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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O que é a Ku Klux Klan?




Então o chefe seria o “Cíclope Máximo”; o secretário, o “Grande Escriba". E por aí vai. O nome da irmandade precisaria ser algo indecifrável, imaginavam.
Alexandre Versignassi e Eliano Jorge
Começou como uma brincadeira. Em 1865, 6 jovens da cidadezinha americana de Pulaski, Tennessee, resolveram espantar o tédio de um jeito diferente: fundar uma microssociedade secreta, tipo uma maçonaria particular. Bem-humorados, decidiram que os membros receberiam títulos engraçados. Então o chefe seria o “Cíclope Máximo”; o secretário, o “Grande Escriba". E por aí vai. O nome da irmandade precisaria ser algo indecifrável, imaginavam. Um deles sugeriu a palavra grega kyklos – que quer dizer círculo (de amigos, no caso). Outro achou que isso cairia bem com a palavra clã. E ficou Ku Klux Klan. A curtição deles era cavalgar à noite, incógnitos sob lençóis e fronhas brancas, para desconcertar os vizinhos. Nada demais. Só que aí a sociedade de brincadeira foi juntando cada vez mais membros. E a coisa degringolou. O movimento racista estava no auge, já que os escravos acabavam de ser libertados pelos vencedores da Guerra Civil Americana, os estados do Norte. E as cavalgadas noturnas viraram perseguições a negros. Em um ano a Klan já tinha virado uma organização assassina. Presente em vários estados, tinha ex-generais sulistas entre os cabeças e contava com o financiamento de agricultores, prejudicados pela alforria. Depois de inúmeros linchamentos, estupros, castrações, incêndios e enforcamentos, a Klan finalmente foi reconhecida como uma entidade terrorista e acabou banida pelo governo americano em 1872. Voltaria em 1915, mas foi perdendo prestígio ao longo do século 20. Hoje, ela tem uns 3 mil membros, que se dedicam a distribuir panfletos racistas. Ah, claro: é apenas um entre os mais de 700 grupos dedicados ao ódio em atividade nos EUA.

Terror virtual

Houve mais linchamentos de negros nos EUA quando a Klan estava proibida do que quando ela voltou em 1915. Foram cerca de 2 mil entre 1890 e 1909; e “só” 400 entre 1920 e 1939. É que a imagem da KKK já metia tanto medo que eles nem precisavam agir muito para deixar a população negra aterrorizada.

Ave, César

A saudação tradicional da KKK parece a dos nazistas. Mas é só coincidência: as duas têm origem romana. Mas não é por acaso que a Klan tenha se associado a grupos neonazistas dos EUA. Hoje eles também são contra judeus, árabes, hispânicos...

Com que roupa eu vou?

Hoje há pouca unidade na Klan, e o poder, na prática, é descentralizado. O que resiste são os modelitos feitos para destacar as hierarquias mais altas da massa de lençóis brancos: o manda-chuva local veste vermelho; a polícia secreta, preto.

Nonsense

A Klan tradicional louvava a Deus e ao Diabo. Hoje os membros se dizem “cristãos brancos”. Mesmo assim, o nome de seu livro sagrado faz uma alusão ao Alcorão, islâmico. É o Kloran (ou “Klorão”).

Nação fantasma

A bandeira dos 13 estados separatistas do Sul virou símbolo racista. É reverenciada pela Klan, e por mais gente do que se imagina: em 2001, um plebiscito apontou 65% de votos pela manutenção dela como bandeira do estado do Mississippi.

A vida imita a arte

O cineasta D.W. Griffith enche a bola da KKK na superprodução O Nascimento de uma Nação (1915), que pinta a Klan como um grupo de nobres cavaleiros que salvaram o Sul dos EUA da “anarquia negra”. Turbinada pelo sucesso do filme, a organização voltou na hora à ativa, após 43 anos de ostracismo.

Revista Superinteressante

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A origem da expressão "Tio Sam"



A origem da expressão "Tio Sam"
O nome Tio Sam vem de Samuel Wilson, cujo apelido era Uncle (tio) Sam.
De onde vem a expressão “Tio Sam” para designar os Estados Unidos?

Vem de Samuel Wilson (1766-1854), cujo apelido era Uncle (tio) Sam. Responsável pela fornecimento de carne para o exército americano na guerra de 1812 com a Inglaterra, o comerciante Wilson carimbou as embalagens com um enorme US, para designar o destinatário, United States. Como, porém, essa ainda não era a abreviação oficial do país, um empregado de Wilson imaginou que aquelas letras representassem as iniciais do apelido do patrão. O erro propagou-se e o enviou das rações militares passou a ser atribuído à generosidade desse personagem, que conquistou o carinho de todo o país e com ele acabou sendo identificado. Em 1961, o Congresso dos Estados Unidos oficializou a expressão Tio Sam como símbolo nacional.

Revista Superinteressante

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Como eram os túneis que derrotaram os EUA no Vietnã?



