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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Entre arte e propaganda: fotografia e fotomontagem na vanguarda soviética

Resultado de imagem para dadaístas de Berlim
Annateresa Fabris
Escola de Comunicações e Artes da USP

Em meados da década de 1910, os dadaístas de Berlim, ao aderirem aos processos de montagem – combinação de imagens fotográficas de diferentes proveniências –, proclamam de uma só vez a morte da arte (tradicional) e a realidade do caos do mundo moderno, introduzindo em suas obras a experiência do choque. Derivada das características fundamentais da metrópole capitalista, tal experiência permite transpor para o interior da obra a percepção de uma transformação cada vez mais veloz, de uma comunicação simultânea, de um hibridismo não alheio à confusão entre real e artístico. A forma, como lembra Manfredo Tafuri, não deve ser mais buscada além do caos, e sim em seu interior, pois é dele que brota uma nova técnica de comunicação, capaz de conferir um novo valor a um universo considerado antes "sem qualidades"2.

Também Adorno detecta a experiência do choque na utilização da montagem, mas a reporta não à vivência urbana, e sim à ação empreendida pelos artistas contra a "unidade orgânica" da obra. A negação da unidade, da síntese e, logo, do princípio configurador coloca em xeque a aparência de reconciliação entre o homem e a natureza que estava na base da concepção orgânica anterior ao cubismo. Ao admitir em seu interior as "ruínas literais" do mundo empírico, a arte, a partir das colagens cubistas, dá início ao processo contra a obra como "nexo lógico", infligindo "vistosas cicatrizes" ao sentido, que acaba sendo negado no momento em que a unidade é questionada pelo uso de elementos díspares. Adorno encontra uma explicação política para o uso maciço das técnicas de montagem que reporta à consciência da "impotência" da arte diante da totalidade do capitalismo tardio e à vontade de abolir essa dimensão graças à negação da aparência de um continuum3.

Uma outra visão de fotomontagem

A existência de um elo profundo entre as técnicas de montagem e a sociedade capitalista, sublinhada por Tafuri e Adorno, não deve fazer esquecer que um recurso como a fotomontagem é amplamente utilizado na Rússia pós-revolucionária, ganhando significados diferentes em relação às experimentações dos artistas ocidentais.

Essa diferença é afirmada no âmbito soviético por Gustav Klutsis, que discrimina duas correntes no interior da técnica: a fotomontagem formal, derivada do exemplo da publicidade norte-americana, própria dos dadaístas e dos expressionistas; e a fotomontagem militante e política, criação exclusiva da União Soviética. O artista fazia brotar o caráter único da fotomontagem militante de sua conexão com a política revolucionária, o progresso industrial e tecnológico e as novas formas da cultura de massa. Afirmava ainda que o uso da fotomontagem como novo método de arte datava de 1919-1920, estabelecendo uma prioridade em relação às experiências alemãs4.

Ao fazer esse tipo de afirmação, Klutsis advoga para si o papel de pioneiro da nova técnica: apresenta Cidade dinâmica como a obra em que a fotomontagem foi "utilizada pela primeira vez como elemento de textura e figuração, de acordo com o princípio das diferentes divisões". Christina Lodder lembra que há na obra uma inscrição que demonstra o papel pioneiro que Klutsis atribuía a seu trabalho: "Suprematismo volumetricamente espacial + fotomontagem. A derrocada da não-objetividade e o nascimento da fotomontagem como forma artística independente". O uso do termo fotomontagem numa obra datada de 1919 leva a autora a formular duas hipóteses: Klutsis redigiu a inscrição na época da realização de Cidade dinâmica, demonstrando conhecer as experiências alemãs, nas quais seu trabalho se basearia; ou a inscrição pode ter sido acrescentada posteriormente, o que comprovaria que o artista se limitou a tomar de empréstimo o termo, tendo desenvolvido sua pesquisa de maneira independente5.

Dawn Ades, por sua vez, reporta uma informação de Vassili Rakitin, segundo o qual Klutsis teria usado a fotomontagem pela primeira vez em 1918 no projeto de um painel para o V Congresso dos Sovietes em Moscou. Alexei Gan também teria feito experiências com a técnica no mesmo ano, mas é possível, segundo a autora, que nada disso tenha vindo a público, como demonstraria a ausência de cartazes russos feitos a partir da fotomontagem na revista internacional Das Plakat6.

Existem duas versões de Cidade dinâmica: uma lança mão da fotomontagem; a outra é um quadro executado em 1919-1920, no qual Klutsis explora a textura material da superfície pictórica graças ao uso de areia, vidro e aparas de metal. Para além desse aspecto, que remete à idéia de faktura, isto é, ao tratamento do material na superfície da tela, que acaba por determinar a forma da obra7, é possível determinar um princípio comum às duas versões de Cidade dinâmica: a opção por uma composição planimétrica, articulada aos princípios do suprematismo dinâmico e das composições Proun de El Lissitzki, que fazem com que Klutsis privilegie o uso de uma forma esférica central a partir da qual se projeta um eixo diagonal.

Na fotomontagem alguns planos geométricos são substituídos por fragmentos icônicos: a superfície de um arranha-céu norte-americano, um arranha-céu completo e imagens de trabalhadores. As formas geométricas que persistem no eixo diagonal sugerem vigas de aço, enquanto a esfera pode ser vista como o elemento unificador da composição por englobar a idéia da construção de um novo mundo graças ao socialismo. A colocação das figuras dos trabalhadores em diferentes posições é provavelmente uma evocação daqueles elementos flutuantes que caracterizavam as obras do suprematismo dinâmico. Ao mesmo tempo ela imprime um ritmo rotatório à composição, que poderia ser vista de todos os lados, como o próprio Klutsis recomenda numa inscrição8.

A estrutura utilizada em Cidade dinâmica está na base de outras fotomontagens realizadas por Klutsis no final dos anos 1910 e no começo dos anos 1920: O velho mundo e o mundo que está sendo construído agora (1920), A eletrificação de todo o país (1920) e Esporte (1922). A concepção radial está presente nas três obras que denotam uma adesão mais franca à lógica fotográfica. No caso das duas primeiras imagens há uma explicação para o predomínio dos elementos icônicos, visto tratar-se de projetos para cartazes de propaganda. Em O velho mundo e o mundo que está sendo construído agora, a estrutura radial ocupa o fundo da fotomontagem, no qual se destacam dois círculos: o menor contém símbolos do regime tsarista (cadeia, correntes, chicote) enquanto o maior abriga imagens de derivação construtiva. Se o círculo do passado evoca uma realidade estática, o círculo construtivo, ao qual corresponde a imagem de Lenin, é uma forma dinâmica a sugerir um movimento de rotação (Figura 1).


Lenin é também protagonista de A eletrificação de todo o país, sugerida pela apresentação de seu Plano para a Eletrificação no VIII Congresso dos Sovietes. Klutsis concebe uma composição capaz de dar conta do programa de industrialização e modernização formulado pelo líder político: a imagem de Lenin carregando uma espécie de andaime metálico, do qual sobressai uma estrutura arquitetônica, domina a parte superior da fotomontagem. Olhando para a frente, Lenin adentra num círculo do qual se irradiam formas geométricas que simbolizam o progresso.

A idéia de dinamismo confiada à diagonal, que fora determinante em Cidade dinâmica, é retomada em Esporte. Diversos círculos concêntricos, que se irradiam do fundo, no qual a palavra "esporte" está grafada com tipos góticos, acolhem a diagonal formada pelo encontro de dois aparelhos de ginástica. O efeito óptico sugerido pelos círculos imprime um forte movimento rotatório à composição, evocando a possibilidade daquela visualização não unívoca que já caracterizava Cidade dinâmica.

Uma opção estratégica

Para compreender as razões do predomínio cada vez maior de elementos icônicos nas fotomontagens de Klutsis é necessário analisar o papel conferido à fotografia pela vanguarda soviética. Um artigo dedicado à fotomontagem, publicado em 1924 na revista de vanguarda Lef, fornece uma visão significativa daquilo que os artistas da União Soviética demandavam à nova técnica. Partindo da definição da fotomontagem como "a utilização do instantâneo fotográfico como meio visual", o artigo logo assinala sua superioridade em relação às técnicas tradicionais:

A combinação de instantâneos toma o lugar da composição numa representação gráfica. Essa substituição significa que o instantâneo fotográfico não é o esboço de um fato visual, mas seu registro preciso. Essa precisão e o caráter documentário do instantâneo têm um impacto no observador que nenhuma representação gráfica consegue atingir9.

A importância conferida à natureza factual da fotografia como instrumento de construção de uma visualidade comprometida com a causa revolucionária está também presente num texto de Varvara Stepanova datado de 1928. Ao conceder primazia às fotomontagens realizadas por Aleksandr Rodtchenko a partir de fotografias de própria autoria, a artista estabelece uma relação precisa entre essa tendência, que busca "uma totalidade independente e completa", e o valor documentário da fotografia, capaz de fornecer uma "informação precisa" sobre o tempo e o lugar das imagens apresentadas. Stepanova não deixa de assinalar um problema provocado por esse tipo de produção: "a necessidade de uma técnica para expressar a realidade em termos característicos e explícitos"10.

Uma visão bem mais articulada das possibilidades da fotografia pode ser encontrada no livro A arte de hoje, publicado por Nikolai Tarabukin em 1925. Nessa coletânea de ensaios, em que são analisadas as artes do cotidiano – publicidade, design, cartazes, estamparia, produção gráfica –, Tarabukin concede um espaço privilegiado à problemática da fotomecânica, atraído por suas qualidades reprodutivas e, sobretudo, pela possibilidade de desnaturalizar o naturalismo e de colocar as novas imagens a serviço da agitação e da propaganda.

Interessado nas imagens técnicas que negam a fotografia "cruamente naturalista", o autor enfatiza em seu ensaio as diferentes estratégias de superação da verossimilhança, entre as quais a fotomontagem. Definindo a fotomontagem como "UM ESTÁGIO NA PINTURA, que começou a utilizar o poder mecânico da câmara em lugar de um desenho feito 'pela mão'", Tarabukin não hesita em sublinhar sua relação intrínseca com as tendências artísticas "de esquerda", sobretudo com o princípio planimétrico.

Uma outra observação presente no ensaio fornece elementos para compreender a opção feita por artistas como Klutsis, Rodtchenko e El Lissitzki:

A fotomontagem só apareceu na frente da arte de esquerda quando a abstração já tinha feito seu curso [...]. A fotomontagem veio à luz através do aspecto de agitação da arte moderna. Mas o artista a usou de um modo diferente do naturalista. O fotomontador não vê a arte representativa como um fim, como o naturalista, mas apenas como um meio. Por essa razão torna-se mais uma vez um artista representativo, mas, sem por isso, virar a casaca. Seu caráter representativo constitui formalmente um novo elemento na obra de arte que, de modo algum, coincide com o papel estético da representação nos quadros dos naturalistas11.

O uso recorrente do termo "naturalismo" merece uma explicação. Tarabukin reserva a palavra "realismo" para os trabalhos da vanguarda russa, sobretudo os de derivação construtivista, caracterizados pela ênfase dada à forma da obra:

O artista constitui nas formas de sua arte sua própria realidade e concebe o realismo como consciência do objeto autêntico, autônomo em termos de forma e conteúdo. Esse objeto não é uma reprodução das coisas do mundo exterior, mas é construído, de ponta a ponta, pelo artista fora das linhas de projeção que poderiam vinculá-lo à realidade12.

Embora defenda as razões do realismo contra as do naturalismo, Tarabukin não se furta a assinalar em Do cavalete à máquina (1922) a crise pela qual estava passando a arte contemporânea, motivada pela percepção da "inconsistência" da "forma pura desprovida de todo conteúdo". Numa sociedade em que a democratização estava pondo fim à separação em classes, não havia mais razão para a existência do quadro "como forma típica de arte visual". O público de massa, que havia surgido do processo revolucionário, não pedia à arte "as variações sem fim, a dispersão e a individualização", próprias do quadro feito no ateliê. Ao contrário, "exige da arte formas que expressem as idéias das massas, da sociedade, do povo em seu conjunto". Diante dessa nova realidade, o papel do artista modifica-se substancialmente: cabe-lhe produzir "objetos justificados socialmente por sua forma e utilidade"13.

Partidário da plataforma produtivista, Tarabukin acredita que a função do artista acabará por coincidir com a organização do trabalho produtivo. Por isso defende a "mestria produtivista", na qual "a arte e a técnica se confundem. A técnica transforma-se em arte quando se tende conscientemente à perfeição. [...] A mestria produtivista é funcional, construtivista em sua forma e coletivista no ato processual-criador"14.

Por isso também localiza em Cor vermelha pura (1921), de Rodtchenko, a destruição da pintura:

Era uma pequena tela quase quadrada, completamente coberta de uma única cor vermelha. Essa obra é extremamente significativa da evolução seguida pelas formas artísticas no decorrer dos últimos 10 anos. Não se trata mais de uma etapa, mas do último passo, o passo final de um longo caminho, a última palavra depois da qual a pintura deverá guardar silêncio, o último "quadro" executado por um pintor. Essa tela demonstra eloqüentemente que a pintura como arte da representação – o que sempre foi até o presente – chegou ao final do caminho. Se o quadrado negro sobre fundo branco de Malevitch continha, apesar da pobreza de seu sentido estético, uma certa idéia pictórica que o autor havia chamado de "economia", "quinta dimensão", a tela de Rodtchenko, ao contrário, está desprovida de todo conteúdo: é um muro cego, estúpido e sem voz. [...] Ao deixar de ser representativa, a pintura perdeu seu sentido interno. O trabalho de laboratório sobre a forma pura encerrou a arte num círculo estreito, deteve seu progresso e a levou ao empobrecimento15.

A afirmação de Tarabukin não pode ser dissociada de sua crença na natureza representativa do construtivismo. O autor, de fato, detectava nas construções planas realizadas pelos construtivistas "a representação de um mecanismo ou de um sistema construtivo que podia ser realmente construído". Ao contrário, a cor, elemento informe, não se incluía em nenhuma forma de representação16, daí Cor vermelha pura, Cor amarela pura e Cor azul pura, apresentadas por Rodtchenko na exposição "5 x 5 = 25" (1921), serem consideradas atestados de morte da pintura.

