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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Jardim do Éden revisitado



Roque de Barros LaraiaUniversidade de Brasília


RESUMO: Análise do mito de Lilith, primeira esposa de Adão, segundo a tradição judaica, que foi expurgada do texto, hoje conhecido, pela censura dos editores bíblicos que procuraram adequar o livro sagrado aos valores e padrões morais de suas épocas. O Autor mostra que esses cortes não foram suficientes para apagar totalmente a figura de Lilith da tradição oral e, muito menos, de alguns textos rabínicos. No decorrer deste mito fica claro que, ao consumir o fruto proibido, Adão adquiriu o conhecimento do bem e do mal e não apenas o da sexualidade. Mas, o mais importante é o fato que Lilith representa a primeira reação feminina ao domínio masculino.

PALAVRAS-CHAVE: Mitologia cristã, demônio feminino, livros apócrifos.


Claude Lévi-Strauss cautelosamente evitou a realização de uma análise estruturalista do Gênesis, sob a alegação de que "a mitologia do Velho Testamento foi distorcida pelas operações intelectuais dos editores bíblicos" (Leach, 1983:74), além do fato de considerar o contexto etnográfico como "quase inteiramente ausente" nos referidos textos. Esta argumentação foi refutada por Leach em seu brilhante artigo "A Legitimidade de Salomão"(Id., ibid.), no qual demonstrou a existência na Bíblia de evidências etnográficas passíveis de serem analisadas pelo método antropológico, além da consideração que a seqüência cronológica que foi estabelecida pelos "editores" tem, "por si mesma, um significado estrutural".

Concordamos com Leach sobre a disponibilidade do material bíblico para a análise antropológica e também que os antropólogos, que utilizam os mitos de outras religiões, devem abandonar o seu "melindre extraordinário com a análise do Cristianismo e do Judaísmo que são religiões nas quais eles próprios, ou seus amigos próximos, estão profundamente envolvidos." (:136). Retomamos, portanto, neste trabalho, o texto bíblico do Gênesis, buscando demonstrar que os "editores bíblicos", através do tempo, procuraram mediante uma atitude censorial uma espécie de "pasteurização"1 do discurso original, numa tentativa de adequá-lo aos valores morais e culturais de suas respectivas épocas. Contudo, os trechos que foram objetos de cortes não tiveram o seu registro totalmente apagado, continuam disponíveis em outros textos, principalmente os da religião Judaica. A legitimidade etnográfica deste material pode ser invocada, pois o Cristianismo é uma religião derivada do Judaísmo, partilhando com o mesmo o discurso mítico contido no Velho Testamento.

Ao retomarmos a análise das histórias que têm como cenário o Jardim do Éden seguimos a trilha aberta por Frazer, Freud e principalmente o próprio Leach (1970), mas, ao contrário destes autores, pretendemos utilizar os trechos que foram extirpados nas sucessivas edições do discurso mítico.

No sétimo dia da Criação, Deus criou o homem à sua imagem: "à imagem de Deus o criou: macho e fêmea os criou." (Gênesis, 1,27). Tal afirmação categórica é uma negação da versão mais difundida: a de que o homem foi criado antes da mulher. Neste ponto, existem interpretações diferentes. A primeira é a de que Adão seria um ser andrógino (macho e fêmea) e que a separação de Eva representaria a cisão da criatura original andrógina em duas (Unterman, 1992:25). A androginia de Adão é explicada em alguns textos rabínicos, como no Sepher Ha-Zohar, que contêm a afirmação de rabi Abba: "O primeiro homem era macho e fêmea ao mesmo tempo pois a escritura diz: E Elohim disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gênesis, 1,26). É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi criado macho e fêmea ao mesmo tempo"2.

Existe, contudo, uma outra interpretação, que nos parece mais fascinante, a de que, a exemplo do que foi feito com os animais, Deus teria criado um casal: Adão e uma mulher que antecedeu a Eva. Esta mulher primordial teria sido Lilith3, figura bastante conhecida da antiga tradição judaica. Lilith não se submeteu à dominação masculina. A sua forma de reivindicar igualdade foi a de recusar a forma de relação sexual com o homem por cima. Por isso, fugiu para o Mar Vermelho. Adão queixou-se ao Criador, que enviou três anjos em busca da noiva rebelde. Os três anjos eram Sanvi, Sansanvi e Samangelaf4. Os emissários do Senhor tentaram em vão convencer a fujona. Ameaçaram afogá-la no mar5. Lilith, porém, respondeu: "Deixem-me, não sabeis que não fui criada em vão e que é meu destino dizimar recém-nascidos; enquanto é um menino tenho poder sobre ele até o oitavo dia, se é menina, até o vigésimo. No entanto, ela jurou aos anjos, em nome do Deus vivo, de que sempre que avistasse as figuras ou apenas os nomes dos mensageiros de Deus, deixaria a criança em paz. Também aceitou o fato de que diariamente iriam perecer cem de seus próprios filhos." (Gorion, :53). Lilith foi transformada em um demônio feminino, a rainha da noite, que se tornou a noiva de Samael, o Senhor das forças do mal.

Segundo uma velha tradição, Lilith seria uma figura sedutora, de longos cabelos, que voa à noite, como uma coruja, para atacar os homens que dormem sozinhos. As poluções noturnas masculinas podem significar um ato de conúbio com a demônia, capaz de gerar filhos demônios para a mesma. As crianças recém-nascidas são as suas principais vítimas. A crença em Lilith, durante muito tempo, serviu para justificar as mortes inexplicáveis dos recém-nascidos. Uma forma de proteger as crianças contra a fúria da bela demônia é escrever na porta do quarto os nomes dos três anjos enviados pelo Senhor. Outra maneira é a de afixar no berço do recém-nascido, três fitas, cada uma delas com um nome dos três anjos. Segundo Unterman, na véspera do Shabat e da Lua Nova, quando uma criança sorri é porque Lilith está brincando com ela. Para protegê-la deve se bater três vezes de leve no nariz da criança, pronunciando uma fórmula de proteção contra Lilith6. O mesmo Autor afirma que, na Idade Média, era considerado perigoso beber água nos solstícios e equinócios, períodos estes em que o sangue menstrual de Lilith pinga nos líquidos expostos. Finalmente, uma outra tradição judaica afirma que a lendária rainha de Sabá que teria visitado Salomão nada mais era do que Lilith. O sábio rei, contudo, descobriu o ardil, ao levantar a saia da rainha e constatar que as suas pernas eram peludas.

Segundo uma lenda judaica, após a expulsão do paraíso, Adão para se mortificar ficou cento e trinta anos afastado de Eva. Uma ocasião que estava dormindo sozinho, Lilith o encontrou e deitou-se ao seu lado e dele concebeu um sem número de demônios. Os que se defrontavam com eles eram torturados e mortos (Gorion, :54).

A rebelião de Lilith contra Adão e o Criador levou à necessidade da criação de Eva, esta formada a partir de uma costela de Adão (Gênesis, 2, 21). É possível, portanto, imaginar que um corte foi realizado entre o capítulo 1, versículo 28, e o capítulo 2, versículo 21. É provável que este corte tenha ocorrido, mesmo em época bastante remota, como no quarto século antes de Cristo, quando se supõe que o texto escrito tomou uma forma aproximada da atual (Leach, 1983:77). O próprio teor do capítulo 1, versículo 28, sustenta esta hipótese: "E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra ..." Como seria possível abençoar a ambos e recomendar a multiplicação se Eva ainda não estava criada?

Roberto Sicuteri (1986:27) chama a atenção para um outro detalhe importante: após a criação de Eva, extraída da costela de Adão, este diz: "Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada varôa, porquanto do varão foi tomada" (Gênesis, 2, 23). Para Sicuteri, esta agora soa como desta vez numa inequívoca referência a uma mulher anterior.

Eva, porém, à sua maneira, repetiria o gesto de rebelião de sua antecessora. Deus tinha permitido ao homem comer todas as frutas do jardim, com apenas uma exceção: "Mas da árvore da ciência do bem e do mal, d'ela não comerás; porque no dia que d'ela comeres, certamente morrerás." (Gênesis, 2,17). É exatamente esta interdição que é rompida por Eva. A versão canônica é que a mulher assim procedeu tentada pela serpente, sob a alegação de que o consumo da fruta proibida a tornaria tão poderosa como Deus. Acreditando na pérfida serpente, Eva comeu do fruto proibido e convenceu o seu companheiro a fazer o mesmo. A punição por este ato de desobediência original foi a perda da imortalidade, a partir de então os homens tornaram-se mortais. Existem outras interpretações para esta história. Os teólogos modernos acreditam que a serpente foi a forma tomada pelo demônio para tentar Eva. Existe também a crença de que Lilith teria se transformado em serpente para tentar Eva e se vingar de Adão. Uma terceira interpretação é a que faz parte de uma tradição judaica: "a serpente bíblica era um animal astucioso, que caminhava ereto sobre as duas pernas, falava e comia os mesmos alimentos que o homem. Quando viu como os anjos prestigiavam Adão, teve ciúme dele, e a visão do primeiro casal tendo relação sexual despertou na serpente o desejo por Eva. Por instigação de Satã ou Samael, ou, segundo algumas versões, possuída por ele, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido e seduziu-a. Como castigo, suas mãos e pernas foram cortadas e ela teve de se arrastar sobre o seu ventre, todo alimento que comia sabia a pó, e tornou-se eterna inimiga do homem.(...) Quando teve relação sexual com Eva, injetou sua peçonha nela e em todos os seus descendentes. Essa peçonha só foi removida do povo de Israel quando estavam no monte Sinai e receberam o Torá." (Unterman, 1992:236).

Expulsos do paraíso, Adão e Eva tiveram, segundo a versão canônica, dois filhos: Caim e Abel (Gênesis, 4, 1 e 2). As causas do fratricídio cometido por Caim são bastante conhecidas, por isso passamos diretamente para uma outra versão: "num paroxismo de ciúme pela não aceitação de sua oferenda e por uma irmã gêmea que Abel desposara (o grifo é nosso), Caim matou seu irmão." (Unterman, 1992:54). Chamamos a atenção para um elemento novo que surge neste momento, a existência de uma irmã gêmea que fora desposada por Abel. Posteriormente, voltaremos a tratar deste assunto. No momento, interessa-nos mais a versão de que Caim, de fato, não era filho de Adão, mas da serpente que tinha seduzido Eva. E mais, quando foi banido para o leste do Éden, Deus lhe atribuiu chifres, para afugentar os animais que lhe pudessem atacar. A sua punição consistia em perambular pela terra, sem descanso, sem que ninguém o pudesse matar. Contudo, foi morto por um seu descendente, Lamech que o confundiu com um animal selvagem. A versão atual não faz menção ao "parricídio" de Lamech, mas nos dá indício que neste ponto também agiram os editores bíblicos. Vejamos o que diz os versículos 23 e 24 do capítulo 8 do Gênesis: 23. "E disse Lamech as suas mulheres: Ada e Zilla, ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lamech, escutai o meu dito; porque eu matei um varão por minha ferida, e um mancebo por minha pisadura". 24."Porque sete vezes Caim será castigado, mas Lamech setenta vezes sete." Por que este último versículo atribui uma maior punição a Lamech? A resposta nos é dada pelo versículo l5 do mesmo capítulo: "O Senhor porém disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse." Este versículo não deixa dúvida sobre quem foi a vítima da flecha de Lamech, além disto refere-se a um sinal colocado por Deus em Caim, que pode ser os chifres mencionados na tradição judaica.

