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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

OS ÍNDIOS E OS SONHOS NO ROMANCE DE FRANCES BROOKE

Os índios conservam a maior parte de suas antigas supertições. Eu assinalaria sua fé nos sonhos, loucura da qual não podem se curar apesar das repetidas decepções... Um selvagem nos estava contando um sonho profético, que, segundo ele, anunciava a morte de um oficial inglês, e eu não pude conter um riso.
"Vocês, europeus", me disse, "são a gente menos razoável do mundo. Caçoam de nossa fé nos sonhos e, no entanto, esperam que nós acreditemos em coisas que são mil vezes mais incríveis."
Londres - 1769
Memória de Fogo - Eduardo galeano

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

As vanguardas - Dez movimentos que marcaram a arte moderna

Paul Gauguin (francês - 1848 - 1903 )
Título: Aonde Você Está Indo?
Técnica: óleo s/ tela
Data: 1893
Impressionismo


As vanguardasDez movimentos que marcaram a arte moderna
 Claudia de Castro Lima
No fim do século 19, o ideal de retratar a natureza do modo mais perfeito possível foi repentinamente deixado de lado. Contra modelos e conceitos valorizados desde o Renascimento, os artistas passaram a criar retratos subjetivos e multifacetados da realidade. Essa busca por novas formas de expressão mudou para sempre o significado e a função da arte na história.

1874 - Impressionismo

O ciclo da arte moderna começa em abril desse ano, quando jovens de Paris usam um estúdio fotográfico para mostrar sua arte. Monet, Renoir e Cézanne pintam a fugacidade da realidade pela luz, como Impressão: Nascer do Sol, de Monet

1880 - Art Noveau

A arquitetura, a pintura e a escultura sofrem o efeito da industrialização e das descobertas científicas do século 19. Obras excessivamente sinuosas e rebuscadas passam a ser reproduzidas industrialmente, através da fundição ou da impressão em roupas e de pôsteres, difundindo-se como decoração entre a incipiente classe média

1907 - Cubismo

O início do primeiro movimento de vanguarda do século 20 não é bem definido. Há quem o atribua ao espanhol Pablo Picasso e seu quadro Les Demoiselles d’Avignon, de 1907. Outros, ao francês Georges Braque. Ambos inovaram ao pintar sem o limite de um único ponto de vista, dando ênfase à imaginação do artista e desestruturando a realidade com formas geométricas

1909 - Expressionismo

Surgiu na Alemanha como oposição ao impressionismo. Artistas como Vincent van Gogh e Edvard Munch, em vez de registrar sua impressão do mundo, valiam-se de suas emoções para dar formas à visão que tinham das coisas. Por isso, as cores eram modificadas e as figuras, deformadas, como O Grito, de Munch

1916 - Dadaísmo

O dadaísmo surgiu em diversos lugares ao mesmo tempo: Zurique, Paris, Nova York, Berlim e Barcelona, ente outros. A proposta era expressar a indignação pela Primeira Guerra Mundial – incluindo aí as instituições políticas, sociais e artísticas. Para os dadaístas, mais que registrar impressões ou sentimentos, era preciso destruir modelos lógicos e racionais e criar novos, baseados na anarquia e no irracional

1918 - Art Déco

A guerra havia acabado e era tempo de esquecer-se dos horrores, divertir-se com o jazz e pensar no futuro. Em oposição à art noveau, os artistas procuravam as formas geométricas e simplificadas, cores fortes, novos materiais e tecnologias. O movimento teve em estilistas, designers e arquitetos seus mais famosos e aplicados representantes

1924 - Surrealismo

Obras como A Persistência da Memória, de Dalí, foram criadas segundo “o pensamento que é expresso na ausência de qualquer controle exercido pela razão e alheio a todas as considerações morais e estéticas”, como propunha André Breton

1950 - Arte Pop

Apesar de o termo “pop” ter surgido num artigo escrito em 1958, o interesse por criar arte a partir da cultura de massa era mais antigo. Temas do cinema, da propaganda e do consumo em geral apareceram em colagens e serigrafias como as de Marilyn Monroe, feitas por Andy Warhol, e quadrinhos a óleo de Roy Lichtenstein

1963 - Minimalismo

Apesar de não ter sido, a princípio, um movimento, o minimalismo foi um dos rótulos dados pelos historiadores de arte às estruturas geométricas de aparência simples que artistas como Donald Judd, Dan Flavin e Carl André fizeram. Eles foram muito criticados por não fazer arte, principalmente porque costumavam usar materiais industriais pré-fabricados, de madeira ou plástico

1975 - Pós-Modernismo

Formas racionais e minimalistas são substituídas por obras ambíguas e contraditórias – como a vida no fim do século 20. Algumas obras foram inspiradas na cultura popular, como os grafites de Basquiat, que misturavam máscaras africanas com cenas cotidianas de Nova York

Revista Aventuras na História

Balzaquiana, a mulher de 30 anos

Balzaquiana, a mulher de 30 anos
Romance do escritor Honoré de Balzac retrata a jovem senhora do século 19
por Angélica Moura
Que balzaquiana é sinônimo de mulher de 30 anos, ninguém discute e nunca discutiu, nem nos tempos do francês Honoré de Balzac (1799-1850). O que é discutível de lá para cá são os adjetivos que compõem o estigma - ou o elogio - que o termo representa. Em 20 de maio, comemoram-se os 210 anos de nascimento do escritor, dono de um respeitável conjunto de obras que inclui ficção e filosofia. De todo seu legado, nenhum foi tão perene quanto a expressão "balzaquiana", que nunca envelheceu, ao contrário das mulheres de 30, que inevitavelmente tiveram ou terão que se despedir do apelido literário para serem chamadas de quarentonas, cinquentonas ou coroas.

