque para as expedições espanholas ao sul e a oeste e vivia cheia de marinheiros, carregadores, mendigos, moleques, ladrões e comerciantes. Entre aqueles com uma perspectiva de vida nada promissora, grande número de mulheres. Sem dote para aspirar a um bom casamento, ou perseguidas por haver dúvidas quanto à sinceridade da conversão de seus pais ao catolicismo, cerca de cinqüenta jovens foram convencidas a integrar uma expedição ao Novo Mundo, sob o comando de uma nobre sevilhana: Maria de Sanabria.

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O ítalo-uruguaio Diego Bracco, autor de Maria de Sanabria – a lendária expedição das mulheres que atravessaram o Atlântico no século XVI, alia pesquisa documental e ficção, para falar daquela que, segundo ele, “é a única expedição de mulheres à época de que se tem notícia”.

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Historiador formado pelo Instituto de Professores do Uruguai, doutor em História pela Universidade de Sevilha, pesquisador do Museu de Antropologia do Uruguai e especialista em história indígena, Bracco, que atualmente mora em Sevilha, nasceu em Copenhage, em 1959, e já estava bastante familiarizado com os documentos do período retratado no romance. Boa parte das informações que embasam seu relato ele extraiu do Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, e do Arquivo Geral da Nação Argentina.

“O início dessa aventura”, explicou, “foi um motim em Assunção do Paraguai, em que os colonizadores se revoltaram contra a administração metropolitana”, a cargo de Álvar Núñez Cabeza de Vaca, que tentou, sem sucesso, conter os abusos dos europeus na região. “Uma vez derrotado em Assunção, Cabeza de Vaca passou os anos seguintes negociando com a monarquia, que nem o reconduzia ao cargo, nem o destituía oficialmente, porque isso significaria dar razão aos revoltosos. Mas o que ele fez e onde esteve exatamente nessa época é um mistério para os historiadores”, concluiu Bracco. Mesmo assim a Coroa nomeou outro governador em 1547, Juan de Sanabria, que morreu logo em seguida em circunstâncias pouco claras (as quais o autor explora no romance para dar a entender que Maria teria contribuído, e muito, para que ele não estivesse vivo na hora de zarpar). Decorrência natural, seu filho foi indicado para substituí-lo, mas declinou do encargo, sendo substituído então por sua irmã mais velha, Maria, que embarcou acompanhada de sua mãe, Mencía, e de sua irmã caçula, Mencita. Para alcançar esse objetivo, tornar-se a responsável pelo comando da expedição, Maria se teria valido, ainda, de uma aliança secreta com Cabeza de Vaca.

O Novo Mundo
“O Rio da Prata era um território pouco conhecido nessa época. Havia entre trezentos e quatrocentos espanhóis isolados em Assunção do Paraguai, os quais somavam todo o contingente na região, que abrangia os atuais Argentina, Uruguai, Paraguai, parte do Brasil e provavelmente a Bolívia”, contou Bracco. “Assunção era conhecida como o Paraíso de Maomé, pois cada conquistador espanhol tinha dezenas de mulheres indígenas”. Foi precisamente essa necessidade de evitar a mestiçagem o fator determinante no momento em que se decidiu pela expedição. “A presença das mulheres européias era um fator relevante para a Coroa, a fim de poder manter uma classe dominante de origem não mista na América”, acrescentou.

Durante a travessia, cujos cenários incluem Sanlúcar de Barrameda (ponto de partida), Lisboa, Canárias e o Atlântico, a tripulação enfrentou vários percalços, desde calmarias prolongadas, tempestades e enfermidades até o ataque, no Golfo da Guiné, de corsários, que saquearam praticamente toda a carga que deveria ser comercializada em terras coloniais. Neste enfrentamento, após “um angustiante anúncio vindo da gávea que indicava velas perto da costa”, ponto alto do livro, pode-se ter uma idéia, mesmo que um pouco incrementada pela ficção, da pertinácia e esperteza de Maria, que age à revelia do capitão Salazar, descrente da possibilidade de vitória caso tentassem enfrentar “os heréticos franceses”.