O versículo 25 do capítulo 8, também, é bastante significativo: "E tornou a Adão a conhecer a sua mulher; e ela pariu um filho, e chamou o seu nome Seth; porque disse ela Deus me deu outra semente em lugar de Abel; porquanto Caim o matou." Esta frase de Eva ficaria melhor na boca de Adão (não teria sido ele que a proferiu?), porque Adão somente considera como a sua descendência a de Seth (desde que Abel não deixou descendentes). Contudo, os versículos 17 a 22 do capítulo 8 referem-se a grande descendência de Caim. Para se ter uma idéia de sua dimensão, basta registrar que Lamech era neto de Mehujael, bisneto de Caim; ou seja, cinco gerações o separava de seu maldito ancestral. Resta, então, uma dúvida que nos permite formular duas hipóteses: a primeira, Adão teria repudiado a linhagem de Caim em função do fratricídio; a segunda é que Adão não considerava a descendência de Caim, sabedor da infidelidade de Eva.

Em seu artigo "O Gênesis enquanto um mito", Leach (1983) demonstrou as característica míticas das estórias bíblicas. Repetindo os argumentos desse Autor, podemos analisar o Velho Testamento como um mito porque existe uma comunidade de pessoas que acreditam no texto sagrado "quer correspondam aos fatos históricos ou não". Os disparates e contradições existentes no discurso bíblico reforçam a sua definição como mito, porquanto "a não racionalidade do mito é a sua verdadeira essência, pois a religião exige uma demonstração de fé que se faz suspendendo-se a dúvida crítica."

Utilizando-se da linguagem técnica da comunicação, Leach demonstra que uma das características do mito é o da redundância, ou seja, uma mesma mensagem deve ser repetida várias vezes para melhor atingir os receptores. Assim, no discurso canônico, o homem é criado duas vezes: (Gênesis 1, 27) "E creou Deus o homem à sua imagem..." e (Gênesis 2,7) "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra...". Além disso, existe ainda um outro momento da criação da humanidade a partir da descendência de Noé: (Gênesis 9, 1): "E abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra." As reincidências das redundâncias visa a superação dos ruídos das interferências que surgem entre o transmissor e os receptores. Os adeptos da Bíblia acreditam na natureza divina do transmissor, mas a maioria deles ignora as interferências provocadas pelos chamados editores bíblicos. A Antropologia não está interessada na discussão do caráter divino do transmissor. Os antropólogos acreditam mesmo na existência de diversos transmissores que foram, no decorrer do tempo, os responsáveis pela criação do mito. Neste trabalho, enfatizamos os ruídos que se colocaram entre os emissores ancestrais e os receptores que continuam a existir. As distorções apontadas por Lévi-Strauss ao invés de nos afugentarem serviram de estímulos para a análise que faremos a seguir.

Do ponto de vista antropológico, o Gênesis é um mito de origem que busca explicar o surgimento do primeiro homem e como tal não difere muito de outros mitos, integrantes das diferentes cosmologias existentes, principalmente em dois pontos fundamentais:

1) O mito não visa a explicação do surgimento de toda a humanidade ¾ como depois foi sugerido pelos exegetas judaicos e cristãos ¾ mas, apenas o surgimento de um povo específico, no caso os hebreus. Tal fato está confirmado pelo versículo 16 do capítulo 4: "E saiu Caim de diante da face do Senhor, e habitou na terra de Nod, da banda do oriente do Éden." O versículo seguinte afirma que "Caim conheceu a sua mulher e ela concebeu, e pariu Enoch..." Há duas interpretações possíveis para estes dois versículos: a primeira é que o conheceu significa apenas ter relações sexuais e, portanto, Caim teria chegado ao leste do Éden já com uma companheira. Mas a interpretação mais plausível é que de fato tenha encontrado um outro povo. Isto é mais condizente com o estilo dos mitos de origens, marcados fortemente pelo etnocentrismo.

2) O mito narra a história do pecado original. É portanto semelhante às narrativas que mostram que o homem perdeu a imortalidade em função de sua própria culpa. Uma escolha mal feita, um ato de desobediência (como no Gênesis) ou uma ofensa a um ser sobrenatural. Os Tupi Guarani seriam imortais se a primeira mulher não tivesse duvidado dos poderes de Mahíra. O texto bíblico relata a dupla desobediência da mulher: Lilith não atende a convocação do Senhor para voltar para Adão; Eva come do fruto proibido e convence Adão a fazer o mesmo.

O pecado original transforma os seres puros, criados por Deus, em seres impuros. A mulher, a principal responsável pela queda, expressa a sua impureza através da própria biologia. Assim o fluxo menstrual é considerado pelos hebreus como uma forma de poluição que exige rituais de purificação para aqueles que são contaminados. Ao se relacionar sexualmente com a serpente, Eva foi contaminada pela terrível peçonha da mesma. Tal contaminação é transmitida a toda sua descendência, tanto aos filhos de Seth como de Caim. Esta peçonha foi retirada do povo de Israel, no monte Sinai, quando Deus estabeleceu um novo pacto com os Hebreus (Êxodo, 34, 10-28), conclamando-os a uma forte endogamia. O casamento com outros povos possibilitaria uma nova contaminação com a peçonha de Eva. O etnocentrismo da religião judaica contrasta, neste ponto, com o caráter universalista do cristianismo. Maria, a mãe de Jesus, torna-se a mãe de toda humanidade para com a sua pureza livrá-la da contaminação original. O sacrifício de Cristo seria um novo pacto de Deus com os homens, mas desta vez uma aliança universal.

Todos os mitos de origem defrontam-se com a questão do incesto. É comum o caso de um casal de gêmeos que dá origem à espécie humana. Nestes casos, o mito estabelece uma relação de inversão com as práticas sociais de seus adeptos. A relação sexual consangüínea é permitida aos ancestrais, que vivem naquele tempo, mas se torna uma prática abominável para os mortais comuns. O Gênesis não escapa desta característica. Mesmo se desprezarmos a pouco conhecida irmã gêmea de Abel, tão cobiçada por Caim7, as práticas incestuosas aparecem no Gênesis. Primeiro, com o próprio Adão e a Eva, filhos de um mesmo Criador, portanto tecnicamente irmãos, e carne da mesma carne, conforme proclamou Adão. Segundo, com Seth que gerou a Enos, provavelmente com a parceria de uma mulher, filha de Adão.

Em uma cultura fortemente marcada por oposições binárias, do tipo bem/mal, mulheres permitidas/mulheres proibidas etc., temos que concordar, mais uma vez, com Leach que as personagens do Gênesis pertencem a uma terceira categoria de seres, os anômalos ou os mediadores, que são capazes de praticar atos proibidos ao restante da humanidade.

Discordamos, portanto, de Leach quando estabelece que o consumo do fruto proibido levou o primeiro homem e a primeira mulher ao conhecimento da sexualidade, quando diz que "Adão e Eva comem o fruto proibido e tornam-se conscientes da diferença sexual". Baseamos a nossa discordância tanto na análise dos textos canônicos quanto os não canônicos. Quanto a estes últimos, lembramos que Lilith abandonou Adão porque queria ficar por cima no ato sexual; a serpente desejou Eva estimulada pela visão da mulher tendo relações sexuais com o primeiro homem. Quanto aos primeiros, recordamos que o versículo 28, do capítulo 1, apontado anteriormente neste trabalho como anterior à Eva, e conseqüentemente antes de sua desobediência, recomendava ao casal inicial "frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra..." O próprio versículo 27, quando diz "macho e fêmea os criou", já sugere a possibilidade do intercurso sexual. Por outro lado, não existe nenhuma indicação de relacionamento com a sexualidade nos trechos mais relacionados com a desobediência original como nos versículos 4 e 5, do capítulo 3: 4. "Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis." 5. "Porque Deus sabe que no dia em que d'ele comerdes se abrirão aos vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal." Foram, com certeza, editores bíblicos de um período mais recente, dominados por uma ética sexual do tipo que hoje chamamos judaico-cristã, que adaptaram o texto tornando-o mais compatível com uma moral sexual mais rígida e estabelecendo uma nova dicotomia de categorias do bem e do mal. Foram eles que consideraram a prática sexual como pecaminosa.

A principal mensagem do conjunto de mitos produzidos por uma sociedade de pastores e guerreiros nômades, fortemente patriarcal e patrilinear como demonstram as genealogias do Gênesis, imbuída de uma ideologia machista, refere-se exatamente à questão da mulher vista como um ser extremamente perigoso, necessitando portanto ser fortemente controlada. Esta forma de perigo fica demonstrada, no mito, pelo comportamento das duas primeiras mulheres, as esposas de Adão. Lilith recusou ser dominada pelo homem. "Por que devo deitar embaixo de você?" ¾ pergunta ela ¾ "Eu também sou feita do pó, e assim sendo somos iguais"8. E nem mesmo a tentativa de Adão de dominá-la pela força produz resultado; ela invoca o nome de Deus e foge para o mar Vermelho, uma região abundante em demônios lascivos, com os quais ela reproduz diariamente uma centena de lilim (demônios, filhos de Lilith). A sua rebelião a transforma definitivamente em um ser demoníaco, perpétuo inimigo dos homens e de suas crianças. É muito significativo que Lilith não ataque as mulheres, com a exceção apenas das noivas. Eva, denominada por Adão "a mãe de todos os seres viventes", e mais fácil de ser subjugada porque não foi feita como ele do pó, mas de uma parte dele, também demonstrou a sua capacidade de ser perigosa. Ao ser seduzida pela serpente, desobedeceu a ordem de Deus de não comer do fruto proibido e convenceu ao homem a fazer o mesmo ("Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi" ¾ Gênesis, 3, 12), condenando toda humanidade a ser exilada do Éden. Estruturalmente, Lilith e Eva cometeram o mesmo crime, o da desobediência ao Senhor e foram punidas da mesma forma: Todos os dias, por toda a eternidade, Lilith, "a mãe dos demônios" tem que se conformar com a morte de 100 lilim; da mesma forma, Eva é a responsável pela morte de todos os seus descendentes que poderiam ser imortais se continuassem a viver no Paraíso.

Concluindo, a nossa intenção neste trabalho foi uma reconstrução de um mito de origem de um grupo de pastores nômades que mais tarde foram identificados como Hebreus, pertencentes a uma mesma área cultural, cujos maiores expoentes foram as culturas Babilônica e Sumeriana. Muito dos mitemas encontrados nos mitos bíblicos tem a sua origem nas versões mais antigas dos povos da Mesopotâmia. O processo de canonização do Torá (e conseqüentemente da Bíblia) iniciou-se aproximadamente no ano 400 a.C., durante o governo de Ezra9, um dos chamados editores bíblicos. Não pretendemos reconstituir aqui todas as modificações sofridas após o livro sagrado dos judeus ter sido apropriado pelo Cristianismo, apenas daremos uma idéia destas transformações indicando a quantidade de textos que foram considerados apócrifos10 pelos diferentes editores.