Roberto Navarro

Uma das "armas secretas" dos vietcongues, os túneis eram escavados com as mãos ou com ajuda de pás, atingindo até 20 metros de profundidade e 120 quilômetros de extensão. Enquanto tropas e helicópteros americanos ocupavam os céus e as florestas do Vietnã, durante a guerra de 1961 a 1975, os vietnamitas do norte e as forças comunistas valeram-se dessa estrutura primitiva, mas extremamente eficaz. Cada malha subterrânea podia abrigar milhares de pessoas, por períodos que podiam durar vários meses. O complexo mais famoso ficava no distrito de Cu Chi, a cerca de 70 quilômetros a sudeste de Saigon, a capital do Vietnã do Sul, e próximo de importantes bases militares americanas. Aliás, havia túneis que se estendiam até debaixo das bases inimigas, criando entre os americanos a lenda dos fantasmas vietcongues. Eles apareciam, de repente, disparavam rajadas de metralhadoras e... sumiam!
Guerra subterrânea
Com o inimigo bombando nas florestas, os vietcongues atacavam da lama

Comendo na surdina

A alimentação dos ocupantes era preparada em cozinhas equipadas com um sistema de "chaminés". Por meio delas, a fumaça criada com o cozimento de arroz e carne era desviada para centenas de metros de distância

Rasteira fatal

As imediações eram cheias de armadilhas. Umas eram feitas de explosivos acionados por arames. Outras eram buracos no chão, forrados de estacas sujas com fezes, para infeccionar os feridos

Ratos da lama

Soldados magros e baixos, a maioria de origem latino-americana, foram treinados pelo Exército dos EUA para explorar os esconderijos vietcongues. Originados em 1966, ficaram conhecidos como "ratazanas de túneis"

Enterrados vivos

Escondidos em pequenos redutos nas laterais dos túneis principais, guerrilheiros disparavam contra inimigos que se aventurassem pelas galerias. Muitos soldados americanos ficavam presos pelos corpos dos companheiros mortos

Ataque-surpresa

Os soldados americanos e sul-vietnamitas eram surpreendidos por guerrilheiros escondidos em alçapões camuflados no chão. Disparando fuzis AK-47 e lançando granadas, os vietcongues preferiam ferir a matar os inimigos, a fim de atrasar o deslocamento da tropa até o resgate dos feridos

Saída de emergência

Acessos escondidos dentro de córregos, no interior de casas ou em seus quintais uniam os túneis com a vida exterior. A população das aldeias fornecia alimentos e informações aos ocupantes, além de refugiar-se ocasionalmente neles

Ambulatório

Alguns túneis tinham hospitais de emergência, onde eram tratados não apenas guerrilheiros mas também a população das vizinhanças, num esforço para conquistar sua simpatia. O atendimento chegava a incluir a realização de partos

Cobras criadas

A disposição dos túneis formava um verdadeiro labirinto no subsolo. Passagens falsas levavam a becos sem saída, onde muitas vezes eram deixadas cobras venenosas para atacar intrusos

Sala de aula

Além de reuniões de guerrilheiros, algumas câmaras abrigavam a doutrinação ideológica dos moradores, fornecida por comissários políticos do governo do Vietnã do Norte

Revista Mundo Estranho

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Novos e velhos bárbaros


por João Fábio Bertonha
PORTLAND INDEPENDENT MIDIA CENTER


Imigrantes latinos nos EUA reivindicam direitos no 1o de maio de 2006
O crescente número de imigrantes latinos nos Estados Unidos tem levado alguns setores conservadores a comparar a situação de seu país com a do Império Romano em sua fase final

Uma das maiores tentações para quem olha o passado é fazer analogias ou comparações, buscando, no já vivido, uma lógica ou padrão que permita a compreensão do momento presente. É o que acontece hoje nos debates entre americanos que discutem se o seu país é ou não um império. Nesses debates, o Império Romano é apresentado como o exemplo-chave a ser estudado para evitar que o destino de Roma seja seguido por Washington.

Assim, boa parte da direita americana olha para o cenário do seu país com preocupação ao identificar nele sinais de repetição do processo que levou ao fim do Império Romano, há mais de mil anos, em decorrência da invasão de povos estrangeiros.

É claro que cada setor ou pessoa dentro dessa direita olha para o passado e o avalia conforme suas próprias crenças ou interesses, mas todos vêem na situação atual uma possibilidade de repetição da história. A direita religiosa, por exemplo, tende a ver a queda do Império Romano como um efeito, acima de tudo, da decadência moral que estaria se repetindo na sociedade americana, prenunciando o colapso final.
Uma das analogias mais fortes, contudo, é a que compara os imigrantes estrangeiros atuais aos bárbaros do passado. Lá fora estariam as hordas violentas, miseráveis, numerosas e prontas a forçar sua entrada no interior do império, identificado com a civilização, a democracia, a riqueza e a prosperidade. Na Europa, esse “outro” bárbaro é o muçulmano. Nos EUA, em boa medida, são os latinos e, especialmente,os mexicanos.

Alguns autores chegam a difundir a idéia de que estes estariam querendo reconquistar os territórios perdidos em 1848 por meio da imigração maciça para o Texas, Califórnia e outras regiões próximas. Já outros, como Samuel Huntington, acreditam que o problema é a impossibilidade de assimilar os latinos, dado que sua cultura seria estranha e eles estariam chegando em número exagerado.

A analogia que se constrói é clara. Os romanos não teriam conseguido deter o influxo pacífico e, posteriormente, violento dos bárbaros, e acabaram destruídos. Caberia aos ocidentais, especialmente aos americanos, aprender com esse erro e evitar que o fenômeno se repita, mantendo a vigilância nas fronteiras.

Essa analogia não se sustenta, contudo, historicamente. A migração latina para os EUA está, com certeza, transformando o país, que, em 50 anos, poderá ter um quarto da sua população com origens hispânicas. Como aconteceu com tantos outros povos, porém, os imigrantes latino- americanos acabarão ao mesmo tempo sendo assimilados e transformando a cultura dominante. É quase caricatural associar os mexicanos que chegam em busca de trabalhos humildes com conquistadores bárbaros prontos a invadir o império. Analogias e comparações podem ser excelentes meios de compreender a história, mas respeitar os seus limites é tarefa fundamental.
João Fábio Bertonha é doutor em história pela Unicamp e professor da Universidade Estadual de Maringá. É autor de A imigração italiana no Brasil (Saraiva, 2004), entre outros livros
Revista História Viva

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