Rodtchenko, de resto, vinha se afastando da pintura de cavalete desde 1919, voltando-se para a construção de formas matérico-tridimensionais, ou pesquisando as qualidades autônomas dos pigmentos. Entre 1920 e 1921 realiza uma série de construções plástico-arquitetônicas – estruturas geométricas suspensas no espaço, feitas de materiais como madeira, papelão e compensado – que propõe uma troca de função entre arte e decoração. Nesse momento, declara a superação do pincel e a necessidade de lançar mão dos "novos instrumentos da técnica moderna" para a configuração da arte do futuro, isto é, da arte de uma sociedade transformada pela industrialização. Rodtchenko está propondo, desse modo, um projeto artístico articulado ao crescimento tecnológico da sociedade comunista: por isso é necessário que o artista se liberte da pintura tradicional e do uso decorativo da forma para engajar-se num sistema de trabalho criativo, no qual a forma está associada à matéria e a seus usos estruturais e funcionais.

As telas apresentadas na exposição de setembro de 1921 – superfícies monocromáticas, nas quais é afirmada a pureza analítica do material – confrontam o espectador com o limite máximo da pintura não-objetiva. Com elas, Rodtchenko demonstra que numa superfície plana só pode ser aplicada uma única cor, sem qualquer forma, posto que ela própria é forma. Ao mesmo tempo em que abre caminho para uma nova concepção de pintura, dissociada de todo símbolo psicológico e de todo sentimento pictórico, avessa a toda concepção mimética, o artista declara o fim da arte pura como possibilidade de uma prática revolucionária17.

A atitude de Rodtchenko está profundamente enraizada no debate cultural que se havia instaurado na Rússia depois da Revolução de outubro de 1917. A condenação do quadro de cavalete não é apenas uma tomada de posição contra uma forma de arte considerada ultrapassada e inadequada a representar a nova realidade revolucionária. O quadro de cavalete é atacado por uma razão bem mais precisa: a necessidade de mudar a propriedade dos meios de produção. Boris Arvatov demonstra claramente a impossibilidade da existência de um quadro de cavalete proletário em função da origem classista desse tipo de suporte:

Um quadro de cavalete, independente de seu conteúdo, será sempre um produto da arte burguesa, mesmo que o tenha pintado um proletário; por ser de cavalete e por ser quadro, nunca se transformará em proletário.
Pensar no impacto ideológico proletário de um quadro de cavalete é um erro, precisamente pela forma do quadro. Impossível de ser fabricado em série, de ser multiplicado, desligado de toda função social prática, situado de maneira totalmente casual, o quadro é organicamente incapaz de surtir o efeito que dele se espera, portanto não vale a pena pintá-lo. Delacroix, que pintou uma barricada, prestou o mesmo serviço ao movimento revolucionário francês que Géricault com seus cavalos de corrida18.

Fiel a esse pressuposto, Arvatov não hesita em apontar o erro dos artistas construtivistas no período que antecedeu a revolução. Interessado na transformação artística dos materiais, o artista novo acredita ser "criador de um mundo independente de formas, quando, na verdade, se atola cada vez mais no mundo do objetivo em si, sempre preso ao cavalete". Após a revolução, percebeu, porém, a tarefa que lhe cabia: a transformação dos materiais será "uma grande força organizadora se for aplicada à criação de formas necessárias, utilitárias de objetos"19.

Rodtchenko engaja-se ativamente naquela vertente de produção artística que Arvatov denomina de "industrialismo", desejoso, antes de tudo, de conferir uma função social à arte. Nessa perspectiva, a arte não pode estar dissociada do processo produtivo, daí a condenação do quadro de cavalete como relíquia do sistema artesanal. Inserido numa nova realidade, o artista terá como tarefa primordial a construção da vida diária, participando da produção dos "meios de consumo produtivo", ou seja, dos transportes, das construções, do vestuário, dos utensílios de cozinha, da literatura prática, etc. Integrante do processo produtivo, o artista será um "engenheiro desenhista", capaz de elaborar uma nova linguagem a partir dos novos meios de produção20.

Muitos artistas filiados ao Instituto de Cultura Artística de Moscou, entre os quais Rodtchenko, aderem à plataforma produtivista, abandonando o terreno da arte pura para trabalhar em contato direto com a indústria. O entusiasmo dos artistas é, de certo modo, refreado pelas diretrizes da Nova Política Econômica (1921-1927), que permite reconstruir o aparato industrial e a rede de transportes e comunicações anteriores à revolução, reservando, porém, um espaço ainda pequeno ao planejamento sistemático do desenvolvimento futuro. Uma vez que o objetivo fundamental da política econômica é a "acumulação originária", a população não pode contar, de início, com um incremento do consumo, pois faltava o que era essencial nesse sentido: novos métodos de produção industrial e de distribuição. No campo cultural, a falta desses requisitos básicos é explicitamente reconhecida por Arvatov, que localiza os maiores resultados do industrialismo na literatura, no teatro, na cinematografia (por não necessitarem tanto de instalações tecnológicas) e na arquitetura (em virtude do esforço construtor que estava tomando conta do país). Se o atraso da indústria e as dificuldades financeiras do Estado haviam sido um obstáculo ao desenvolvimento das artes plásticas, assim mesmo Arvatov enumera um conjunto de realizações expressivas: cartazes, cenografia e poligrafia, nas quais foi criado "um estilo de montagem"21.

Além das dificuldades advindas de um sistema industrial pouco desenvolvido, que acaba levando os artistas plásticos apenas para o design, os produtivistas vêem-se às voltas, a partir de 1922, com a doutrina do "realismo heróico", formulada pela Associação dos Artistas da Rússia Revolucionária. Os objetivos do grupo, apresentados na Declaração de junho de 1922, embora genéricos, eram claramente políticos. Os artistas da associação não só propunham a representação da vida atual, como tinham focos bem determinados: o Exército Vermelho, os operários, os camponeses, os líderes revolucionários, os heróis do trabalho. Além da vida desses personagens, estavam voltados para a representação do "dia da Revolução" e do "momento da Revolução" nas "formas monumentais do estilo do realismo heróico". Apresentando-se como os porta-vozes da "vida espiritual do povo", os pintores da associação estavam determinados a oferecer "um retrato verdadeiro dos fatos, e não tramas abstratas desmerecendo nossa Revolução diante do proletariado internacional". Esses propósitos estão claramente explicitados nas várias exposições organizadas pelo grupo que tiveram como tema a industrialização (1923), o Exército Vermelho (1922, 1923 e 1928), a vida revolucionária e o trabalho (1922, 1924 e 1925), entre outros. A aproximação com o renascido grupo dos Errantes, igualmente contrário às tendências anti-realistas, propiciou, por outro lado, a retomada da retratística e das cenas de gênero22.

A polêmica contra os produtivistas tem um de seus maiores representantes em Eugeni Katsman. Ele não só os considera "pintores de pequeníssimos grupinhos", como coloca em dúvida seus propósitos revolucionários, por serem discípulos de mestres como Cézanne, Picasso, Matisse e Marinetti, "ideólogos de grupúsculos de intelectuais burgueses do período de tensão capitalista, de contradições nervosas, do período em que 'o martelo do antagonismo capitalista' forjou a consciência individualista"23.

A ofensiva realista contra o produtivismo não é um fato isolado, vem amparada pela hostilidade contra os movimentos modernos que se tornava cada vez mais evidente no âmbito oficial da revolução. Já em 1920 Lenin polemiza com as tendências da arte moderna e com sua plataforma futurista, pois acreditava que a cultura estava enraizada dialética e organicamente no passado. Só explorando ao máximo o legado da cultura burguesa era possível construir uma cultura proletária, isto é, uma cultura que pertencesse ao povo e que fosse compreendida pelo homem médio. Uma vez que as vertentes modernas, entre as quais o construtivismo, não eram acessíveis a esse homem, Lenin considera-as totalmente inadequadas para a configuração da arte marxista. Além disso, a arte abstrata negava a significação do mundo material da natureza e da sociedade humana que, em sua visão, integravam uma única realidade.

A opção por uma linguagem realista, inspirada pelo realismo progressista da segunda metade do século XIX, não responde apenas a um gosto pessoal. Se Anatoli Lunatcharski lembra que Lenin gostava dos clássicos russos e do "realismo na literatura, na pintura, etc.", o que é de fato determinante na adoção de uma plataforma realista é a função propagandística em termos sociais e partidário que o líder revolucionário atribuía à arte24.

Essa diretriz é claramente explicitada na política cultural do governo bolchevique por meio de um porta-voz como Lunatcharski, comissário do povo para a Instrução Pública. Num artigo intitulado "A revolução e a arte" (1922), Lunatcharski confia à revolução a tarefa de salvar a arte do "pior tipo de decadência" – o formalismo –, devolvendo-lhe "seu destino autêntico: a poderosa e contagiosa expressão das grandes idéias e das grandes vivências". Se a revolução é um precioso auxiliar da arte, esta, por sua vez, deve ajudar o estado a "difundir o gênero revolucionário de idéias, de sentimentos e de ações por todo o país". O que significa que a arte deve converter-se em propaganda:

Quem não conhece a força da propaganda? O que é a propaganda, em que se diferencia da clara, mas um tanto fria publicidade, da exposição objetiva e metódica de fatos e de construções lógicas?
A propaganda diferencia-se da publicidade por, antes de tudo, inquietar os sentimentos de quem a ouve ou lê, e influir diretamente sobre sua vontade. Em outras palavras, exalta o conteúdo da mensagem revolucionária e o obriga a resplandecer com todas as cores. [...] o grande propagandista coletivo que é o Partido Comunista deve dispor de todos os meios da arte que, dessa forma, se converterá em poderoso esteio da propaganda. Não só os cartazes, mas também, de uma forma menos fugaz e contendo idéias mais profundas, os quadros e as esculturas podem resultar, por assim dizer, no meio patente para a assimilação da verdade comunista25.

A associação entre arte e propaganda faz com que Lunatcharski, embora não negando a qualidade das obras produzidas pelos artistas de vanguarda, as considere inadequadas à revolução. Os trabalhos dos artistas das novas tendências "eram mais adequados à indústria e à ornamentação artística" e "impotentes para expressar o novo conteúdo ideológico da revolução", a exigir "uma expressão realista, uma forma transparente, saturada de idéias e de sentimentos". O interesse do governo em promover uma arte de fácil decodificação leva-o a desenvolver duas ações paralelas: a salvaguarda do "que havia de melhor na arte antiga, pois sua assimilação é necessária aos futuros passos da arte renovada" e o apoio a toda inovação "que seja útil ao desenvolvimento das massas populares"26.

Esse clima cultural, no qual a arte é concebida como "ilustração político-social", como propaganda, a não ser nos momentos em que está a serviço da indústria27, é propício à revalorização de uma pintura objetual e realista, que se opõe ao experimentalismo técnico-formal graças a uma figuração nitidamente antivanguardista. Diante dessa campanha sistemática contra as novas tendências, condenadas por se afastarem do "discurso humano"28, a opção de Klutsis pela fotomontagem demonstra ser uma escolha acertada, pois lhe permitia salvaguardar algumas conquistas fundamentais das vanguardas soviéticas e satisfazer ao mesmo tempo a demanda por uma arte ideológica de caráter icônico. Seu exemplo será seguido por outros artistas de vanguarda que se voltam para a fotografia e sobretudo para a fotomontagem como uma maneira de reintroduzir a iconicidade na representação plástica sem que fossem necessários o retorno de uma figuração naturalista e a mediação de velhas técnicas29.

Nesse contexto não faltam críticas à Associação dos Artistas da Rússia Revolucionária, cujas pretensões realistas haviam sido colocadas em xeque pela fotografia. Ossip Brik estabelece uma clara distinção entre a tarefa do fotógrafo, que é a de documentar a vida, e a do pintor, que consiste em recriar o objeto a partir de leis puramente pictóricas. Por isso, a pintura realista parece-lhe um esforço vão, embora motivado por três fatores sociais: o interesse por uma documentação da nova vida, o alto índice de desemprego dos pintores, a decadência do nível artístico do público "incapaz de distinguir entre uma representação precisa da natureza e outra muito aproximada". Em sua defesa extrema da fotografia, Brik não deixa de atribuir-lhe uma funcionalidade que deveria colocá-la ao abrigo das novas investidas da pintura: "O fotógrafo registra a vida e os acontecimentos de um modo mais barato, mais rápido e mais preciso que o pintor. Nisso residem sua força, sua grande significação para a sociedade. Nenhuma recaída nos primitivos métodos pictóricos o apavora."30

Os artistas das novas tendências, mesmo contribuindo para a construção de uma arte popular e nacional, que respondia à necessidade de representar um conteúdo "amplo, monumental, espontâneo, eterno e grandioso"31, guardam em suas composições fotográficas ou de derivação fotográfica muitos dos princípios construtivistas, que aplicam a cartazes, capas de revistas e de livros, publicidade, entre outros.

Rodtchenko e a fotomontagem
As primeiras experiências de Rodtchenko com a fotomontagem estão, entretanto, mais próximas dos princípios construtivistas do que de uma retórica popular. É o caso do projeto da capa do número um e dois da revista Lef (1923), determinada por uma organização de caráter construtivo. Um retângulo preto aberto na base serve de moldura a dois dos instrumentos que revolucionaram a comunicação moderna: uma máquina de escrever e, em primeiro plano, uma objetiva ladeada à esquerda por uma câmara. A objetiva e a câmara são colocadas entre os algarismos 1 e 2 reproduzidos em vermelho, formando um contraste cromático com eles, uma vez que são pretas por sua origem fotográfica. O contraste cromático é retomado no nome da revista, preto na parte superior e vermelho na inferior. Esse tipo de solução gráfica já havia sido ensaiado pelo artista nas capas de Kino-fot (1922), nas quais as letras são usadas como elementos construtivos. É nessa revista que Rodtchenko divulga seu primeiro trabalho com a técnica da fotomontagem: a capa para o livro de poesias de Ivan Aksionov, intitulado As colunas de Hércules (1920).