Cerca do ano 100 a.C., os rabinos preocupados com a canonização do Torah consideraram como verdadeiros todos os textos que foram produzidos antes de 500 a.C., mantendo uma constante discussão sobre os demais. Este processo culminou entre a queda de Jerusalém (70 a.C.) e o ano de 135, pelos componentes da chamada escola de Yavneh. A partir desta época nenhum novo livro podia ser acrescentado e rejeitado. Tal fato deixou de lado um considerável número de textos em hebreu ou aramaico, que foram então denominados os livros escondidos ou os apócrifos. Muitos destes textos foram incorporados no Septuagint, uma versão grega do Velho Testamento, produzida em 270 a.C. e, desta forma, é uma variante mais extensa que a Bíblia judaica. A tradição protestante é mais fiel ao texto Hebreu, enquanto a católica está mais próxima do Septuagint.

São considerados apócrifos nas Igrejas Protestantes e aceitos pela Igreja Católica os livros de Tobias (escrito em Hebreu e Aramaico, 200 a.C.), Judith (escrito em Hebreu, 200 a.C.), A Sabedoria de Salomão (composto nos meios helenísticos, 100 a.C.), Baruch ( 100 a.C.), A Carta de Jeremias, Macabeus I e II ( o primeiro escrito em Hebreu e o segundo em Grego, ambos cerca de 200 a.C.), Adições ao livro de Daniel (data desconhecida), Adições ao livro de Ester (provavelmente 100 a.C.) e A Sabedoria de Jesus Sirach (escrito em Hebreu, 200 a.C.).

São considerados apócrifos tanto nas Igrejas Protestantes como na Católica os livros de Macabeus III e IV (100 a.C.), Ezra III e IV (200 a.C.) e a Prece de Manasseh (data incerta).

São considerados apócrifos pela Igreja Católica e pseudografados pelas Igrejas Protestantes os livros A Carta de Aristea (200 a.C.), Jubileus (escrito em Hebreu no fim do segundo século a.C.), O Testamento dos Doze Patriarcas (escrito em hebreu ou aramaico, entre o primeiro e o segundo século a.C.), Enoch I (165 a.C.), Salmos de Salomão (escrito em hebreu, cerca de 50 a.C.), A Assunção de Moisés (início da era cristã), A Ascensão de Isaias (idem), O Apocalipse de Baruch ( 50 a.C.), os Livros Sibilinos (inicio da era cristã) e o Documento de Damasco (200 a.C.).

Tal inventário11 mostra a quantidade de material que foi retirado das bíblias atuais e que provavelmente, em muitos casos, contêm uma quantidade razoável de informações míticas à disposição dos estudiosos preocupados com uma análise antropológica da cosmologia judaica. De nossa parte, contentamos-nos em ter realizado uma análise que, seguindo os passos da efetuada por Leach, parece-nos mais abrangente e mais fiel às versões mais arcaicas do mito hebreu.



Notas

1 Utilizamos o verbo pasteurizar no sentido de realizar um processo através do qual se extrai o que não é desejável.

2 De Pauly, apud Roberto Sicuteri.

3 "Lilith é usualmente derivado da palavra Babilônica/Assíria Lilitu `um demônio feminino ou um espírito do vento' ¾ parte de uma tríade mencionada nas invocações mágicas babilônicas. Mas aparece mais cedo como Lilake em uma inscrição Sumeriana do ano 2000 a.C. que contém a lenda `Gilgamesh e o Salgueiro'. É uma demônia vivendo em um tronco de salgueiro vigiado pela deusa Inanna (Anath) em uma margem do Eufrates. A etmologia do hebreu popular parece derivar Lilith de layl, noite, e ela freqüentemente aparece como um monstro noturno peludo no folclore Árabe." (Graves e Patai, 1983:68).

4 Robert Graves & Raphael Patai (1983) citam os nomes Senoy, Sansenoy e Semangelof, como as palavras que devem ser usadas para afugentar Lilith. Estes Autores não estão certos que estes sejam os nomes próprios dos emissários do Senhor.

5 "De acordo com uma lei sumeriana, se uma mulher 'odeia' seu marido e diz para ele 'Voce não é mais meu marido' ela deve ser lançada no rio" (Campbell e Freedman, 1970). Provavelmente é numa lei semelhante a esta que se baseia a ameaça dos anjos.

6 Entre nós existe o costume de dizer que uma criança que está sorrindo brinca com um anjo. Esta afirmação é da mesma estrutura mítica que a referida no texto, passando, porém, por uma transformação simples do tipo "substitua cada elemento por seu oposto binário" (Leach, 1983:81). No texto, a criança brinca com o demônio, entre nós com o anjo.

7 Casando-se ao leste do Eden, Caim poderia ter se livrado do pecado do incesto, mas Leach compara o fratricídio a uma forma homossexual de incesto.

8 Com esta frase, Lilith indica a simultaneidade de sua criação e o fato de ter sido feita da mesma matéria que Adão. Neste sentido, é bastante esclarecedor o trecho de Fox, R. (1993:17): "Deus pega um punhado de terra ("o pó da terra", em hebraico "adamah"), e molda o homem ("adam"), como se a semelhança existente entre duas palavras pudesse apontar para uma verdadeira ligação entre dois objetos."

9 Ezra foi governador de Judá, a serviço de Artaxerxes I, Rei da Pérsia. Restaurou os muros da cidade de Jerusalém e procurou dar maior liberdade ao povo judeu. A sua principal preocupação foi a de regulamentar os livros sagrados, sendo Autor de um deles (Musaph-Andriesse, 1982).

10 Este termo era utilizado inicialmente para se referir aos livros excluidos do conjunto canônico, tendo mais tarde adquirido um significado pejorativo.

11 As informações sobre o processo de canonização e a relação dos apócrifos e pseudografados foram extraídas do livro de Musaph-Andriesse.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77011997000100005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

Revista de Antropologia - USP

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Artur: De Guerreiro a Rei Cristão nas Fontes Medievais Latinas e Célticas


Profa. Ms.Adriana Zierer
Doutoranda em História/ UFF
medival@domain.com.br



Fig 1. Rei Artur em combate contra os bárbaros, com o estandarte do dragão. Século XIV. Biblioteca Nacional de Paris. In: ROLLESTON, T.W.Guia Ilustrado de Mitologia Céltica . Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 125


A figura de Artur como rei foi construída do século VI ao século XII quando o mito — até então forma de resistência dos bretões contra os seus dominadores, os saxões — foi relido pelos invasores normandos, tornando-se modelo de conduta régia em toda a Europa Ocidental.
Como o mito (1) arturiano surgiu primeiro entre os bretões, seria interessante situar historicamente esta população. Povo de origem céltica, habitantes da Bretanha, os bretões viviam em tribos rivais entre si, sendo liderados por um chefe ou rei. Acreditavam na existência do Outro Mundo, povoado por vários deuses, sempre em contato com os vivos.
Um relato ilustrativo da passagem dos celtas ao Além é o conto Pwill, Princípe de Dyvet. Esta fonte relata a troca de papéis entre Pwill, do mundo dos vivos, com o rei do Outro Mundo, Arawn. Cada um assume a identidade e forma física do outro, sendo que Pwill reina no mundo dos mortos e dos deuses por um ano. Sua principal prova consistia em matar um oponente de Arawn, no que foi vitorioso. Como prêmio, ao voltar ao mundo dos vivos, passa a ser conhecido como Pwill, princípe de Awnnwvyn (isto é, princípe do Outro Mundo)
( Mabinogion , 1988: 03-43).

Devido à sua falta de unidade política, a população celta sofreu conquistas sucessivas. No século I, foram atacados pelos romanos. Estes, apesar da dominação realizada, protegeram os bretões de outros invasores através da construção das muralhas de Adriano. Os romanos também não interferiram muito na cultura céltica, apesar de terem perseguido os druidas. O druidismo era forte na Bretanha e se constituía num perigo para o pensamento e a política dos romanos. No ano 61, por exemplo, foram massacrados os druidas de Anglesey e destruído esse grande santuário do druidismo. No entanto, em busca de aliados compreensivos nesta região longínqua do Império Romano, a romanização na região não foi profunda e foi permitido na Bretanha a manutenção da hierarquia céltica tradicional (MARKALE, 1994: 152-156).
Mas, com o fim do Império Romano no século V, os bretões passaram a sofrer o ataque de outros povos que pretendiam conquistar a ilha: os escotos, pictos e saxões. É bom lembrar que os escotos (irlandeses) e pictos (escoceses) eram também povos de origem céltica, mas sempre estiveram em conflito com os bretões. No século VI, sob a chefia dos saxões conseguiram dominar a Bretanha.
Neste momento, os bretões passaram a difundir histórias sobre a existência de um rei perfeito, Artur, que um dia retornaria da Ilha de Avalon e retomaria o controle da Bretanha, expulsando os invasores. Foi assim que surgiu o mito arturiano.
Pistas histórias se espalharam pois muitos bretões após a dominação saxã refugiaram-se na Armórica ou Pequena Bretanha.
A existência de Artur não é atestada pela historiografia. Se existiu, teria sido um chefe guerreiro (dux bellorum ) vencedor de várias batalhas contra os saxões, sendo a mais importante a batalha do Monte Badon, já no século VI.
Por isso, após a derrota dos bretões, as histórias construídas em torno da imagem de Artur se tornaram um meio de resistência à dominação através das idéias. O elemento básico do mito é a crença de que ele é uma realidade vivida, isto é, as pessoas acreditam que o mito é real.
Com a invasão normanda sobre a Bretanha, houve uma apropriação do mito arturiano, pois os conquistadores criaram uma nova interpretação sobre Artur, procurando apresentar-se como descendentes do rei bretão. Entendo o conceito de apropriação como uma nova interpretação de um discurso (ato de comunicação linguística). (ROMANO, 1989) Para Chartier as práticas discursivas são “produtoras de ordenamento, afirmação, distâncias, divisões; daí o reconhecimento das práticas de apropriação cultural como formas diferenciadas de interpretação”(CHARTIER, 1988: p.27-28).
Artur, transformado então em modelo de rei cristão, portava agora uma dupla ambigüidade; possuía a espada Caliburn, forjada no Outro Mundo e o escudo com a imagem da Virgem Maria, símbolo da religião cristã. Neste segundo momento, a figura de Artur continuou como um mito, pois transformou em modelo de rei perfeito, espelho dos reis medievais, um rei que nunca havia existido.
Procurarei agora apresentar as principais fontes sobre o mito arturiano, lembrando que este relaciona-se estreitamente à narrativa, pois o mito expressa-se através de um relato.
A partir do século XII, começou a ser construído por escrito na Europa Ocidental o mito do rei Artur. Esta imagem do soberano perfeito, senhor de uma cavalaria modelo é particularmente interessante por ter sido utilizada para fins políticos por diversos grupos dominantes na época — rei, nobreza, clero, cada qual visando fortalecer o seu poder.
As histórias sobre Artur e seus cavaleiros não compõem um único ciclo ou conjunto de narrativas. Pelo contrário, independentes umas das outras, têm em comum alguns elementos. Artur, seja personagem central ou secundário, é sempre apontado como rei justo, congregando ao redor de si uma corte valorosa. Quando sua atuação bélica é mencionada, seu papel como guerreiro excepcional é sempre louvado.
O mito construído pelos bretões era bem diferente daquele imaginado pelos escribas desde o século XII, os quais só conservaram elementos superficiais das histórias tradicionais e as reescreveram de acordo com os gostos e interesses das cortes européias.
Tratarei a seguir das fontes arturianas, fazendo um mapeamento das mesmas e não apresentando a visão de uma história única e linear sobre Artur.
Figura 2. Rei Artur. Escultura alemã do século XIII. Germanisches Nationalmuseum, Nuremberg


