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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Antonio Conselheiro: um abolicionista da plebe



Antonio Conselheiro: um abolicionista da plebe

Clóvis Moura

O movimento camponês de Canudos, no interior da Bahia, durante o governo de Prudente de Morais, infelizmente ainda não foi estudado em todas as suas diversas vertentes e devida profundidade. A obra de Euclides da Cunha Os sertões tornou-se um clássico literário e aqueles que procuram analisar e interpretar esse acontecimento histórico quase sempre partem de suas informações. Uma pesquisa sistemática e exaustiva, por isto mesmo, ainda não foi feita com a profundidade que o tema merece. Um dos defeitos mais visíveis é ignorar-se a importância de Antônio Vicente Mendes Maciel (O Conselheiro) como líder, agitador e organizador. Ele é sempre visto como um místico, messiânico, quando não um desequilibrado mental. O seu crânio, após a sua degola, foi enviado a Salvador, para estudos médico-legais e antropológicos por cientistas influenciados pela Escola de Lombroso, para serem procurados nele os estigmas do ‘criminoso nato’ (1).

Até hoje, por outro lado, não possui um biógrafo que o estudasse por meio de pesquisas modernas e de uma metodologia satisfatória. O livro de Edmundo Moniz, no particular, que vai nessa direção, ressente-se de falhas teóricas muito acentuadas (2). O certo é que a figura de Antônio Conselheiro é sempre apresentada como se fosse a de uma individualidade mórbida, desligada do contexto social do qual surgiu e sem nenhuma ligação funcional e dinâmica com os problemas e as contradições emergentes da região em que a luta eclodiu.

Por essas razões, poucas vezes é lembrado como abolicionista e pregador para a massa escrava. Mas, esse personagem, que percorreu a partir de 1874 grande parte do território cuja população escrava era considerável, não podia deixar de interessar-se pelos cativos, muitos deles egressos dos quilombos da região ou com a revolta latente em face das condições em que viviam.

Em primeiro lugar, devemos ver as suas raízes étnicas, pois quase todos os que dele se ocuparam afirmam ter sido branco. No entanto, no seu batistério ele é registrado como pardo. Vejamos:

Aos vinte e dois de maio de mil oitocentos e trinta batizei e pus os Santos Óleos nesta Matriz de Quixeramobim ao párvulo Antônio pardo nascido aos treze de março do mesmo ano, filho natural de Maria Joaquina: foram padrinhos, Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula. Do que, para constar, fiz este termo em que me assinei. O Vigário Domingos Álvaro Vieira. (3)

Como podemos ver, pela sua certidão de batismo, foi considerado pardo pelo padre que o batizou. Se isto, porém, não é de grande significado para avaliar o seu abolicionismo, serve para repor a verdade. O que é importante é apurar-se se na sua biografia pode se constatar uma postura abolicionista nas suas pregações e mais especialmente se essas prédicas foram dirigidas aos próprios escravos.

Quem toma como fonte de informações de sua vida o texto de Os Sertões de Euclides da Cunha certamente nada encontrará. O seu racismo no particular é evidente pois, como acentua muito bem o professor José Calasans, apoiado em livro que Pedro A. Pinto organizou sobre o vocabulário do livro, as palavras escravo e escravidão não se encontram ali uma vez sequer (4) .

Outras fontes, porém, revelam um Antônio Conselheiro preocupado com a escravidão e a sorte dos cativos, dirigindo-se aos próprios escravos, os quais posteriormente irão engrossar as suas hostes. Ainda o professor Calasans escreve que o jornalista Manoel Benício, correspondente do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, junto às forças em operações contra os jagunços, autor de um bom livro relativo à vida dos conselheiristas e de seu guia, percebeu e registrou a posição adotada pelo "Bom Jesus" em face do problema da escravidão:

"Ignorante e enraizado nos velhos hábitos da administração de então, desconfiado como são todos os sertanejos" escreveu Manuel Benício, "de índole conservadora por nascença, achava que toda reforma na administração e toda inovação na economia política eram um meio de se roubar o povo. Fora contra a introdução do sistema métrico-decimal no comércio e a única reforma que encontrou sua aquiescência mais tarde, em 1888, foi a abolição dos escravos. Talvez porque grande porção de quilombos e mucambeiros acautelassem sua errante cruzada."



Para José Calasans, ele "transmitiu aos escravos os ensinamentos dos Evangelhos. Não estando formulando uma hipótese", prossegue:

Baseamos nossa assertiva num depoimento contemporâneo, perdido nas folhas de uma gazeta baiana de 1897, no auge da luta fratricida. Um italiano, que trabalhava na construção da estrada de ferro Salvador-Timbó, narrou, nesses termos, seu encontro com o peregrino: "Veja como este povo", disse-lhe o Conselheiro apontando a gente que aguardava a sua pregação, "na sua totalidade escrava vive pobre e miserável. Veja como ele vem de quatro e mais léguas para ouvir a palavra de Deus. Sem alimentar-se, sem saber como se alimentará amanhã, ele nunca deixa de atrair pressuroso às palavras religiosas, que, indigno servo de Deus e por ele amaldiçoado, iniciei neste local para a redenção dos meus pecados". No lugarejo mencionado, que outro não era senão Saco, entre Timbó e Vila do Conde, na então província da Bahia, durante o dia quase não havia viva alma. Mais de duas mil pessoas, porém, surgiram de noite, ansiosas para ouvirem os conselhos do Bom Jesus. "Ao anoitecer", prosseguiu o empreiteiro, "começavam a chegar e às 8 horas a praça estava cheia, tendo mais de mil pessoas, todas escravas, e após o sermão, que em seguida um explicava ao outro, visto que somente os vizinhos podiam ouví-lo, todos cantavam as seguintes estrofes: Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, ao que as mulheres e meninos respondiam para sempre seja louvado o santo nome de Maria, e isto até a meia noite, algumas vezes. De manhã não havia pessoa alguma no arraial".