A geometrização rígida, que está na base dessa primeira experiência, não é a marca distintiva de seu trabalho mais bem sucedido com a nova técnica: a capa e as ilustrações para o poema de Vladimir Maiakóvski, Sobre isso (1923). Embora Rodtchenko retome um aspecto fundamental de sua poética construtivista – o uso da linha como elemento que delimita os planos e propicia uma construção bidimensional –, o resultado é uma composição fluida, para a qual convergem imagens de diferentes proveniências: anúncios publicitários, material de revistas e jornais e fotografias pessoais de Maiakóvski e Lília Brik, a inspiradora do poema.

O autor das imagens pessoais de Maiakóvski e Lília Brik não é Rodtchenko, mas um fotógrafo profissional, Abram Shterenberg, que atua sob a direção do artista. Por isso, a imagem da capa, que é antes uma colagem do que uma fotomontagem, é reportada por Andrei Nakov à militância não-objetiva de Rodtchenko, patente na perfeita simetria da composição, na frontalidade absoluta assumida por Lília Brik e na bidimensionalidade obtida com a eliminação do plano de fundo32.

O uso de fotografias do poeta e da amante, entremeadas por imagens contextuais, é motivado pelo caráter profundamente pessoal de Sobre isso, no qual Maiakóvski faz a defesa da liberdade pessoal numa sociedade revolucionária e dá livre vazão a seu amor por Lília Brik. De acordo com Victor Margolin, Rodtchenko concebe o poema como um texto teatral, do qual ele seria o diretor. Maiakóvski e Lília Brik são fotografados em vários momentos por serem os atores da peça, para a qual o artista traz elementos realistas estabelecendo um elo com a vida do poeta33. Um elemento realista são, por exemplo, os algarismos 67-10, que comparecem na segunda prancha, pois correspondem ao número telefônico de Lília Brik.

A justaposição de imagens realizada por Rodtchenko não é casual nem arbitrária. Em termos estruturais, é possível perceber a presença de um princípio organizador graças a uma linha (invisível) que estabelece um elo entre o acúmulo de imagens e o fluxo do texto, ilustrado num sentido não convencional. Rodtchenko tenta interpretar de maneira dinâmica as imagens que a leitura do poema evoca: o dinossauro e os ursos polares, que figuram na segunda e na terceira pranchas, correspondem a trechos específicos do poema, nos quais Maiakóvski faz referência aos ciúmes provocados por Lília Brik, que transformam sua fala ao telefone num "monstro dos tempos trogloditas" e convertem o amante num urso. O tamanho dado ao telefone e ao dinossauro, que sobrepujam as imagens do poeta e da empregada, é aproximado por Margolin da montagem de atrações, proposta por Eisenstein no mesmo período. Se é próprio da montagem de atrações produzir a construção de uma ação, Rodtchenko propõe ao leitor não um mergulho no trabalho de Maiakóvski, e sim um conjunto paralelo de elementos que lhe permitiriam perceber as tensões e direções do poema. No caso específico da segunda prancha, isso seria proporcionado pelo tamanho díspar das imagens e pela presença incongruente do dinossauro ao lado do poeta que gerariam um efeito de distanciamento34 (Figura 2).

As fotomontagens concebidas para Sobre isso, por não se pautarem por um desenvolvimento coerente em termos visuais e narrativos, podem ser aproximadas das experiências dadaístas. Rodtchenko lança ainda mão da técnica para executar algumas capas de livros. Para Mudança de tudo (1924), coletânea de poemas construtivistas, propõe uma composição tridimensional, caracterizada por diferenças de escala bem marcantes. Para Sífilis (1926), de Maiakóvski, utiliza a imagem negativa de um rosto masculino, à qual sobrepõe um círculo branco atravessado pelo título, na altura dos cabelos, para sublinhar a crítica do poeta à sociedade capitalista. Para Materialização do fantástico (1927), de Ilya Ehrenburg, realiza um outro tipo de experiência: trabalha simultaneamente com uma imagem positiva e uma imagem negativa da esposa Varvara Stepanova. A imagem positiva constitui a base da fotocomposição. A ela, na parte central, sobrepõe uma faixa em negativo, o que lhe permite realçar o nariz e a boca e criar um efeito de estranhamento nos olhos. Na capa e na contracapa de um outro livro de Maiakóvski, Para Sergei Essenin (1926), vale-se de suas próprias fotografias experimentais de imóveis e pontes de ferro. Como Essenin fora um cantor da vida camponesa, as fotomontagens realizadas por Rodtchenko sublinham o conflito entre a vida natural e a vida urbana transformada pela tecnologia graças à sobreposição de um feixe de espigas a uma ponte ferroviária e de uma casa de campo a um detalhe de um edifício moderno visualizado em diagonal. Nenhum desses trabalhos responde aos pressupostos de uma arte ideológica. Todos eles desnorteiam o leitor com seus saltos ou com uma proposta alegórica, longe da idéia de uma visualidade de fácil decodificação.

Se o engajamento político e social não é a nota dominante dessas primeiras fotomontagens, Rodtchenko tem condições de provar sua proximidade das diretrizes oficiais numa série de trabalhos publicitários e na produção de cartazes e de capas para livros de apelo popular. Em colaboração com Maiakóvski, realiza entre 1923 e 1925 cartazes para empresas estatais e para a loja de departamentos GUM, lançando as bases dos "primeiros anúncios realmente soviéticos, que se voltavam contra as cabecinhas, as flores e outros ouropéis, em voga no período da Nova Política Econômica"35. Nesses trabalhos, reproduzidos em litografia e off-set, Rodtchenko lança geralmente mão de um desenho simplificado, não raro rudimentar, para atingir uma comunicação imediata e sem qualquer tipo de ambigüidade. Em alguns momentos, quando utiliza um procedimento como a colagem, consegue efeitos mais dinâmicos, que evocam o fluxo visual das fotomontagens. A simplificação do desenho, bem como a planaridade da superfície cromática, a separação entre texto e imagem e a introdução de pontos de exclamação e flechas visam a proporcionar uma maior clareza formal e comunicativa. Em busca de um impacto visual imediato, o artista abandona a representação perspéctica, propondo imagens absolutamente bidimensionais.

Embora a lógica da fotomontagem não esteja ausente de muitos trabalhos publicitários, caracterizados pelo uso de um fluxo de imagens ligadas entre si por elementos gráficos, Rodtchenko utiliza explicitamente a técnica no cartaz de Cine-olho (1924), de Dziga Vertov, e nas capas dos livros da série Mess Mend (1924), de Jim Dollar (pseudônimo de Marietta Chaguinian). Tanto o cartaz do filme de Vertov quanto as capas dos livros de detetive distinguem-se pelo uso de um padrão de derivação construtivista. As imagens fotográficas são inseridas numa estrutura equilibrada, na qual os elementos gráficos são controlados em termos de tamanho e de disposição para não entrarem em choque com os elementos icônicos. Em Cine-olho, a imagem do olho humano se metamorfoseia com a do olho da câmara, sendo o elemento determinante da composição. Para a série Mess Mend, Rodtchenko concebe uma capa padronizada: um hexágono, no qual são inseridas, a cada vez, imagens fragmentárias que compõem uma narrativa visual de apelo imediato, encimada por flechas direcionais, pelo número do volume, pelo título e pelo nome do autor. Os elementos gráficos ajudam a reforçar o efeito icônico, agem como uma espécie de moldura a realçar um fluxo de imagens sem um centro determinado e sem um princípio hierárquico organizador. Uma vez que o artista não encontra nas revistas ilustradas todo o material necessário à construção dos diversos momentos da narrativa de Dollar, que tem como protagonistas operários norte-americanos empenhados em desvendar um complô internacional anti-soviético, utiliza como modelos para a confecção do material complementar a mãe, a esposa e os amigos, além de ele próprio encarnar a figura do detetive que comparece na capa do oitavo volume (Figura 3).


Esse tipo de produção demonstra que Rodtchenko está tentando fazer de cartazes e capas instrumentos de configuração de uma nova visualidade, não distante de preocupações de transformação social. Uma nova modalidade de fotomontagem, porém, o aproxima ainda mais das diretrizes oficiais. A partir de 1924, o artista torna-se fotógrafo e começa a utilizar suas próprias imagens na realização das fotomontagens. Cria, assim, uma nova modalidade de composição: deixa de lado a fragmentação das primeiras experiências e estrutura suas fotomontagens a partir da combinação de fotografias ou conjuntos de fotografias individuais. Varvara Stepanova apresenta uma justificativa ideológica para esse novo momento:

O próprio artista deve realizar suas fotografias. Ele busca aquele instantâneo particular que satisfará seus objetivos – pois montar as fotografias de outrem não preencheria suas necessidades. Por isso, o artista abandona uma montagem artística de fragmentos fotográficos em prol da própria tomada peculiar da realidade36.



Fotomontagem e política: Klutsis
Rodtchenko não é o único artista a voltar-se para esse novo vetor da fotomontagem, que dá preferência à combinação de imagens integrais para compor uma narrativa politicamente engajada. Também El Lissitzki, que se aproxima da fotografia a partir de experiências com a fotomontagem37, propõe em 1926 "uma nova forma estética" para a nova linguagem, "claramente determinada em termos sociais". Ao defender o uso de "fotografias acabadas, integrais" como elementos a partir dos quais é possível construir "uma totalidade", o artista não só propugna a existência de "leis de formação" específicas para a fotomontagem, como estabelece uma relação intrínseca entre ela e o público de massa forjado pela revolução de 1917. Por isso, não hesita em reportar as experiências dadaístas ao âmbito estritamente artístico, abrindo uma única exceção para a Alemanha, em cujas produções reconhece a presença de "objetivos políticos"38.

Essa concepção de fotomontagem, na qual os elementos icônicos adquirem uma importância decisiva, tem um exemplo paradigmático no fotoafresco A tarefa da imprensa é a educação das massas (1928). Concebido para o Pavilhão Soviético da Exposição Internacional da Imprensa e da Editoria (Colônia, 1928), o fotoafresco, realizado com a colaboração de Sergei Senkin, é formado por uma compilação de imagens dispostas numa grade irregular. O efeito do conjunto é altamente dinâmico, uma vez que Lissitzki e Senkin justapõem em alternância diferentes ângulos de visão, close-ups e tomadas longas, proporcionando uma imagem cinemática das realizações soviéticas no campo do jornalismo e da editoria39 (Figura 4).


Em seus trabalhos Rodtchenko e Lissitzki demonstram, de maneira inequívoca, que a arte deve ser concebida como propaganda, isto é, como tomada de posição e alinhamento com as exigências do momento histórico. Lissitzki já havia deixado isso bem claro na conferência sobre arte russa, proferida em Berlim e Amsterdã em 1922. A revolução de outubro havia confrontado os artistas com uma questão fundamental: "que papel desempenha a arte na nova sociedade, na qual o campo da atividade criadora se torna propriedade comum?"40. A resposta dada por ambos os artistas não deixa dúvidas sobre sua adesão às exigências do momento histórico: a opção pela imagem fotográfica é uma maneira de satisfazer as necessidades de um público de massa, em grande parte semi-analfabeto.

Na década de 1920, a adesão mais evidente à propaganda é, sem dúvida, a de Klutsis, que se dedica à produção de cartazes políticos de derivação fotográfica. Como lembra Margarita Tupitsyn, desde A eletrificação de todo o país, o artista estava preocupado com a relação visual entre o líder revolucionário e as massas. Ao primeiro líder, Lenin, além das produções já analisadas, Klutsis dedica uma série de fotomontagens em 1924, apresentando-o como uma força inspiradora a animar diferentes atividades sociais. Essa exaltação da figura individual sofrerá uma transformação a partir de 1928, quando é lançado o Primeiro Plano Qüinqüenal: nesse momento entra em cena um herói coletivo, as massas soviéticas41.

Mesmo ao representar o novo ator social, Klutsis não deixa de lado os pressupostos construtivistas de suas primeiras fotomontagens, sobretudo o recurso à diagonal. Em A realização nos transportes do Primeiro Plano Qüinqüenal (1929), a combinação de elementos icônicos e visuais, dispostos em diagonal, confere um aspecto dinâmico ao conjunto, enfatizando o esforço industrializador empreendido pelo país (Figura 5). O mesmo recurso é utilizado em Pagaremos a dívida do carvão do nosso país (1930), no qual as diagonais formadas pelas pernas das três figuras de mineradores em movimento emprestam à imagem uma idéia de dinamismo e coesão; e no projeto de Trabalhadores e trabalhadoras, todos à eleição dos Sovietes (1930), para o qual o artista concebe uma diagonal em progressão, a partir dos diferentes tamanhos das mãos espalmadas. A ela contrapõe-se uma outra diagonal, formada por imagens de uma multidão de mãos erguidas, de maneira a enfatizar a importância política do evento e o papel da coletividade42. Klutsis adota uma solução semelhante em Vamos realizar o plano das grandes obras (1930), no qual a uma grande mão espalmada se sucedem mãos de diferentes tamanhos e cenas de trabalhadores formando uma única diagonal. Nesse cartaz, destinado à divulgação do Primeiro Plano Qüinqüenal, a mão reveste-se de um significado global: a adesão dos trabalhadores ao projeto governamental desdobra-se na representação do principal instrumento e símbolo do trabalho.


As fotomontagens políticas da década de 1930 passam por um processo de "normalização". Klutsis abranda o uso da diagonal em prol de uma composição baseada na simetria, como demonstra A luta pelo aquecimento e pelo metal (1933), dedicada à mineração. Para esse cartaz, o artista concebe uma estrutura vertical dominada pelas figuras de dois mineradores. O resultado da mineração – o pleno funcionamento da produção industrial e do sistema de transportes – integra-se harmoniosamente com as duas figuras gigantescas, gerando uma imagem equilibrada, para a qual contribui também o empuxo vertical das chaminés das fábricas, simetricamente dispostas.

O uso da diagonal não é abandonado de todo. Quando ela aparece, no entanto, não desempenha mais uma função dinâmica. Em A luta pela colheita bolchevista é a luta pelo socialismo (1931), as duas diagonais formadas pelo campo geram linhas de fuga que projetam o espaço da composição ao infinito. Em A realidade do nosso programa é o povo verdadeiro, somos você e eu (1931), a disposição dos grupos e dos caracteres gráficos apresenta uma direção diagonal, sem que isso perturbe o equilíbrio do conjunto e o ritmo coeso do avanço dos trabalhadores capitaneados por Stalin.