Embora “uma sucessão de desastres”, segundo o autor, pois “a expedição teve poucas conseqüências políticas e militares” – fundeou no litoral de Santa Catarina em 1550 desfalcada de uma embarcação, cujo destino nunca se soube –, María de Sanabria fez história.

Se, no romance, ela se apaixona pelo arcabuzeiro Hans Staden, desaparecido antes de chegar a terras brasileiras, na vida real casou-se duas vezes, primeiro com Hernando de Trejo, substituto do capitão Salazar, e depois com Martín Suárez de Toledo, estabeleceu-se em Assunção, onde permaneceu até 1558, e deixou para os filhos uma herança moral. Um deles, Hernando Arias de Saavedra, conhecido como Hernandarias, dedicou sua vida à evangelização, tendo sido um dos fundadores de Corrientes; o outro, Fernando de Trejo y Sanabria, no fim do século 16 tornou-se bispo de Tucumán e foi um dos responsáveis pela criação da Universidade de Córdoba. Mas essa é outra história que Bracco, também autor de El mejor de los mundos, Prêmio de Narrativa da Universidade de Sevilha e Prêmio Revelação da Feira do Livro do Uruguai, talvez ainda nos conte.

Le Monde Diplomatique

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Escola primária de meninas e a educação da mulher no Brasil, em meados do século XIX


ESCOLA PRIMÁRIA DE MENINAS – EDUCAÇÃO DA MULHER NO BRASIL

Pouca coisa tenho também a dizer sobre a escola para as meninas. Em geral, no Brasil, pouco se cuida da educação das mulheres, o nível de ensino dado nas escolas femininas é pouquíssimo elevado; mesmo nos pensionatos freqüentados pelas filhas das classes abastadas, todos os professores se queixam de que lhes retiram as alunas justamente na idade em que a inteligência começa a se desenvolver. A maioria das meninas enviadas à escola aí entram com a idade de sete ou oito anos; aos treze ou quatorze são consideradas como tendo terminado os estudos. O casamento as espreita e não tarda a tomá-las. Há exceções, sem dúvida. Alguns pais mais esclarecidos prolongam a permanência no pensionato ou fazem dar instrução em casa até dezessete ou dezoito anos; outros mandam as filhas para o estrangeiro. Habitualmente, porém, salvo uma ou duas matérias bem estudadas, francês e música, a educação das jovens é pouco cuidada e o tom geral da sociedade disso, se ressente. Claramente, na sociedade brasileira há mulheres cuja inteligência recebeu alto grau de cultura; mas a minha afirmação não é menos verdadeira; são meras exceções e nem outra coisa poderia ser com o atual sistema de educação; e as mulheres que o personificam sente amargamente a influência deste sistema sobre a situação que para o seu sexo criam os costumes nacionais.

Efetivamente, nunca conversei com as senhoras brasileiras com quem mais de perto privei no Brasil sem delas receber as mais tristes confidências acerca de sua existência estreita e confinada. Não há uma só mulher brasileira, que, tendo refletido um pouco sobre o assunto, não se saiba condenada a uma vida de repressões e constrangimento. Não podem transpor a porta de sua casa, senão em determinadas condições, sem provocar escândalo. A educação que lhes dão, limitada a um conhecimento sofrível de francês e música, deixa-as na ignorância de uma multidão de questões gerais; o mundo dos livros lhes está fechado, pois é reduzido o número de obras portuguesas que lhes permitem ler, e menor ainda o das obras a seu alcance escritas em outras línguas. Pouca coisa sabem da história de seu próprio país, quase nada do de outras nações, e nem parecem suspeitar que possa haver outro credo religioso além daquele que domina no Brasil; talvez mesmo nunca haja ouvido falar da Reforma. Não imaginam que um oceano de pensamentos se agita fora de seu pequeno mundo e provoca constantemente novas fases na vida dos povos e dos indivíduos. Em suma, além do círculo estreito da existência doméstica, nada existe para elas.