A informação transcrita, documenta, com segurança, as relações do Conselheiro com os escravos da zona citada, que atentamente escutavam a pregação do ‘santo’ de Quixeramobim. Convém esclarescer, desde logo, que na região de Itapicuru, onde Antônio Conselheiro passou grande parte de sua vida de pregador, havia, na época aqui estudada, apreciável número de pequenos engenhos, o que explica a presença de grande quantidade de escravos. Os cativos necessitavam da palavra de conforto e de ajuda do bondoso peregrino, que conforme escreveu o informante acima citado, distribuía apreciáveis quantias às famílias pobres, naturalmente obtidas nas casas dos mais ricos, daqueles senhores de engenhos e negociantes mais generosos. (5).



Convém notar que, na zona de Itapicuru, existiu um quilombo que durante muito tempo deu trabalho às autoridades e do qual certamente Antônio Conselheiro ouvira falar, assim como na região de Tucano, um dos locais que forneceu grande número de adeptos ao Conselheiro. José Calasans, cujo notável trabalho estamos acompanhando, escreve ainda que

Outros elementos poderão ser apresentados no mesmo sentido, isto é, comprobatório do papel desempenhado pelo Conselheiro, junto à população escrava no Nordeste baiano, que ele mais de perto conheceu e assistiu. Num interessante artigo publicado no Jornal de Notícias, da Bahia, edição de 5 de março de 1897, o doutor Cícero Dantas, barão de Geremoabo, proprietário no município de Itapicuru, e prestigioso chefe político, contou que com a abolição da escravatura aumentara o número de acompanhantes do ‘Bom Jesus Conselheiro’. "O povo em massa", declarou Geremoabo, "abandonava suas casas e seus afazeres para acompanhá-lo. Com a abolição do elemento servil ainda mais se faziam sentir os efeitos da propaganda pela falta de braços livre no trabalho. A população vivia como que em delírio ou êxtase e tudo quanto fosse útil ao inculcado enviado de Deus facilmente não prestava. (...) Assim foi escasseando o trabalho agrícola e é atualmente com dificuldade que uma ou outra propriedade funciona, embora sem precisa regularidade". (6)



O mesmo autor, refutando as razões do barão de Geremoabo, afirma que talvez esse chefe conservador tivesse confundido a causa com o efeito, pois não teria sido

Antônio Vicente quem afastou das propriedades agrícolas os negros libertados pela Lei de 1888. O Santo Conselheiro outra coisa não teria feito senão recebê-los e, possivelmente, ampará-los, quando eles próprios, sequiosos de desfrutarem a liberdade alcançada, fugiram dos antigos locais de cativeiro. (...) Não foram poucos os ex-escravos recebidos na comunidade conselheirista. Antonio de Cerqueira Galo, morador em Tucano, localidade baiana donde saíram inúmeros seguidores do Conselheiro, numa carta enviada ao barão de Geremoabo, dando notícias dos habitantes de Canudos, destacou que o contingente de ex-escravos formava a maioria. "Lá os vultos que estão disinvolvendo (sic) a revolta" escreveu o missivista, "é o mesmo Conselheiro com os seus sequazes d’entre estes soldados e desertores de diversos Estados e o povo 13 de maio que é a maior parte." (7)



O depoimento altamente esclarecedor de José Calasans, descobrindo novas fontes de informações que recolocam não apenas o pensamento, mas também, a ação de Antônio Conselheiro em relação ao sistema escravista e suas contradições estruturais, é plenamente corroborado pelas próprias palavras do líder de Canudos no manuscrito que sobreviveu à chacina (sabemos que ele redigiu ou ditou outros que certamente foram destruídos) intitulado Prédicas aos canudenses e um discurso sobre a República (8).

A obra foi encontrada em uma velha caixa, no santuário, por João Pondé, médico baiano que se encontrava na expedição. Afrânio Peixoto recebeu-o de quem o encontrou e fez a doação do mesmo a Euclides da Cunha cuja reação sobre o seu texto ninguém sabe. O certo é que o subestimou, pois refere-se a outros manuscritos encontrados nos escombros, mas silencia sobre este (9).

