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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Cartas de Guerra



França, 14 de Dezembro de 1916


Caro amigo,

Espero que esta carta te vá encontrar de boa saúde, e em boas condições financeiras pois agora já te libertaram da guerra e já tens emprego. Escrevo-te para te descrever as cenas de horror vividas aqui nas trincheiras e espero que não digas nada aos meus pais pois eles não merecem saber o que se passa por cá. Depois de tantos anos que passei ao lado deles, a ajudá-los nos melhores e piores momentos, não merecem saber isto. Viver aqui é como viver no inferno, se algum familiar te perguntar por mim (pois tu és o meu melhor amigo), diz-lhe que ainda não morri e que estou bem de saúde.

As trincheiras são «óptimas», porque fomos os primeiros a abri-las e a escolher melhores terrenos, temos caves subterrâneas onde dormimos e onde cozinhamos mas vive-se em más condições. Os ataques são constantes e há quem não resista aos estilhaços e tenha que ir para os serviços médicos. É difícil conquistar terreno ao inimigo porque o arame farpado não permite chegarmos à outra frente. Depois vêm as metralhadoras e varrem tudo e todos e são poucos os que chegam com vida ao território inimigo. De tantos mortos existentes no terreno entre trincheiras, os meus colegas deram-lhe o nome de «Terra de Ninguém».
Aqui até as paredes da trincheira têm ouvidos e temos que reparar no que falamos. Enquanto a artilharia está em actividade, a infantaria entrou em repouso mas sempre atenta a qualquer perigo vindo do inimigo. Agora que chegou o gás, não se pára e não se aguenta com o cheiro que está activo durante semanas e, por vezes, horas depois de várias explosões de gás, morremos sufocados.

Como os ataques de infantaria não resultam, chegaram novos materiais de combate, como os aviões, para espiar as zonas onde o inimigo guarda o seu armamento de guerra, os tanques de guerra e máquinas de artilharia pesada. Com as doenças vamos ficando fracos e até as pulgas, ratos e outros bichos nos perturbam o sono e nos enfraquecem a moral. Estamos cansados de tantas cenas horrorosas que provocam doenças físicas e psicológicas.
Despeço – me, com um grande abraço.

Amidel 

França, 18 de Junho 1918 


Querido pai,
Espero que esteja tudo bem. O meu dia-a-dia de soldado das trincheiras é ir sempre para a guerra, mesmo com muitas dificuldades de alimentação. Por vezes não há comida e tenho que comer cavalo, temos más condições de higiene, não tomo banho e fiquei cheio de piolhos e de pulgas na roupa. Acreditas que, para tirar as pulgas das roupas, tinha que com a ponta do cigarro passar em cima das pulgas para que elas pudessem morrer.Ficar um dia nas trincheiras é ficar sem descanso, no meio da guerra, atirar balas de metralhadoras, dentro de um tanque ou mandar granadas TNT.E enquanto eu descansava houve uma enfermeira que tratou de um soldado inimigo.Querido pai … têm sido dias difíceis, estes, muito difíceis, às vezes penso que me falta a força e a coragem parece desaparecer também.
Tenho muitas saudades vossas, escrevam-me assim que puderem.
Beijo do seu filho querido,

Ivan Fialho
http://vive-a-historia.blogspot.com/2008_10_01_archive.html

As cartas da guerra


Rússia, 14 de Novembro de 1915


Querida Manuela,
Se estás a ler esta carta significa que ainda estou vivo, que não tive a mesma sorte que alguns companheiros meus. Só consigo sobreviver porque estou confiante em te ver outra vez.
Desde a ceia até à pernoita com honrados companheiros a serem devorados por ratazanas, que têm melhor aspecto que aquilo que nos dão como comida.
Onde estou localizado nem posso considerar o meu bem-estar pois o meu colchão é de lama misturado com cadáveres, e os meus lençóis são os seus uniformes.
Neste confronto não vejo vitória para nenhuma das vertentes, existem baixas materiais e humanas irremediáveis pelo que as duas frentes disparam com tudo o que têm até acabar as munições, após isto, segue-se a estupidez do rescaldo em que uma vertente dirige os seus soldados para contagem de baixas de outra vertente e neste momento começa o banho de sangue, e tudo o que podemos fazer é combater. Enquanto os ditos senhores da guerra, verdadeira alma do combate, se encontram noutra batalha importantíssima em que as suas armas, faca e garfo de prata, assassinam pedaços de carne assada e o sangue dessa batalha é derramado pelas uvas pisadas para formar um óptimo vinho.
Esta batalha não tem fim, espero voltar a ver-te em breve...
Beijos saudosos,

