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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Berços esplêndidos




Ao longo do tempo, a cama já serviu aos mais variados usos: nela se fazia política e serviam-se banquetes. Também se escrevia música e literatura.
Já houve tempo em que lugar de discutir assuntos de Estado era a cama — e ninguém estranhava. Na França, por exemplo, o rei Carlos VIII (1470-1498) organizou em seu leito a reconciliação política com seu inimigo, o duque de Orleans. Entre lençóis e almofadas de seda eles resolveram seus problemas, certamente embalados pelo aconchegante clima do quarto de dormir. Como prova de confiança mútua, ao fim da conversa dormiram na mesma cama.

O célebre escritor alemão Thomas Mann dizia que a cama é um “móvel metafísico”, onde ocorrem os mistérios do nascimento, do amor e da morte, e que à noite se transforma em “navio mágico no qual embarcamos para o mar dos sonhos”. Fonte de inspiração de muitos artistas, para nossos antepassados a cama tinha mil outras utilidades além de lugar de repouso — ao menos para os que dela podiam desfrutar.

Os antigos gregos dormiam, comiam e celebravam suas festas em leitos ricamente decorados; os romanos faziam tudo isso em seus relaxantes divãs. Na Idade Média, a cama era um luxo reservado aos poderosos. Para um nobre medieval, receber visitantes placidamente deitado em sua cama era sinal de prestígio e prova de superioridade diante do recém-chegado. Mas nem as famílias aristocráticas dispunham de leitos individuais para cada um de seus membros.

O normal era ter em casa uma grande cama que era compartilhada por pais, filhos e até convidados, se houvesse. Também os animais domésticos eram tranqüilamente admitidos a se aninhar nesse leito coletivo — mesmo porque eles ajudavam a manter seus donos aquecidos nas longas noites do inverno europeu. Isso não era coisa só de pobre. “O que me mantém realmente quente são os seis cachorrinhos que tenho e que se metem comigo na cama”, contava Liselotte von der Pfalz, nora de Luís XIV, rei da Franca (1638-1715).

Para a maioria dos mortais, o lugar de dormir não era exatamente um primor de conforto, para não falar em higiene. Dormia-se em enxergas de palha, que, além de absorverem a umidade, eram a moradia ideal para toda a espécie de insetos. O leito do imperador Carlos Magno (742-814), que ele dividia com convidados, conforme o costume da época, consistia em um manto de palha estendido sobre uma base de madeira. Era coberto com um colchão forrado de plumas, em cima do qual se estendiam lençóis. Uma almofada ficava na altura da cabeça. Como soberano que era, certamente Carlos Magno contava com a criadagem para lhe renovar a palha de vez em quando.

O hábito de repartir a cama com outras pessoas estendeu-se no tempo. Só na segunda metade do século XVIII, apareceria um médico inglês, o doutor Graham, para advertir que essa prática era abominável e anti-higiênica. Mas os contemporâneos do bom doutor não se impressionaram muito e ele acabou entrando para a história por outro motivo — como inventor da cama “celestial”, como a chamou. Exibida em 1778, ela era equipada — segundo Graham — com “uns seiscentos imãs artificiais, que renovavam o vigor sexual das pessoas que nela deitavam, e proporcionavam um movimento doce, ondulante e vibratório”. Uma intriga de alcova da época dizia que uma das mais famosas apreciadoras desse sugestivo leito era Lady Hamilton, amante de Lord Nelson, o almirante que venceu os franceses na batalha de Trafalgar em 1805. Talvez a cama “celestial” tenha sido a precursora das camas vibratórias de hoje.

Quando Carlos VIII chamou o duque de Orleans para acertarem suas diferenças a bordo do leito real, não estava inovando. Desde a Antigüidade, fazia-se política na cama. Alexandre Magno, da Macedônia (356-323 a.C.), decidia os destinos de seu império do alto de sua cama de ouro. Os imperadores romanos davam audiências reclinados em luxuosos divãs. Francisco I, da França (1494-1547), tinha por hábito premiar o almirante Bonnivent, chefe de sua esquadra, após cada batalha vitoriosa, com o honroso convite para partilhar de sua cama por alguns momentos.

O monarca Filipe IV, o Belo (1268-1314), fez de seu dormitório a sala de reuniões mais concorrida de todo o reino da França. Ao redor de sua luxuosa cama — de veludo azul bordado com lírios dourados — se reuniam os conselheiros eclesiásticos, os ministros, os representantes das corporações e os embaixadores estrangeiros. Nos séculos XVII e XVIII era comum que as damas e rainhas recebessem amigos na cama e a eles era concedido o privilégio até de sentar-se ou deitar-se nela. Tal hábito chamava-se ruelle e era sinônimo de estima.