Dizia Antônio Vicente Mendes Maciel nesse manuscrito, referindo-se à escravidão e à abolição do trabalho escravo:

É preciso, porém, que não deixe no silêncio a origem do ódio que tendes à família imperial, porque sua alteza a senhora Dona Isabel libertou a escravidão, que não fez mais do que cumprir a ordem do céu; porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo de semelhante estado, o mais degradante a que podia ser reduzido o ser humano; a força moral (que tanto a orna), com que ela procedeu à satisfação da vontade divina, constitui a confiança que tem em Deus para libertar esse povo, (mas) não era suficiente para soar o brado da indignação que arrancou o ódio da maior parte daqueles a quem o povo estava sujeito. Mas os homens não penetram a inspiração divina que moveu o coração da digna e virtuosa princesa para dar semelhante passo; não obstante ela dispor do seu poder, todavia era de supor que meditaria, antes de o pôr em execução, acerca da perseguição que havia de sofrer, tanto assim que na noite que tinha de assinar o decreto da liberdade, um ministro lhe disse: Sua Alteza assina o decreto da liberdade, olhe a República como ameaça; ao que ela não ligou a mínima importância, assinando o decreto com aquela disposição que tanto a caracteriza. A sua disposição, porém, é prova que atesta do modo mais significativo que era a vontade de Deus que libertasse esse povo. Os homens ficaram assombrados com o belo acontecimento, porque já sentiam o braço que sustentava o seu tesouro, correspondendo com a ingratidão e a irresponsabilidade ao trabalho que desse povo recebiam. Quantos morriam debaixo dos açoites por algumas faltas que cometiam; alguns quase nus, oprimidos da fome e de pesado trabalho. E que direi eu daqueles que não levavam com paciência tanta crueldade e no furor do excesso de sua infeliz estrela se matavam? Chegou enfim o dia em que Deus tinha de pôr termo a tanta crueldade, movido de compaixão a favor do seu povo e ordena para que se liberte de tão penosa escravidão. (10) .



Pelo exposto, podemos concluir que Antônio Conselheiro não foi aquele personagem bronco ou louco como se costuma afirmar nos ensaios tradicionais sobre Canudos, mas um agente de dinamização social no período que vai da escravidão e posteriormente de 13 de maio até a luta e a destruição do arraial de Belo Monte. Na primeira fase, reunia os escravos e com eles falava mediante um código de linguagem ligado à simbologia religiosa para denunciar a sua situação e sugerir a necessidade de se libertarem, com isto atraindo, numa região de pequena densidade demográfica na época, cerca de dois mil escravos para ouvirem suas prédicas, segundo testemunha da época.

Em 1897, escreve em um dos seus muitos manuscritos a aprovação que deu à abolição e procura explicar, a seu modo, porque a princesa Isabel estava apoiada nas forças divinas ao assinar a Lei de 13 de Maio, defendendo a necessidade de se acabar com a escravidão que para ele era uma situação que chegava aos limites da degradação humana.

Finalmente, quando os ex-escravos fugiam das terras que simbolizavam para eles a escravidão, Antônio Conselheiro abre-lhes um espaço físico, social e humano no qual eles se integraram, participando ativamente como agentes históricos da comunidade de Canudos até o seu final. Fizeram parte de seu componente militar, religioso e político. Lutaram juntamente com o líder que os reintegrou na sua condição humana. E, antes, quando eram ainda escravos, acenava-lhes com a possibilidade da liberdade, com eles reunindo-se e esclarecendo a possibilidade de mudança social capaz de libertá-los, palavra que era transmitida de boca em boca.

Queremos crer, por tudo isto, que Antônio Conselheiro foi um abolicionista plebeu, atuando na área rural do Nordeste, em uma região em que os líderes tradicionais do abolicionismo nunca atuaram dinamicamente, com uma mensagem dirigida às populações oprimidas e à massa dos escravos descontentes, muitos dos quais, possivelmente, saíam dos quilombos para ouvi-lo.

Notas
1. Quem fez o exame craniométrico de Antônio Conselheiro foram os médicos Nina Rodrigues e Sá de Oliveira, tendo escrito o primeiro que "o crânio de Antônio Conselheiro não apresentava nenhuma anomalia que denunciasse traços de degenerescência: é um crânio de mestiço, onde se associam caracteres antropológicos de raças diferentes". Apesar desta conclusão, Nina Rodrigues não teve dúvidas de escrever que "em Canudos representa de elemento passivo o jagunço que corrigindo a loucura mística de Antônio Conselheiro e dando-lhe umas tinturas das questões políticas e sociais do momento, criou, tornou plausível e deu objeto ao conteúdo do delírio, tornando-o capaz de fazer vibrar a nota étnica dos instintos guerreiros, atávicos, mal extintos ou apenas sofreados no meio social híbrido dos nossos sertões de que o louco como os contagionados são fiéis e legítimas criações. Alí se chocavam de fato, admiravelmente realizadas, todas as condições para uma constituição epidêmica da loucura". Ver RODRIGUES, Nina. As coletividades anormais. São Paulo: Civilização Brasileira, 1939. p.42.

2. MUNIZ, Edmundo. Canudos: a guerra social. Rio de Janeiro: Elo, 1987.

3. Citado por MACEDO, N. Antônio Conselheiro: a morte em vida do beato de Canudos. Rio de Janeiro: Record, 1969. p.42.

4. Ver PINTO, P. A. Os Sertões de Euclides da Cunha: vocabulário e notas lexográficas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1930. Para se ter uma posição revisionada do pensamento de Euclides da Cunha em relação à escravidão, ao negro e ao Abolicionismo, veja-se MOURA, Clóvis. Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, s. d. p.67-94.

5. CALASANS, J. Antônio Conselheiro e a escravidão. Salvador: s. n., s. d.

6. Idem, ibid.

7. Idem, ibid.

8. CONSELHEIRO, Antônio. Prédicas aos canudenses e um discurso sobre a República. Belo Monte (província da Bahia), 12 jan. 1897 apud NOGUEIRA, A. Antônio Conselheiro e Canudos. São Paulo: Editora Nacional, 1974.