II.1. FONTES LATINAS
II.1.1. Geoffroy de Monmouth
A obra que favoreceu a difusão das lendas arturianas na Europa Ocidental foi a Historia Regum Britanniae (1135-1138), do clérigo Geoffroy de Monmouth. Não que esses relatos não fossem conhecidos, como se pode atestar pela presença de esculturas de Artur e Guenièvre na catedral de Módena, na Itália, antes da obra de Geoffroy (BRUNEL, 1997: 102, MARKALE: 1994, p. 101). Porém, foi a dinastia anglo-normanda, conquistadora da Inglaterra no século XI, a primeira a se apropriar do personagem Artur para fins políticos, com o objetivo de reforçar seu poder.
O relato é uma mistura de crônica histórica e canção de gesta. Enquanto a crônica trata de fatos contados na ordem de sua sucessão, codificando esses fatos e suas datas ano a ano, reino a reino, numa narrativa sucinta e linear, a canção de gesta é um longo poema de tema guerreiro (épico). Era cantada com auxílio de um instrumento de cordas e sua temática eram as lutas da Alta Idade Média para a conquista de territórios, nos quais os heróis lutam contra os inimigos dos cristãos. As canções de gesta foram compostas nos séculos XII e XIII e fazem parte da literatura aristocrática. Os poemas mais famosos são A Canção de Rolando e A Canção do Mio Cid.
Embora cite vários reinados, o que a caracterizaria como uma crônica, a Historia Regum Britanniae não é linear; por exemplo, o anúncio do nascimento de Artur por Merlin é uma antecipação (2). O relato de Geoffroy aproxima-se das canções de gesta porque Artur é apresentado como guerreiro invencível. O fato de ser um rei guerreiro em luta com os pagãos e de empreender uma guerra santa contra eles era um motivo do gênero épico.


O texto é ambíguo, misturando ficção e história. Ao tentar dar veracidade à sua narrativa, o autor cita duas fontes:
De Excedio et Conquestu Britanniae , de Gildas (século VI) e Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum (século VIII), de Beda, embora utilize também informações da Historia Brittonum
, de Nennius (século IX). Apesar de citar estas fontes se apresenta como tradutor de uma fonte bretã única para o latim.
O objetivo da Historia Regum Britanniae é a exaltação dos bretões, procurando fazer uma história genealógica para legitimar os grandes senhores normandos, e logo depois a dinastia dos Plantagenetas. O texto fora uma encomenda da corte de Henrique I (1100-1135), avô de Henrique II e então rei da Inglaterra. A obra é dedicada ao conde Roberto I, filho ilegítimo de Henrique I, tendo sido concluída após a sua morte, já no governo de Estevão de Blois (1135-1153). A dedicatória pode ser vista através destes versos: “Tu também Roberto, conde de Gloucester (...) fazes com que esta obra traga um brilhante sucesso com o público. Tu és um descendente do ilustre rei Henrique.” (GEOFFROY DE MONMOUTH (HRB), 1985: 26).
De acordo com o tradutor Mattey-Maille, Roberto I foi protetor não apenas de Geoffroy, como também incentivou a segunda e terceira edições da Historia Regum Anglorum , de William de Malmesbury, composta entre 1135-1140 e que é também dedicada a este conde. Embora a maioria dos manuscritos da Historia Regum Britanniae sejam dedicados a Roberto, alguns fazem uma dupla menção, referindo-se ao conde de Gloucester e ao conde de Meulan, Galeran. (MATHEY-MAILLE, 1985:p.289).
Geoffroy usa livremente suas fontes sem se preocupar em ser fiel ou respeitar o conteúdo das mesmas. Quanto à fonte bretã que ele diz traduzir, foi certamente, uma invenção para dar legitimidade a seu texto e conferir-lhe autoridade (HRB, 1985: 14).
O texto pretendia valorizar o glorioso passado dos bretões, identificando-os aos normandos, os quais se apresentavam como continuadores da linhagem bretã através de seu mais nobre representante, Artur.
Além disso, existe uma clara relação entre Artur e Rolando, o herói da canção de gesta francesa. Os anglo-angevinos pretendiam dar uma resposta literária ao rei da França, apresentando um herói guerreiro à altura de A Canção de Rolando , cujo personagem central é ligado à figura de Carlos Magno e consequentemente à dinastia capetíngia.
A Canção de Rolando é um poema escrito entre os fins do século XI e meados do século XII, que contém 4002 versos decassílabos assonânticos. Baseia-se num fato real do reinado de Carlos Magno, a batalha de Roncesvales, na qual morreu Rolando, sobrinho do rei. No relato, que mistura elementos fantasiosos, o motivo da derrota dos cristãos é a traição de Ganelão, nobre da corte do rei que se alia aos muçulmanos em virtude de vingança pessoal contra o enteado Rolando. Este último é apresentado como exemplo de bravura, juntamente com outros doze cavaleiros, denominados os Doze Pares da França.
Na obra o monarca francês é apresentado como o único capaz de impedir os infiéis de dominarem a Europa. Como resposta, Henrique Plantageneta, vassalo do rei Luís VII e rei da Inglaterra, encomendou a Robert Wace a transcrição para o francês dos versos de Geoffroy, que apresenta a história de um rei expansionista, conquistador de trinta reinos e de Roma. Artur, assim como Rolando, também combatia pela Cristandade ao expulsar os pagãos da Bretanha: os saxões, escotos e pictos. O primeiro chega a conquistar a França, então sob domínio romano.
3. Rei Artur. Detalhe da tapeçaria francesa Os Nove Cristãos Notáveis . Século XIV.


Sobre o uso político de figuras como Rolando, Carlos Magno e Artur, é interessante este trecho de Georges Duby: o poder de Henrique (II) enraizava-se fortemente no reino de França. Embora se estendesse para lá da Mancha, onde o príncipe era rei. Na rivalidade que o opunha ao Capetíngio, o Plantageneta apoiava-se nesse cargo insular. Facilmente ia buscar à cultura das ilhas britânicas os materiais de um edifício ideológico construído contra a ideologia da realeza franca. Sabe-se como os literatos que escreviam sob encomenda exploraram a ‘matéria da bretanha’, erguendo ante a figura de Carlos Magno, a do rei Artur (DUBY, 1982: 313).
O monarca bretão portava elementos pagãos e cristãos: uma espada (Caliburn) forjada no Outro Mundo, mas seu escudo Pridwen, a quem sempre apelava nas batalhas, continha a imagem da Virgem Maria (HRB, 1985: 208-209).
A morte de Artur ocorre devido à traição de Mordret, que usurpa o trono quando o tio empreendia a conquista de Roma. Até então invencível, Artur é mortalmente ferido na luta contra o sobrinho, indo a seguir à Ilha de Avalon para curar seus ferimentos. A obra de Geoffroy não diz, no entanto, se Artur algum dia retornará, como afirmavam as velhas crenças.
A conquista dos bretões é vista no seu livro como um castigo divino. Com o domínio saxão, uma série de calamidades se abatem sobre o país, como a peste e a fome. O último rei bretão, Cadwallader, refugia-se na Armórica, e recebe de um anjo um aviso para se dirigir ao papa de Roma, onde morre. A ressurreição dos bretões é prometida para um dia no futuro, graças à fé cristã (HRB, 1985: 259-285).
Numa obra posterior de Geoffroy de Monmouth, Vita Merlini (1148), Artur também não retorna de Avalon para salvar seu país. De acordo com as profecias de Taliesin, serão Cadwallader e Conan que mais tarde libertarão a Bretanha:

Na Vita Merlini (...), o papel de messias é igualmente
recusado a Artur numa conversa onde Taliesin aconselha a
enviar mensageiros até a Ilha de Avalon, a fim de trazer de
volta o grande rei para expulsar os saxões. Serão
Cadwallader e Conan, que segundo as profecias de Merlin,
deverão ser mais tarde os libertadores do país
(SÉCHELLES, 1957: 187).


A suposta descoberta dos túmulos de Artur e Guenièvre na abadia de Glanstonbury em fins do século XII também parece contribuir com a idéia de que o rei realmente estaria morto, procurando sepultar a idéia bretã de que um dia conseguiriam retomar o controle da Ilha.
Figura 4. Placa do local onde estão supostamente enterrados Artur e Guenièvre diante das ruínas da Abadia de Glanstonbury. Os restos mortais do rei e rainha foram sepultados em 1278, por ordem do rei Eduardo I.
Matéria completa no endereço a seguir: http://www.brathair.cjb.net número 2 - 1 - 2002
Revista Brathair

O Mito de Merlin na Idade Média e no Romantismo Alemão

Daniele Gallindo Gonçalves e SouzaGraduanda em Letras/ UFRJ

Figura 1. Burne-Jones - (The Beguiling of Merlin). A Ilusão de Merlin, 1874. Lady Lever Art Gallery, Liverpool, England.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por finalidade apresentar, de forma sucinta, os relatos literários que têm como temática o mito de Merlin. Para tanto começaremos por analisar a aparição do mesmo na literatura medieval e, a posteriori, no Romantismo Alemão.
A fama literária de Merlin foi por muito tempo dependente da literatura arturiana. No entanto, pelas diferentes ressonâncias que desperta, o personagem exerceu atração e adquiriu uma popularidade que lhe permitiram ganhar vida fora do quadro medieval e atingir a condição de mito literário autônomo. De início, foi profeta da revanche bretã, criador da Távola Redonda e inspirador da cavalaria andante. Pela singular maneira como se posiciona entre o bem e mal (era fruto da ligação do diabo com uma virgem) e entre a vida e a morte (devido a sua paradoxal sobrevida na “prisão” de ar ou em seu túmulo), Merlin pode encarar nos tempos modernos o enigma da história e do devir. Finalmente, por sua figura de feiticeiro capaz de realizar e sofrer as mais diversas metamorfoses, de construtor e engenheiro mítico e de bruxo de ocasião, ele permanece como um dos heróis privilegiados do imaginário mágico.
Para tratarmos do papel de Merlin na literatura, torna-se necessário a discussão de alguns conceitos, como o de mito.