O novo líder político torna-se o protagonista absoluto dos cartazes realizados por Klutsis na década de 1930, levando-o a buscar a relação visual correta entre ele e as massas. Stalin, em geral, sobressai da multidão, ao ganhar uma dimensão monumental, que contribui para a mitologização de sua figura e da realidade do país. Mesmo a relação com outros membros do Partido Comunista é regida pela monumentalidade da escala: numa fotomontagem realizada para o jornal Pravda (1935), a imagem de Stalin impõe-se sobre um retrato de Lenin, situado em segundo plano. A pose confiante assumida por ele é reforçada pelo uso de imagens que remetem ao poderio do país (fábricas, colheitadeiras, aviões e dirigíveis) e à satisfação de seu povo43.

O culto de Stalin é paralelo ao poder autocrático exercido por ele no momento em que a União Soviética opta por uma política industrial baseada nos planos qüinqüenais, com a conseqüente primazia da indústria pesada e de bens de produção, e pela coletivização forçada da economia agrária. O planejamento industrial não responde apenas à necessidade de modernizar o país e de estabelecer relações de propriedade socialistas a fim de fazer frente à diferenciação social que ainda imperava no campo. O avanço do fascismo na Europa Central e, sobretudo, a ascensão do nazismo na Alemanha faziam aumentar o perigo de uma guerra de agressão contra a Rússia, o que motiva a urgência de constituir uma indústria bélica nacional.

A defesa do país passava também pelo aniquilamento da base econômica dos kulaks, que haviam se apropriado de grandes latifúndios durante a revolução de 1917, sujeitando os camponeses mais pobres. Os kulaks – e mesmo os camponeses médios – eram considerados perigosos porque se temia que pudessem tornar-se aliados de uma intervenção anticomunista vinda do estrangeiro, a fim de defender seus interesses econômicos.

Longe da imagem de união e felicidade divulgada pela propaganda oficial, a sociedade soviética vivia um momento particularmente difícil: o nível de vida do operariado industrial havia piorado em virtude do escasso desenvolvimento da indústria de bens de consumo; a aplicação violenta da coletivização forçada no campo teve como conseqüências uma drástica redução da produção agrícola e a oposição à política governamental de quase todos os camponeses, inclusive aqueles das camadas inferiores.

A técnica da manipulação torna-se difusa, pois o Partido Comunista da União Soviética não tolerava debates internos, nos quais poderiam vir à tona os contrastes existentes no interior da sociedade e, muito menos, que tais controvérsias chegassem à opinião pública. Por isso, em 1933-1934 é suprimida a democracia interna, com a transformação da doutrina leninista do "centralismo democrático" na doutrina stalinista do "caráter monolítico do partido"44.

Para assegurar que as obras de arte responderiam aos requisitos de legibililidade e comunicação direta com as massas, o Estado, que era o único intermediário entre os artistas e o público, passa a exercer um controle rigoroso sobre a produção cultural. Os planos qüinqüenais necessitavam de um apoio propagandístico para poderem firmar-se junto à opinião pública, razão pela qual não poderiam mais ser permitidas todas as divergências entre artistas e intelectuais que haviam pontuado a década de 1920. Requeria-se, ao contrário, a convergência de todos os esforços para operações que trouxessem um apoio concreto à linha do partido. Por isso, em 1932, é promulgado um decreto oficial que põe fim a todos os grupos artísticos e literários, prevendo sua reorganização em diversas federações centrais, de acordo com a própria especialidade. No caso das artes plásticas, é fundado o Sindicato dos Artistas Criadores. A par disso, o partido passa a exercer um controle crescente sobre os estilos e os temas das obras de arte, a fim de garantir a eficácia propagandística de quadros e cartazes45.

Nesse contexto, os cartazes realizados por Klutsis na década de 1930 podem ser vistos como peças de propaganda muito eficazes: ocultam as tensões que agitavam a União Soviética por trás da imagem de uma sociedade unida num esforço comum, sob a segura liderança de Stalin. Bastaria lembrar a serena ordenação geométrica de A luta pela colheita bolchevista é a luta pelo Socialismo, graças à qual as diversas colheitadeiras dão a idéia de um trabalho harmônico e coordenado. A organização dada à imagem não pode ser dissociada da importância que o tema da coletivização adquire na arte soviética. Os novos camponeses, em virtude do uso das máquinas agrícolas, eram considerados pela ideologia stalinista como parte integrante do processo de industrialização, isto é, do processo que tendia para o desenvolvimento do ponto de vista da classe proletária46.

Outros exemplos de eficácia propagandística podem ser localizados na visualização de uma comunidade coesa, empenhada numa tarefa comum, própria de Trabalhadores e trabalhadoras, todos à eleição dos Sovietes e de A realidade do nosso programa é o povo verdadeiro, somos você e eu. Ou na exaltação da industrialização de A luta pelo aquecimento e pelo metal, na qual as duas figuras de trabalhadores desempenham o papel do homem novo necessário à construção do socialismo, do herói sólido e positivo, firmemente engajado no devir da sociedade.



União Soviética em construção (USSR na stroike)
O trabalho de propaganda do regime é também confiado a publicações, entre as quais a revista USSR na stroike (1930-1941), destinada a difundir uma imagem favorável do país no estrangeiro. Publicada em alemão, inglês, francês e espanhol, a revista é também difundida na União Soviética, pois promovia uma visão otimista do Primeiro Plano Qüinqüenal. Inspirada no exemplo das revistas ilustradas alemãs da década de 1920 e da AIZ, USSR na stroike pretende "refletir na fotografia o objetivo geral e a variedade do trabalho de construção que está ocorrendo na URSS". A preferência pela imagem técnica responde a uma razão precisa. A fotografia é escolhida como "um método para ilustrar a construção socialista", uma vez que ela "em muitos casos, fala de uma maneira muito mais convincente que o artigo escrito do modo mais brilhante". De acordo com essa premissa, a revista conta com a colaboração dos principais fotojornalistas do período – entre os quais Abram Shterenberg, que havia realizado as fotografias de Sobre isso – e de artistas como El e Sophie Lissitzki, Rodtchenko e Varvara Stepanova. Também John Heartfield, que realizava fotomontagens para AIZ, órgão do Partido Comunista Alemão, colabora com USSR na stroike. Quando visita Moscou em 1931, elabora uma fotografia composta de Lenin, na qual o líder se sobrepõe a uma vista aérea da cidade (no número de setembro), concebe o layout e a capa do número de dezembro, dedicado à indústria do petróleo, e publica também a conferência sobre fotomontagem, proferida no Instituto Poligráfico da capital47.

A presença de Lissitzki e Rodtchenko é determinante para imprimir uma nova feição visual à revista. Até outubro de 1932, ela tinha uma estrutura bastante simples: era ainda praticamente uma seqüência de imagens acompanhadas de textos explicativos. Ao projetar o número de outubro de 1932, dedicado à usina hidrelétrica e à represa do rio Dnieper, Lissitzki concebe-o como uma narrativa visual na qual lança mão das técnicas da arte moderna e da tipografia: letras arrojadas, fotomontagens, cores fortes, entre outras48.

O mito do líder político é a nota dominante da narrativa elaborada por Lissitzki. Lenin é evocado inicialmente pelo lema que estivera na base do cartaz de Klutsis de 1920 ("Comunismo é governo dos Sovietes + eletrificação de todo o país." V. I. Lenin) (Figura 6). O programa de eletrificação do país é apresentado em seu estágio final graças à fotografia de duas mãos gigantescas empenhadas na abertura das comportas da represa. Desse modo, o artista cria um elo simbólico entre a ideologia da industrialização e a participação dos trabalhadores na construção do futuro do país, recorrendo a uma imagem muito empregada na iconografia da esquerda – a mão produtora e configuradora de um novo mundo.



A imagem de Lenin está presente em mais duas fotomontagens. Na primeira, Uma conversa entre dois mundos, Lissitzki propõe um contraponto entre a concretização do projeto do líder, tipificada pela presença de um trecho da rede elétrica surgida com o empreendimento do Dnieper, e a visão negativa do escritor H. G. Wells, que colocara em dúvida a capacidade da Rússia levar adiante uma iniciativa tão ambiciosa. Victor Margolin chama atenção para os recursos utilizados pelo artista para criar o contraste: diferença de escala entre Wells e Lenin, presença de uma página de Russia in the shadows em formato gigantesco nas mãos do escritor e contraposição entre um vilarejo do passado e a rede elétrica que se destaca num céu cheio de nuvens, símbolo das potencialidades ilimitadas do país49 (Figura 7).



Na segunda fotomontagem, VIII Congresso dos Sovietes, Lissitzki sobrepõe a imagem de Lenin discursando no encontro de 1920, durante o qual apresentara seu plano para a eletrificação do país, a um mapa da Rússia. Neste é destacado o lugar de construção da represa e da hidrelétrica. Uma flecha pontilhada atravessa o mapa para indicar as águas do rio que seriam represadas. A fotografia de Lenin escolhida pelo artista é bem significativa: o líder parece estar olhando para a futura realização de seu projeto, havendo uma correspondência entre a direção de seu olhar e a flecha que atravessa o mapa.

Se Lenin é a figura dominante do conjunto do Dnieper, Lissitzki não poderia deixar de lembrar Stalin, que transformara em realidade o projeto do primeiro. A fotomontagem A corrente é ligada associa a imagem de Stalin a uma mão gigantesca que aciona o dispositivo da hidrelétrica e à usina iluminada. Um feixe de raios diagonais que se irradia de diversos pontos da hidrelétrica cria uma conexão entre a mão do trabalhador e a efígie de Stalin numa retomada do dispositivo simbólico que estivera na base da primeira composição do conjunto.

Em outras fotomontagens dedicadas à usina, Lissitzki coloca em cena a capacidade soviética de concretizar um projeto utópico e sua relação intrínseca com a construção do socialismo. Em Projeto da construção do Dnieper – Construção do Dnieper concluída, a estratégia visual articula-se em quatro momentos: a apresentação do projeto pelo engenheiro Krzkizkanoski, à qual se sobrepõe a imagem dos apontamentos que serviram de base à sua elaboração; o estudo dos desenhos por uma comissão; a maquete da represa e a represa em funcionamento. Para onde vai a corrente funciona como a conseqüência lógica do empreendimento: a rede elétrica espalha-se para os quatro pontos cardeais, nos quais são destacados estabelecimentos industriais que se beneficiaram da usina50.

O conjunto finaliza-se numa imagem que enfeixa simbolicamente o significado da eletrificação da União Soviética (Bolcheviques). Lissitzki conjuga no mesmo espaço a imagem de uma manifestação política com a de diversas torres de energia para criar um efeito de correspondência entre o povo e as realizações do regime. O efeito é reforçado pela presença de uma grande faixa horizontal que une os dois planos com o dizer "Bolcheviques"; graças a ela o artista confere um ulterior significado ao povo soviético, que é visto também como beneficiário de um empreendimento tão grandioso (Figura 8).


Embora os elementos icônicos tenham o predomínio nesse conjunto de fotomontagens, elas se caracterizam também pelo emprego de alguns recursos visuais que remetem à poética do construtivismo: uso de diagonais (A corrente é ligada e a capa da revista URSS na stroike, que utiliza a mesma imagem da usina), do círculo como elemento integrador (Para onde vai a corrente), da flecha como metáfora do progresso (VIII Congresso dos Sovietes), da horizontal como plano que estrutura a composição reforçando sua frontalidade (Bolcheviques).

A colaboração de Lissitzki a USSR na stroike é bastante intensa depois de 1932 e abarca diversas temáticas: o 15º aniversário do Exército Vermelho (fevereiro de 1933), a conquista do Ártico (setembro de 1933), o 15º aniversário da indústria petrolífera do Azerbaijão (maio de 1935), o 15º aniversário da Geórgia soviética (abril-maio de 1936), a região autônoma de Kabardino-Balkarian (outubro de 1936), o povo do território de Orjonikidze (março de 1937), a Constituição de Stalin (setembro-dezembro de 1937), Ucrânia ocidental e Bielo-Rússia ocidental (fevereiro-março de 1940).

A avaliação dessa faceta de Lissitzki é bastante controvertida na historiografia artística. Benjamin Buchloh utiliza o termo "distorção" para a postura daqueles historiadores que detectam no envolvimento de Lissitzki e Rodtchenko em USSR na stroike um sacrifício em relação ao momento abstrato. O autor, ao contrário, advoga uma precisa identidade política para os dois artistas, pois considera sincero e entusiasta seu engajamento na causa stalinista. Sua atitude, aliás, é fundamental para o entendimento de um dos mais profundos conflitos da arte moderna: a dialética histórica entre a autonomia individual e a representação de uma coletividade por intermédio de sínteses visuais51.

Essa visão positiva do engajamento de Lissitzki no aparelho de propaganda do Estado não é compartilhada por Yve-Alain Bois. Em desacordo com a hipótese de Buchloh, que atribui o novo rumo tomado pelos artistas de vanguarda desde a década de 1920 não só a uma crise da representação, mas também a uma redefinição da relação da produção artística com o público de massa, Bois qualifica o trabalho de propaganda de Lissitzki como a tentativa de transformar "a arte num mero instrumento, isto é, num artefato não crítico, a serviço do poder constituído"52.

Victor Margolin, por sua vez, não concorda com esse argumento, pois acredita que Lissitzki criou um novo estilo narrativo, capaz de satisfazer os objetivos retóricos dos editores de USSR na stroike. O que Margolin entende por novo estilo narrativo pode ser inferido de sua análise do trabalho dedicado à conquista do Ártico:

Lissitzki estava se tornando perito em combinar logotipos e patos, informação e emoção em seus layouts. Usando contrastes de escala, mapas, fotomontagens e amplos desdobramentos fotográficos, era capaz de descrever a história da expedição ao Ártico com inúmeros detalhes, sem deixar de infundir um senso do extraordinário no ordinário, que caracterizava um dos aspectos da produção artística soviética nos anos 3053.

O novo estilo narrativo, tipificado pelas primeiras colaborações com a revista, transforma-se em "narrativa épica" em meados dos anos 1930, quando Lissitzki se afasta das experiências de vanguarda. Segundo Margolin, esse novo momento

era caracterizado por seu alcance histórico e pelo modo com que juntava grandes quantidades de informação visual – sobretudo fotografias, fotomontagens, desenhos, pinturas e mapas numa estrutura coerente. Era também caracterizado por expedientes visuais tais como emblemas heráldicos, bandeiras e outras insígnias que davam dignidade ou nobreza ao tema. Esse estilo era caracterizado igualmente por um senso de fluxo visual, capaz de transmitir a diversidade de uma região e destacar, ao mesmo tempo, imagens e acontecimentos icônicos singulares como metáforas que a caracterizavam54.