9. Cf. CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1933. p.171. Euclides da Cunha refere-se a outros manuscritos encontrados nos escombros, escrevendo ao dar a fonte da transcrição de algumas profecias de Antônio Conselheiro: "Os dizeres dessa profecia estavam escritos em grande número de pequenos cadernos encontrados em Canudos. Os que aí vão, foram, lá mesmo, copiados de um deles pertencente ao secretário do comandante em chefe da campanha".

10. Antônio Conselheiro, apud CUNHA, E., op. cit., p.47.

Clóvis Moura é sociólogo e escritor, professor examinador de pós-graduação da Universidade de São Paulo, autor de vários livros entre eles Introdução ao pensamento de Euclides da Cunha.

Revista Olho da Historia

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Canudos como cidade iletrada: Euclides da Cunha na urbs monstruosa

Canudos como cidade iletrada: Euclides da Cunha na urbs monstruosa

Roberto Ventura
Professor de teoria literária e literatura comparada da USP e autor de Estilo tropical (São Paulo, Companhia das Letras, 1991).

RESUMO: Euclides da Cunha interpretou o conflito de Canudos (1896-7) a partir de fontes orais, para afirmar o caráter sebastianista e messiânico do movimento. Baseou-se em poemas populares e em profecias apocalípticas, que atribuiu a Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões (1902), um retrato sombrio do líder da comunidade. Os sermões do Conselheiro, recolhidos em dois volumes manuscritos a que Euclides da Cunha não teve acesso, mostram um líder religioso, muito diferente do fanático místico retratado em Os sertões. Revelam um setanejo letrado, capaz de exprimir suas concepções políticas e religiosas, vinculadas a um catolicismo tradicional, corrente na igreja do século XIX.

PALAVRAS-CHAVE: Euclides da Cunha, Antonio Conselheiro, guerra de Canudos, messianismo.


Euclides da Cunha interpretou a guerra de Canudos a partir de fontes orais, como os poemas populares e as profecias religiosas, encontrados em papéis e cadernos nas ruínas da comunidade. Baseou-se em profecias apocalípticas, que julgou serem de autoria de Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões, um retrato sombrio do líder da comunidade. Estes poemas e profecias foram o ponto de partida de sua visão de Canudos como movimento sebastianista e messiânico, vinculado à crença no retorno mágico do rei português d. Sebastião, para derrotar as forças da República e restaurar a monarquia.

Euclides projetou sobre o Conselheiro muitas de suas obsessões pessoais, como o temor da irracionalidade, da sexualidade, do caos e da anarquia, para construir um personagem trágico, guiado por forças obscuras e ancestrais e por maldições hereditárias, que o levaram à insanidade e ao conflito com a ordem. Viu Canudos como desvio histórico capaz de ameaçar a linha reta que ele, Euclides, se impusera desde a juventude. Recorria, nas cartas aos amigos e familiares, à imagem da linha reta para expressar sua fidelidade aos princípios éticos aprendidos com o pai, ancorados na crença no progresso da humanidade e no caráter redentor da República (Cunha, 1996).

Os sermões de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, recolhidos em dois volumes manuscritos a que Euclides não teve acesso, mostram um líder religioso muito diferente do fanático místico ou do profeta milenarista retratado em Os sertões. Revelam um sertanejo letrado, capaz de exprimir, de forma articulada, suas concepções políticas e religiosas, que se vinculavam a um catolicismo tradicional, corrente na Igreja do século XIX.

Antônio Conselheiro, o futuro líder de Canudos, pregou por volta de 1870 pelo interior do nordeste e organizou mutirões para a construção de igrejas e cemitérios. Foi proibido de pronunciar sermões pela Igreja Católica em 1882. Seus conflitos com a ordem estabelecida se agravaram com a proclamação da República. Conselheiro se opunha ao novo regime, que via como a personificação do Anticristo, e criticava o casamento civil e o registro de mortes e nascimentos, introduzidos com a Constituição de 1891.

Após liderar rebelião contra a cobrança de impostos, fixou-se com seus seguidores, em 1893, na região de Canudos, às margens do rio Vaza-Barris, no nordeste da Bahia. Criou Belo Monte como refúgio sagrado contra as secas da região e as leis seculares da República. O atraso na entrega de madeira, comprada em Juazeiro para a construção de igreja, foi o estopim de um conflito armado, que se estendeu por quase um ano, de novembro de 1896 até outubro de 1897, até o completo extermínio da comunidade. Quatro expedições militares foram enviadas contra Canudos.

Foi uma guerra de extermínio, que o escritor-engenheiro Euclides da Cunha criticou em Os sertões, publicado em 1902, cinco anos após o massacre. Mais de doze jornais mandaram repórteres e fotógrafos na primeira cobertura ao vivo de uma guerra no Brasil, que a instalação das linhas telegráficas tornara possível. O conflito terminou com a morte de 5 mil soldados e o massacre da segunda maior cidade da Bahia, com cerca de 25 mil habitantes.

A destruição de Canudos se deveu menos ao anti-republicanismo do Conselheiro do que a fatores políticos, como os conflitos entre facções partidárias na Bahia, a atuação da Igreja contra a atuação pouco ortodoxa dos beatos e pregadores e as pressões dos proprietários de terras contra a comunidade, cuja expansão trazia escassez de mão-de-obra e rompia o equilíbrio político da região.