Estávamos um dia numa fazenda, quando avistei um livro em cima de um piano. Um livro é coisa tão rara nos aposentos ocupados pelas famílias que fiquei curiosa em saber qual seria o conteúdo daquele. Era um romance, e, ao virar-lhe as páginas, veio o dono da casa e disse em alta voz que aquela não era uma leitura conveniente para mulheres. – "Aqui está (entregando-me um pequeno volume), uma excelente obra que comprei para minha mulher e minhas filhas". Abri o precioso volulme, era uma espécie de pequeno tratado de moral, cheio de banalidades sentimentais e de frases feitas em que reinava um tom de condescendência e proteção à pobre inteligência feminina, porquanto, apesar de tudo, as mulheres são mães dos homens e exercem um pouco de influência sobre sua educação. Após essa mostra do alimento intelectual que lhes ofereciam, não me poderia admirar que a esposa e as filhas do nosso anfitrião demonstrassem um gosto dos mais moderados pela leitura. Nada impressiona tanto o estrangeiro como essa ausência de livros nas casas brasileiras. Se o pai exerce uma profissão liberal, tem pequena biblioteca de tratados de medicina ou direito; mas não sem vêem os livros espalhados pela casa como objetos de uso constante; não fazem parte das coisas de necessidade corrente. Repito que há exceções; lembro-me de ter encontrado, no quarto de uma jovem senhora cuja família nos dera afetuosa hospitalidade, uma biblioteca bem escolhida das melhores obras de história e literatura, em francês e alemão; mas foi o único exemplo desses que encontramos durante um ano de permanência no Brasil. Mesmo quando as brasileiras receberam os benefícios da instrução, há, em sua existência doméstica, tanta compressão, tão pouco estão em ligação com o mundo exterior, que isso basta para pôr obstáculo a seu desenvolvimento intelectual; seus prazeres são tão mesquinhos e raros como meios de instrução.

Exprimindo essas duas verdades faço-me eco simplesmente de grande número de brasileiros inteligentes que deploram esse estado de coisas, mau e perigoso, sem saber como reformá-lo. E se, dentre os nossos amigos do Brasil, alguns que, baseados nos progressos e transformações que se operam na vida social do Rio de Janeiro, ponham em dúvida a exatidão de minhas asserções, tenho resposta bem simples para dar-lhes: é que não conhecem as condições sociais das pequenas cidades do norte e do interior. Nunca vi em parte alguma, para as pessoas do meu sexo, condição tão triste como a das mulheres dessas pequenas localidades. É uma existência horrivelmente monótona, privada desses prazeres sadios que proporcionam vigor; um sofrimento passivo, entretido, é verdade, mais por falta absoluta de distrações do que por males positivos, mas que nem por isso é menos deplorável; um estado de completa estagnação e inércia.

Além do vício dos métodos de ensino, há também uma ausência de educação doméstica profundamente entristecedora: é a conseqüência do contato incessante com os criados pretos e mais ainda com os negrinhos que existem sempre em quantidade nas casas. Que a baixeza habitual e os vícios dos pretos sejam ou não efeito da escravidão, inegável é que existem; e é estranho ver pessoas, aliás cuidadosas e escrupulosas em tudo o que se refere aos filhos, deixarem-nos constantemente na companhia de seus escravos, vigiados pelos mais velhos e brincando com os moços. Isso prova quanto o hábito nos torna cegos mesmo para os perigos mais evidentes, um estrangeiro vê logo os perniciosos resultados desses contatos com a grosseria e o vício; os pais não o percebem. Na capital, perigos já são menores, pois todos os que conheceram o Rio de Janeiro há quarenta anos são acordes em proclamar que notáveis melhoras se deram nos costumes sociais. Não devo esquecer de dizer que a mais alta autoridade se pronunciou em favor da educação liberal das mulheres. Todos sabem que a instrução das princesas imperiais não foi apenas superintendida, mas mesmo, em parte, ministrada pessoalmente por seu pai.