Balzac duplicou a idade do amor. Até então, na ficção ou na vida real, o amor era privilégio das jovens. "Balzac valorizou a mulher mais velha, expressando sua vitalidade e mostrando-a como sedutora", explica Maria Cecília Queiroz de Moraes Pinto, professora de Literatura Francesa da USP.
A Mulher de 30 Anos é um romance escrito entre 1828 e 1844, época em que a sociedade francesa assistia ao período de Restauração, após a queda de Napoleão Bonaparte, em 1815, e início das mudanças sociais provocadas pela Revolução Francesa. Os valores burgueses aparecem na literatura. Os personagens Carlos de Vandenesse e Julia D’Aiglemont apaixonam-se perdidamente. Ambos têm 30 anos, mas Carlos é um "homem jovem" e Julia uma mulher "mais velha". Ela é tão submissa que seu recato e resignação encantam o rapaz. Ele tece uma vasta lista de comparações entre jovens e maduras e, em todos os quesitos, a balzaquiana é superior.

Universo feminino
As transformações em dois séculos

Vida longa à Rainha do lar

Hoje parece estranho dizer que uma mulher de 30 anos está velha. Mas, no século 19, não haveria nada de anormal em um comentário assim.A expectativa de vida da francesa era de 40 anos. No Brasil, a balzaquiana estaria literalmente com o pé na cova, pois vivia somente até os 27 anos. Fatores como a descoberta da penicilina, a cura da tuberculose e avanços da ciência dobraram a longevidade feminina. Hoje mulheres de todo o mundo vivem, em média, até os 75 anos de idade.

Amor e castidade

Na aristocracia, fidelidade e recato não eram qualidades indispensáveis a uma moça de família. Os casamentos eram por conveniência e ter amantes era normal. A sociedade burguesa instaurou a união por amor. Castidade e submissão passam a ser o maior tesouro das mulheres. Elas protagonizam romances, como explica Sandra Vasconcelos, professora de Literatura Inglesa da USP, mas “confinadas à esfera privada. Na literatura e na ficção, elas eram modestas, humildes e delicadas”.

Do espartilho à plástica

No século 19, o espartilho ainda era soberano. A moda era usar vestidos colados na cintura que exaltassem os quadris, o busto avantajado, no chamado perfil em “S”. O embelezamento se prestava mais a dignificar e elevar o status da mulher que a fazer com que ela se sentisse efetivamente mais bonita. Hoje, a busca da beleza independe do status e está intimamente ligada a brigar contra o tempo. Silicone e botox são as atuais fontes da juventude.

Revista Aventuras na História

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

ENTRE O ROMANCE E O FOLCLORE

FLORESTAN FERNANDES
sexta-feira, 12 de janeiro de 1945
Especial para a "Folha da Manhã"
Pode-se encarar as relações do romance com o folclore sob vários aspectos, desde o mais elementar aproveitamento do material folclórico como um fator de realce na observação direta, até à possibilidade de uma estética que permita um contato e uma comunhão maior entre o público e o povo. Mas, há uma questão que afeta qualquer tentativa, ampla ou restrita, do aproveitamento dêsse material por parte do romancista: sua validade e limites. Sim, porque é preciso considerar que o romancista faz literatura e não folclore e que além disso os folcloristas podem também ter suas idéias sôbre o assunto. A questão coloca-se, pois, em têrmos das relações entre o folclore e a literatura.

Disse que se deve considerar também o ponto de vista particular do folclorista. Deve-se, é claro, porém, mais por uma razão de ordem, que por uma questão de precedência. O folclorista foi dos últimos a tratar dos fatos folclóricos - lendas, tradições, mitos, superstições, crendices, técnicas de cozimento do barro, de modelação, formas de cultivo da terra, estilos típicos de vida etc. - e quando êle surgia no Século XIX tinha diante de si um trabalho de notação tão grande, que poderia iniciar o estudo do folclore indiretamente, nas grandes obras, começando na antiguidade clássica no teatro grego e em Homero, passando por Vergílio e Petrônio, até chegar a Gil Vicente, Cervantes, Mistral... O folclore confundia-se na literatura, embora não houvesse preocupação alguma em se fazer arte popular. É, aliás, uma sobrevivência dessa fase muito extensa a idéia de que o folclore constitui uma parte da literatura.

O aparecimento dos folcloristas modificou um pouco essa visão das coisas. De um lado porque êles distinguiam o folclore - cujo têrmo também criaram - em folclore subjetivo, em que se procura sistematizar e estudar os elementos folclóricos, buscando por aí atingir uma formulação científica e teórica, sob os auspícios do positivismo, e em folclore objetivo, item sob que seriam agrupados todos os elementos folclóricos, tôdas as danças, as cantigas, as superstições, as crendices, os provérbios, aquêles modos de ser e de agir típicos de um povo ou de uma região, o próprio conteúdo do folclore, pois. Já aí ficou feita uma divisão de trabalho. O estudo propriamente dito do material folclórico compete ao folclorista, ou qualquer outro especialista em ciências sociais. O literato, como tal, nada tem que ver com o "folclore subjetivo". E, é óbvio, pouco lhe interessam as questões teóricas e os aspectos técnicos do folclore; quando o romancista, por exemplo, se utiliza de material folclórico, faz notação ou faz estilização. Põe-se em contato direto com o fato folclórico - um personagem mítico, como a Iara ou o Saci - nas esferas do folclore objetivo sem nenhuma outra preocupação.