Um exemplo paradigmático dessa nova direção pode ser localizado no número dedicado à Constituição de Stalin, no qual Lissitzki, auxiliado pela esposa Sophie, trabalha com materiais de arquivo, fotografias documentais, desenhos, gráficos e mapas. Para a página de rosto, é concebida uma fotomontagem que deveria simbolizar a superioridade da vida na União Soviética (Operário e camponesa de uma fazenda coletiva). Por isso, El e Sophie Lissitzki colocam no topo de um globo terrestre – no qual o contorno da União Soviética é delineado em vermelho – a escultura Operário e camponesa de uma fazenda coletiva, de Vera Mukhina, realizada para servir de coroamento ao Pavilhão Soviético na Exposição Universal de Paris de 1937.

A escolha dessa obra para simbolizar a vida na União Soviética de Stalin é bem significativa em termos ideológicos. O grupo escultórico não só respondia aos ditames do realismo socialista, que postulava que uma obra de arte deveria ser socialmente útil, dinâmica e didática, como era também uma representação da estrutura social do país posterior ao Primeiro Plano Qüinqüenal. O operário e a camponesa que avançam juntos, levando o martelo da indústria e a foice da agricultura, simbolizam a convicção de Stalin de que o sucesso da mecanização da agricultura havia provocado uma convergência entre os interesses do operariado industrial e os do campesinato. Embora o operário ainda liderasse o processo, os dois grupos caminhavam próximos, rumo à realização de uma sociedade sem classes, verdadeiramente comunista55.

Imagens da vida no país pontuam esse número especial de USSR na stroike. Em Artigo 12, um conjunto de fotografias, representando camponeses, militares, um operário, um cientista, um músico e um funcionário, tem por objetivo reconduzir a diversidade de tarefas socialmente úteis a um denominador comum que simboliza a união nacional. A presença de uma moldura formada por uma grinalda de folhas e bagas, além de fazer referência à fertilidade do solo, pode ser reportada a uma manifestação particular do realismo socialista: a valorização da arte folclórica como criação coletiva, na qual se manifestavam a um só tempo valores locais e universais56.

Em Artigo 126, os cidadãos da União Soviética comparecem como pano de fundo de uma representação glorificadora do papel do partido na vida do país: ser a vanguarda dos trabalhadores em sua luta pelo fortalecimento e desenvolvimento do sistema socialista. A diferença de escala entre os diversos representantes das repúblicas soviéticas, altos membros do partido e Stalin é bem significativa: a centralidade do líder não deriva apenas de sua colocação estratégica na fotomontagem, mas sobretudo do tamanho gigantesco que lhe é dado, graças ao qual sobrepuja as demais lideranças políticas (representadas num tamanho médio) e as cenas de multidão (às quais é reservado um formato pequeno).

Constituição stalinista, povo soviético feliz, que encerra a narrativa visual desse número, é uma peça retórica de grande eficácia, que só aparentemente não coloca em cena o líder personalista. A justaposição de mães sorridentes carregando seus filhos, atletas desfraldando bandeiras e crianças exibindo buquês de flores, tendo como traço de união o emblema do Estado e os dizeres "Constituição stalinista, povo soviético feliz", tem seu significado reforçado por uma declaração de Stalin, que contrapõe à "barbárie fascista" a "assistência moral" e o "apoio real" que a nova Constituição do país poderia dar a todos aqueles que se opunham ao totalitarismo (Figura 10). Essa declaração visava não apenas ao público interno, mas sobretudo aos países estrangeiros nos quais USSR na stroike circulava. O clima político-social que imperava no fim dos anos 1930 – tensões internacionais, persistência da crise econômica desencadeada em 1929 e ascensão do nazismo – era favorável a uma valorização geral da potência da União Soviética e à sua idealização pelos partidos integrantes da Internacional Comunista57.


Margolin considera esse número de USSR na stroike como o ápice do estilo narrativo de Lissitzki, que vai de uma "adulação altamente emocional de Stalin às sóbrias apresentações de estatísticas industriais". Ao lembrar que essa edição, publicada no apogeu dos expurgos, tinha por objetivo desviar as atenções internacionais deles, o autor mostra como Lissitzki cria uma narrativa comprometida com o governo, adaptando seu talento às necessidades retóricas do regime58.

Se bem que em escala menor, o mesmo pode ser dito de Rodtchenko, cuja colaboração à revista é também marcada, em alguns momentos, pela dissonância entre representação e realidade. Isso fica patente no número dedicado à construção do Canal do Mar Branco (Canal Stalin), no Báltico, em dezembro de 1933. O artista realiza três viagens à região entre 1931 e 1933, cujo resultado são mais de duas mil fotografias que registravam a construção de um vasto sistema de eclusas e canais num espaço de tempo bem reduzido. Na configuração de uma épica moderna, na qual a conquista da natureza por parte da organização e da tenacidade do homem soviético é dramatizada, Rodtchenko não leva em conta os custos humanos do empreendimento. Uma vez que o orçamento destinado à obra era reduzido, recorre-se ao trabalho de presos de direito comum e políticos, que morrem aos milhares durante a construção do canal, um dos maiores projetos do Primeiro Plano Qüinqüenal59.

O artista tem uma visão positiva do empreendimento, patente não apenas nas imagens que realiza, mas também num artigo publicado em 1936:

Era uma guerra entre o homem e a natureza selvagem. O homem veio e venceu, venceu e transformou-se. Tinha chegado abatido, castigado, amargurado e saiu de cabeça erguida, com uma medalha no peito e um passaporte para a vida. [...] Fotografei de maneira simples, sem pensar no formalismo. Eu estava surpreso com a acuidade e a real sabedoria com as quais as pessoas estavam sendo reabilitadas60.

O ataque à terra foi feito com enxadas e explosivos transmite essa impressão em termos visuais. Rodtchenko mostra homens orgulhosos do próprio trabalho, engajados ativamente numa série de tarefas necessárias à construção do canal: escavando com enxadas, levando materiais no carrinho de mão, usando furadeira e explosivos, construindo as comportas. O que o artista entende por "fotografar de maneira simples, sem pensar no formalismo" é evidenciado nessa imagem, em que são deixados de lado os diversos ângulos de visão e as tomadas em diagonal, que caracterizavam a série dos Pioneiros (1928-1930) e o registro de manifestações patrióticas. Se o que está na base dessa composição é a mesma idéia de um ritmo coletivo, Rodtchenko, no entanto, não o representa a partir de uma estrutura geométrica ou de um ponto de vista inovador. Prefere confiar o impacto da imagem a uma iconicidade não alheia a certos aspectos pictóricos, evidentes sobretudo nas figuras do primeiro plano que, com suas roupas escuras, criam um contraste cromático com a paisagem nevada (Figura 11).


Outras fotografias que integram o conjunto mostram, ao contrário, um Rodtchenko mais próximo dos pressupostos do construtivismo fotográfico. É o caso de uma imagem tomada em diagonal, que confere uma inclinação acentuada à composição, gerando um efeito dinâmico. A metáfora do trabalho coletivo como equivalente à harmonia de uma orquestra é acentuada por dois recursos: a imagem de dois músicos em primeiro plano e a presença de um texto que faz referência à regeneração pelo trabalho de "ex-ladrões, bandidos, kulaks, salteadores, assassinos [que] pela primeira vez tornaram-se conscientes da poesia do trabalho, do romance da tarefa de construção. Trabalharam para a música de sua própria orquestra". É o caso também da maior parte das tomadas do canal, regidas por uma visão formalista, que dá primazia a formas puras e gigantescas para simbolizar a vitória do homem sobre a natureza.

Em outros trabalhos para a revista, nos quais conta com a colaboração da esposa, Rodtchenko realiza algumas experiências visuais bem próximas de seu momento vanguardista. É o que acontece, por exemplo, no número de agosto de 1936, dedicado à exportação de madeiramento. Em O madeiramento chega aos portos de todas as partes da União Soviética, Rodtchenko e Stepanova apresentam uma fotomontagem regida por dois registros: um realista (trem, navio e parte superior de um edifício oficial), outro abstrato (as pilhas de madeira). Este último evoca as diagonais dinâmicas que Rodtchenko havia usado no trabalho gráfico dos anos 1920, além de trazer a marca daqueles ângulos de visão não usuais que haviam caracterizado sua primeira fotografia (Figura 12). Os mesmos parâmetros podem ser encontrados numa composição reproduzida em página dupla, na qual se destaca, primeiramente, uma imagem de troncos cortados, em fileiras cerradas, formando um padrão geométrico. Em cima deles, Rodtchenko e Stepanova colocam um semicírculo com a fotografia de um navio. A segunda parte da composição representa pilhas de madeira que criam uma estrutura geométrica e linear, às quais é sobreposta a imagem de uma serraria englobada num outro semicírculo. A fonte dessas imagens deve ser buscada no trabalho realizado por Rodtchenko com a equipe do documentário Exploração industrial da madeira, que não chegou a ser concluído (1931). Naquela ocasião, o artista havia realizado uma série de fotografias que remetem aos postulados do construtivismo fotográfico, pois se caracterizavam por tomadas em diagonal e por efeitos freqüentemente lineares e abstratos.


Múltiplos ângulos de visão e uma sutil estruturação geométrica conferem um aspecto dinâmico e, em certos momentos, abstrato à fotomontagem Abrindo seus pára-quedas e cobrindo o céu com eles... (dezembro de 1935). A imagem de Stalin, que se destaca no interior de um círculo, olhando para o alto, deve ter sido provavelmente inserida por motivos editoriais a fim de reforçar a idéia do vigor do temperamento soviético. Na apresentação do número há, com efeito, um editorial que propõe um elo simbólico entre o pára-quedismo e "nosso empenho stalinista, nossa vontade de voar mais alto, nosso desejo de ampliar o horizonte da vida, de fazê-la mais brilhante, mais vasta e mais alegre"61.



Pelo prisma do mito
O engajamento de Klutsis, Rodtchenko e Lissitzki na causa da revolução é marcado por alguns dos postulados-chave da estética oficial: preocupação com o realismo, o didatismo, a clareza da mensagem e a utilidade social; figuração do herói positivo; inserção da tese no espaço da composição; escamoteio de todo conflito, entre outros62. Diante desse quadro de referências, o que cabe discutir não é o "sacrifício" que esses artistas fizeram para servir à razão política, mas a decisão por eles tomada de desenvolver novas ferramentas visuais para disseminar a mensagem revolucionária. Margarita Tupitsyn não tem dúvidas de que o uso de fotografias e fotomontagens num suporte como o cartaz foi a última grande experiência da vanguarda soviética, tendo conseguido adaptar-se surpreendentemente às necessidades da propaganda visual de Stalin63.

Se for analisado o engajamento político dos três artistas, a adaptação de suas linguagens à propaganda stalinista não parecerá, contudo, surpreendente. No caso de Klutsis, é visível sua vontade de contribuir para a construção do mito do novo mundo e do papel desempenhado dentro dele pelo homem novo. A fotomontagem O velho mundo e o mundo que está sendo construído agora é exemplar nesse sentido, podendo ser analisada à luz do mito de origem. Se é próprio do mito de origem justificar uma situação nova, contando como o mundo foi modificado e enriquecido, a fotomontagem de 1920 enquadra-se em seus pressupostos, pois oferece uma visualização eloqüente de dois períodos da história soviética, a fim de melhor enfatizar o momento inaugural instaurado a partir de 1917. A contraposição entre o mundo do passado, aniquilado pela revolução, e a criação do novo mundo, representada por Lenin, inscreve-se plenamente na ordem do mito, não só por ser a narrativa de uma "história verdadeira", isto é, de uma história que se refere à realidade, mas também por lançar mão de uma dicotomia simbólica, na qual o elemento icônico desempenha uma função primária em relação àquele conceitual64.

Um outro aspecto mítico permeia a produção de Klutsis: a representação do herói nacional como modelo exemplar de vida e de comportamento65. É nessa dimensão que parece residir o elo entre o Klutsis engajado na vanguarda e o Klutsis propagandista de Stalin. Lenin e Stalin são alçados, de fato, a uma condição heróica, por terem salvado o povo da opressão e da fome, oferecendo-lhe um presente sereno e livre de tensões e um futuro brilhante. O Lenin de A eletrificação de todo o país e o Stalin de A realidade do nosso programa é o povo verdadeiro, somos você e eu, por exemplo, podem ser vistos como paradigmas dessa visão heróica pelas dimensões que lhes são dadas, ou pela simbologia de que vêm carregados: com um signo do progresso nas mãos, o primeiro; chefiando a marcha triunfal dos trabalhadores, o segundo.

Essa mesma dimensão heróica, pela qual a figura do líder emblema as conquistas sociais, enforma o trabalho de Lissitzki para o número de USSR na stroike dedicado ao empreendimento do Dnieper. Nesse, aliás, é também mobilizado o mito de origem, uma vez que Uma conversa entre dois mundos pode ser vista como uma contraposição entre a cegueira do passado (Wells) e a capacidade de escancarar o futuro graças a um gesto inaugural (Lenin).

Rodtchenko não está a salvo dos efeitos da mitologização da vida soviética, como comprova o discurso heróico que empresta à construção do Canal do Mar Branco. A documentação fotográfica produzida por ele pode ser inscrita no espaço do mito em virtude da estratégia adotada: ele não nega o emprego dos presos como mão-de-obra, pois lhe confere um significado regenerador. Desse modo, o artista fala do fato, mas o purifica, o inocenta, ao abolir toda complexidade e ao dar ao episódio uma clareza não alheia à naturalidade com o qual ele é apresentado66.