(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil, 1865 – 1866. p.277-279)
Revista Jangada Brasil

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Inquisição, Idade Moderna e as bruxas: as mulheres em chamas



Inquisição, Idade Moderna e as bruxas: as mulheres em chamas
Durante mais de 300 anos, a mesma Europa que viu nascer a Idade Moderna e presenciou feitos como a conquista do Novo Mundo, a ascensão da burguesia comercial e o fim do domínio feudal, fez das fogueiras um instrumento de repressão e morte para milhares de mulheres condenadas por bruxaria.
por Cadu Ladeira e Beth Leite
As pilhas de lenhas e gravetos já estavam acesas e a multidão inquieta, aguardava o início do ritual que conhecia tão bem. Afinal, execuções eram espetáculos imperdíveis, que atraiam a atenção de pessoas vindas de vários cantos. Em meio ao ruído abafado dos comentários sobre os horrores que havia cometido, surgiu enfim a condenada. A turba, que já estava agitada, aproveitou para liberar a tensão reprimida: objetos, palavras de ódio, risos e piadas partiam de todas as direções contra a terrível criatura. Não houve muitas delongas. A sentença foi lida rapidamente, o carrasco, num gesto piedoso, estrangulou a condenada para que não enfrentasse as chamas viva e, em poucos minutos, seu corpo ardia, diante da aclamação selvagem da assistência. Durante mais de 300 anos, cenas como essa se tornaram corriqueiras nas praças públicas de boa parte da Europa e o caminho da fogueira se transformou no destino de milhares de mulheres. Nuas, montadas em vassouras, aterrorizando cidades, aldeias e castelos, no imaginário popular e religioso da época, as bruxas estavam por toda parte, semeando o pavor. A perversidade feminina campeava solta, a serviço dos mandos do demônio e precisava ser contida qualquer custo. De 1450 a 1750, poucas pessoas ousariam contradizer essa doutrina, repetida em tom de ameaça nos púlpitos dos pregadores católicos, assim como nos sermões protestantes depois da Reforma religiosa de Martinho Lutero no século XVI. Bruxaria era uma calamidade tão real quanto tempestades ou pestes, e intimamente ligada à natureza feminina. Com exceção de Portugal e Espanha, onde os principais perseguidos eram cristãos novos e judeus, em quase toda a Europa a porcentagem de mulheres excedeu 75% dos casos. Em algumas localidades, como o condado de Namur (atual Bélgica), elas responderam por 90% das acusações. Estima-se que 100 000 processos foram instalados pelo continente afora e pelo menos 60 000 vidas se perderam em meio às chamas. Foi em plena Idade Moderna — a mesma que presenciou a descoberta de um novo mundo com as grandes navegações, a ascensão da burguesia comercial, o fim do domínio feudal e a formação dos primeiros Estados nacionais europeus — que o temor às forças do mal deixou o campo da crendice popular para se tornar alvo de uma perseguição sistemática de tribunais leigos, religiosos e da Inquisição — sob controle papal. Não que as fogueiras tenham sido estranhas à sociedade medieval. A Idade Média também presenciou exibições do poder purificador das chamas, a mais notável delas, sem dúvida, aquela que consumiu a vida da jovem Joana d’Arc em 30 de maio de 1431, na cidade de Rouen, então sob domínio inglês. Heroína nacional, Joana ficou famosa depois que conduziu o exército francês à vitória sobre os ingleses em Orléans e deu início à revanche de seu país na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), até aquele momento vencida fragorosamente pelos britânicos. Em 1430, quando caiu prisioneira nas mãos do duque de Borgonha, aliado ao rei inglês Henrique V, seus inimigos aproveitaram a fama das visões que ela costumava ter desde pequena para levá-la à fogueira, mesmo sabendo de sua extrema devoção religiosa. Nesse caso, porém, o cunho político da condenação era tão óbvio, que antes do final daquele século ela seria reabilitada e em 1920 finalmente transformada em santa. Para bruxas menos famosas, no entanto, a chegada da Idade Moderna trouxe uma mudança radical na atitude da igreja e dos tribunais em relação ao universo da superstição, do paganismo e do mito com o qual, havia mais de 1500 anos, a Europa convivia. Na mitologia romana, Diana, deusa dos bosques e dos animais, já costumava guiar amazonas noturnas em cavalgadas celestes. Entre as crenças imemoriais germânicas, acreditava-se que figuras ameaçadoras, conhecidas como streghe, se reuniam na floresta em torno de caldeirões para realizar seus rituais. Depois se volatilizavam e invadiam as casas para chupar a vitalidade das crianças. Mas em meio à insegurança da aurora da modernidade, um tempo marcado por mudanças e desgraças contentes como fomes, pestes, guerras e conflitos religiosos, boa parte dessa tradição fantasiosa do passado acabou