Guilherme Sá


França, 20 de Abril de 1917


Querida mãe,

Espero que estejam todos bem.
Eu estou deserto que esta guerra acabe ou que me mandem para casa são e salvo.
Todos os dias morrem companheiros meus, todos os dias são retirados das trincheiras feridos em muito mau estado. Tanta gente a sofrer por terem morto o herdeiro ao trono Austro-Húngaro.
Aqui falta tudo. A alimentação é horrível, só comemos sopas de legumes, ainda por cima sem gosto. Os legumes são tão rijos que parecem arame farpado.
Sem falar na higiene. Há quem tenha piolhos. Quem tenha sido mordido por carraças, ficando depois doente. As enfermeiras ficam com medo de cuidarem de nós por causa dos piolhos.
Mas tenho a certeza que tudo irá acabar bem para mim e que voltarei brevemente para o pé de si. Tenho muitas saudades suas.
Reze por mim, assim como eu rezo por si.
Beijos do seu filho que a adora.

António Silva

Relatos da Guerra


França, 25 de Setembro de 1917

Querida Mãe,
Estou a mandar esta carta para vos informar que estou com muitas saudades vossas e que não sei se vou poder mandar outra carta porque muitos dos meus colegas estão a morrer e nunca sabemos quando chega a nossa hora.
Não estava à espera que a guerra das trincheiras fosse tão sangrenta, tem mortos e feridos por todo o lado. Os soldados aliados estão desesperados com a morte dos seus homens porque os adversários são muito destemidos, apesar de também morrerem muitos dos seus soldados.
Muitos beijos e saudades.
Do vosso amado filho,

Edson Patrick

França, 10 de Setembro de 1917

Queridos pais,
Espero que esteja tudo bem convosco…
Aproveitei a oportunidade, do inimigo ter cessado fogo, para vos poder escrever, pois, não sei quando voltarei a ter oportunidade para tal.
Isto, por aqui, está péssimo, parece que estamos no inferno.
Por vezes passamos noites e dias sem dormir, sem comer, nem beber, passamos muito mal, esta é a verdade.
Já morreu muita gente devido a esta guerra, infelizmente, já morreram muitos amigos meus verdadeiros, pessoas que vêm para aqui sem estarem, devidamente, treinadas para tal acontecimento.
Só espero voltar a poder escrever-vos novamente, pois nem sabem as saudades que eu tenho de casa, gostaria imenso que esta guerra acabasse e eu pudesse voltar para casa.
Assim me despeço de todos vós…

Beijos de carinho
saudades para todos,
Patrick

França, linha da frente, 17 de Junho de 1916

Querido pai,
Como tens passado?
Como sabes eu vim para a guerra, por livre e boa vontade, para te fazer uma homenagem e para me transformar num herói.
A vida aqui é muito diferente do que eu imaginava ser. Estou nas trincheiras, onde os combates podem dar-se a qualquer hora. Os locais a que me refiro são buracos escavados, chamados trincheiras. Pomos sacos de areia que nos deixam a salvo da mira do inimigo enquanto nós os atacamos de frente.
A terra-de-ninguém é o território que separa a nossa trincheira da trincheira dos inimigos, que não pertence a ninguém, apenas pertence às ratazanas.
Nestas trincheiras marcantes, ouvimos o som da morte, está distante e tão perto, à distância de uma bala que acaba com a vida de uma família perfeita.
O lança-chamas queima as mágoas com o calor do interior da terra e as metralhadoras distribuem tragédias.
Tornámo-nos escravos da guerra, nem homens livres nem máquinas. Apenas coisas!
A lama do campo de batalha arrasta-nos a vontade. Alguns morrem afogados, as nossas trincheiras ficaram destruídas e inundadas, cheias de lamas.
Por vezes sinto-me um verdadeiro patriota, quero levar o meu país a provar ao Mundo que não somos inferiores aos Alemães e,por isso, é obrigatório terminar esta guerra.
Mas quando há aqueles momentos de espera, eu fico a pensar que estou sozinho e ponho-me a escrever cartas para vocês. Não podia deixar de me lembrar de ti, da mãe e dos manos, claro! Quando íamos às vinhas da quinta, e as deliciosas comidas feitas pela mãe, porque a comida que fazem nos bunkers é horrível, (são os nossos próprios cavalos quando morrem e pão sem sal).
Despeço-me com muitas saudades vossas,
beijos à mãe e aos manos.