Os folcloristas do século XIX e alguns dêste século, entretanto, desvendaram um novo modo possível de se encarar as relações entre o folclore e a literatura - ou, mais precisamente, de situar um e outro, partindo do próprio conceito de folclore. O folclore seria a cultura dos meios populares, das camadas baixas da população - nas zonas rurais e urbanas - em poucas palavras: a "cultura dos incultos". Era, pois, o conjunto de conhecimentos, técnicas e modos de ser dos iletrados, transmitido oralmente. Distinguia-se da literatura, cultura dos meios elevados, dos letrados e dos "cultos". A diferença entre a literatura popular e a literatura erudita é apresentada como uma diferença fundamental, de natureza: duas formas culturais antagônicas e, em certo sentido exclusivas. O burguês e o homem do povo - terminologia de Saintyves e de Maunier - seriam a expressão dêsse antagonismo. Aquêle vivendo a idade positiva contiana, pensando racional e logicamente as coisas, capaz também de progresso; enquanto o segundo revelaria uma etapa anterior do desenvolvimento das sociedades ocidentais surgindo como um homem imobilizado pelo passado e sufocado sob o pêso da tradição, pensando as coisas de modo anti-racional e ilógico. A diferença de mentalidades seria irredutível. Contudo, ela não é inata: o homem herda-a socialmente, revelando-a à medida que traduz o seu próprio meio social e cultural, a sua "cultura" - sua literatura e o seu folclore. Mas, essa irredutibilidade, essa diferença de natureza, abre um abismo entre o folclore e a literatura. Por isso diante do artista - romancista ou poeta - que se orientasse por esta concepção, haveria só três caminhos possíveis: aproveitar o folclore como fonte de sugestão. Aí o tema folclórico seria mero ponto de partida, e o que se incorporaria à literatura seria uma estilização do fato folclórico, e não o próprio fato folclórico. A essência, pois, da literatura, conservar-se-ia salva. O romance "Pedro Malasarte" do sr. José Vieira é um exemplo. Ou então o folclore surge como uma fonte de argumentos estranhos, exóticos e fortes - de motivos e temas novos, dando uma côr ao fundo do romance, um ambiente de vida desconhecido. O trabalho do romancista, no caso, se reduz a um aproveitamento superficial dos fatos folclóricos. É a notação rápida dos "costumes populares" dos românticos. Nunca ultrapassam os limites do descritivo e não há nenhum esfôrço no sentido de entender o homem sob o ângulo daqueles elementos folclóricos. E, ainda, o terceiro caminho, que é a tentativa mais arrojada: tentar uma conciliação entre as duas culturas, entre os dois "tipos" de homem. O tema folclórico deixa de ser simples ponto de partida, para assumir uma importância nova - o artista acaba atribuindo uma realidade essencial do mito, submetendo-se-lhe definitivamente. É a fascinação do abismo, pois o artista pode se despenhar de uma vez no folclore, como Mistral, adotando uma atitude de participação, sem que se possa avaliar até onde a solução pode ser aceita como intermediária. A finalidade maior do artista, entretanto, muitas vêzes é consciente, neste caso! A revelação essencial e integral de um povo, dando uma amostra do conflito das duas mentalidades e um comêço de síntese. Parece-me ser a de Goethe a tentativa mais vigorosa, no gênero; mas êle já estaria esquecido se não ficasse mais próximo da "cultura", que da simples peça de títeres que era o "Fausto". O resultado e o destino dessas aventuras é sempre êsse: fatalmente o artista dá maior ênfase aos valores de seu meio restrito, distanciando-se dos valores do povo à medida que as duas esferas de valores também se distanciam.

Modernamente, esboça-se um movimento que tende ao aproveitamento mais profundo dêsses valores folclóricos. De um lado, liga-se a uma concepção mais ampla de folclore. O folclore como uma expressão das condições presentes, típicas, da vida do povo, envolvendo todo seu estilo de vida. Essa concepção abre uma nova ponte entre a literatura e o folclore porque, então, desaparece aquela imagem do homem do povo vivendo imobilizado pela tradição e incapaz de progresso, surgindo em seu lugar o ser humano que êle é. Ou seja, a atenção do artista desloca-se dos fatos folclóricos pròpriamente dita para as pessoas que êles caracterizam. Surge aí o homem que interessa à literatura contemporânea, revelando em suas canções, em suas cantigas em suas modinhas, em seus desafios, em seus ABC, aquilo que êle pensa, que êle crê no momento e também o que êle deseja e o revolta. Os valores folclóricos como uma forma, mesmo de expressão da história contemporânea do povo e também de sua ideologia política. Aí é possível encarar o aproveitamento do material folclórico de outra maneira. Primeiro, em si mesmo como documentário; segundo, como uma espécie de pesquisa de busca da verdadeira imagem do "homem do povo". É o que acontece por exemplo no romance moderno de um Jorge Amado ou de um Cyro Alegria. A estilização é relegada e à notação segue-se um trabalho profundo de compreensão do homem em função de seus valores típicos. Os limites entre a literatura e o folclore não só tornam-se menos nítidos e rígidos, como a literatura apresenta-se como uma forma fecunda de revelação do folclore.