associada à certeza de que o demônio e suas seguidoras estavam determinados a dominar o mundo. Feitiços e mulheres voadoras tornaram-se, da noite para o dia parte te de uma grande conspiração demoníaca. Encantos e ungüentos — chamados na época de maleficia — que antes serviam para ajudar as pessoas se transformavam em passaporte certo para a morte.Não era preciso muito para provar que a ação infernal estava em andamento. Além das tradicionais acusações de possessões diabólicas, crises políticas e sociais, calamidades naturais ou qualquer outro acontecimento anormal eram capazes de detonar a mortandade. Em Trier, na França, uma feroz epidemia de processos contra as bruxas ocorreu entre 1580 e 1599, quando duas grandes colheitas foram dizimadas por alterações climáticas. No principado alemão de Ellwagen, em 1611, em Genebra em 1530,1545,1571 e 1615 e em Milão em 1630, para citar uns poucos exemplos, centenas foram condenadas à morte após um surto de peste. No século XVII, em Cambrai, também na Franca a instalação de novas indústrias no campogerou uma onda de ansiedade entre os camponeses que logo desembocou numa grande caça.Algumas alegações contra a bruxaria eram tão descabidas, que só mesmo o clima de paranóia coletiva explicava a relação: em 1590, depois que uma tormenta no Mar do Norte destruiu um dos navios da comitiva de Jaime VI da Escócia e de sua noiva, Ana da Dinamarca, os dois países iniciaram uma cruel perseguição a feiticeiras. As grandes caçadas vinham assim: como tempestades de verão, chegavam avassaladoras e de surpresa, mas tinham curta duração. Quase sempre, após um período de frenética perseguição, as comunidades se aquietavam durante os anos seguintes. Era como se tivessem se livrado de um cancro. Escritos da época registram o quase inacreditável. Na diocese italiana de Como, 1000 execuções em um ano. Em Toulouse, na França, 400 cremações são contadas em um único dia. No arcebispado francês de Trier, em 1585, 306 bruxas delataram cerca de 1500 cúmplices. Embora a maior parte das acusadas tenha escapado à morte, isso não impediu que duas aldeias da região ficassem à beira do extermínio: sobraram apenas duas mulheres em cada uma delas. O mais impressionante é que a maior parte dessas mulheres, e mesmo dos homens, condenadas chegaram às fogueiras por confissão própria, graças à tortura. Durante esses quase três séculos de morte, conseguir uma confissão era apenas questão de tempo. Quando acontecia de o acusado resistir muito ,durante uma sessão de maus tratos, isso só aumentava a convicção de culpa dos interrogadores: afinal, tamanha resistência só podia ter por trás o auxílio de forças que não eram apenas naturais. Hoje, sabe-se que o uso indiscriminado desse instrumento macabro se confunde com o próprio mapeamento da caça às bruxas pela Europa.O predomínio do temido Tribunal de lnquisição, por exemplo, serviu para atenuar os casos de condenação à morte de bruxas nos países da Península Ibérica e na Itália. Embora tenha ficado famoso na Idade Média pela prática da tortura, na época em que começou a grande repressão européia, a partir do século XV, os inquisidores já haviam elaborado uma extensa reforma jurídica que garantia não só assistência legal aos acusados como restringia a ação dos torturados a casos muito especiais. Na Inglaterra, onde suspeitos de bruxaria só podiam ser submetidos à tortura com autorização dos conselhos superiores de Justiça, a caça às bruxas também teve pouca expressão. Já na Alemanha, dividida em dezenas de ducados e principados independentes política e judicialmente, a caça às bruxas ganhou proporções assustadoras. Nada menos de 50% dos processos contra elas aconteceram em terras germânicas, e a maior parte resultou em morte.Às vezes, a descoberta de uma fraude conseguia evitar que a perseguição chegasse a um final dramático. Em 1633, o jovem inglês Edmund Robinson denunciou uma mulher que o teria levado a um sabá de bruxas, onde estavam reunidas cerca de sessenta feiticeiras. O menino deu o nome de dezessete delas, todas imediatamente presas e condenadas. Algumas dúvidas sobre o depoimento, no entanto, levaram o bispo de Chester a interrogar Edmund e ele acabou admitindo ter forjado a história por sugestão do pai, que havia indicado todos os nomes “por inveja, vingança e desejo de tirar vantagem”, descobriram os juízes. Na Escócia, o ensaio de uma grande repressão nacional em 1661 entrou em colapso quando os eméritos caçadores de bruxas John Kincaid e John Dick foram flagrados dando picadas em mulheres acusadas de bruxaria: nos tribunais, essas pequenas marcas eram a prova de que elas haviam feito pacto com o diabo.Foram poucas, porém, as caças detidas por evidência de fraudes. Normalmente, quando uma perseguição se instalava, nada conseguia detê-la e o