Paulo Sérgio Dias Duarte

Relatos da Guerra



Val de Lys, 1 de Setembro de 1915

Minha querida amada,
Espero que esteja tudo bem contigo e com a nossa família.
Comigo está tudo mal, esta guerra parece o inferno, todos os dias a morte bate-me à porta.
Lá fora há um mar de sangue e partes de corpos espalhados por todos os lados.
Cá dentro, nas trincheiras, existe uma passadeira de mortos e nós, soldados, temos que caminhar por cima deles. Alguns eram grandes amigos meus.
Quando chove estas longas e tortuosas galerias ficam transformadas em verdadeiros trilhos de lama, nos quais nós temos que rastejar. Muitos ficam ali feridos e presos na lama e o pior é que ninguém os ajuda porque têm medo de morrer também.
As condições de higiene são horríveis, muitos soldados têm doenças de pele.
As nossas roupas estão cheias de piolhos que quase nos devoram. Para nos vermos livres deles temos de tirar a roupa toda e queimar os piolhos e os ovos com a ponta dos cigarros.
É assim que eu vivo no inferno.
Por favor continua a escrever-me para eu saber como estás e como está a minha família.
Espero voltar a ver-vos.

Thierry
P.S- Adoro-te.


20 de Novembro de 1915
Meu querido pai,

Não imaginas como fiquei feliz ao receber a maravilhosa notícia que a mana teve gémeos.
Vocês são a razão do meu viver, e quando recebo noticias vossas só penso em voltar para casa.
Até já pensei em fugir, mas assim seria pior arriscar-me-ia a ser condenado à morte.
Estar nesta trincheira é doloroso pois tudo aqui é muito mau, desde a comida, que é à base de pão e água, o que não nos dá muita força. A higiene aqui é escassa: as roupas são lavadas a vapor para eliminar os piolhos e o pior é a lama nas trincheiras, ainda por cima em época de Inverno.
E agora despeço-me porque está na hora de ir trabalhar naquela porcaria enlameada de que já estou farto. Mas tem que ser. Espero conseguir voltar a escrever-te.

Adeus e não te preocupes,
Miguel

Relatos da Guerra




Querida Irene:

Então como tens passado? E os miúdos como estão? Devem estar enormes. Espero que se encontrem todos bem. Já passaram 6 meses e ainda me encontro neste sítio horrível a lutar pelo nosso país, mas a vida é assim, há que lutar pelos nossos direitos. Aqui vê-se de tudo mas o pior é ver um camarada nosso a morrer como eu vi ontem. Eu e esse camarada éramos amigos e tínhamos estado outro dia a falar de terras porque ele também gostava muito de ter a sua horta e cuidar dela. Eu, também muitas vezes, já pensei em desistir: como por exemplo pôr-me em cima dos sacos de areia, onde nós nos abrigamos, para levar um tiro em qualquer sítio e voltar para o meu país. Mas depois penso em vocês e não o faço.
Então, como vão as coisas por aí? As nossas hortas? Deves precisar da minha ajuda mas, de certeza que conseguiste resolver essa situação….tu encontras sempre forma de resolver os problemas. Tenho tantas saudades tuas, dos miúdos, enfim… tenho saudades de tudo, do meu país, dos nossos passeios de domingo em família em que vestíamos a nossa melhor roupa e íamos passear. Sinto muito a falta da tua comida. Aqui as refeições são muito fracas. Lembras-te como era um pouco gordo? Agora estou muito magro. Ao longo destes 6 meses não tenho dormido bem nem comido bem. Isto é um inferno. Está a chegar o Natal e eu não estou aí para comer os teus petiscos, aqueles que só tu fazes bem. Não vou poder estar à frente da nossa fogueira, a aquecer-nos um ao outro e, quando chegasse a meia-noite, dava um beijinho a cada um de vocês. Mas, para ser sincero, não sei se chegarei aí algum dia porque aqui morre muita gente. Hoje um camarada meu e amanhã posso ser mesmo eu, mas só Deus sabe o que acontecerá. Como estamos em Dezembro nem imaginas o frio que passamos aqui todos os dias e as fortes chuvas que caem provocam vários estragos por isso temos sempre que fazer de novo todos os dias barreiras de sacos de areia enormes para nos protegermos.
Manda um abraço aos meus amigos aí da aldeia. Um dia vou voltar para jogar às cartas com eles como jogava. Chega a hora de me despedir. Não sei se esta é a última carta ou se escreverei mais alguma vez mas espero escrever dentro em breve. Um beijinho para os nossos filhos e para ti que tens suportado a minha ausência ai na terra.