Folha de São Paulo - Arquivo

O FAMOSO BANDITISMO DOS BANDEIRANTES

Belmonte: Criador de Juca Pato - Vítima de tanto levar na cabeça, Juca Pato tinha que conformar-se, pois sempre "podia ser pior"

"O artista tem que viver entre o povo, embora não deva fazer concessões à popularidade. Ser popular não é o mesmo que ser vulgar. O "xis" da questão está em tomar um assunto complicado e difícil, digerí-lo, simplificá-lo e torná-lo acessível ao grande público. Resumir numa charge, por exemplo, um problema econômico ou financeiro, eis o ideal(...) fazer arte para ser entendido por algumas pessoas é criar uma aristocracia artística."
Belmonte




domingo, 24 de novembro de 1935
Neste texto foi mantida a grafia original
Iniciava-se, assim, o tumultuoso cyclo da caça ao indio:

As terras ferteis se estendiam, promissoras de séaras opulentas, mas arranhadas apenas, aqui e ali, desordenadamente, em culturas primarias, pela ausencia quasi absoluta do operario rural. No norte, após o ensaio quasi inoperante da escravidão selvicola que, mesmo assim, conseguira arrancar do sólo o esplendor da cultura da canna, o indio fôra substituido, no problema servil, pelo negro africano que, em levas successivas e systematicas, atravessava o oceano, despovoando a Costa da Mina e a Guiné em favor das terras virgens do novo mundo.

Mas o Norte nadava em ouro. Os ricos senhores de engenho, graças ao concurso do braço indigena, podiam, quando o quizessem, dar-se o luxo de comprar "peças" africanas, dispensando os riscos da captura e forrando-se aos onus da exploração dos autochtones, embora a legislação das cortes portuguezas, tendentes a assegurar a liberdade dos índios, não passasse de puro despistamento juridico. Leis, alvarás e cartas-regias sahidas, com tão impressionante exhuberancia, através tres seculos, das immediações da Real Fazenda, nada mais eram, no dizer de Taunay, do que "refalsada hypocrisia".

Até então, escravizavam-se indios no Brasil inteiro. Já em 1550, Manuel da Nobrega escrevia ao seu provincial: "Nesta terra, todos ou a maior parte dos homens têm a consciencia pesada por causa dos escravos que possuem contra a razão".

E se, no seculo do bandeirismo, apenas os paulistas realizavam, com intensidade, esse trafico, foi pela razão muito natural de que, sendo elles no geral pobres, não podiam ser humanitarios... comprando negros na costa da Africa. Dir-se-á, para suprema ignominia dos chefes bandeirantes, que uma coisa é comprar escravos e outra, muito diferente, é escravizal-os. O argumento, como se constata, é irretorquivel, e lembra o caso daquelle santo homem da anecdota que era um grande amigo dos animaes. Não matava um frango porque, dizia elle, lhe confrangia fundamente a alma judiar das pobres avesinhas. O que, aliás, não o impedia de lamber os beiços e sentar-se soffregamente a mesa, empunhando um facalhão, toda vez que lhe apresentavam um frango assado ou uma gallinha de molho pardo...

Todos quantos se lembram de investir contra os bandeirantes, accusando-os de terem praticado as maiores atrocidades contra os "pobres selvicolas", fiam-se excessivamente na documentação dos missionarios hespanhoes - parte interessadissima na secular contenda entre as duas forças que se chocaram, vezes sem conta, nas terras barbaras do novo mundo. Emquanto os hespanhoes se apossavam do territorio sul americano, pelo sul e pelo oeste, na tentativa de estabelecer o seu grande imperio theocratico hispano-guarany, os paulistas, na sua ansia expansionista, rompiam a linha tordezilhana que tentava contel-os no ambito asphyxiante da capitania, e sahiam - como dizem os documentos coévos - em busca de "remedio para a sua fraqueza", isto é, dos braços de que necessitavam para suas lavouras.

Incidem num juizo falso e absurdo, todos quantos suppõem que, nas suas arremettidas contra as reducções, fossem os bandeirantes encontrar, sempre, indios inoffensivos e missionarios inermes. Tanto isso não é verdade que, em innumeros documentos escriptos pelo punho dos proprios jesuitas, se constata, a todo passo, a bravura com que elles se defendiam e, muitas vezes, atacavam. Numa carta dirigida em 12 de novembro de 1648, ao governador do Paraguay pelo padre Justo Mansilla, escrevia este:

Ihs - Senor governador. Sabado y noviembro 7 dieram los nuestros assalto al enemigo en su real que era el puesto en donde, el ano passado, por otra invasion del mismo enemigo, se avia retirado la segunda reducion y sacaran al Padre xpl de arennas, a quien el enemigo tenia preso y con guardas de dia y de noche e dias avia, y mataram a seys o sete Portugeses a pelotassos, y algunos Tupis, con mucho animo y brio", etc. (1).

Mas não era sempre que as reducções atacavam os paulistas, matando-os a pelotaços, com "mucho animo y brio". Defendiam-se, tambem, com armas de fogo e eu acho que tolos seriam elles se são o fizessem. No assalto a uma das villas do Paraguay, segundo relata o capitão Domingos Gonzales a Sebastian Solorçano, secretario da Casa de Contratação de Sevilha, foram mortos 140 paulistas. Como se vê, os bandeirantes não investiam contra gente inerme. As reducções viviam, aliás, em constantes questões com as autoridades hespanholas, quer do Paraguay, quer do vice-reino do Prata e mesmo da Côrte. Na documentação colhida no enorme acervo do "Archivo General de Indias", em Sevilha, carinhosamente colligidas nos "Annaes" do Museu Paulista, é constante, insistente mesmo, o encontro de cartas vindas da Côrte, e dirigidas às reducções que se esparramavam pelas regiões do Guayrá, Tape e Uruguay, pedindo-se a devolução de armas e munições. Num desses documentos pede-se ao provincial ibero que "todas las armas que esa Religion tenia em las doctrinas de ellas y las que huviesse repartido a los indios de que se conponen, se la entregassen para que estuviessen a disposición de esa Religion, ni se entrometiesen los religiosos a exercitar los yndios en lo manejo dellas ni en los allardes otra acion politica ni militar", etc. (2).