I . MITO
A melhor maneira encontrada para definir mito, já que a mesma foi proposta, é de se apropriar das seguintes definições:



“, ... o mito designa, ..., uma “história verdadeira” e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo.” (Eliade: 1998, 7)
“...: o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais., uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição.”(Eliade: 1998, 11)



A partir destas definições podemos depreender o que será o mito na literatura: um relato (ou uma personagem implicada num relato) simbólico que passa a ter valor fascinante (1) (ideal ou repulsivo) e mais ou menos totalizante para uma comunidade humana mais ou menos extensa, à qual ele propõe a explicação de um a situação ou forma de agir.
Na criação literária, o mito intervém na relação do escritor com sua época e seu público: um escritor exprime sua experiência ou suas convicções através das imagens simbólicas que repercutem um mito já ambientado e/ou são reconhecidas pelo público como exprimindo uma imagem fascinante.
O texto literário não é em si um mito: ele pode retomar e reeditar imagens míticas, ele próprio pode adquirir valor e fascínio mítico em certas circunstâncias, para determinado público durante certo tempo.
Apresentaremos, a seguir, algumas informações sobre Dorothea Schlegel, uma das componentes do romantismo alemão e autora de A História de Merlin (1803-1804).



II. DOROTHEA SCHLEGEL (1763 – 1839)


Dorothea Veit, filha do famoso filósofo berlinense Moses Mendelssohn, chega a Paris em 1802 com seu companheiro Friedrich Schlegel. Nesta época encontra-se separada de seu primeiro marido, um banqueiro, a quem abandonara para viver com Schlegel. Para a sociedade da época, o fato se tornara motivo para escândalos. Em 1804, desliga-se da comunidade judaica e adere ao protestantismo, a fim de abrir caminho para seu casamento com Schlegel. Nesta época, o livro Sammlung romantischer Dichtungen des Mittelalters já havia sido publicado como sendo de autoria de Friedrich, embora quase todo ele resulte das aptidões literárias de sua esposa. Sua versão da história de Merlin tem por base o Roman du Saint Graal, de Robert de Boron, composto em fins do século XII ou início do século XIII (2). Seu trabalho não representa uma
tradução filologicamente exata, trata-se de uma recriação quase livre, que procura resgatar, tendo como base o texto original, a modernidade do tema. “Uma versão que revela tanto a visão de mundo e de si própria da primeira geração de românticos, quanto fala da época de Robert de Boron.” (GÜNZEL: 1993, 187). Posteriormente, tornou-se a converter-se, desta vez para o catolicismo, junto com seu marido, em 1808. Após a morte de Friedrich Schlegel, em 1829, vai morar com seu filho Philipp Veit, em Frankfurt, falecendo em 1839.


III. ORIGENS DE MERLIN NA LITERATURA MEDIEVAL

Assim como a existência de Artur não é comprovada historicamente, o mesmo se pode dizer de Merlin. Porém, se ambos existiram, Artur viveu antes de Merlin cerca de sessenta anos.
Merlin, cujo nome galês é Myrddin, está associado na literatura a duas figuras: o Merlin Selvagem e o Merlin Ambrósio. O primeiro é baseado na figura de um rei proveniente do norte da Bretanha e que lutou pelos bretões contra os saxões no século VI. Este teria enlouquecido após uma batalha e passara a vagar pela floresta, em contato apenas com os animais, onde teria adquirido poderes sobrenaturais. Há dados históricolendários que podem ligá-lo ao rei Lailoken, da Escócia.
Já Merlin Ambrósio aparece nas narrativas como o filho de um íncubo e uma donzela, capaz de fazer profecias e é apresentado nas fontes latinas pela primeira vez na Historia Regum Britanniae, mas baseado num outro personagem da Historia Brittonum (c. 800), de Nennius, Aurélio Ambrósio. Nesta narrativa, onde Artur aparece como dux bellorum (guerreiro invencível), os dois personagens não travam contato. O rei bretão usurpador Vortigern tenta construir sem sucesso uma fortaleza que desmorona sempre após a sua conclusão. Os sábios do rei o aconselham a matar um menino sem pai e aspergir seu sangue no solo para acabar com a maldição.
O menino Ambrósio (na verdade, Aurelius Ambrosius) é encontrado, desmascara os sábios na presença do rei e explica sobre a existência de duas serpentes, branca e vermelha, debaixo do solo. A seguir, profetiza sobre o destino da Bretanha (A História dos Bretões, http://www.ricardocosta.com/nennius.htm, cap. 40-42).
O mesmo tema é retomado na Historia Regum Britanniae (1135-1138) de Geoffrey de Monmouth quando as serpentes são substituídas por dragões e Merlin (Ambrosius Merlinus) prevê que a Bretanha será derrotada pelos saxões.
Em algumas narrativas célticas é citada a figura de Merlin partindo com seus nove bardos num barco de cristal. É também visto as vezes como um rei solar cultuado em Stonehenge, motivo talvez pelo qual na Historia Regum ele traga essas pedras, por meio de mágica, da Irlanda à Inglaterra.
O Merlin Selvagem aparece principalmente em outra obra de Geoffrey de Monmouth, a Vita Merlini (1148), a qual por sua vez baseava-se na obra inacabada do mesmo autor Prophetiae Merlini (1134), que sofrera influência de narrativas célticas.
Merlin é associado a Artur já na Historia Regum Britanniae, quando é o responsável pelo nascimento daquele. Nesta narrativa, o mago produz a poção que faz o rei Uther adotar as feições de Gorlois, marido da duquesa Ingerna. Assim, enquanto Gorlois já estava morto, Artur é concebido sem que a duquesa soubesse do disfarce.
Porém, a ligação entre o mago e o rei Artur termina neste ponto, sendo mencionado mais uma vez apenas as profecias de Merlin sobre a conquista da Bretanha e o incerto retorno de Artur. Será somente com Robert de Boron, obra na qual se baseou Dorothea Schlegel, que Merlin conduz Artur para ser criado por Antor e depois do episódio da retirada da espada na bigorna torna-se seu conselheiro.
Nas versões anteriores de Geoffrey de Monmouth e Robert Wace, Artur é criado pelos pais e torna-se rei legítimo aos 15 anos após a morte de Uther (3).
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Revista Brathair

domingo, 4 de novembro de 2018

A história dos santos irmãos

A história dos santos irmãos
São Cosme e São Damião são dois santos orientais, provavelmente martirizados em Egéia, Cilícia, Ásia Menor, região da atual Turquia, a 27 de setembro de 287, durante a perseguição do imperador Diocleciano (284-305). Historicamente, pouco se sabe sobre a vida destes dois irmãos médicos e, segundo a tradição, gêmeos. Seus restos mortais foram levados para Roma, durante o pontificado de João Félix, e depositados na igreja que tem seus nomes.

Seu culto divulgou-se intensamente pela Europa, principalmente na Itália, Flandres, França, Espanha e Portugal, onde várias igrejas foram construídas sob seu patronato. Considerados protetores dos cirugiões, eram padroeiros de diversas confrarias, como por exemplo, a Confrérie et College de Saint Côme, fundada em Paris, em 1226, a mais famosa associação médica da Europa e que existiu até a Revolução Francesa. Nas primeiras décadas do século XIX, pagava-se na Universidade de Coimbra a quantia de 480 réis pelo registro do diploma de medicina e 100 réis pelo exame de boticário, valores devidos à Irmandade dos Santos Cosme e Damião.

Estão ligados aos cultos dos deuses da reprodução, fecundação, germinação e moléstias sexuais. No Brasil, estão mais dedicados à defender da fome, das doenças do sexo e dos partos de gêmeos. No sincretismo religioso, os jeje-nagôs os identificaram como os orixás gêmeos sudaneses Ibeiji, que são a divinização do parto duplo. No seu dia oblacional, recebem festas também no candomblé, com ofertas de alimentos e reunião de amigos para danças, comidas e bebidas. Em grego são chamados de anargiros, o que significa sem dinheiro, por nunca receberem dinheiro em troca de seus serviços. Curavam não somente pessoas, mas também animais.

Conta a tradição popular que um dia, São Damião aceitou uma pequena oferta de uma mulher chamada Paládia, a quem havia curado de uma doença. São Cosme recriminou-lhe o gesto, dizendo que não queria ser enterrado junto a ele. Quando os cristãos recolheram seus restos mortais para sepultá-los, um camelo começou a bradar com voz humana, dizendo que enterrassem os dois irmãos juntos, uma vez que Damião recebera a oferta apenas para não humilhar a pobre mulher.

Revista Jangada Brasil - 1

terça-feira, 30 de outubro de 2018

EU, TITUBA, FEITICEIRA... NEGRA DE SALÉM, DE MARYSE CONDÉ: ASPECTOS DO DUPLO E OUTROS MITOS

Exame de uma Bruxa, de T.H. Matteson 1853.
Peabody Essex Museum


EU, TITUBA, FEITICEIRA... NEGRA DE SALÉM, DE MARYSE CONDÉ: ASPECTOS DO DUPLO E OUTROS MITOS

Lilian Cristina Corrêa


Doutora em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde ministra cursos de Graduação e Pós-graduação (Lato Sensu) na área de Letras, mais especificamente trabalhando com Literaturas em Língua Inglesa. Integra o grupo de estudo sobre o Duplo, liderado pela professora doutora Lílian Lopondo.

A figura da mulher-feiticeira está ligada à história da humanidade há muito tempo: de conhecedora de segredos da natureza a entidade demoníaca, essa figura feminina sempre sofreu consequências por representar o “diferente”, ameaçando as esferas do ser, do poder e do saber e, acima de tudo, intimidando ou questionando doutrinas religiosas. É possível, contudo, sugerir outro ponto de vista, complementar a tais posicionamentos, mais especificamente no que diz respeito ao estudo de determinados momentos históricos que tiveram consequências críticas para o desenvolvimento da humanidade, a saber, aqueles que tratam da existência da figura da bruxa ou feiticeira, de toda a problemática que envolve tal figura e os problemas sociais e políticos vinculados a elas, as 'criaturas do além', em diversas esferas do conhecimento, como pode-se observar no artigo Bruxas, da fogueira ao confinamento, publicado na revista História Viva (2006):

A abordagem histórica das bruxas deve começar com a pergunta inescapável: elas existiram? A resposta é afirmativa, mas comporta uma ressalva. Sim, elas existiram, mas como construção social de uma época, como objeto catártico de uma sociedade dominada pela Igreja que demonizava o que soasse herético. [...] A repulsa e o temor à bruxaria tinham também um componente que hoje seria chamado de sexista. Havia bruxos, mas a perseguição visou mais às mulheres. Eram, sobretudo elas que morriam queimadas nas fogueiras da Inquisição medieval. Os tempos, no entanto mudaram, e o declínio do poder da Igreja, a partir do Iluminismo, correspondeu a penas mais brandas, como o isolamento das acusadas em hospícios. (p.32)



Nesse contexto, pretende-se, com o presente artigo, apresentar a figura da mulher-feiticeira e os questionamentos que a cercam através da personagem Tituba, protagonista do romance Eu,Tituba, Feiticeira... Negra de Salém (1986), de Maryse Condé, e suas relações não somente com a imagem da feiticeira, mas também com suas possíveis releituras intertextuais com figuras mitológicas.

Vale lembrar que o romance de Condé constitui uma forma de reescrita e releitura da peça de Arthur Miller, As Bruxas de Salém (1953), como uma tentativa de ‘ocupar lacunas’ deixadas pelo hipotexto e, ao mesmo tempo, sugerir novas alternativas, de modo a proporcionar uma nova possibilidade de compreensão, através de um novo ponto de vista, agora o da escrava, e também uma nova perspectiva, uma vez que a narrativa parte de uma estrutura pós-colonial.