Outros conflitos políticos em nível nacional transformaram o povoado em alvo de grupos e facções, como os embates entre civilistas e militaristas, ligados à sucessão do presidente Prudente de Morais (1894-8). A guerra serviu de pretexto à repressão aos grupos monarquistas e aos setores jacobinos, tendo contribuído para a implantação da política dos governadores, criada pelo presidente Campos Sales (1898-1902), em que as lideranças civis de Minas Gerais e de São Paulo passaram a se alternar no poder.

Pressões da Igreja também foram decisivas para o agravamento do conflito. Com a política centralizadora exercida pela Santa Sé a partir de 1860, no pontificado de Pio IX, o clero brasileiro passou por um processo de romanização, em que os padres foram submetidos à autoridade dos bispos e das arquidioceses, que passaram a combater a ação dos pregadores leigos (Levine, 1992; Villa, 1995).



Euclides da Cunha em Canudos

Euclides foi enviado à frente de batalha como correspondente de O Estado de S. Paulo, para escrever uma série de reportagens e preparar um livro sobre a guerra. Participou, de agosto a outubro de 1897, da quarta e última expedição. Tomou contato com uma cidade semi-destruída pelos constantes bombardeios, com seus habitantes privados de água e comida devido ao cerco do Exército. Sua observação foi prejudicada por tais condições, que se somaram à formação científica, de base positivista e evolucionista, com os preconceitos raciais próprios à época, que traziam a crença na inferioridade dos não-brancos.

Passeou, dentro da cidade, em 29 de setembro, como contou no penúltimo artigo para o jornal: "passeio perigosamente atraente, com os jagunços a dois passos apenas, nas casas contíguas". Anotou, no mesmo dia, na caderneta de bolso que trazia consigo: "Não posso definir a comoção ao entrar no arraial." Decepcionou-se com o aspecto daquela povoação estranha, cujas ruas eram substituídas por um "dédalo desesperador de becos estreitíssimos". As casas se acumulavam "em absoluta desordem", como se tudo aquilo tivesse sido construído "febrilmente — numa noite — por uma multidão de loucos!" Criticou a ausência de linha reta e de planejamento no traçado de Canudos. Assustou-se ainda com o interior miserável dos casebres escuros, sem ar e com pouca mobília (Cunha, 1975:69; 1939:107-9).

Presenciou menos de três semanas de luta, ao todo 18 dias, de 16 de setembro até 3 de outubro. Retirou-se doente de Canudos na manhã de 3 de outubro, dois dias antes do fim da guerra, por causa de acessos de febre, provocados pelas condições da guerra, com pilhas de mortos e feridos, falta de alimento e noites de sono interrompidas por tiroteios. Não assistiu ao massacre dos prisioneiros, à queda final de Canudos, à exumação do cadáver do Conselheiro e à descoberta de seus manuscritos, ou ao incêndio da cidade com tochas de querosene, ocorridos nos últimos dias. Tais cenas, ausentes de suas reportagens, foram relatadas com poucos detalhes no livro de 1902 (Calasans, 1969).

O silêncio de Euclides sobre as atrocidades da guerra foi acompanhado por quase toda a imprensa. Os materiais enviados pelos correspondentes, sobretudo pelo telégrafo, eram submetidos à censura militar. Mas outros jornalistas, como Manoel Benício, do Jornal do Comércio, e Fávila Nunes, da Gazeta de Notícias, chegaram a mencionar atos de violência das tropas. A crueldade da campanha só foi revelada, com veemência, pelo estudante de medicina Lélis Piedade, no Jornal de Notícias, da Bahia, e pelo monarquista Afonso Arinos, no Comércio de São Paulo (Galvão, 1977).

Talvez Euclides se sentisse tolhido, como repórter, para atacar o Exército. Era, desde 1896, tenente reformado e fora nomeado adido ao Estado-maior, com direito a ordenança, para a cobertura da guerra. Daí o crescente silêncio das reportagens que escreveu de Canudos, interrompidas, de forma súbita, em 1 de outubro. Escreveu sobre as manhãs admiráveis, com os raios de sol que iluminavam o círculo de montanhas.

Mais tarde, em Os sertões, chamou a cadeia de serras de "anfiteatro" do maior drama da história brasileira e denunciou a campanha militar como crime. Fez a confissão de culpa da omissão de suas reportagens, ao mencionar fatos sobre os quais antes silenciara: a degola dos prisioneiros e o comércio de mulheres e crianças. Criticou a hipótese de uma conspiração política, apoiada por grupos monárquicos e por países estrangeiros, que havia justificado o massacre.

A oralidade em Os sertões
O crítico uruguaio Angel Rama tratou, em La ciudad letrada, do papel das camadas letradas na América Latina, encarregadas das tarefas da administração colonial e da catequização da população indígena. Formada por profissionais, escritores e servidores intelectuais, que detinham a escrita em uma sociedade de analfabetos, a cidade letrada fazia a comunicação e a mediação entre a metrópole e os grupos locais, exercendo funções culturais e simbólicas nas estruturas de poder (Rama, 1984).

Euclides criou, em Os sertões, uma imagem de Canudos como cidade iletrada, dominada por fanatismos e superstições transmitidos de forma oral. Construiu um modelo interpretativo para dar conta das relações e conflitos entre a sua própria cultura, letrada e urbana, e a cultura oral sertaneja, marcada por mitos messiânicos e pela tradição católica. Procurou dar voz ao outro, objeto de seu discurso e inimigo de suas concepções políticas, ao incorporar textos destinados à oralização, produzidos segundo uma lógica mítica e religiosa que lhe era estranha.