pânico tomava conta da população. A princípio, todos estavam sob suspeita e a melhor defesa era o ataque. Uma vez iniciada a caça, delações não paravam mais. Assustadas com a perseguição, multas pessoas logo se punham a entregar as vizinhas na tentativa de livrar a própria pele de potenciais acusações. Cada possível bruxa levada a julgamento, por sua vez, não tardava a incriminar mais uma lista de acusadas num efeito dominó que levava grandes levas de pessoas diante dos juízes.Cenas e relatos como esses não só foram realidade como contavam com uma robusta fundamentação teórica de uma obra sinistra. Publicado em 1486, o livro Malleus Maleficarum, escrito pelos inquisidores papais alemães Heinrich Kramer e James Sprenger, foi um eficaz instrumento nos tribunais para consolidar a crença de que uma grande conspiração arquitetada por Satã e suas seguidoras, as bruxas, tomava conta do mundo. Até o final do século XV, o manual já era um best seller, recordista absoluto entre qualquer livro anterior ou posterior sobre demonologia, com mais de uma dúzia de edições.Na detalhada obra, que explicava desde os feitiços mais comumente praticados até como localizar a presença das malignas criaturas no seio da sociedade, Kramer e Sprenger não pouparam esforços para mostrar que a mesma mulher que provocou a expulsão do homem do paraíso ainda era uma ameaça presente. O velho temor católico de monges e padres celibatários estava mais forte do que nunca. “A perfídia é mais encontrada nas pessoas do sexo frágil do que nos homens” garantiam os dois. Bruxas eram o mal total: renunciavam ao batismo, dedicavam seus corpos e almas ao demônio e, suprema lascívia, costumavam manter relações sexuais com ele. Principalmente durante os sabás, reuniões em que as forças do mal se reuniam para banquetear-se com criancinhas não batizadas e que sempre terminavam em fabulosas orgias. Testemunhos da época davam notícia de sabás reunindo até 1000 bruxas.Para provar a propensão natural da mulher à maldade não faltavam argumentos aos autores do Malleus. A começar por “uma falha na formação da primeira mulher, por ser ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela no peito, cuja curvatura é, por assim dizer contrária à retidão do homem. A própria etimologia da palavra feminina confirmava essa fraqueza original: segundo eles, femina, em latim, reunia em sua formação as palavras fide e minus, o que quer dizer menos fé.Defender idéias assim não era exclusividade dos dois inquisidores alemães. A aversão à mulher como ser mais fraco e, portanto, mais propenso a sucumbir à tentação diabólica era moeda corrente em todas as regiões da Europa — dos pequenos vilarejos camponeses aos grandes centros urbanos. Nos sermões de padres por toda a Europa, proliferava a concepção de que a bruxaria estava ligada à cobiça carnal insaciável do “sexo frágil”, que não conhece limites para satisfazer seus prazeres. Com seu “furor uterino”, para o homem a mulher era uma armadilha fatal, que podia levá-lo à destruição, impedindo-o de seguir sua vida tranqüilamente e de estar em paz com sua espiritualidade.O clima de desconfiança em relação às mulheres teve também predileções profissionais. Quando não era o caso de grandes perseguições orquestradas para expurgar males como a peste, certos ofícios tipicamente femininos tinham precedência na lista de denúncias. Curandeiras, vitais para uma sociedade onde a medicina ainda era uma ciência incipiente, tornavam-se herejes e apóstatas da noite para o dia Cozinheiras também viviam sob constante desconfiança, assim como as parteiras.Acusadas freqüentemente de batizar os recém-nascidos em nome do diabo ou de matá-los para usar seus corpos em rituais, elas foram vítimas de anos de suspeita acumulada, numa época em que a taxa de mortalidade infantil era altíssima Em 1587, a parteira alemã Walpurga Hausmannin, foi processada por ter causado a morte de quarenta crianças, algumas com até 12 anos. Entre os métodos que ela empregava, estavam o estrangulamento, esmagamento de cérebro da criança no parto e aplicação de “um ungüento do diabo sobre a placenta”, de modo que a mãe e a criança morressem juntas. Seu destino foi a fogueira. O mesmo de uma parteira húngara, que em 1728 conseguiu uma marca duvidosa, mas perfeitamente factível para seus contemporâneos: ela morreu queimada por ter batizado nada menos do que 2000 crianças em nome do demônio.Para quem se acostumou a relacionar a figura das bruxas a personagens pitorescas de contos da carochinha — como a madrasta de Branca de Neve ou a fada malvada de Cinderela —, às vezes fica difícil acreditar em histórias assim. Mas elas existiram e deixaram em seu rastro uma cruel realidade da morte de milhares de mulheres inocentes em fogueiras piamente acesas para limpar o mundo.