É evidente a retomada da temática abordada por Miller no romance da antilhana Maryse Condé, que propõe a releitura da trama de As bruxas de Salém de forma mágica e, ao mesmo tempo instigante, não somente por retratar, sob outro ponto de vista, o período colonial americano e o episódio da caça às bruxas, mas por deixar como viés a possibilidade de outras interpretações, como a face dupla da imagem feminina representada por meio da personagem Tituba. A narrativa, escrita sob a forma de romance, traz a personagem Tituba, já relida da história por Miller, e seu envolvimento no episódio de Salém. Entretanto, Condé vai muito além disso, pois apresenta uma narrativa que subverte não somente a questão histórica, no que diz respeito à cronologia do texto de Miller, descortinando todos os eventos sob o ponto de vista da escrava, desde antes de sua chegada a Salém, até períodos posteriores ao episódio. Ao fazê-lo, Condé torna possível explorar toda uma gama de questões filosóficas, culturais e sociais, dentre elas: a questão de gênero, o papel materno, o feminismo, as similaridades entre as experiências de negros e judeus, a questão do amor, sexo, racismo, escravidão entre outros.

É importante ressaltar que se trata de uma obra de ficção e, em termos estritamente históricos, pouco se conhece sobre a vida da escrava Tituba, bem como há pouquíssimas informações documentais acerca de sua participação no episódio histórico de Salém – nada além do fato de ser oriunda de Barbados e confessar ser ‘uma bruxa’. Condé apresenta sua obra da seguinte forma:



Abena, minha mãe, foi violentada por um marinheiro inglês na ponte do Christ the King, num dia de 16**, quando o navio velejava rumo a Barbados. Foi dessa agressão que nasci. Desse ato de ódio e desprezo. (...) Minha mãe chorou por eu não ser menino Achava que a sorte das mulheres era ainda mais dolorosa que a dos homens. Para se libertarem de sua condição, não tinham elas que passar pelas vontades daqueles mesmos, que as mantinham na servidão e dormir em suas camas? Yao, ao contrário, ficou contente. (...) Foi ele quem me deu meu nome: Tituba. Ti-Tu-Ba. Não é um nome ashanti. Sem dúvida, ao inventá-lo, Yao quis provar que eu era filha de sua vontade e de sua imaginação. Filha de seu amor. (CONDÉ, 1986, pp. 11-15)



Ao apresentar sua narrativa, Condé promove um encontro entre a Tituba de Miller e sua ‘nova’ Tituba, que relata a história de sua vida desde antes mesmo de seu nascimento até sua chegada à América, passando pelo episódio de Salém, sua condenação por ter confessado conjurar com o demônio e ter escrito em seu livro e, posteriormente, cria uma nova realidade, obviamente ficcional, para a personagem após a sua prisão. Deve-se observar que em cada um desses momentos, é possível perceber, através da narrativa, as diferenças entre a Tituba de Miller, escrava sem voz, calada pela sociedade, que se aproveita do momento da confissão para dar voz às suas vontades e a Tituba de Condé, ainda escrava, mas com personalidade marcante, questionadora.

No romance de Condé, a protagonista se exila na América, por opção, para evitar a separação do homem a quem amava, John Índio, que era escravo e foi vendido ao Reverendo Samuel Parris antes que embarcasse para o Novo Mundo. Ela abdica da própria liberdade, pois não possuía donos, para estar ao lado de John Índio. Sabia, internamente, dos perigos que a cercavam, mas mesmo assim, manteve firme a ideia de seguir os comandos de seu coração:



Eu sabia que perigos terríveis me ameaçavam, mas era incapaz de nomeá-los (...). Aquela noite soprou um ciclone.
(...)
John Índio balbuciou:
- Um novo proprietário, senhora!
- É. Um homem de Deus que cuidará da alma de vocês. É um ministro chamado Samuel Parris. Tentou fazer comércio aqui, mas seus negócios não andaram bem. Então vai para Boston.
-Para Boston, senhora?
- É, fica nas colônias da América. Preparem-se para acompanhá-lo.
John Índio estava perplexo. Pertencia a Susanna Endicott desde a infância. (...) estava convencido de que mais dia menos dia iria falar em sua libertação. Mas eis que, em vez disso, sem mais nem menos, lhe anunciava que o vendia. E a quem, Senhor? A um desconhecido que ia atravessar o mar para tentar a fortuna na América...
Na América? Quem é que já tinha ido à América?
Quanto a mim, entendi o terrível projeto calculado por Susanna Endicott. Eu, somente eu era visada. Era eu que ela estava exilando nas Américas! (...) (CONDÉ,1997, pp. 50-51)



A partir do momento em que chega ao continente americano, Tituba percebe que sua vida ali nunca seria fácil. A descrição inicial se concentra na chegada à colônia americana dos Parris, seu contato com a esposa do Reverendo, sua filha e sobrinha e do carinho que nutria pela pequena Betty, filha de Parris. Revela que a família é transferida para a aldeia de Salém, mostrando que nem tudo parecia bem: “Desde o instante em que entrei em Salém senti que nunca seria feliz ali. Senti que minha vida aí conheceria provas terríveis, e que acontecimentos singularmente dolorosos embranqueceriam todos os cabelos da minha cabeça!” (CONDÉ, 1997, p. 81).

Quando as meninas da aldeia, entre elas Betty e Abigail, passam a demonstrar sinais de ‘histeria’, Tituba é acusada de feitiçaria, pois rondavam a aldeia boatos de que ela conhecia os segredos das ervas e de que conversava com os espíritos dos mortos. Ela, no entanto, meramente fazia uso da sabedoria que lhe fora passada por seus ancestrais para curar doenças e confortar os que precisavam de auxílio. Tituba sente-se uma estranha para si mesma naquele ambiente e as acusações só vêm a corroborar com tal situação: “Havia, no entanto, uma coisa que eu ignorava: a maldade é um dom que se recebe ao nascer. Não se adquire.” (CONDÉ, 1997, p. 99).

Qualquer tentativa de defesa que a favorecesse seria vã, pois já a haviam condenado: “Você, fazer o bem? Você é negra, Tituba! Só pode fazer o mal. Você é o mal!” (CONDÉ, 1997, p. 104). Até que ela se decide por embarcar no mesmo rio de lama que haviam lhe colocado, como uma tentativa de reverter a sua situação:



Quem eles queriam que eu denunciasse? Atenção! Eu não ia me contentar com denunciar as infelizes que caminhavam comigo na lama. Eu ia bater forte. Ia bater na cabeça. E eis que na extrema miséria em que me encontrava, o sentimento do meu poder me embriagava! Ah, sim, o meu John Índio tinha razão. Aquela vingança, com a qual eu tinha frequentemente sonhado, me pertencia, e pela vontade deles próprios! (CONDÉ, 1997, p. 125).



Em seu íntimo, Tituba sente-se fortalecida pelas palavras de John Índio e pela visão que teve da mulher que a criara, Man-Yaya:



Não se aflija, Tituba! Você sabe, o azar é irmão gêmeo do negro! Nasce com ele, deita-se com ele, disputa com ele o seio murcho. Come o peixe da sua cuia. No entanto, ele resiste. O negro! E aqueles que querem vê-lo desaparecer da superfície da terra pagarão caro. De todos, você será a única a sobreviver! (CONDÉ, 1997, p. 115).



Depois de acusada, Tituba confessa, é condenada e, assim como a personagem da peça de Miller e a personagem histórica, vai presa. Entretanto, seu destino é diferente de suas outras Titubas. A personagem de Condé volta a Barbados e se vê envolvida em conflitos em prol da liberdade, acabando por descobrir-se como figura histórica idolatrada pelo seu povo, um ícone, e passa por outros tantos dissabores antes de sua morte.

Ao retomar os fatos históricos e a narrativa de Arthur Miller, Condé estabelece uma interação entre as personagens apresentadas, recheando seus diálogos com uma série de críticas severas ao comportamento social da época no tocante à condição feminina e, ainda mais importante e abrangente, questiona os ‘silêncios’ e a ‘submissão’, o ‘poder’ e o ‘fazer’ inexoravelmente presentes na condição da mulher sob diferentes pontos de vista, além de também colocar em questão o que realmente representaria ser uma ‘feiticeira’ em uma sociedade que de tão conservadora, revelava-se, em verdade, puramente hipócrita.

Assim, pode-se observar que a releitura da peça de Miller apresentada no romance de Condé apresenta a possibilidade de discussão entre as dicotomias estória / história, verdade / exclusão, colonizador / colonizado, civilização / selvageria, racismo / sexismo, dominação / submissão, centro / periferia, exílio / alienação, tempo / espaço, realidade / ficção ou, como Linda Hutcheon (1991) assim denota, uma ‘metaficção historiográfica’. Ao expor as formas pelas quais tal ficção é produzida, Hutcheon chama a atenção do leitor para o status do romance como uma espécie de artefato e não como uma reprodução relativamente fiel da realidade.

Desta forma, essa consciência pessoal da narrativa revela o fato de que a literatura não reflete nenhuma realidade de maneira inocente, pelo contrário, cria ou denota uma realidade, e, ao fazê-lo, a torna significativa. A noção de consciência pessoal da narrativa que denota diversas realidades significativas, em si, já remonta a um conceito de duplicidade, abrindo o caminho para mais uma perspectiva de análise através da personagem Tituba, que no romance de Condé assumiu um posto diferente, o de dona de sua própria voz e, por isso, responsável pelo seu destino. A referência à ideia de duplicidade surge a partir das inúmeras imagens que podem ser destacadas da personagem: Tituba como mulher, negra, escrava, sem voz social, mas dotada de voz na narrativa pós-colonial de Condé, conhecedora de ervas e sortilégios e, porque não dizer, feiticeira.

A postura de desmistificação da figura da feiticeira representada por Tituba é evidente no texto de Condé. De início, a personagem não apresentava nenhuma consciência de si mesma, nem conseguia compreender como e porquê as pessoas se distanciavam dela – fora renegada pela mãe, adotada por Yao, escravo que se casou com sua mãe e as aproximou, logo perdeu a mãe que efetivamente nunca fora sua por completo e, em seguida, perde seu protetor, Yao. Passa a ser criada por Man-Yaya, senhora conhecedora dos mistérios da natureza viva e espiritual, que lhe ensina tudo o que sabe e transforma-se em sua mentora, depois de sua morte – Man-Yaya continuou como presença viva na realidade de Tituba, como se fosse uma espécie de guia de suas ações e conforto nos momentos de desespero.

Observando-se a conexão entre essas duas personagens é possível retomar o que disse Otto Rank, em O Duplo (1936), no sentido de que “como geralmente acontece com os temas populares da literatura, suas raízes [estão] no passado remoto, aparecendo no folclore, nas superstições e em antigos costumes religiosos”(p.7).

O leitor do romance de Condé tem como claro o fato de que todas as menções à ideia de Tituba vista como feiticeira estão relacionadas ao seu conhecimento sobre ervas e conversas com os mortos que, segundo ela, habitavam o mundo dos vivos – entretanto, esse tipo de sabedoria de nada servia na comunidade puritana que a escrava habitava, ao contrário, constituía prova de que ela conjurava com o demônio – era como se Tituba representasse duas figuras em apenas uma: a escrava, subserviente e a feiticeira, poderosa e maligna – eis o enigma da identidade citado por Pierre Brunel (2000), quando diz que “O encontro com o duplo mágico é sempre fonte de angústia para quem é assim confrontado com o enigma da identidade (...)”. (p. 266).