Foi além da narração da guerra, ao construir uma teoria do Brasil, cuja história seria movida pelo choque entre etnias e culturas. Recorreu à teoria do sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz (1838-1909), que considerava a história guiada pela luta entre raças, com o esmagamento inevitável dos grupos fracos pelos fortes. Alarmado com o avanço da cultura estrangeira, lançou seu brado de alerta em Os sertões: "Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos" (Cunha, 1902:145).

O conflito entre Canudos e a República resultou, para Euclides, do choque entre dois processos de mestiçagem: a litorânea e a sertaneja. O mestiço do sertão apresentaria vantagem sobre o mulato do litoral, devido ao isolamento histórico e à ausência de componentes africanos, que tornariam mais estável sua evolução racial e cultural. "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral." (Cunha, 1985:179).

Revelou, na abertura do livro, seu propósito de se identificar aos sertanejos, vítimas da guerra. Citou a este respeito o historiador francês Hyppolite Taine, para quem o "narrador sincero" deveria ser capaz de se sentir como um bárbaro entre os bárbaros, como um antigo entre os antigos. Taine formulou, na Histoire de la littérature anglaise (1863), a concepção naturalista da história, determinada a partir de três fatores: o meio, com o ambiente físico e geográfico; a raça, responsável pelas disposições inatas e hereditárias; e o momento, resultante das duas primeiras causas (Taine, 1905:xxxix, v. 1).

Tal concepção naturalista foi seguida por Euclides, ao dividir Os sertões em três partes, correspondentes aos fatores de Taine: "A terra", "O homem" e "A luta". Tratou, em "A terra", da geologia brasileira e do meio físico do sertão baiano, com o clima do semi-árido e a vegetação da caatinga. Em "O homem", discutiu as origens do homem americano, a formação racial do sertanejo e os males da mestiçagem. Finalmente, em "A luta", narrou a guerra de Canudos como confluência dos fatores naturais, étnicos e históricos.

Apesar da sua intenção de narrar a história com sinceridade, construiu uma visão negativa de Canudos que chamou de "urbs monstruosa" e "civitas sinistra do erro", dominada pela desordem e pelo crime. O povoado era, para ele, um ajuntamento caótico e repugnante de casas, onde haveria o amor livre e o coletivismo dos bens (Cunha, 1985:232-9). Considerou-a como grupo homogêneo, formado por mestiços de branco e índio, sem perceber que se tratava de uma sociedade diferenciada com a presença de comerciantes, e com forte presença de mulatos e índios.

Mas propôs uma outra visão de Canudos como comunidade messiânica, em que haveria a espera do rei português d. Sebastião, para derrotar as forças da República. Segundo Euclides, o isolamento histórico da sociedade sertaneja permitiu a preservação dos mitos sebastianistas, transmitidos com a colonização portuguesa. O movimento de Canudos teria reatualizado o mito de d. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Quibir em 1578, na tentativa de expandir os domínios portugueses na África. Com a morte de d. Sebastião, o trono português ficou vago e Portugal foi anexado a Castela, só tendo recuperado a autonomia política em 1640.

Surgiu o mito do retorno glorioso do monarca desaparecido, que se manteve em Portugal até o século XIX. Este mito se manifestou, no Brasil, em movimentos messiânicos, como na Cidade do Paraíso Terrestre, de 1817 a 1820, e em Pedra Bonita, de 1836 a 1838, ambos em Pernambuco, ou no Contestado, região entre o Paraná e Santa Catarina, de 1912 a 1916. A crença esteve presente em Canudos, de 1893 a 1897 (Monteiro, 1977; Queiroz, 1976).

Euclides se baseou nos poemas e profecias, que transcreveu em uma caderneta. Os poemas fazem parte de dois ABCs, narrativas da guerra, estruturadas como seqüência de estrofes iniciadas com as letras do alfabeto, que servem como recurso de memorização. Copiou ainda duas profecias apocalípticas, que julgou serem do próprio Conselheiro.

Comentou, de forma negativa, estes manuscritos, que desqualificou como "pobres papéis", com "ortografia bárbara" e "escrita irregular e feia", que mostrariam o "pensamento torturado" dos sertanejos: "Valiam tudo porque nada valiam". Conselheiro pregava, para ele, com uma "oratória bárbara e arrepiadora", "misto inextricável e confuso de conselhos dogmáticos, preceitos vulgares da moral cristã e de profecias esdrúxulas..." (Cunha, 1985:194 e 249).

Euclides citou, em Os sertões, sete quadras de um dos ABCs, que colocou em ordem cronológica, de forma a sintetizar a concepção mítica e religiosa dos seguidores do Conselheiro, que acreditariam no retorno de d. Sebastião. Este ABC, composto de 28 quadras e 1 terceto, contém uma narrativa popular dos primeiros anos da República, que introduziu o casamento civil, perseguiu Antônio Conselheiro e trouxe guerras civis e especulação financeira. Duas dessas quadras se referem à vinda de d. Sebastião, para extinguir o casamento civil e punir aqueles que se encontrariam sob "a lei do Cão", a "eleição" do novo regime, considerada contrária à lei de Deus:

"Sebastião já chegou
comta muito rijimento
acabando com o Civil
e fazendo os casamento"