Boxes da reportagem

Elas por eles

A identidade com o pecado original, principalmente na história do cristianismo, foi um fardo pesado para a mulher até o século XVII

Desde os primeiros eremitas cristãos, nos desertos da Síria é do Egito, a busca da austeridade religiosa pelo isolamento ascético tornou-se não só uma regra obrigatória para o aprimoramento espiritual, mas também consagrou o papel da mulher como a principal tentação mundana, capaz de afastar o homem do caminho da purificação. Uma norma que, na Europa, começaria a se consagrar a partir do século VI, quando São Bento de Nursia fundou o mosteiro de Monte Cassino, na Itália, e deu início ao movimento monástico beneditino, que marcaria profundamente a atitude religiosa do continente.

“Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher.” (Eclesiástico 25:26) “Tu deverias usar sempre o luto, estar coberta de andrajos e mergulhada na penitência, a fim de compensar a culpa de ter trazido a perdição ao gênero humano... Mulher, tu és a porta do Diabo.” (Quinto Tertuliano, escritor cristão, século III) “Dentre as incontáveis armadilhas que o nosso inimigo ardiloso armou através de todas as colinas e planícies do mundo, a pior é aquela que quase ninguém pode evitar: é a mulher, funesta cepa de desgraça, muda de todos os vícios, que engendrou no mundo inteiro os mais numerosos escândalos.” (Marborde, monge de Angers, século Xl)“Toda mulher se regozija de pensar no pecado e de vivê-lo.

”(Bernard de Morlas, monge da Abadia de Cluny, século XII) “A mulher é um verdadeiro diabo, uma inimiga da paz uma fonte de impaciência, uma ocasião de disputa das quais o homem deve manter-se afastado se quer gozar a tranqüilidade” (Francisco Petrarca, poeta italiano, século XIV)“ Que se leiam os livros de todos aqueles que escreveram sobre feiticeiros e encontrar-se-ão cinqüenta mulheres feiticeiras, ou então demoníacas, para um homem.” (Jean Bodin, jurista, sociólogo e historiador, século XVI)“Pois a Natureza pretende fazer sempre sua obra perfeita e acabada: mas se a matéria não é própria para isso, ela faz o mais próximo do perfeito que pode. Então, se a matéria para isso não é bastante própria e conveniente para formar o filho, faz com ela uma fêmea, que é um macho mutilado e imperfeito.” (Laurent Joubert, conselheiro e médico inglês, século XVII)

Revista Superinteressante

A mulher na Idade Média: a construção de um modelo de submissão




Fabrícia A. T. de Carvalho
Aluna do Curso de Graduação em História da UFRJ
Orientanda da Prof.ª Dr.ª Andréia C. L. Frazão da Silva

A história das mulheres na Idade Média é um tema que foi por muito tempo desprestigiado pelos historiadores, mas, atualmente, por ser rico e pródigo em possibilidades de estudo, vem atraindo a muitos estudiosos, inclusive de outras áreas, como teólogos e sociólogos.