... Noutra carta, pede a Côrte ao governador do Paraguay que retire 150 arcabuzes e mosquetes, 70 "botijas" de pólvora e 70 quintaes de chumbo, sendo que havia nas reducções jesuiticas, então, segundo testemunho do governador, nada menos de 800 boccas de fogo. As reducções defendiam-se bravamente e faziam muito bem.

Como se vê, os hespanhóes não andavam absolutamente tranquilos, ao saberem que seus indios estavam de tal modo armados. Forneciam-lhes armas, é verdade, quando os paulistas ameaçavam as reducções, mas tratavam prudentemente de recolhel-as, logo depois, porque, como escrevia don Gregorio Henestrosa, governador do Paraguay, ao presidente da Real Audiencia de La Plata "a estos yndios no se deben consentir estas armas de fuego, aun que sean para su defensa, fundandose em que pueden con el tiempo venir a usar mal de ellas, volviéndolas contra los espanoles de estas partes".

Tudo isso é symptomatico e quem quer que saiba lêr nas entrelinhas, se convencerá de que as famigeradas "atrocidades" dos paulistas não foram tantas nem tamanhas como pretendem. Tanto isso é provavel que, muitas vezes, os indios das reducções adheriam logo aos invasores: "los yndios reducidos se dan la mano con los que entram por el ytatin". Numa "Real Cedula" dirigida ao vice-rei do Peru', marquez de Mansera, narrando occorrencias no Sul, confessava a Côrte que os paulistas tinham se apoderado de tudo, porque "todos, indios e residentes, tinham-se juntado aos invasores, davam-lhes informações e os guiavam a outras villas e reducções".

Seria insensatez, evidentemente, rogar-se a grandiosidade da obra evangelizadora dos jesuitas na America, principalmente diante das figuras impressionantes de Anchieta e Nobrega no Brasil e de Jumpero Sierra e Garcez na California. Innumeros jesuitas foram, póde-se affirmar, mais santos do que homens. Isso, todavia, não quer dizer que, para o Brasil, seria uma das sete maravilhas do mundo o estabelecimento do Imperio Theocratico que, na opinião de Sylvio Romero, os hespanhóes, com tanta pertinacia, levavam à realidade na America, escorados no meridiano de Tordesilhas. Nesse sentido, a devastação leva a effeito pelos bandeirantes na Guayrá, no Tape e no Paraguay, é um feito que deve orgulhar a raça paulista porque dahi resultou a extincção definitiva da sorrateira ameaça e o avanço implacavel das fronteiras orientaes do Brasil até quasi a cordilheira dos Andes.

Dêmos de barato, porém, para argumentar, que a escravização de indios pelos paulistas, nesse tempo, fosse uma ignominia. E concordemos também em que os bandeirantes, nessas lutas, commetteram atrocidades.

Já dissémos - e todo o mundo o sabe - que não foram os paulistas que inventaram a escravidão, nem tiveram privilegio della. No Brasil inteiro se escravizaram indios, façanha que só terminou no Norte, quando se percebeu que o escravo negro, caçado na Africa, era mais submisso e mallevavel do que o indigena. Todavia, essa submissão e essa maleabilidade produziram, sabe Deus porque, a dantesca tragedia dos Palmares, para cuja extincção se appellou, em ultima instancia, para os "famigerados" bandeirantes de São Paulo... E se os negros da Guiné e da Costa da Mina, tão conformados e tão humildes, chegaram àquelle extremo, fugindo aos senhores de engenho como diabos que fugissem da cruz, deviam ter razões muito poderosas para fazel-o...

Tudo isso, porém, estava no espirito da epoca e, principalmente, nos costumes da terra semi-barbara. Todos quantos observam, e tentam julgar, os acontecimentos do seiscentismo e do setencentismo paulistas através do prisma civilizado dos nossos dias, devem lamentar-se de não terem os indios americanos se munido de "habeas corpus" preventivos contra as incursões dos bandeirantes, nem, ante a ameaça da escravização, appellando para a Lei de Segurança Nacional...

Todavia, não parece impertinente esta pergunta: quem, ante os tumultuarios e arrazantes "rushs" dos paulistas, poderá atirar-lhe a primeira pedra?

Tudo o que os bandeirantes fizeram de possivelmente barbaro no cyclo da caça ao indio, está longe, astronomicamente longe, do que fez aquelle antigo guardador de porcos que se chamou Francisco Pizarro, devastando, com indescriptivel ferocidade, a maravilhosa civilização incaica e trucidando um povo que viera amigavelmente ao seu encontro, um povo cuja cultura estava ao par, senão àcima de muitos outros da civilizadissima Europa (3). E, todavia, não faz ainda um anno que se inaugurou em Trujillo, uma estatua do conquistador...

Longe ainda, infinitamente longe, das famigeradas crueldades dos bandeirantes, estão as incriveis façanhas de Fernando Cortez, reduzindo a escombros a incomparavel civilização aztéca, no Mexico, tão maravilhosa quanto a incaica do Peru. E o que este ibero feroz realizou no imperio de Montezuma, não está muito distante do que fizeram La Salle De Soto na America do Norte. E, se estes ainda não possuem estatuas glorificadoras, estão emprestando o nome illustre a duas marcas de lindos automoveis.