Retomando Rank, as catástrofes, em geral, tanto na história quanto na literatura, parecem ser provocadas por mulheres, sedentas de vingança ou reconhecimento ou em busca de aventuras amorosas: a Tituba de Condé não escapa a essa afirmação, pois é considerada feiticeira e, na tentativa de ser absolvida, promove acusações a outras pessoas que, supostamente, teriam relações com o demônio e somente chega a esta realidade por escolha própria, pois optou pela vida de escravidão para poder ficar ao lado de John Índio, o homem a quem amava, mas que em nenhum momento lutou por sua liberdade ou integridade perante os puritanos ávidos por punir quem quer que ameaçasse suas raízes e crenças. Nessa perspectiva, Rank acrescenta:



O duplo, que era o anjo da guarda do homem, e protetor de sua imortalidade, transformou-se na consciência perseguidora e atormentadora do homem, personificada pelo Demônio, tornando-se o derivativo religioso do temor da morte, neutralizado antes pelo Duplo. A princípio o Duplo é a própria personalidade (sombra, reflexo), assegurando sobrevivência futura; mais tarde representa uma Personalidade anterior, conservando, juntamente com o passado, a juventude do indivíduo; finalmente, o Duplo se torna uma Personalidade oposta, que aparecendo sob a forma do mal, representa a parte mortal, destacada da personalidade existente e que a repudia. (1936, p. 110)



Com relação à magia, na obra Magic in the Roman World (2001), Naomi Janowitz relaciona o trabalho primitivo às primeiras noções desse conceito, indicando que desde cedo indicar alguém como mágico ou feiticeiro poderia incitar sérias consequências, como em “(...) to call someone a 'magician' (...) was to mount a potentially damaging attack. (...) The terms we translate as 'magic' and 'magicians' were associated with human sacrifices, perverse sexual practices and all sorts of antisocial (...) activities.” (p. 1) E acrescenta: “Charges of magic reveal social tensions, internecine battles, competition for power, and fear that other people have special powers. Charges of witchcraft represented socially acceptable modes of attack against political enemies when other modes of asserting rivalry were not an option” (pp. 1-2).

A personagem Tituba encerra ambas possibilidades: por representar perigo, uma vez que conhecia as 'artes ocultas' e por ser julgada feiticeira, mesmo que socialmente injustiçada. É possível notar, por meio dessa personagem, que a questão da magia sempre esteve, de alguma maneira, voltada à sua forma de enxergar a religião, assim como afirma Janowitz, quando diz que tanto magia quanto religião sempre estiveram intimamente relacionadas, considerando Moisés e até mesmo Jesus como magos, comprovando tal possibilidade pela origem do termo “mágica”, que engloba ironia e imaginação: do grego, mageia e do latim, magia, ambas palavras derivando do termo persa, magos, que significa sacerdote.

Se é possível considerar um fato que magia e religião estão intimamente relacionadas, torna-se clara a compreensão da personagem Tituba como uma espécie de sacerdotisa e seus conhecimentos seriam os mesmos que os de uma sacerdotisa que poderia ter vivido em qualquer época da história da humanidade. A grande questão é que, historicamente, sua realidade pessoal impedia que tudo fosse tão simples assim: como mulher, negra e escrava, Tituba não teria direito a nenhum lugar de destaque, sequer um lugar comum na sociedade. Citando, novamente, Janowitz: “No matter where we look in the history of accusations of magic and witchcraft, women are over-represented.”(2001, p. 86) e “'Witch' was “(...) chamar alguém de 'mago' (...) era propor um ataque potencialmente perigoso. (...) Os termos que traduzimos como 'mágica' e 'mago' eram associados a sacrifícios humanos, práticas sexuais perversas e todos os tipos de atividades anti-sociais” (tradução nossa).

Se é possível perceber a figura da feiticeira como um duplo, como uma releitura intertextual das questões mitológicas, com quais dessas figuras da mitologia a personagem Tituba (e suas companhias) manteria relações? Inicialmente, Tituba viria de um povo similar aos hiperbóreos, considerando-se a busca pela liberdade e auto-suficiência descritas no final do romance de Condé, por meio das batalhas das quais Tituba também tomou parte. Segundo Bulfinch, a parte setentrional da terra era supostamente habitada por uma raça feliz, chamada hiperbóreos, que desfrutava uma primavera eterna e uma felicidade perene, por trás das gigantescas montanhas, cujas cavernas lançavam as cortantes lufadas do vento norte, que faziam tremer de frio os habitantes da Hélade (Grécia): “Aquele país era inacessível por terra ou por mar. Sua gente vivia livre da velhice, do trabalho e da guerra” (1999, p. 8).

Fato é que o leitor acaba por compreender que o que Tituba considerava como sua terra natal, seu sonho, não era efetivamente a Barbados para a qual ela retornou, mas a Barbados de seus antepassados, imortalizada por eles, e para onde ela é transportada após a sua morte. Outras figuras com as quais parece possível manter relações seriam: Minerva, a deusa da sabedoria, que seria representada por Man-Yaya, a mentora de Tituba; Ceres, a deusa da agricultura, que inspiraria tanto a figura de Man-Yaya quanto a de Tituba, ambas profundas conhecedoras do que a terra poderia oferecer-lhes para a cura de todos os males. Man-Yaya também pode ser identificada com os Lares, os deuses da família, espíritos deificados pelos mortais, as almas de seus antepassados (BULFINCH, 1999, p. 17).

Tomando-se o ponto de vista puritano, da comunidade de Salém, Tituba poderia ser vista como Pandora, aquela que espalhou todos os males pela humanidade ao abrir a caixa proibida dada como presente a Epimeteu por Júpiter, como vingança pela traição de Prometeu. Pandora é a figura da mulher curiosa, mas também dotada de perigo, exatamente como Tituba que, por curiosidade e paixão, abandonou sua vida solitária para viver junto de John Índio e, por conta de sua realidade e de seus conhecimentos espirituais, de acordo com a comunidade em que vivia, teria espalhado ali os males provenientes de seu suposto relacionamento com as forças ocultas.

Representando a figura da feiticeira, Tituba poderia ser comparada a Circe, feiticeira conhecedora do poder das ervas e também a Medéia, poderosa feiticeira, que mantinha relações com Hécate, a deusa dos mortos e Télus, a deusa da Terra – Tituba, na verdade, seria uma somatória de todas essas figuras, reunindo seus poderes reais e seus conhecimentos do oculto. Entretanto, mesmo portadora de todas essas semelhanças com as divindades mitológicas, o destino de Tituba não permitiu que ela usufruísse de sua sabedoria como forma de escapar de seus problemas – pelo contrário: a personagem acreditava que era necessário passar por todos os martírios para que pudesse ser 'purificada', caso viesse a retornar a Barbados. Talvez a figura mitológica que mereça maior destaque e com a qual Tituba mantém muitas semelhanças seja realmente Medéia e, como ela, sofreu por ser conhecedora de forças sobrenaturais, sofreu pela paixão e pela dor da perda, como menciona Janowitz:



Medea, while not directly called a witch in the early texts, is involved in all sorts of antisocial and destructive actions which make it clear that women with supernatural powers are active threats to everyone in their sphere. She effected her goals by illicit and suspect means, but she is presented in such a way as to make her path seem to be the natural one of women. She is a full-blown fantasy of femininity gone wrong. Hostile, vindictive, dangerous, she kills her brother, poisons members of the royal family, and murders her own children (2001, p. 89).



É possível concluir, então, que em diversos momentos históricos as mulheres têm suas vidas e condutas descritas como em uma maldição, sendo mostradas como essencialmente falsas. Tais imagens hostis relacionadas à figura feminina acabam sendo uma forma de representação exagerada, dominada pelo mistério que o sexo feminino ainda exerce na humanidade e que, possivelmente, sempre há de exercer.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASHSCROFT, B. & GRIFFTHS, G & TIFFIN,H. The Empire Writes Back. London and New York: Routledge, 1991.

BELLINGHAM, David. Introdução à mitologia grega. Lisboa: Editorial Estampa, 2000.

BERND, Zilá. Escrituras Híbridas: Estudos em literatura comparada interamericana. Porto Alegre: Ed. Universidade / UFRG, 1998.

BRUNEL, Pierre. Dicionário de mitos literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. (A idade da fábula) Histórias de deuses e heróis.Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

BOEHMER, Elleke. Colonial and Postcolonial Literature. New York: Oxford University Press, 1995.

CONDÉ, Maryse. Eu, Tituba, Feiticeira... Negra de Salém. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

GRASSINGER, Dagmar (et al). (orgs.) Deuses gregos: Coleção do Museu Pergamon de Berlim. São Paulo: FAAP, 2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

HANCIAU, Núbia. A feiticeira no imaginário ficcional das Américas. Rio Grande: Ed. da FURG, 2004.

HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

JANOWITZ, Naomi. Magic in the Roman World. Pagans, Jews and Christians. London: Routledge, 2001.

MILLER, Arthur. As Bruxas de Salém. Porto: Editorial Presença, 1961.

RANK, Otto. O duplo. Rio de Janeiro: Coeditora Brasílica, 1936.

Revista História Viva, edição de setembro de 2006.

ZACHARAKIS, Georges. Mitologia grega. Genealogia das suas dinastias. Campinas: Papirus, 1995.

Revista Pandora

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Na montanha dos deuses



Os gregos antigos instalaram suas divindades no pico do Olimpo, a mais alta montanha que conheciam. Ali, os deuses levavam a vida que os homens gostariam de pedir para si.
Os gregos antigos instalaram suas divindades no pico do Olimpo, a mais alta montanha que conheciam. Ali, os deuses levavam a vida que os homens gostariam de pedir para si.

Renato Pompeu

Uma montanha de exatamente 2917 metros de altura, perdida nos confins do nordeste da Grécia, entre as regiões da Tessália e da Macedônia, influencia desde há perto de 3 mil anos toda a cultura ocidental. E as histórias que se contam dessa montanha são importantes até hoje no cotidiano, no pensamento, nos hábitos e costumes - até na ciência. É o monte Olimpo, que de acordo com a religião dos gregos antigos - seguida do século IX a.C. ao IV d.C., até ser substituída pelo cristianismo - era a morada de seus deuses. Hoje, o Olimpo é a sede de um parque nacional, preservado pelo governo grego. Mas, pelo menos mil anos antes de Cristo, com suas escarpas abruptas, seus altos eternamente cobertos de neves e geralmente encobertos pelas nuvens, o Olimpo, a montanha mais alta conhecida pelos gregos - ou melhor, seu pico então inacessível -, foi conhecido como a casa dos deuses, mais ou menos como os devotos de outras religiões concebem o céu.

Esses deuses, que tinham forma humana, mas eram maiores, mais belos e mais leves que os humanos (sendo capazes até de voar e, acima de tudo, imortais), viviam uma vida cheia de peripécias e aventuras, marcada por intrigas entre eles próprios e entre eles e os seres humanos a que influenciavam. À descrição das vidas dos deuses se dá o nome de mitologia. A palavra mito é grega e quer dizer “palavra final”, pois a mitologia era usada como explicação definitiva dos fenômenos da natureza e da sociedade.