O engajamento dos artistas na causa revolucionária, que os leva a apresentar a vida do país pelo prisma do mito, de uma narrativa que confere prioridade à imagem e à metáfora, ajuda o regime a oferecer uma imagem positiva de si, livre das contradições internas que caracterizavam o período de Stalin. Esse engajamento, no entanto, não é suficiente para proteger alguns deles das vicissitudes políticas e, sobretudo, dos expurgos que estavam ocorrendo desde 1936. Klutsis será uma das vítimas da política de repressão instaurada por Stalin. Sua biografia de revolucionário da primeira hora, que participou da tomada do Palácio de Inverno, integrou a guarda militar de Lenin e pôs o próprio trabalho a serviço do regime, transforma-se em evidência negativa diante da reconstrução da revolução levada a cabo por Stalin. Acusado de pertencer a um grupo nacionalista da Letônia, é preso e executado em 193867.

É justamente nesse ano que Stalin publica a primeira edição de História do PCUS, cujos traços fundamentais são a falsificação e a manipulação dos eventos históricos e a invenção de tradições, de maneira a enfatizar o próprio papel heróico no âmbito da revolução. Rodtchenko participa desse clima de manipulação da memória: em sua cópia do livro Os dez anos do Uzbequistão – cujo projeto gráfico havia elaborado em 1934, em colaboração com Stepanova –, obscurece com nanquim os rostos de líderes que haviam caído em desgraça68. Após o fechamento de USSR na stroike em 1941, Rodtchenko e Stepanova continuam a produzir álbuns fotográficos de cunho oficial: De Moscou a Stalingrado (1943-1945); Os vinte e cinco anos do Cazaquistão (1945-1947); Cinco anos de reservas de trabalho (1945-1947). Além disso, o artista ocupa um cargo oficial: em 1944, é nomeado diretor artístico da Casa da Técnica de Moscou.

Diante desses fatos, é difícil aceitar os argumentos de alguns historiadores que tendem a minimizar, quando não negar, o real comprometimento de Rodtchenko com o regime stalinista. Alexander Laurientev, por exemplo, diz que a documentação da construção do Canal do Mar Branco era sujeita à censura: o artista só poderia fotografar cenas justificadas num plano de trabalho preliminar; o envio do material (negativos e provas) para publicação dependia de uma aprovação prévia. Esse argumento é bastante frágil, se for lembrado que o número especial de USSR na stroike e o álbum dedicado ao empreendimento do Báltico são publicados em 1933, enquanto a documentação, iniciada em 1931, estende-se por dois anos. Por outro lado, existem evidências de que Rodtchenko alterou várias fotografias para forjar alegorias de um trabalho não só produtivo como regenerador. Parece também frágil um outro tipo de argumento usado para justificar essa mesma colaboração, que acaba por contradizer a afirmação de Laurientev: tratar-se-ia de uma tentativa desesperada do artista para salvar a própria pele e para resgatar o próprio trabalho aos olhos das autoridades69.

Lissitzki, por sua vez, parece ter permanecido fiel ao regime até sua morte. Quando falece em dezembro de 1941, havia concluído o cartaz Produzam mais tanques, em apoio ao esforço bélico do país, dando mais uma demonstração de seu alinhamento à política simbólica oficial.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142005000100004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material - USP

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

As fotografias de "anjos" no Brasil do século XIX


Luiz Lima Vailati

Doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Docente dos cursos de graduação e pós graduação da Fundação Armando Álvares Penteado. E-mail: <llvailati@uol.com.br>


Os dados apresentados no presente artigo fazem parte da investigação realizada em nossa tese de doutoramento1, que discorreu acerca das práticas e representações em torno da criança morta ao longo do século XIX, no Rio de Janeiro e São Paulo, e das mudanças que ocorreram nesse âmbito. Nossa intenção, nas linhas que se seguem, é analisar uma amostragem das fotografias de crianças mortas que fazem parte do acervo iconográfico do Museu Paulista da USP, produzidas nas décadas de 1860 e 1880 na cidade de São Paulo. Analisaremos alguns elementos constantes desse corpus, os quais, como demonstraremos, testemunham permanências e mudanças no conjunto das atitudes em relação à morte na infância. Tendo em vista o universo de testemunhos que nos informam a respeito do objeto pesquisado, essa documentação se revela de enorme valor. Há de considerar-se, primeiramente, que grande parte das fontes (como os livros de registros de óbito e os relatos dos viajantes que por aqui passaram no decorrer do século XIX) de que comumente nos utilizamos para a reconstituição do objeto em questão, a partir do último quartel do XIX passam a calar-se acerca desse assunto, pelos mais variados motivos. Disso resulta que, além do fato de esse corpus (junto com algumas raras ilustrações feitas por artistas estrangeiros) constituir registro imagético das práticas e cultura material funerária -das quais a reconstrução é, em grande parte, feita por meio de fontes escritas -, cabe também ao registro fotográfico ser um dos poucos (se não o único) testemunhos da manutenção, até o início do século XIX, de uma série de comportamentos tradicionalmente relacionados ao evento. É esse mesmo motivo que, por outro lado, torna a fotografia um recurso privilegiado (como é o caso da produção escultórica cemiterial) também para a observação de mudanças que ocorreram nesse âmbito quando passa a vigorar o silêncio de outras fontes.

O acervo fotográfico relativo ao século XIX do Museu Paulista da USP dá-nos notícia de um uso do registro fotográfico que, comum já nos primeiros anos de sua difusão, hoje não é mais encontrado, sobretudo nas culturas mais urbanizadas: dele fazem parte fotografias de parentes mortos, encomendadas pelas famílias paulistas da época. Nesse caso, restringem-se exclusivamente a crianças e, mais raramente, a jovens mulheres. Com efeito, sobre o costume de se fotografar os membros mortos da família antes destes serem enterrados, Ana Maria Mauad2 observa que tais imagens têm notável presença nos álbuns de família da elite carioca durante o Império, fato que vale especialmente para as crianças. Num contexto de crescente valorização dos sentimentos familiares, no qual a fotografia é suporte privilegiado dessa manifestação, a explicação mais imediata para esse estado de coisas está no fato de ser esta a derradeira e única ocasião para deixar registrada a imagem do membro que acabara de morrer, conforme argumenta Keith McEroy para o Peru dos oitocentos3, situação tornada comum pela freqüência da morte prematura então. Como os possíveis significados dessa explicação estão relacionados a uma atitude mais recente em relação à morte menina para o período em questão, deixaremos para falar deles mais adiante.

De qualquer modo, a constatação de uma certa identidade entre crianças e jovens mulheres, revelada pela preferência ou mesmo exclusividade como objeto das fotografias mortuárias, dá indícios de sentidos que, na nossa visão, estão ligados a uma disposição mais antiga face à morte infantil e que são igualmente importantes para a explicação desse costume. É desses significados que irei me ocupar agora.

Um deles, diz respeito, basicamente, à grande importância que era dada à morte infantil na época em estudo. Este fato, com efeito, é confirmado por alguns testemunhos referentes a todo o século XIX no Brasil, nos quais se observa um zelo significativo em proporcionar à criança que acabara de morrer uma série de procedimentos julgados indispensáveis, preocupação que atinge, por sinal, até aqueles que, devido a suas carências materiais, não deixam de surpreender ao demonstrarem tal desassossego. Era bastante freqüente, por exemplo, o hábito de depositarem-se os pequenos defuntos na roda de expostos (instrumento destinado ao recolhimento de crianças abandonadas nos séculos XVIII e XIX) da Santa Casa de Misericórdia da cidade de Salvador, para a instituição assegurar-lhes que fossem devidamente enterrados4. Essa constatação é reforçada pela observação deJean-Baptiste Debreta respeito da Corte, segundo a qual seus habitantes comumente empregavam parte considerável de seu parco pecúlio na tentativa de garantir para seus pequeninos um enterro que estivesse em conformidade com o que se esperava desse tipo de evento5. Entre os mais abastados ou não, tal era o dispêndio material e simbólico investido nessas cerimônias, que não poucas vezes ele perturbava outros viajantes que por aqui passaram no correr do século XIX como o pastor Daniel Kidder, que lembrava dos funerais de crianças como "uma procissão triunfal" ou o francês Dabadie, para o qual esses lhe pareceram mais apropriados para príncipes ou senadores6.

Como ficou claro no decorrer da investigação levada a cabo no doutoramento, a enorme importância dada aos funerais de criança decorriam de uma crença não só na positividade da morte infantil - morrer criança era garantia de salvação - como também nos poderes de intercessão das crianças mortas junto às autoridades celestes em favor dos seus7. É também nesse sentido que é possível ler a grande freqüência de imagens de crianças mortas no conjunto de retratos de crianças constantes do acervo do Museu. O fato de ser o seu funeral uma das principais ou a única oportunidade em que a criança é fotografada, permite pensar, entre outras coisas, ser este um sinal acerca da importância desses eventos para a manifestação do apreço pela criança. Essa constatação fica bastante reforçada pelo fato de essas crianças, na maior parte dos casos aqui analisados (Figuras 1 a 7), terem sido fotografadas logo após saírem da toalete mortuária, com todo o aparato com que então se apresentavam para os rituais fúnebres. Isso demonstra que não há qualquer preocupação com o fato de a memória da criança propiciada pelo registro fotográfico estar associada à sua morte, uma vez que todos os elementos indicativos disso estão deliberadamente visíveis - em suma, não há qualquer tentativa de esconder que o retratado está morto. É possível, então, supor que são mesmo tais sinais que tornam, aos olhos da sociedade estudada, esta ocasião a que melhor se apresenta para oferecer a imagem que deveria durar para sempre. A fotografia permitiria, assim, fixar a visão dos seus pequenos defuntos esmeradamente preparados, obrigação a que os pais não deviam furtar-se e cujo bom cumprimento, segundo vimos, parecia ser motivo de orgulho.







É nesse sentido que as fotografias de crianças mortas nos permitem entrever a continuidade, sob um novo suporte, de uma outra característica importante dos rituais fúnebres infantis: a superexposição do morto8. A forma como eram organizados os rituais fúnebres infantis parecia, de fato, ser concebida de modo a atender ao desejo de permitir que o "anjinho" fosse visto por todos, a começar pelo fato de esses enterros, ao contrário dos de adultos, serem feitos de dia. Esta inversão dia/noite que caracteriza os "funerais de anjinho" está ligada, por sinal, com aquela que João José Reis9 observou nas procissões fúnebres infantis no Brasil oitocentista, nas quais o defunto faz "visitas" (na medida em que o cortejo procura passar pelas principais ruas da cidade) ao invés de recebê-las, como acontece aos adultos. Com efeito, aos participantes desses cortejos, desincumbidos de prestarem auxílio espiritual ao defunto (dada a certeza de sua salvação), cabia uma única atitude, a de louvar e admirar o pequeno falecido, o que significaria não apenas colocar-se sob sua proteção, como também prestigiar sua família. Tal era o esforço para conseguir o máximo nesse sentido, que há notícia de que o cadáver da criança ia de pé, em andores, devidamente paramentado e amarrado a uma estrutura vertical (o absoluto estranhamento com que isso nos aparece hoje sinaliza o teor das transformações que tiveram lugar nas práticas e representações da morte da criança ao longo desses dois séculos). Há indícios de que esse costume ainda era comum em algumas cidades no primeiro quartel do XIX10, para depois cair em desuso. Até mais tarde, todavia, como fazem testemunho outros relatos11, foi comum o uso de estrados, que também favoreciam a boa visibilidade do cadáver durante as procissões. Considerando a enorme importância que tinha o exercício de ver e mostrar o cadáver, em especial o da criança (como nos indica o uso específico dos andores para eles), a utilização da fotografia para o exercício de exposição da criança morta, aparece, por conseguinte, como um desdobramento bastante natural e um uso compreensivelmente oportuno de um recurso novo e vantajoso (no sentido de perene) em prol de um costume já há muito apreciado, qual seja, o de contemplar e de dar a ver o defunto. Esse novo suporte, não obstante, também implicou uma nova conduta em relação à visibilidade da criança morta, e dela foi sintoma, conforme discutiremos adiante.

Se, como dissemos, a presença dos signos próprios dos rituais fúnebres nessas fotografias nos impede de entendê-las como apenas um derradeiro recurso para registrar a imagem do ente querido, a análise mais pormenorizada deles possibilita, por conseguinte, entrever mais claramente as representações tradicionais que cercam a criança morta. Com efeito, os cuidados aos quais é submetido o cadáver da criança para o período em questão têm um papel de suma importância12. Como constatei em minha investigação, à exceção do batismo, os rituais da morte infantil concentram-se no momento imediato após a consumação da morte. Durante grande parte do período estudado, e para todos os mortos (adultos e crianças), esses primeiros cuidados diziam respeito à preparação do corpo para que ele fosse velado, exposto e enterrado; e esses cuidados não eram menos importantes que os outros que lhe seguiam no rol do gestual fúnebre.

A esse respeito, a primeira coisa que em nossas imagens nos chama a atenção é o cuidado com que as crianças estão preparadas. Aqui também os significados desta disposição não estiveram restritos ao plano estético. Tendo origem em tempos em que a crença na separação entre corpo e alma após a morte não era algo bem definido, a idéia de ser a forma como se era enterrado a mesma como se entraria no Além chegou até o século XIX no Brasil. Em suma, um defunto adequadamente vestido poderia beneficiar-se disso no tocante ao destino que as potências celestiais lhe reservariam13. Essa concepção estava então de tal modo enraizada, que muitos, ao elaborarem seus testamentos, procuravam informar qual seria sua última roupa14. As crianças, apesar de não decidirem sobre isso (entre outras coisas por que não deixavam testamento), também deviam ser enterradas em trajes especificamente recomendados. O fato é que a mortalha da criança em nada devia à dos adultos mortos, o que é testemunho de que as crianças mortas eram objeto de notável atenção. Já nesse aspecto, os visitantes estrangeiros mostraram-se positivamente surpresos pelo esmero com que esses pequenos defuntos eram arrumados e expostos: "prazerosamente", "ricamente" são os termos por meio dos quais John Luccocke Daniel Kidder descrevem a preparação das crianças mortas na Corte15.