Mas o figurão mais chegado a uma cama foi sem dúvida o cardeal Richelieu, o astuto primeiro-ministro de Luís XIII, da França (1601-1643). Ele só se levantava para despachar com o rei. Quando precisava viajar, não fazia por menos — levava a cama consigo, indo e vindo por vilas e cidades e derrubando muros e paredes que obstruíssem o caminho de sua companheira inseparável. Não é de estranhar que ela o vitimasse: a falta de movimento mais o excesso de comida deixaram Richelieu sofrendo de dificuldades respiratórios, transtornos cardíacos e circulatórios. Morreu de apoplexia aos 57 anos. Na cama.

De acordo com registros disponíveis, Cleópatra, a bela rainha do Egito, também viajava acompanhada de sua cama, tão grande e pesada que quarenta escravos fortes precisavam carregá-la. Com tantos usos, não é de admirar que a cama tenha servido de refúgio e abrigo dos poderosos nos momentos mais sofridos. Carlos Xll, da Suécia (1682-1718) ficou dezessete meses na cama, não porque padecesse de alguma enfermidade do corpo, mas para curtir a profunda depressão que lhe causou a derrota na batalha de Poltawa para o czar da Rússia, Pedro, o Grande.

A cama tem sido fiel cúmplice das mais esdrúxulas manias, Ricardo III, que usurpou o poder na Inglaterra de 1483 a 1485, depois de ter mandado assassinar todos os aspirantes ao trono, entre os quais seus sobrinhos, com medo de ser assassinado transformou sua cama em uma fortaleza cercada por uma grade de metal. Acabou morrendo numa batalha.

O leito também foi o lugar de nascimento de sublimes criações do espírito humano. Escritores tão diferentes como o alemão Goethe, os franceses Voltaire e Rousseau e o norte-americano Mark Twain produziam suas obras na cama. Em tempos mais modernos, Winston Churchill, duas vezes primeiro-ministro britânico (1940-1945 e 1951-1955), escreveu na cama boa parte de sua História da Segunda Guerra Mundial. O italiano Gioacchino Rossini, famoso compositor de óperas do século passado, entre as quais O Barbeiro de Sevilha, costumava trabalhar no leito. Dizem que seu apego à cama era tanto que, se uma partitura caísse no chão, ele preferia reescrevê-la a ter de levantar para apanhá-la.

Depois da Revolução Industrial, que gerou a sociedade competitiva e apressada dos dias atuais, ficar muito na cama passou a ser visto como grave defeito de personalidade e sinônimo de improdutividade e vagabundagem.

Ao mesmo tempo, porém, a tecnologia cada vez mais avançada oferece aos apreciadores camas cinematográficas, de dar inveja aos potentados de antigamente: vibratórias, redondas, com cobertores elétricos e colchões de água, que ondulam suavemente a qualquer movimento, e até com bar e equipamentos de som e vídeo acoplados.

Revista Superinteressante

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Como se contavam os anos antigamente?




Desde que começou a plantar, há 10 mil anos, o homem marca a passagem do tempo
por Mário Araujo
Dez mil anos atrás, os primeiros agricultores da África e do Oriente Médio começaram a contar o tempo em função das mudanças das estações. E notaram que o movimento dos astros estava relacionado a isso. Os babilônios e os gregos ligaram o ciclo da Lua à contagem do tempo – aliás, os primeiros já dividiam seu dia em 24 horas no século 5 a.C. Só que, como as estações do ano têm relação com o movimento da Terra em torno do Sol (e não da Lua em torno da Terra), ocorria uma defasagem de cerca de dez dias. Por isso, eles adicionavam um mês extra ao calendário de vez em quando.

Os egípcios foram os primeiros a usar o Sol para medir o tempo, há 6 mil anos – o calendário deles, de 3750 a.C., é considerado o primeiro da humanidade, com 12 meses de 30 dias e 5 dias adicionais para adorar os deuses. Era o Nilo que os auxiliava. Quando o rio atingia seu volume máximo, os egípcios sabiam que era verão. E, percebendo que o Sol completa um ciclo de um verão a outro, contaram os dias entre as cheias para marcar quantos dias tinha o ano.

Em Roma, as datas eram imprecisas até a época do romano Júlio César (100 - 44 a.C.), que fez algumas modificações no calendário egípcio. O que usamos hoje é o gregoriano, similar ao juliano. Já em alguns países do Oriente, como na China, os anos eram marcados pelos reinados. O espaço de tempo era determinado pelo período que o imperador permanecia no trono.

Revista Aventuras na Historia

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O que é a Ku Klux Klan?