O teu eterno,
António Ferreira de Sousa

Relatos da Guerra


França, 10 de Dezembro de 1915

Querida mãe:

Espero que esteja tudo bem por aí.
Não sabes o quanto estou a sofrer no meio disto tudo.
Trabalhamos noites inteiras nas trincheiras, agora pergunto-me se vale a pena estas noites todas, horas de suor, quando vejo os meus amigos a sofrer.
Estou farto de passar as noites em branco e, ainda por cima, mal comemos, ou seja não temos energia para trabalhar.
Estamos fracos!!
Dormir? Muito pouco. Sonhos? Já nem me lembro o que é isso. Pesadelos? Muitos, tenho-os todos os dias pois adormeço e acordo a ouvir as metralhadoras, o barulho dos carros blindados...
Agora pergunto-me: " Nós fazemos isto tudo pela nossa terra. E eles o que estão a fazer por nós, se nem sequer um prato de comida nos dão?"
Esta é a pergunta feita por todos os soldados que aqui estão e espero respondê-la em breve assim que chegar a casa.
Estou cheio de saudades vossas, espero que os manos também estejam bem.
Por favor, tenta responder à minha correspondência.
Beijos do filho que te ama,

Lloyd Polite


França, 17 de Maio de1915

Querida irmã:
As coisas aqui estão, cada vez, piores.
Comida? Apenas pão.
Espero que vocês estejam melhores,
Porque aqui vive-se um clima de grande tensão.
Guerra:
A palavra mais ouvida.
Zelemos pela nossa terra
Pois essa é a nossa vida.
Numa nova fase da guerra,
Acabámos de entrar
Porque é pela nossa terra,
Que estamos a lutar.
Construímos trincheiras
Para mantermos a posição.
Trabalhamos nelas, noites inteiras
Pois essas eram a nossa salvação.
Cheias de corpos,
Cheias de lama
Corpos esses,
Que uma pessoa mais ama.
Novos armamentos,
Novas comunicações
Também recebemos gás
Nas nossas instalações.
Armas essas,
Que nos vieram a afectar,
Pois muitos franceses e alemães
Conseguiram matar.
Á nossa aconchegada casa
Espero chegar,
Pois ao pé da nossa família
Eu quero estar.
Sem poder escrever mais,
Só espero que respondas à minha correspondência.
Trata bem de ti e do resto da nossa família.
Beijos do teu irmão que te adora e que espera ver-te em breve!!!

Johnson Pierre

Val de Lys, 14 de Setembro de 1914

Querida Ana
Hoje encontro-me num dia não, pois cada dia que passa morre mais um irmão e a esperança de voltar para casa diminui. Ontem deparei-me com uma situação um tanto constrangedora: de longe vi um irmão ferido nas trincheiras, mas como nós estávamos cercados, infelizmente, não pudemos fazer nada porque as trincheiras ficam inundadas de água e de lama. A comida aqui não chega para todos, passo dias sem comer porque, muitas vezes, prefiro tirar da minha boca para dar a um irmão que necessita mais.
Despeço-me porque já escurece e a minha visão falha.
Beijos e abraços para os nossos filhos,
muitas saudades,

António Vieira

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