A mitologia grega, adotada depois pelos romanos, que deram outros nomes aos mesmos deuses, foi codificada no século IX a.C. pelo poeta grego Homero, em suas epopéias Ilíada e Odisséia, e um século depois pelo poeta Hesíodo, em sua Genealogia dos deuses. A religião não era hierarquizada nem dogmática. Ou seja, não havia um grupo de sacerdotes encarregado de manter a pureza das verdades doutrinárias. E aquelas codificações variavam enormemente de época para época e de região para região. De qualquer modo, em todas as variantes, os deuses eram comandados por um ser supremo, Zeus (Júpiter para os romanos). Zeus é outra forma da palavra do antigo indo-europeu que deu em português as palavras Deus e justiça. Júpiter é a junção das palavras latinas jus e pater. Jus é o “fazer jus”, que deu justo e justiça, e pater quer dizer pai. Ou seja, pai da justiça.

Zeus originariamente era o deus do clima dos antigos gregos. Tratava-se de nômades guerreiros que, chegando do centro da Europa em ondas sucessivas onde hoje é a Grécia, ali encontraram uma civilização agrícola avançada - baseada na metalurgia do bronze e no cultivo de uva, oliva, trigo e cevada - que tinha seus próprios deuses. Ou melhor, deusas, pois os homens primitivos, ao se fixarem à terra, costumavam cultuar divindades femininas que pudessem assegurar aos seus campos a fertilidade, associada às mulheres. Já os povos guerreiros, como os gregos eram inicialmente, adotavam em geral divindades masculinas, por exemplo, Zeus, o deus das tempestades, que enviava raios à Terra.

Sendo guerreiros, os gregos dominaram os pacíficos povos agrícolas que ocupavam o que hoje é a Grécia. Essa dominação foi se dando de 2000 a.C. até por volta de 1000 a.C. , tempo mais que suficiente para o idioma grego se impor aos povos vencidos e para haver uma fusão das culturas entre dominantes e dominados. Assim, quando a religião grega foi codificada por Homero e Hesíodo, Zeus aparece casado com Hera (Juno para os romanos), originalmente uma deusa dos povos anteriores aos gregos - antigos cretenses e micenianos - associada à fertilidade. No Olimpo grego, Hera passou a ser a deusa da maternidade e da vida doméstica, e assim, de deusa rural, ela se tornou urbana.

A mitodologia diz que Zeus teve casos e filhos com várias outras deusas e ainda com mulheres comuns. Contra elas, Hera vivia armando ciumentas intrigas. Mas quem era Zeus? No princípio, segundo Hesíodo, havia o Caos, que em grego quer dizer vazio. Caos, porém, teve dois filhos, Urano, o céu, e Géia, a Terra. Urano e Géia tiveram vários filhos, entre eles Cronos, o tempo, e Réia. Cronos e Réia casaram e tiveram vários filhos. Mas Cronos, que atacou o próprio pai Urano, também devorou cada um dos seus filhos, até que Réia deu à luz Zeus e escondeu o bebê, substituindo-o nas fraldas por uma pedra. Por engano, na ânsia de devorar seus filhos, Cronos engoliu a pedra.

Oculto do pai, Zeus cresceu e desenvolveu-se como um jovem vigoroso, que acabou derrotando Cronos numa luta e o obrigou a vomitar todos os filhos que engolira. Assim, Zeus libertou, entre outros, dois irmãos com os quais partilhou o mundo conhecido dos gregos: Zeus ficou com o céu, Posêidon (Netuno para os romanos) com os oceanos e os rios, e Hades (Plutão) com o mundo subterrâneo, ou inferno. Como morada, Zeus ficou com o Olimpo, não só porque era a montanha mais alta e, portanto, mais próxima do céu como também porque seu pico sobressai entre as nuvens. De modo que se criou a noção de que na morada dos deuses, acima das nuvens, jamais poderia haver tempestades.

Outros irmãos de Zeus foram também vomitados por Cronos, como Hera, com a qual ele se casou, e Deméter, que os romanos conheciam como Ceres, nome de que derivou a palavra cereal. Ela era cultuada como a deusa da agricultura. Por isso não morava no Olimpo e sim no reino vegetal. Deméter teve uma filha com Zeus, Perséfone, raptada por Hades para viver com ele no submundo. Deméter então queixou-se a Zeus e este decidiu que Perséfone passaria um terço de cada ano com Hades e dois terços com a mãe, no reino vegetal. E aqui está uma das funções do mito, a de explicar a natureza: o terço do ano que Perséfone vivia no inferno era identificado com o seco verão grego, no qual a vegetação sobrevivia precariamente. Mas renascia quando Perséfone voltava para a casa da mãe.

Além de Hera, a mulher oficial, Zeus aprontava das suas. Disfarçando-se de cisne, seduziu Leda, mulher do rei de Esparta, e com ela teve os filhos Helena e Dóscuros (os gêmeos protetores da navegação). Com Europa, filha do rei da Fenícia, a quem seduziu disfarçado de touro, Zeus teve os filhos Minos, rei de Creta, e Radamanto, rei das ilhas Cíclades.

Ambos se tornaram juízes dos mortos no submundo. O rapto de Helena, casada com Menelau, rei de Esparta, acabou, segundo Homero, desencadeando a guerra entre gregos e troianos. Páris, o raptor, era da família real de Tróia.

Essa novela poderia se estender indefinidamente, pois a mitologia tem centenas e centenas de histórias com uma multidão de deuses, heróis (filhos de um deus ou deusa com um simples mortal) e seres humanos. Não faltam também guerras e catástrofes, além de episódios de criação das artes e das ciências como o de Prometeu, o deus que, por ter roubado o fogo dos deuses e o entregado aos humanos, foi condenado por Zeus a ficar eternamente acorrentado a um rochedo e a ter seu fígado repetidamente devorado por uma águia. Entre os deuses mais importantes pode-se citar ainda Afrodite (Vênus), a deusa da beleza.

Ela nasceu junto à ilha de Chipre, na espuma criada no mar pelos órgãos genitais de Urano, que haviam sido cortados e lançados ao mar por Cronos. Afrodite casou-se com Hefaistos (Vulcano), o deus das forjas e dos vulcões, ferreiro dos deuses. Hefaistos, que nasceu coxo, era filho de Zeus e Hera. Deusa da beleza e do sexo, Afrodite teve vários casos extraconjugais. O mais célebre foi com Ares (Marte), deus da guerra e também filho de Zeus e Hera. Apolo , filho de Zeus e Leto, era o mais cultuado, pois enviava presságios aos humanos.

Importante também era Atena (Minerva ). A deusa da sabedoria não tinha mãe, pois nascera da cabeça de Zeus. Tornou-se a protetora da cidade de Atenas.

A mitologia grega sobrevive nas palavras que se usam hoje, como Deus, justiça, cereal etc., nos nomes dos planetas, na palavra geografia, a ciência de Géia. Assim, essa distante montanha, que emprestou o nome à cidade de Olimpo, no Sul da Grécia, onde no Século VIII a.C. começaram a ser disputadas as Olimpíadas, é uma presença permanente no cotidiano das pessoas. O teatro, por exemplo, tem origem nos coros entoados pelas sacerdotisas embriagadas por Dioniso, deus do vinho e das orgias, que os romanos chamavam Baco. Daí originou-se a palavra bacanal. Enquanto as artes plásticas descendem das pinturas e das estátuas com imagens dos deuses gregos, a arquitetura ainda usa colunas, pórticos e naves dos antigos templos da Grécia.

E a vida continua povoada de mitos, pois até hoje a ciência se baseia em dois axiomas que - do ponto de vista estritamente lógico - são tão impossíveis de provar como os antigos mitos gregos: o de que o mundo existe fora da mente humana e o de que ele pode ser conhecido pela mente. Isso sem contar os mitos que geraram grandes descobertas científicas, como o da atração secreta entre as coisas, que levou Newton a descobrir a gravitação universal; ou o de que o movimento dos planetas influencia o sangue, graças ao qual o inglês Willian Harvey (1578-1657) descobriu a circulação sanguínea. E, enfim, o mito de que o movimento das marés, que teria ajudado o naturalista também inglês Charles Darwin a se interessar pela anatomia das espécies. Assim, os mitos criados pelos antigos gregos transformaram-se em eternos companheiros do homens.

Um dia no Olimpo

Como era o cotidiano dos deuses no Olimpo? Invejável, sem dúvida. O único trabalhador era Hefaistos, o ferreiro, que produzia os artefatos - ferraduras para o cavalo alado Pégaso, armas para Ares e para os demais. Os outros viviam em festas e banquetes, presididos por Zeus, de onde só saíam para intervir nos destinos humanos e no dos animais, plantas e elementos. Zeus podia abrir o banquete ordenando que a copeira Hebe, sua filha com Hera, servisse a ambrosia, o alimento dos deuses, semelhante ao mel de abelhas, que deu o nome ao famoso doce. Mas a bebida, o néctar, derivado do mel (uma das primeira bebidas alcoólicas usadas pelos seres humanos foi o mel fermentado, ou hidromel), que deu o nome à substância das flores a partir da qual as abelhas produzem o mel, era servida por Ganimedes. Este, um mortal chamado ao Olimpo, filho de Laomedonte, rei de Tróia. Por sua beleza, esse garçon do Olimpo despertava paixões, não entre as deusas, mas entre os deuses, já que os gregos consideravam o homossexualismo normal.

Durante o banquete Ártemis (Diana para os romanos, deusa da caça) podia comunicar quantas mulheres morreriam naquele dia na Terra, pois era ela quem causava a morte das mulheres, enquanto os homens destinados a morrer seriam indicados ou por Apolo, em caso de morte natural, ou por Ares, em caso de morte violenta. Éris, a deusa da discórdia, não tendo sido convidada para um desses banquetes, armou uma intriga: mandou pôr ao centro da mesa um pomo (maçã dourada) com a dedicatória: “À mais bela das presentes”.

Hera, Afrodite e Atena disputaram a preciosa fruta, que deu origem à expressão “o ponto da discórdia”, e pediram a arbitragem de Zeus, que atribuiu o julgamento a Páris. Este acabou indicando Helena como a mais bela, iniciando com ela um relacionamento que levaria à guerra de Tróia. Ao fim de um desses banquetes, Zeus anunciou que o herói Héracles (Hércules para os romanos), seu filho com a humana Alcmena, seria imortalizado - para o quê, bastaria ele comer ambrosia e beber néctar - a fim de poder casar com Hebe, a copeira. Mesmo imortalizado, Hércules não poderia morar no Olimpo, por não ser deus: iria para os Campos Elísios (“campos dos abençoados”), o paraíso dos heróis, cujo nome foi dado aos palácios do governo da França e do Estado de São Paulo, embora esses palácios raramente sejam habitados por heróis.

Revista Superinteressante

A pastoral americana - Fordilândia

Henry Ford tentou, sem sucesso, produzir borracha e utopias na Amazônia Carlos Haag Abril 2009 © Reprodução do livro Fordlandia, de Greg Gr...