Longe, ainda, estão, as crueldades dos paulistas, das arripiantes incursões do francez Dlonnais que arrazou Maracalbo, S. Antonio de Gilbraltar, Puerto Cavallo e S. Pedro. Esse tremendo filibusteiro só não incendiou mais porque, a paginas tantas, os indios conseguiram agarral-o e, depois de o assarem com todas as regras culinarias, devoraram-no.

Foi assim que povos civilizados, cometteram as maiores scenas de barbarie, não só no Novo Mundo, como tambem no Velho. Não ha quem desconheça as atrocidades praticadas pelos anglo-saxões contra os Pelles-Vermelhas nos Estados Unidos, pelos hespanhóes contra os "yumas" do Colorado, os "quixúas" do Peru e os "guaranys" do Paraguay; pelos francezes contra os indios da Guyanna; pelos germanos na Venezuela, na sua ephemera tentativa de colonização.

"O inicio dos "estabelecimentos", diz Cochin, é um misto de heroismo e de desordem, de sublime devotamento e de cupidez feroz. Foi um heroico navegante, Enambuc, de Picardie, o fundador da colonização das Antilhas. Foi um soldado heroico, o cap. D'Olive, quem, com M. de Plessis, pediu, em 1635, aos Senhores da Companhia das Ilhas, uma commissão para occupar Guadalupe. Sabe-se, porém, com que selvageria, depois da morte do seu companheiro, elle se atirou sobre os infelizes "caraibas", declarando-lhes - segundo o relato de um jesuita - uma guerra tão injusta quão vergonhosa". (4).

A propria Inglaterra que, no anno de 1102, tinha extinguido a escravidão, restaurou-a alguns seculos depois, "aperfeiçoando-a" com o famoso tratado anglo-hespanhol que lhe dava o monopolio do trafico, apezar dos clamores indignados do general William Wilberforce (5).

A barbarie, nesse periodo torvo da humanidade, era geral, mas, pode-se affirmar que os indios escravizados em S. Paulo não soffriam mais, não soffriam tanto como os que se entregavam ao labor martyrizante nas minas de Potosi, nos hervaes paraguayos de Maracaju, nos engenhos do Norte do Brasil ou nas lavouras de Cuba, Haiti e S. Domingos...

Couto Magalhães affirma: "tempo houve em que, só ao redor de São Paulo, existiam mais de 60.000 indios". Ora, conhecendo-se a rebeldia innata no selvicola e sabendo-se que, nessa época, a população de S. Paulo não ia além de 4.000 brancos e mestiços (6), não se faz mistér muita imaginação para calcular-se a facilidade com que os senhores seriam chacinados pelos escravos, caso tentassem martyrizal-os...

É verdade que, nesse cyclo tumultuario e dramatico da Historia do mundo, surgiam, às vezes, visionarios - como foi o caso de "sir" Walter Raleigh. Este, porém, além de aventureiro era poeta. E, na conquista dos Estados Unidos, quiz agir como poeta, à moda romantica.

Resultado: "tres expedições successivas foram tres irremediaveis desastres: a fome e, principalmente, os indios, mataram os expedicionarios."

"Sir" Raleigh só acordou de seu sonho de visionario muitos annos depois. E voltou à America, não mais como poeta, mas como um homem do seu tempo:" Il suivit l'usage du temps ou la piratarie etait encore la guerre, ou Draka illustra son nom em arretan les galions de l'Espagne, avec laquelle l'Anglaterra etait en paix: Releigh se vengea de sa mauvaise fortune, en pillant et en destruisan l'establishment espagnol de Saint Thomas" (7).

Seria fastidioso enumerarmos o que de atrós e de barbaro se praticava no mundo, nesse periodo cyclonico. A historia da Inquisição ahi está no conhecimento de todos; ahi estão ainda os arripiantes "pogromos" com que, desde a Edade Média, a civilizada Europa vem estarrecendo os proprios selvagens da Africa: judeus trucidados ou queimados vivos, na praça publica, na França, Allemanha, Russia, Portugal, Hespanha, desde o anno 1000 até aquem do seculo XIII; chacina de mulheres judias na Ukrania em 1918, já em pleno seculo da Civilização; creanças massacradas em Ekaterinoslaw e Bilostok, em 1905...

Para que proseguir?

Deante de tudo isso e de tudo quanto, nas guerras de conquista, se tem praticado no mundo; deante dos horrores que se testemunharam ha vinte annos atrás, durante a guerra européa; deante das horipilantes invenções chimicas e mecanicas e das composições bacteriologicas com que as potencias do mundo se preparam para uma proxima guerra de vingança e de odio - deante de tudo isso, as famosas "atrocidades" dos bandeirantes como que se ennevôam, se esgarçam, se diluem...

E, entretanto, para certos juizes apressados, os unicos bandidos do mundo continuam sendo os paulistas do bandeirismo...

Do livro

"Bandeiras e Bandeirantes" em preparo.

_____________

(1) - Doc. sobre as Bandeiras Paulistas. - Do "Archivo General de Indias" em Sevilha, Sep. t. V dos "Annaes" do Museu Paulista, pag. 7.

(2) - "Real Cedula al provincial de la Comp. de Jesus del Paraguay. - Op. Cit.

(3) - William Prescott - "Les Incas et la conquête du Perou".

(4) - A. Cochin - "L'Abolition de l'escelavage", pag. 4.