Na Idade Média, a maioria das idéias e dos conceitos eram elaborados pelos eclesiásticos. Esses homens possuíam acerca da mulher uma visão dicotômica, ou seja, ao mesmo tempo em que ela era tida como a culpada pelo Pecado Original, a Virgem Maria foi a mulher que deu ao mundo o salvador e redentor dos pecados. Mas, por que os clérigos tinham essas idéias sobre a mulher?

O conceito dicotômico feminino está presente no cristianismo desde de sua consolidação. Durante o período de sua afirmação como religião, o cristianismo sofreu um processo de cristalização baseado em um doutrina ascética e repressora, como reflexo das diversas ideologias presentes nos trezentos anos que levou para se estabelecer. A desconfiança sobre a carne, intrinsecamente ligada a figura feminina, e sobre o prazer sexual era encontrada nas filosofias platônica, aristotélica, estóica, pitagórica e gnóstica. Essas filosofias foram amplamente utilizadas pelos Pais da Igreja (João Crisóstomo, Jerônimo e Agostinho, dentre outros) para dar embasamento filosófico a doutrina cristã.


Os textos desses teóricos do cristianismo foram usados pelos homens da Igreja durante toda a Idade Média e continuam a ser consultados. As mulheres passaram, ou melhor, continuaram a ser consideradas pelo clero como criaturas débeis e suscetíveis as tentações do diabo, logo, deveriam estar sempre sob a tutela masculina. Para propôr e estender suas verdades e juízos morais, a Igreja utilizava-se de um veículo eficiente, a pregação e, em especial no século XIII, a que era feita pelos franciscanos, nas ruas das cidades, para toda a população.

Nos sermões feitos pelos pregadores era muito comum o uso do exempla, que eram histórias curtas e que poderiam relatar a vida de um santo ou santa (hagiografia). As vidas de algumas santas, de preferência de prostitutas arrependidas, eram utilizadas nos sermões. Nelas, todas as características que eram atribuídas as mulheres apareciam e eram assim difundidas e disseminadas por toda a Cristandade.

A mulher, personificada em Eva, é a pecadora, a tentadora, aliada de Satanás e culpada pela Queda. Eva concentra em si todos os vícios que trazem símbolos tidos como femininos, como a luxúria, a gula, a sensualidade e a sexualidade. Todos esses atributos apareciam nos exempla. E como forma de salvação para a mulher, eles ofereciam a figura de Maria Madalena, a prostituta arrependida mais conhecida, e que se submeteu aos homens e a Igreja.
Esta concepção da mulher, que foi construída através dos séculos, é anterior mesmo ao cristianismo. Foi assegurada por ele e se deu porque permitiu a manutenção dos homens no poder, fornecia uma segurança baseada na distância ao clero celibatário, legitimou a submissão feminina e sufocou qualquer tentativa de subversão da ordem estabelecida pelos homens. Esta construção começou apenas a ruir, mas os alicerces ainda estão bem fincados na nossa sociedade.

Sugestões de Atividades:

Identifique quais os métodos explícitos ou implícitos de controlar e tutelar a mulher na sociedade ocidental atual.

De que forma as concepções clericais medievais continuam presentes em nossa sociedade atual e como elas se manifestam?

Para saber mais:

BLOCH, H. Misoginia Medieval e a invenção do amor romântico ocidental. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. p. 89 - 121.

DUBY, G., PERROT, M. (dir.) História das Mulheres: a Idade Média. Porto: Afrontamento, 1990.

PILOSU, M. A Mulher, a Luxúria e a Igreja na Idade Média. Lisboa: Estampa, 1995.

A pastoral americana - Fordilândia

Henry Ford tentou, sem sucesso, produzir borracha e utopias na Amazônia Carlos Haag Abril 2009 © Reprodução do livro Fordlandia, de Greg Gr...