"Visita vem fazer
Rei D. Sebastião
Coitadinho d'aquele pobre
que estiver nalei de Cão" [Cunha, 1975:58-9]
A República é tida como o reino do Anticristo, personagem do Apocalipse que surgiria antes do fim do mundo, para semear a impiedade e a discórdia até ser vencido pelas forças divinas. Caberia ao Conselheiro a tarefa de derrotar o Anticristo republicano:

"Nassio o Antecristo
p.a o mundo governar
ahi estar o concelheiro
p.a dele nos livrar" [Cunha, 1975:58]

O segundo conjunto de versos é o "ABC das incredulidade", com 26 estrofes, que Euclides copiou na caderneta, mas não chegou a utilizar em Os sertões. Este ABC foi escrito em comemoração à vitória de Canudos contra a 3ª expedição. Seu comandante, o coronel Moreira César, vindo a Canudos "para dar carne aos urubu", recebe a alcunha de "corta-cabeças" ou "corta-pescoço", por seus atos de violência na repressão à Revolução Federalista, em Santa Catarina (Cunha, 1975: 59-61). Morto em Canudos, seu corpo foi retalhado e queimado pelos jagunços após ficar exposto por alguns dias.

Euclides mencionou, em Os sertões, duas profecias apocalípticas que atribuiu, de forma errônea, a Antônio Conselheiro: a profecia das nações e a profecia de Jerusalém. A profecia das nações se refere ao fim do mundo, em que irá aparecer um anjo, para fazer pregações, fundar cidades e construir igrejas e capelas. É provável que os sertanejos identificassem o Conselheiro a este anjo. São previstas desgraças, como a construção de estradas de ferro, a grande fome, a prisão de fiéis e guerras civis, que precederão o retorno de d. Sebastião e de Jesus para inaugurar uma nova era: "Em verdade vos digo, quando as Nações brigarem com as Nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prúcia com a Prúcia; das ondas do mar dom Sebastião sair com todo seu exército desde o princípio do mundo que se encontrou com todo seu exército, em guerra, e restituiu em guerra."

A profecia de Jerusalém é datada de 1890, tendo Belo Monte como local. Não há referências a d. Sebastião nesta profecia, que contém uma cronologia política, que vai da independência do Brasil até o fim do mundo, anunciado para 1901, passando pela abolição dos escravos e a proclamação da República. São previstos o apagar de todas as luzes, seguido de chuvas de estrelas e queda de meteoros, até que apareça o pastor capaz de guiar o rebanho. Guerras são profetizadas para o ano de 1896, que coincidiu com o início do conflito de Canudos: "Em 1896 há de haver guerra Nação com a mesma Nação, o sangue há de correr na terra".

Ambas as profecias contêm uma visão escatológica, que anuncia o fim do mundo e a criação do Reino dos Céus na terra, em que deverão ser eliminadas as diferenças sociais — "não se conhecerá rico nem pobre" — e erradicados os conflitos políticos pela unificação dos homens sob a autoridade divina: "um só pastor e um só rebanho". As regiões climáticas também serão invertidas e o sertão se tornará terra de promissão, com fartura de carne e peixe, ao virar "praia", expressão utilizada para designar as zonas úmidas entre o litoral e o semi-árido: "Em 1894 há de vir rebanhos de mil correndo do centro da Praia para o certão então o certão virará Praia e a Praia virará certão" (Cunha, 1975:73-5).

Os sermões do Conselheiro

Euclides não teve acesso, quando escreveu Os sertões, aos dois volumes manuscritos, que o Conselheiro redigiu do próprio punho, ou ditou a um assistente. Tomou por base profecias populares, como a das nações e a de Jerusalém, que atribuiu ao Conselheiro. Só teve acesso a um dos manuscritos deixados pelo líder de Canudos, quase sete anos após a publicação de Os sertões, poucos meses antes de morrer em 1909. Mas se inclinava, dada sua formação evolucionista, a desqualificar o discurso religioso como primitivo.

Conselheiro redigiu dois livros manuscritos, em meio aos conflitos com a Igreja e o governo, que se encerravam com uma mensagem final de despedida aos fiéis. Deixou uma espécie de testamento religioso, ao perceber o agravamento do confronto com os poderes estabelecidos. Seu profetismo, com o ideal de martírio e o desejo de salvação, se relacionava ao catolicismo dos pregadores leigos, muito freqüentes no nordeste.

O papel de conselheiro, que se pregou, como epíteto, ao nome de Antônio Vicente Mendes Maciel, era previsto em obra divulgada pela Igreja portuguesa e brasileira: Missão abreviada para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar o fruto das Missões, do padre Manoel José Gonçalves Couto. Para o padre Couto, toda povoação deveria ter um missionário, de preferência um sacerdote, e "na falta dele qualquer homem ou mulher que saiba ler bem, e duma vida exemplar", para conduzir o povo em orações e lhe dar instruções religiosas (Couto, 1878: 7). O Conselheiro seguiu as recomendações da Missão abreviada, volume que trazia consigo junto com uma Bíblia bilíngüe, em latim e português.

Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, datado de 1895, é o primeiro manuscrito do Conselheiro. É um livro de orações, inédito até hoje, escrito após o fracasso da missão dos frades italianos, enviados para submeter o líder e seus fiéis à autoridade eclesiástica. Contém partes copiadas e adaptadas da Missão abreviada e da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Apresenta ainda os dez mandamentos e os sacramentos e obrigações religiosas.