No que se refere às mortalhas que aparecem nas fotografias aqui analisadas, constata-se, entre outras coisas, o uso do branco (Figuras 8 e 9). Esse costume, para a cidade de São Paulo, encontra apoio em outros e mais antigos registros. Segundo, por exemplo, o que nos dizem os livros de assentamento de óbito, o branco era, com enorme vantagem, a mortalha mais utilizada para as crianças, correspondendo a 65% do total de registros computados16, encontrada em 68,1 % dos registros de livres, em 78% dos de escravos e em 88,9% dos de forros17. A isso acrescentamos a constatação de que a cor branca predomina também em outros elementos dos funerais de crianças, como mostraremos adiante. Quais são, por conseguinte, os possíveis significados dessa escolha? Nos primeiros tempos do cristianismo, o branco era a cor que representava os mártires da Igreja, para depois ser substituída pelo vermelho18 (esta última é, por sinal, a segunda cor mais utilizada nas mortalhas de criança na cidade de São Paulo19 e está presente em outros elementos que compõem a cultura material mortuária infantil; nas fotografias, alguns tons de cinza sugerem sua presença, como na Figura 2). Isso testemunha a existência de uma forte identificação entre a criança e os mártires, associação já observada por outros historiadores na Europa20, bem como entre a morte infantil e o sacrifício, nas quais já é possível entrever uma concepção que investe a criança de atributos de santidade.



Mas, no que diz respeito aos significados mais amplos e mais resistentes que essa liturgia tradicionalmente atribuía ao branco, os compêndios de semiologia cristã nos informam ser este o símbolo da alegria e, antes de tudo, da inocência eda pureza virginal21. A análise das mortalhas edas cores utilizadas nos funerais de adultos e crianças, além de confirmar a existência desse entendimento em que a criança esteve associada aos atributos de pureza e inocência, informa de onde, nesse registro, essa qualidade lhe advém, principalmente entre o mundo leigo. Nos rituais fúnebres brasileiros, a associação tradicionalmente feita entre a "inocência" infantil e a ausência do ato sexual fica explicitada pelo fato de serem as moças virgens também enterradas do mesmo modo que as crianças, ainda que isso contrariasse expressamente a vontade da Igreja22. Como a cor da alegria, o branco do hábito mortuário infantil se opõe à mortalha do adulto, muitas vezes de cor preta ou roxa, as cores da penitência23. A criança, já no que essa prática permite ler, dispensa essa atitude, assim como outros procedimentos normalmente utilizados para o ajuste satisfatório da balança das almas: devido ao estado de inocência com que morria, não havia necessidade de qualquer caução expiatória, só cabendo, pois, o rejubilamento. Sobre o branco, resta lembrar que ele sinaliza uma relação freqüentemente estabelecida nesses rituais, que é aquela feita entre a criança morta e a figura de Nossa Senhora - no caso, Nossa Senhora da Conceição, uma vez que é com essa cor que a Virgem se veste nas representações da Imaculada Conceição24, imagem cuja veste é usada preferencialmente nas crianças no Rio de Janeiro, como nos mostra o trabalho de Cláudia Rodrigues25.

Por sinal, entre as fotografias analisadas, ficou registrado um costume muito difundido no Brasil do século XIX, o de vestir as crianças mortas com vestes de santos (Figuras 1, 3 a 6)26. Nisto elas não diferiam dos adultos, visto serem deste tipo as mortalhas que de costume eram utilizadas como derradeira roupa. Isso estava de acordo a crença de que o falecido, vestido de tal modo, seria favorecido pela intervenção do santo cujo hábito escolhera por mortalha, o qual o receberia e o guiaria em direção ao Céu27. Assim, seu protetor em vida não lhe faltaria na morte. Era, em suma, uma demonstração de fé (e, para alguns, de despojamento, o que explicava o sucesso que tinham os hábitos das ordens mendicantes) que certamente seria reconhecida em tão decisivo momento. Era natural, por conseguinte, que se escolhessem santos de sua predileção ou patronos de sua irmandade. Era comum, como nos ensina, por exemplo, a passagem citada de Thomas Ewbank28, que se vestissem as crianças com o hábito do santo de seu nome: se a criança se chamasse Francisco, ia vestida com o hábito de monge (certamente devia ser o da ordem de mesmo nome). Vestindo a criança com as roupas deste ou daquele santo, os pais imaginavam garantir que seu rebento não ficaria desamparado no outro mundo, estando guardado sob os cuidados de seu homônimo. Como certamente não o fora enquanto era viva, não era indiferente aos pais o que poderia acontecer à criança quando morta.

Mas é possível afirmar que essa prática estava também relacionada com razões que são ainda mais específicas de uma certa sensibilidade para com a criança. Ela diz respeito a uma crença no papel de intermediária que a criança morta ocuparia entre os vivos e as autoridades celestes29. Essa função se assentava no estado de pureza que a caracterizava e que já garantira prerrogativas especiais à criança quando viva. Tal crença fica bem exemplificada em práticas como a participação dos pequenos nas procissões religiosas e nos rituais fúnebres tradicionais. Alceu Maynard, já em meados do século XX, registrou, no meio rural do país, o costume de deixar às crianças a realização da encomendação dos corpos, etapa de extrema importância nos funerais30. Quando morta, estando em contato mais direto com os santos, o poder de intermediação entre os homens e as entidades celestes era potencializado. Mais do que nunca, escolher a mortalha de um santo em particular significava a possibilidade de melhor explorar esse poder, tendo em vista um objetivo preciso, uma vez que, no universo da religiosidade popular, cada santo era "especialista" em determinado tipo de providência. Levar em conta essa concepção nos permite pensar em mais algumas razões para a preferência de algumas mortalhas em relação a outras; no nosso caso, a freqüência do branco nas crianças fotografadas, que, como vimos, esteve liturgicamente associado às vestes de Nossa Senhora da Conceição.

João José Reis, em seu trabalho sobre a Bahia, mostrou com notável sensibilidade como a preferência a esta e a outros santos para a mortalha das crianças soteropolitanas esteve relacionada à questão da procriação31. E isso permite entender a preferência que foi dada a determinadas mortalhas para a criança morta. Ora, com a morte de um filho, não é incomum o desejo de se ter outro. E que outra forma seria mais eficiente de assegurar isso do que preparar tão especial mensageiro ao encontro de santos que certamente atenderiam ao seu pedido?

A condição particular da criança morta seria ainda mais manifestamente demonstrada por meio do uso de uma outra mortalha, presente em uma das fotos aqui analisadas: as vestes de anjo (Figura 7). Esse tipo de mortalha, composto de plumas e sedas e muitas jóias - e cujo uso, segundo Claudia Rodrigues, aumentou bastante ao longo do século32 -, chamou a atenção de estrangeiros como Stewart e Candler, que estiveram no Rio de Janeiro em 1829 e 1852, respectivamente33. Thomas Ewbank descreve a de São Miguel Arcanjo, que, segundo ele, era mais comum entre as crianças mais velhas: o cadáver é vestido com uma túnica que vinha acompanhada de uma saia curta presa por um cinto; na cabeça, um capacete de papelão dourado; e era calçado com "apertadas botas vermelhas", tendo presa à mão direita uma espada34. Paralelo já evidenciado no uso do termo "anjinho" para designar a criança morta, a morte não era a única circunstância em que a criança tinha oportunidade de se vestir como tal. Muitos foram os viajantes que, durante todo o século XIX, comentaram as procissões em que crianças (no geral menores de sete anos, como salientam os relatos) saíam representando anjos, cujas descrições deixam evidente o gosto pelo exagero: asas artificiais, perucas, profusão de pedras, etc.35 Além de reafirmar uma série de valores agregados à criança morta, como o seu estado de pureza que toma corpo na figura do anjo, o uso das vestes angelicais acentuam igualmente outras características comuns a todas as dimensões dos enterros dos inocentes, como é o caso da ostentação material, que nelas tem um suporte especial. É interessante assinalar, por fim, que a associação entre a criança e o anjo mantém relações distantes com a concepção do papel de intercessora que se atribui à criança. O recente trabalho de Jean Delumeau - O que sobrou do paraíso? - faz referência a um manuscrito do século XII de autoria da abadessa do mosteiro de Hohenbourg (hoje Sainte-Odile), Alsácia, que descreve a geografia do paraíso conforme fora difundida por Pseudo-Dionísio36, no qual os anjos - que no texto da abadessa se encontram na mesma ordem (da hierarquia celeste) que os pagão salvos - "estão em contato direto com os homens"37. Nesse sentido, cabe a observação de que, no que se refere à morte infantil, a realidade do Brasil Colônia (assim como em grande parte do Império), caracterizada pela impossibilidade de fazer valer a ortodoxia tridentina, deu margem para o enraizamento de concepções escatológicas de um catolicismo bastante antigo.

Além das mortalhas, é notável, nas fotografias, a existência de outros elementos tradicionais que compunham o aparato material da criança morta, como a presença de flores, em especial aquelas arranjadas em forma de coroa (Figuras 1, 3, 5 a 7), ou do ramalhete de flores (melhor identificável nas Figuras 2 e 9). As descrições dos viajantes para outras cidades38 apontam o seu uso junto às crianças mortas ao longo do XIX. Quanto à coroa de flores, esta possui, nos escritos judaicos-cristãos, segundo Chevalier e Gheerbrant, mais de um significado possível, alguns bastante sugestivos para o assunto estudado aqui. Num deles, a coroa representa a salvação eterna que vem como recompensa a uma vida regida pela fidelidade à causa da fé39. Com efeito, a idéia do ingresso na Corte Celeste está bastante de acordo com uma conduta ritualística que associa a morte infantil à "boa morte". O outro significado estaria ligado ao batismo, e sua imagem está relacionada à do paraíso, uma vez que alguns textos assinalam que é da árvore da vida que são feitas as guirlandas dos iniciados40. Como se vê, temos aqui, mais uma vez, a presença de um elemento a assinalar a crença na certeza da salvação infantil.

E há os caixões (Figuras 1 a 7). Considerando a presença de outros elementos do aparato fúnebre nas fotografias analisadas, seria surpreendente eles não aparecerem. O que faz de sua participação algo bastante significativo - no que toca a uma atitude pretérita para com a criança morta - é o fato, já exposto acima, de que entre os interesses que presidem a confecção dessas fotografias há aqueles que reeditam uma tendência tradicional, que é a de permitir que o cadáver seja visto. Esta antiga função do caixão, ainda que subsista atualmente, ganhou importância secundária face à função moderna que é a de, sobretudo, garantir o isolamento e individualização dos restos mortais do falecido. Com efeito, no início do século XIX, os esquifes tinham exclusivamente a função de transporte e de suporte para a exposição do cadáver, função evidenciada pela existência de modelos sem tampa e também pelo fato de serem alugados e não vendidos, tal como nos informa, por exemplo, a descrição e as ilustrações detalhadas dos serviços funerários brasileiros que nos faz o artista Jean-Baptiste Debret, quando esteve na Corte entre 1816 e 183541. Com efeito, em algumas das imagens que escolhemos, somos informados de como isso se dava: o esquife servia de anteparo para o cadáverque, para uma maiorvisibilidade, era inclinado frontalmente (Figuras 3, 5 e 6) ou lateralmente (Figuras 1 e 5). Nesse sentido, o que fica em primeiro plano nas fotografias é o tradicional uso dos esquifes como suporte para expor o cadáver, lembrando também que neles estão presentes outros elementos associados à representação tradicional da morte infantil que já assinalamos: alguns féretros são forrados de tecido branco (Figuras 4 e 6); outros se distinguem pelo uso de um tecido mais escuro (vermelho?), mas com faixa branca ao longo do féretro (Figuras 1 a 3, 5).

Como se vê, nas fotografias aqui analisadas é indiscutível a presença de elementos que, no século XIX, estavam tradicionalmente relacionados a uma determinada prática e representação da morte menina. No entanto, esse material é também indicador de algumas mudanças importantes que se operaram nesse âmbito, ainda que isso ocorra de forma menos evidente do que em relação aos costumes assinalados acima. Tal constatação nos leva, em primeiro lugar, a pensar na própria emergência da fotografia de criança morta para a sociedade em questão, o que já é, em si mesmo, uma mudança nas práticas fúnebres infantis. De acordo com o que mostramos nas linhas anteriores, não seria errôneo concluir que, em grande parte, a fotografia revelou-se como mais um instrumento entre outros para a veiculação de antigas práticas e valores nesse âmbito. Tomá-las apenas assim, não obstante, seria fazer vistas grossas para as mudanças importantes que elas sinalizam. Com efeito, é isso que se constata quando levamos em conta outras questões envolvidas na prática específica de fotografar crianças mortas e armazenar as imagens em álbuns. Essas questões dizem respeito à prática de fotografar os membros da família na sociedade ocidental, uma vez que isso anuncia novos valores, em última instância, modificadores das práticas e representações da morte menina.

Em seu ensaio sobre a memória, Jacques Le Goff assinala o advento da fotografia - ao lado dos monumentos aos mortos depois da Primeira Guerra Mundial - como uma das manifestações importantes da "memória coletiva" que marcam nossa contemporaneidade, a quem coube multiplicar e democratizar a memória, ao mesmo tempo que deu condições para melhor apreender aquilo que o tempo transformou ou suprimiu e a "evolução cronológica" dessas mudanças42. É nesse duplo processo - de disseminação de um veículo de memória e do desenvolvimento de uma nova sensibilidade para com a passagem do tempo - que podemos compreender melhor os significados das coleções fotográficas que têm como objeto o universo familiar. De fato, entre as possíveis funções dos álbuns de fotografia de família, está a "materialização" das reuniões sazonais que são manifestações da unidade social, como lembra Michele Perrot43. A escolha se orienta para os acontecimentos cujos registros melhor se prestam como "monumentos" da identidade familiar, tornando possível, por conseguinte, as visitações periódicas ao "menor denominador comum do passado". Por isso é que Pierre Bourdieu aponta ser essa lógica seletiva a que faz do álbum de família a expressão da "verdade da recordação social" desse meio44. Já assinalamos antes, como sintoma da permanência da valorização desse evento, a importância que tradicionalmente tinham os funerais de criança e o fato da eleição desse motivo entre os acontecimentos que mereciam registro fotográfico. Agora, quando tomamos o registro fotográfico pelo uso que dele se fez, surge um aspecto novo: fotografia do "anjinho" não apenas recorda um evento que era fundamental na afirmação da família perante a sociedade (cujo investimento material e simbólico tinha papel estratégico nisso), mas permite o exercício da celebração da unidade familiar, ao registrar um acontecimento cuja periodicidade dá lugar aos reencontros que reforçam a identidade da comunidade de sangue.