(5) - Rob, and Sam Sons - "The life of W. Wilberforce.

(6) - A. Taunay - "Hist. Geral das Bandeiras Paulistas", vol. 1,pag. 70.

(7) - E. Laboulaye - "Hist. Des Etats Unis", pag. 66.

Folha de São Paulo

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O país que perdeu a alma

O país que perdeu a alma

Rubem Mauro Machado
No parque Lisinski, em Varsóvia, existe um monumento (reconstruído) a Chopin, ao pé do qual, no verão, se realizam concertos. Quando as hordas hitleristas ocuparam a capital polonesa, uma de suas primeiras providências foi dinamitar o belo monumento. Mais do que uma crueldade gratuita (das muitas cometidas), a agressão tinha um objetivo claro: os alemães sabiam que, para dominar um povo, é preciso antes quebrar seu orgulho, destruir seus símbolos e sua identidade nacional. Uma variação amena desse princípio seria a fórmula americana "conquistar corações e mentes", que, aplicada no Vietnã, como se sabe, não funcionou.
Pois bem, talvez estejamos testemunhando no Brasil um caso inédito de gratuito suicídio cultural de uma nação. É duro dizer, mas é importante que se diga: os brasileiros, pelo menos aparentemente, decidiram que são, ou querem ser, não eles próprios mas americanos do norte - ainda que de segunda classe.
Claro, o fenômeno da globalização, comandado pela superpotência que restou, é uma realidade inegável. Mas pelo menos o que se vê em outros países é uma reação em defesa de seus valores culturais: a França, por exemplo, luta por seu idioma com uma disposição de Mike Tyson e a Disneylândia erguida perto de Paris dá, felizmente, prejuízo. Em Roma, há alguns anos, a inauguração do primeiro McDonald' s provocou passeatas de protesto que contaram até com Federico Fellini.
Aqui? Bem, nossa aspiração máxima parece ser a de nos convertermos num país papel-carbono. E o espelho em que nos refletimos é o cinema de Hollywood. Ele nos ensina tudo: como devemos vestir, comer, beber, pensar, nos divertir.
O sintoma mais imediato de perda da identidade é a linguagem. Tentamos nos convencer ( e ao mundo?) de que falamos inglês. A sigla da síndrome da imunodeficiência adquirida é, em toda a América Latina, Sida; no Brasil, claro, é Aids. Nossas empresas não têm mais orçamento, têm budget (fica mais fino). E não mais demitem pessoal, fazem downsizing. As pessoas não lutam contra prazos mas contra deadlines (que chique).
Não tem importância que seja muitas vezes um inglês estropiado, resultante de erros de tradução de falsos cognatos; basta que soe como inglês. De modo que as pessoas continuarão a se vestir de maneira casual (informal); os engenheiros não vão parar de construir plantas (fábricas); os novos-ricos da Barra vão formar por muito tempo uma sociedade afluente ( próspera); e o ex-presidente Reagan, segundo os jornais, continuará a passar os fins de semana em seu rancho (fazenda). O comércio, para maior sofisticação, continuará a ser reconhecido por nomes cheios de consoantes, não importa o sentido. Um amigo americano começou a rir ao ver o letreiro de uma loja da Zona Sul: Clappy em inglês quer dizer, literalmente, gonorrento.
Não vai aqui um preconceito contra o uso de palavras estrangeiras. Alguns termos técnicos, por exemplo marketing, de fato não têm um correspondente preciso em português. Mas por que um publicitário simplesmente não congela a imagem de seu filme e sim, argh, essa é de doer, a friza (do inglês to freeze)? Não disputamos torneios de futebol de praia mas de beach-soccer .. Um programa esportivo de televisão apresenta, no intervalo, não o momento do teste ou da pergunta mas um quiz-test. E a seção de notas de uma excelente coleção de literatura brasileira vendida em bancas foi intitulada, pasmem, help. Acho que refletir sobre tudo isso exige no mínimo um brain-storming? Mas que fica difícil deletar, digo apagar, a má impressão, ah isso fica.
Mas a linguagem é apenas o sintoma mais evidente de nossa desnacionalização; o pior é a abjuração de nossos costumes. Tudo bem que alguém aprecie mascar chicletes e engolir hamburguers, gosto é gosto. Mas vem cá, se fantasiar de bruxo para festejar halloween é um pouco demais, não é não? Em breve estaremos comendo perus no Dia de Ação de Graças. Aposto que essas mesmas pessoas devem achar festinha de São João o cúmulo do provincianismo. Enquanto isso, os peões de rodeio de Barretos nos aparecem vestidos como texanos. Os pobres porteiros dos hotéis de Copacabana envergam fardas cinzentas abotoadas até o queixo, como se estivessem na Suíça, a um calor de 40 graus. E nos nossos jogos de futebol temos agora para animar a torcida cheer-leaders, inclusive com os trajes e a coreografia que nos acostumamos a ver naqueles filminhos vagabundos que passam na sessão da tarde. Wow!
Mas em nenhum outro lugar a vontade de ser americano transparece com mais gana do que na publicidade. Por ela, chegamos à conclusão de que o país foi colonizado por ingleses, para não dizer suecos. O filmete de propaganda do tênis Manoel Tobias, com o astro de futebol-de-salão (esporte aliás inventado no Brasil), apresenta uma ambientação tal que até os muros sujos que vemos lembram os muros de Nova York. E os crioulos que aparecem! Lembram antes moradores do Harlem do que da Rocinha: até a miséria alheia nos é apresentada como mais atraente. Bom, é só um exemplo: se fosse ficar falando da macaqueação desses modelos, precisaria escrever uma enciclopédia; é só ligar a TV e constatar por si mesmo.
Nada há de mais tacanho e burro do que o nacionalismo e o bairrismo. Mas querer negar a si mesmo para ser o outro nada tem a ver com isso, é sintoma que exige a urgente intervenção de um novo profissional, o psicanalista-social, capaz de curar complexos de inferioridade não de indivíduos mas de povos inteiros. Penso que cada vez mais damos razão a nossos irmãos portenhos, quando eles nos chamam daquela palavrinha ofensiva, de cunho racista, é bom que se diga, com que costumam nos mimosear quando nós lhes aplicamos uma surra no futebol.
De minha parte, já estou providenciando um letreiro para ilustrar o peito de minha T-shirt, perdão, camiseta: "Minha camiseta é toda escrita em português." E, acreditem ou não, essa frase será, não em inglês, no nosso idioma pátrio.