Então o chefe seria o “Cíclope Máximo”; o secretário, o “Grande Escriba". E por aí vai. O nome da irmandade precisaria ser algo indecifrável, imaginavam.
Alexandre Versignassi e Eliano Jorge
Começou como uma brincadeira. Em 1865, 6 jovens da cidadezinha americana de Pulaski, Tennessee, resolveram espantar o tédio de um jeito diferente: fundar uma microssociedade secreta, tipo uma maçonaria particular. Bem-humorados, decidiram que os membros receberiam títulos engraçados. Então o chefe seria o “Cíclope Máximo”; o secretário, o “Grande Escriba". E por aí vai. O nome da irmandade precisaria ser algo indecifrável, imaginavam. Um deles sugeriu a palavra grega kyklos – que quer dizer círculo (de amigos, no caso). Outro achou que isso cairia bem com a palavra clã. E ficou Ku Klux Klan. A curtição deles era cavalgar à noite, incógnitos sob lençóis e fronhas brancas, para desconcertar os vizinhos. Nada demais. Só que aí a sociedade de brincadeira foi juntando cada vez mais membros. E a coisa degringolou. O movimento racista estava no auge, já que os escravos acabavam de ser libertados pelos vencedores da Guerra Civil Americana, os estados do Norte. E as cavalgadas noturnas viraram perseguições a negros. Em um ano a Klan já tinha virado uma organização assassina. Presente em vários estados, tinha ex-generais sulistas entre os cabeças e contava com o financiamento de agricultores, prejudicados pela alforria. Depois de inúmeros linchamentos, estupros, castrações, incêndios e enforcamentos, a Klan finalmente foi reconhecida como uma entidade terrorista e acabou banida pelo governo americano em 1872. Voltaria em 1915, mas foi perdendo prestígio ao longo do século 20. Hoje, ela tem uns 3 mil membros, que se dedicam a distribuir panfletos racistas. Ah, claro: é apenas um entre os mais de 700 grupos dedicados ao ódio em atividade nos EUA.

Terror virtual

Houve mais linchamentos de negros nos EUA quando a Klan estava proibida do que quando ela voltou em 1915. Foram cerca de 2 mil entre 1890 e 1909; e “só” 400 entre 1920 e 1939. É que a imagem da KKK já metia tanto medo que eles nem precisavam agir muito para deixar a população negra aterrorizada.

Ave, César

A saudação tradicional da KKK parece a dos nazistas. Mas é só coincidência: as duas têm origem romana. Mas não é por acaso que a Klan tenha se associado a grupos neonazistas dos EUA. Hoje eles também são contra judeus, árabes, hispânicos...

Com que roupa eu vou?

Hoje há pouca unidade na Klan, e o poder, na prática, é descentralizado. O que resiste são os modelitos feitos para destacar as hierarquias mais altas da massa de lençóis brancos: o manda-chuva local veste vermelho; a polícia secreta, preto.

Nonsense

A Klan tradicional louvava a Deus e ao Diabo. Hoje os membros se dizem “cristãos brancos”. Mesmo assim, o nome de seu livro sagrado faz uma alusão ao Alcorão, islâmico. É o Kloran (ou “Klorão”).

Nação fantasma

A bandeira dos 13 estados separatistas do Sul virou símbolo racista. É reverenciada pela Klan, e por mais gente do que se imagina: em 2001, um plebiscito apontou 65% de votos pela manutenção dela como bandeira do estado do Mississippi.

A vida imita a arte

O cineasta D.W. Griffith enche a bola da KKK na superprodução O Nascimento de uma Nação (1915), que pinta a Klan como um grupo de nobres cavaleiros que salvaram o Sul dos EUA da “anarquia negra”. Turbinada pelo sucesso do filme, a organização voltou na hora à ativa, após 43 anos de ostracismo.

Revista Superinteressante

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A origem da expressão "Tio Sam"



A origem da expressão "Tio Sam"
O nome Tio Sam vem de Samuel Wilson, cujo apelido era Uncle (tio) Sam.
De onde vem a expressão “Tio Sam” para designar os Estados Unidos?

Vem de Samuel Wilson (1766-1854), cujo apelido era Uncle (tio) Sam. Responsável pela fornecimento de carne para o exército americano na guerra de 1812 com a Inglaterra, o comerciante Wilson carimbou as embalagens com um enorme US, para designar o destinatário, United States. Como, porém, essa ainda não era a abreviação oficial do país, um empregado de Wilson imaginou que aquelas letras representassem as iniciais do apelido do patrão. O erro propagou-se e o enviou das rações militares passou a ser atribuído à generosidade desse personagem, que conquistou o carinho de todo o país e com ele acabou sendo identificado. Em 1961, o Congresso dos Estados Unidos oficializou a expressão Tio Sam como símbolo nacional.

Revista Superinteressante

A pastoral americana - Fordilândia

Henry Ford tentou, sem sucesso, produzir borracha e utopias na Amazônia Carlos Haag Abril 2009 © Reprodução do livro Fordlandia, de Greg Gr...