Esse novo significado fica mais evidenciado pela segunda função do álbum de família, lembrada por Perrot, qual seja, a de ser a "galeria dos antepassados" e, dessa via, permitir a "visualização da linhagem"45. As possibilidades abertas com isso revelam-se de diversos modos. Primeiramente, conforme observa Anne Martin-Fugïer, o registro desses conjuntos, muitas vezes organizados cronologicamente, propiciam uma nova percepção do crescimento e envelhecimento dos participantes do círculo familiar46, modo pelo qual a já citada atuação das fotografias na constituição de uma sensibilidade temporal diferenciada manifesta-se nos álbuns de família. É nesse sentido que Alain Corbin ressalta o seu papel como registros visuais da inexorabilidade do tempo e da morte, modalidade em que a fotografia assume especialmente a função que, como lembra o autor, Susan Sontag dá a ela, a de memento mori47. Se as fotografias de crianças mortas não se prestam muito bem, a meu ver, a figurar a associação entre tempo e morte - visto que lembra que a morte ignora a idade -, Alain Corbin enumera outras funções desses corpora iconográficos que nos interessam particularmente. Ele nota que as fotografias familiares propiciam a representação dos membros do grupo familiar que a morte ou apenas a distância física se encarregariam de relegar à absoluta ignorância48. A "posse simbólica" da fotografia, que faz dela um substituto ao retratado, além de reforçar as relações familiares (ainda que estas mudem de natureza, deixando de ser "orgânicas" para se tornarem "visuais"), ao modificar "as condições psicológicas da ausência", revela-se um eficaz lenitivo à sensação de perda causada pela distância e, sobretudo, pela morte49.

Como já é possível perceber, essas observações nos permitem voltar ao problema das motivações que presidiam as encomendas das imagens de crianças mortas com uma atenção renovada. A constatação do papel das coleções de fotografias da família como referencial mnemônico dos familiares/antepassados ausentes, e o papel que nisso têm os retratos de crianças mortas, é-nos oferecida pela propaganda que fazem, no século XIX, os profissionais da câmara escura, quando a prática ganha um sentido mais próximo a nós. Conforme já comentamos de passagem, o estudo de Keith McEroy sobre o Peru assinala que o argumento pelo qual os fotógrafos estimulavam o registro de crianças mortas consistia na observação de que esta seria a única e última oportunidade de acrescentar à memória familiar a imagem dos que partiram prematuramente50. É bem provável que essa motivação estivesse presente no costume compartilhado pelos brasileiros. Como lembra Ana Maria Mauad, no início da disseminação do hábito de mandar fotografar-se no Brasil, a partir da segunda metade do século XIX, as idas aos estúdios com essa finalidade (cujo custo equivalia ao valor de um "sapato simples") limitavam-se, "entre as famílias urbanas de renda média", a uma ou duas vezes ao ano51. Nessas condições, não nos surpreende que, nas famílias que já haviam aderido à nova modalidade de reprodução imagética, muitos de seus membros morressem sem que jamais tivessem oportunidade de fotografar-se, e esse era especialmente o caso das crianças que morriam em tenra idade. Essa constatação oferece um significado adicional àqueles de natureza religiosa (que reafirmam a importância numinosa da criança morta e do evento que marca essa passagem), que já esboçamos antes, atribuídos ao fato da maior freqüência (exclusiva mesmo) das fotografias de crianças mortas não só entre as dos mortos adultos, mas também no conjunto das imagens de crianças (em especial as de colo) constantes no acervo do qual retiramos as imagens analisadas. É importante observar, por fim, que essa hipótese fornece uma das possíveis razões para uma questão fundamental para nós aqui: a rapidez com que a prática de fotografar crianças mortas entra em desuso no início do século XX. Uma vez que a prática devia estar vinculada, entre outras coisas, aos custos do registro fotográfico e, por conseguinte, à freqüência com que a população usufruía desse recurso, temos razões para pensar que o seu barateamento e a maior possibilidade de fotografar indivíduos, tão logo nascessem, estão diretamente relacionados com o desaparecimento de imagens de crianças mortas. A presença - nos cemitérios paulistanos e cariocas, em túmulos de crianças das primeiras décadas do século XX - de fotografias destas quando vivas e nas mais variadas idades, não deixa de vir em apoio a essa última constatação.

Entendida, por conseguinte, como um recurso para o único, ou ao menos último, registro daquele que prematuramente partira, ganham sentido alguns aspectos que aparecem nas imagens selecionadas neste artigo. Nelas, a preparação do cadáver, a escolha da posição em que era fotografado e demais cuidados parecem de algum modo estar relacionados mais propriamente ao objetivo de guardar a imagem do falecido de forma a mais próxima de quando este vivia, contornando, desta feita, a transformação que a morte já se encarregara de iniciar. Com efeito, algumas imagens, diferentemente das que analisamos acima, procuram, senão esconder, ao menos suavizar os indícios (fossem biológicos, fossem aqueles relacionados aos elementos ritualísticos, caixão, coroa etc.) de que o retratado era uma criança morta. Esse é o caso da menina fotografada em 1878, no Rio de Janeiro, no estúdio de Pacheco, Menezes & Irmãos (das fotografias analisadas essa é a única que não faz parte do acervo do Museu Paulista e encontra-se no Museu Casa de Benjamim Constant)52. A imagem obtida cria a ilusão imediata de que a retratada encontra-se em sono profundo. Essa disposição, ainda que lembre uma antiga representação da morte (como se observa, por exemplo, nas esculturas presentes em túmulos de crianças nos cemitérios brasileiros), os trajes mundanos e a almofada na qual o corpo está apoiado sustentam a confusão, deixando que a cor do vestidinho, o ramalhete à mão e o rigor do corpo nos precisem a informação.

Essa impressão é radicalmente acentuada na fotografia de Olga Marcondes de Matos (Figura 9) produzida pelo estúdio de De Nicola, em 1895. Tal como a anterior, só a cor do vestido e o ramalhete de flores permitem saber que se trata de um cadáver. Mas é por meio desses dois elementos - com uma função que, pode-se dizer, opõe-se àquela dos cadáveres anteriormente discutidos e que, por esse motivo, não faz dele algo deliberadamente exposto mas sim mal escondido - que podemos ter a certeza de que estamos diante de um retrato de criança morta, tal é a preocupação da composição em apresentar o cadáver como se estivesse vivo: é a presença de fitas, cuja função é prender o corpo a uma cadeirinha e, desta forma, arrumar a criança de modo que pareça naturalmente sentada. Acrescente-se a isso o cuidado que se teve em fotografá-la com os olhos abertos, e o resultado é a facilidade com que a retratada parece mesmo estar viva, nas primeiras vezes em que lhe deitamos os olhos. À vista dessa imagem, não podemos deixar de pensar no relato feito a Ewbank sobre as procissões em que a criança morta era levada em pé em andores (ver nota 10), cuja impressão mais imediata é a de que ela estava viva. É indiscutível que estamos em presença de elementos comuns de sensibilidade, o que reforça as constatações feitas na primeira parte desse artigo acerca das continuidades reveladas pelas fotografias de crianças mortas. Não obstante, a presença dessa identidade não esconde uma diferença fundamental de ênfase nesses elementos. No primeiro caso, não era tanto o desejo de restaurar o aspecto da criança de quando esta era viva, mas sim de utilizar o cadáver como materialização simbólica do novo estatuto espiritual da criança; aqui, parece que a intenção é sobretudo recuperar o aspecto da criança quando ela estava viva.

Outra fotografia, a mais antiga analisada aqui, de 1865, oferece-nos a mesma impressão das duas anteriores, embora, a despeito de ser mais velha, também sinalize para novas atitudes em relação à morte infantil (Figura 8). Nesta, a estratégia implicou não só em retirar da criança qualquer elemento simbólico (fora a roupinha branca) que a associe com a morte, mas também em fotografá-la no colo de um adulto (sua mãe, presume-se). Não obstante, é a ele que cabe informar a condição da criança: isso se faz através da roupa escura que nos remete ao luto, e, sobretudo, pelo olhar grave que dirige à criança. Percebe-se também que a mãe é a figura central da imagem (a propósito, o foco da lente está sobre seu rosto). Mauad nos dá notícia de retrato semelhante: é o retrato de Arthur, filho de um representante da elite imperial, dr. Francisco Furquim Werneck, em que a criança aparece já morta no colo sua mãe53. Sobre esse retrato a autora observa que, "com iluminação sombreada, fundo negro e efeito flou- todos os atributos visuais de constrição e retiro", ele é uma "imagem sensível que revela uma sensibilidade que foge às poses e trejeitos do retrato oitocentista"54. Com efeito, essas imagens testemunham uma nova sensibilidade: trata-se de celebrar e reverenciar, não mais o "anjinho", mas sim os valiosos sentimentos familiares, manifestados, nesse caso, na dor pela perda prematura do filho e expressos por meio de novos elementos antes ausentes do cerimonial fúnebre infantil. Daí a necessidade, conforme constatamos na fotografia e na passagem acima citada, de criar um clima de intimidade - fazendo alusão ao espaço familiar burguês - e, sobretudo, de gravidade, o que estabelece um contraste fundamental com os elementos de descontração e festividade que, como já se disse aqui, caracterizavam os funerais infantis.

Isso tudo reflete o que há de mais fundamental nas mudanças que ocorrem na sensibilidade e representações em relação à morte infantil ao longo do século XIX. Esse novo ambiente que se instala (ao menos entre as elites urbanizadas) na segunda metade do século XIX e que resultou na emergência de uma prática e concepção de morte infantil, na qual a manifestação expansiva do pesar que esse acontecimento dava lugar começou a ser permitida, favorecida e mesmo valorizada, tem origem num movimento de valorização da família nuclear e dos sentimentos que a devem sustentar; e, ainda, de defesa de dois personagens do cenário doméstico: a mulher/mãe e a criança55. Inúmeros são os testemunhos desse processo no que se refere às mudanças relativas às representações da morte infantil. Ele aparece nas denúncias feitas aos índices de mortalidade infantil no país pelas autoridades médicas, que deixam de ver esse fenômeno como natural e passam a encará-lo como um crime contra a nação, que se priva de cidadãos úteis56. Reflete-se, igualmente, nas manifestações artísticas, em especial a poesia, que vai expor a tensão, cada vez maior, entre a representação de beleza da morte menina, a melhor das mortes - que, ao emoldurar uma vida que desconheceu a decadência e a corrupção, afigura-lhes como privilegiada -, e a exaltação da nobreza dos sentimentos daqueles que, com a morte prematura, vêem-se privados do objeto de seu amor; daí o luto materno como motivo que seria, mais de uma vez, utilizado. Por fim sabemos dessas mudanças através do que nos mostram os cemitérios. Em suas inúmeras esculturas e monumentos dedicados às crianças mortas, sempre ficam claros o sofrimento e o caráter trágico do evento, e eles tornam-se espaços por excelência da manifestação pública desses novos sentimentos. Em resumo, embora não cabendo afirmar que, de fato providencial, a morte infantil tenha passado à condição de fatalidade lastimada, é possível assinalar que, ao longo do século XIX, entre os segmentos mais urbanizados, a morte da criança torna-se um evento em que se passou a apreciar a expressão de uma série de sentimentos que, mesmo presentes, sua manifestação em público não era suficientemente legitimada nem apreciada.

No que se refere às funções das fotografias dos membros familiares apontadas por Corbin, a imagem fotográfica da criança morta, ao servir de paliativo-tanto para sua ausência como, mais especificamente, para o problema de não ter podido ser fotografada em vida -, prestou-se, com efeito, a fornecer a representação imagética desta para a lembrança dos seus parentes próximos bem como para o conhecimento dos membros familiares espacial ou temporalmente distantes. Cumprindo essa exigência, a última imagem analisada, ao representar a gravidade e o luto da mãe, reforça ainda mais a vocação que os retratos de família têm para se assumirem como veículos da manifestação dos valores familiares. Esse incremento de importância, bem como o aumento da intensidade com a qual os indivíduos passam a vivenciar esses sentimentos, supõe a outra função da fotografia de que nos recorda Corbin, que é a de servir, por meio da posse da imagem, de alívio pela perda. Para nós, a importância dessa observação está no fato de a indagação - acerca da capacidade de as fotografias de crianças mortas cumprirem ou não essa função - permitir-nos pensar, além de outros significados que estiveram presentes nessa prática específica, acerca das razões da rapidez com que ela entrou em desuso, como também acerca dos possíveis motivos do estranhamento que hoje essa prática nos causa. A nosso ver, a resposta a essa questão é negativa: se, de alguma forma, a imagem do cadáver dá a conhecer algo do que este era quando vivo, ela não tem préstimo como substitutivo simbólico de sua presença efetiva, uma vez que, a todo o momento (por meio dos elementos que analisamos acima, como se não bastasse a mera presença do cadáver), está a lembrar a condição de morto do retratado. Isso certamente deve estar entre as razões da coincidência que existe entre uma crescente valorização da expressão dos sentimentos familiares - no nosso caso em particular, a de sofrimento diante da morte infantil - e o desaparecimento desse tipo de retrato, revelando que a antiga disposição emotiva que havia entre nossos antepassados para com essas imagens vai cedendo lugar a outras em que essas lembranças se tornam inaceitáveis e explica as reações que elas nos suscitam hoje, na medida em que a nossa sensibilidade deve ainda muito a essa transformação. Nesse sentido, cabe concluir que as fotografias de crianças mortas - a despeito de serem uma manifestação tardia (tendo em vista o período em estudo) das práticas que compunham o gestual fúnebre infantil, além do fato de serem boas sinalizadoras das mudanças em torno da criança morta - mostram (ao menos no caso da sociedade estudada, onde essa prática desapareceu) que estamos, sobretudo, diante de um uso "tradicional" de um instrumento novo. Este surge, não obstante, já associado a novos valores que, por serem incompatíveis com a representação ainda veiculada por esse uso específico, terminam, no caso em que os valores antigos vêm a prevalecer, como é o aqui apresentado, por determinar o fim dessa prática, que teve breve mas significativa vigência. Não é de espantar que a morte menina - na medida em que se torna, nos meios mais urbanizados, "a mais intolerável das mortes"- e o signo mais visível disto - o cadáver: a presença de uma ausência, como tanto já se observou - saiam com urgência de cena.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142006000200003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt
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