O segundo manuscrito, que Afrânio Peixoto deu a Euclides, foi concluído em 12 de janeiro de 1897, quando a cidade se preparava para o combate à 2ª expedição. Tinha por título, Tempestades que se levantam no Coração de Maria por ocasião do Mistério da Anunciação, contendo a vida de Jesus Cristo e da Sagrada Família sob a ótica da Virgem Maria, seguido de "Os dez mandamentos da lei de Deus" e de textos extraídos da Bíblia, além de prédicas e discursos. Foi publicado por Ataliba Nogueira, em 1978, como Antônio Conselheiro e Canudos. Parte da obra é dedicada ao relato da Paixão, o que permite supor que houve a identificação imaginária entre o sacrifício exemplar de Cristo e o extermínio iminente do grupo.

O manuscrito contém ainda um texto propriamente político, o sermão "Sobre a República", em que atacava a República como "grande mal para o Brasil" e "tirania para os fiéis", regime político contrário à vontade de Deus. Para Conselheiro, a restauração da monarquia e o retorno da família real ao Brasil eram fatos inevitáveis, inscritos em uma ordem natural: "Negar estas verdades seria o mesmo que dizer que a aurora não veio descobrir um novo dia." (Maciel, 1978:175-7).

As crenças sebastianistas, messiânicas e milenaristas, de que os poemas e as profecias transcritos por Euclides são evidência, permitem explicar tanto a luta quase suicida de parte dos conselheiristas, como a intensa migração para Canudos em pleno acirramento do conflito. É possível que, nos últimos meses de agonia da comunidade, a visão escatológica tenha se reforçado entre aqueles que, ao invés de abandonarem o povoado, fizeram a sua defesa até a morte.

Antrópologos e historiadores, como Duglas Teixeira Monteiro, Robert Levine e Marco Villa, consideram porém que Canudos não foi uma comunidade predominantemente milenarista, pois não chegou a apresentar o misticismo extremado ou a crença coletiva na proximidade do fim do mundo, presentes em outros movimentos religiosos, como no Juazeiro e no Contestado. A espera do fim do mundo teria sido, em Canudos, um elemento do discurso religioso, presente nas profecias apocalípticas que circularam entre seus habitantes, mas não se pode precisar hoje qual foi o grau de adesão a tais concepções (Levine, 1992; Monteiro, 1977; Villa, 1995).

Ao contrário dos poemas e profecias citados por Euclides, os sermões de Antônio Conselheiro não contêm referências a d. Sebastião, nem revelam expectativas na vinda de um Messias, capaz de trazer a vitória do Bem sobre o Mal, ou esperanças milenaristas na criação do paraíso na terra. Conselheiro foi mais um líder religioso, que atuou como autoridade religiosa exemplar e organizou uma comunidade segundo laços de solidariedade.

Um pouco de poesia e mistério
Euclides admitiu, nas reportagens, que havia subestimado a resistência dos sertanejos e sua capacidade de luta. Observou, em artigo de 16 de agosto de 1897, que o combate apresentava uma "feição primitiva, incompreensível, misteriosa." Surpreendia-se que os jagunços, já em número reduzido, aguardassem que o Exército fechasse o cerco da cidade, em vez de fugirem, enquanto ainda lhes restava uma estrada aberta para a salvação (Cunha, 1939:29).

Machado de Assis já havia enfocado tal feição de mistério, ao escrever sobre Canudos na Gazeta de Notícias. Em crônica de 22 de julho de 1894, comparava, com bastante humor, os seguidores do Conselheiro aos piratas das canções românticas de Victor Hugo. Deixava-se encantar pelo toque de poesia e mistério que envolvia o líder religioso, além de criticar a imprecisão das notícias sobre o movimento (Assis, 1944a: 155-9).

Machado protestou, em plena guerra, em janeiro de 1897, contra a perseguição que se fazia ao Conselheiro e à sua gente. Comentava que pouco se sabia sobre sua seita e doutrina, capazes de mobilizar milhares de seguidores: "De Antônio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não se lhe conhecem discursos." Como as mortes nos combates não afastaram os fiéis de seu líder, perguntava-se: "Que vínculo é esse [...] que prende tão fortemente os fanáticos ao Conselheiro?" Devido à falta de informações sobre o grupo, concluía que só restava a imaginação para descobrir a doutrina da seita e a poesia para floreá-la (Assis, 1944b:412-6).

Euclides da Cunha tentou penetrar em uma camada opaca ao observador: as formas de consciência e de representação em uma comunidade que lhe era estranha, entrevista em meio aos combates e bombardeios, do outro lado da trincheira. Procurou esclarecer o mistério em torno de Canudos, ao afirmar a existência de crenças sebastianistas que tornariam inteligíveis alguns dos aspectos subterrâneos da guerra, como o apelo da mensagem de seu líder e a resistência heróica dos combatentes. O catolicismo devocional presente nos sermões do Conselheiro revela, porém, que o sebastianismo pode ter sido menos difundido do que supôs o autor de Os sertões.

Euclides adotou um modo historiográfico ousado, ao dar um arranjo poético ao conflito, criando uma obra híbrida entre a narrativa e o ensaio, entre a literatura e a história. Lançou um olhar irônico sobre suas próprias crenças, para compreender o horror da guerra e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar a sua significação particular. A epopéia gloriosa da República brasileira, pela qual combatera na juventude, adquiriu caráter de tragédia na violenta intervenção militar que testemunhou em Canudos.

Revista de Antropologia - USP

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