Rubem Mauro Machado, jornalista e escritor, é autor do romance Lobos, uma denúncia do militarismo, lançado ano passado pela editora Record.

Revista Brasil de Literatura

A relação entre Deus e o homem na visão dos cronistas medievais


Susani Silveira Lemos França é Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e Doutoranda em Cultura Portuguesa na Universidade de Lisboa.

A crença em que todas as coisas do mundo traziam vestígios da divindade, ou seja, em que tudo procedia de Deus e que, por essa razão, em tudo ele participava, encontra-se bastante presente na produção escrita portuguesa do final da Idade Média. Para os autores de então, nomeadamente os filósofos moralistas e os historiadores, as criaturas mantinham uma relação fundamental com o criador, relação em que todas elas, estando dEle impregnadas, estavam inquestionavelmente submetidas ao seu governo. O homem encontrava-se sob o constante olhar de Deus e acreditava que o seu saber era demasiado imperfeito para não se submeter à vontade divina. Como afirma D. Duarte no Leal Conselheiro,

...conhecendo que o saber dos hom~ees pera qual quer feito val nada se per special mercee do senhor deos nom for sempre aderençado ao que el sabe que he mylhor, e lhe mais praz que se faça [1],
os homens deveriam ter sempre em conta a vontade divina e encomendar-se ao Supremo em todas as suas ações. Era isso que, segundo o escritor, fazia com que ele e seus irmãos merecessem os rótulos de virtuosos.


Também o infante D. Pedro, no Livro da Virtuosa Benfeitoria, disserta sobre essa dependência fundamental da criatura em relação ao criador. Diz ele que o homem tem para com Deus uma infindável obrigação [2], obrigação fundada no fato de que o criador, sendo a fonte de todas as outras fontes, aquela de onde provinham os bens naturais, os bens da Fortuna e os bens da graça, outorgou ao homem todas as suas faculdades, inclusive a faculdade de agradecer-Lhe pela concessão de bens de tamanha grandeza. Assim, até mesmo o desejo e a capacidade do homem de retribuir a Deus os seus favores dependia do ser mesmo de Deus, pois aquele não podia oferecer-Lhe o que já em essência não fosse dEle.


O infante vai ainda mais longe quando tenta explicar a dependência fundamental em relação ao criador. Citando S. Tomás de Aquino, afirma que toda obra se torna naturalmente aa causa de que primeyramente proçede [3]. No referente à causa primeira, essa máxima era especialmente verdadeira: Deus, enquanto causa, era também o fim de tudo. Os feitos do homem, nesse sentido, só quando voltados para o serviço do criador se faziam legítimos. Assim, os louvores e o serviço constante eram, embora incomparáveis com as maravilhas que Deus fez, as únicas formas de retribuir os bens recebidos.
Essa mesma linha de pensamento é seguida pelos cronistas coetâneos. Os relatos desses historiadores, ao porem em cena os feitos notáveis dos reis e dos nobres, põem igualmente em cena os princípios norteadores da relação desses homens com Deus, revelando a importância da religiosidade nas suas vidas.

Debrucemo-nos um pouco sobre esses relatos e vejamos mais de perto essa relação.


As crônicas portuguesas produzidas nos séculos XIV, XV e limiar do XVI estão permeadas de exaltações à devoção dos reis e senhores portugueses, bem como de alguns estrangeiros cujo exemplo merecia ser lembrado. A religiosidade, embora mais diluída, não estava menos entranhada na cronística do que estava em qualquer outro texto de caráter mais diretamente religioso (hagiografias, livros de horas, tratados morais, etc.). A grandeza de Deus e a sua liberalidade, provas incontestáveis da perfeição divina, justificavam que tudo fosse movido pela e para a fé, pois, ao colocar-se como fim último, o criador não visava o seu próprio bem, visava sim acrescentar ao homem um pouco da sua própria perfeição. É isso que reconhece, segundo Pina, um grande senhor africano vindo a Portugal acompanhando o rei do Congo, seu sobrinho:

Amigos, eu tenho por certo, que nom ha outros homens bem aventurados, nem mais sabedores no Mundo que os brancos, e na perfeiçãm de suas cousas o verees: e tudo isto teem, porque como creem no Deos verdadeiro, assi lhes da elle suas cousas perfeitas, e de verdade (...) [4].
Por terem claro esse privilégio, os cronistas retratam personagens ocupadas em servir a Deus e convictas de que as recompensas desse serviço eram garantidas. No combate ao inimigo religioso em defesa da fé cristã, por exemplo, freqüentemente o capitão apela para o argumento de que tanto o sucesso quanto o insucesso, ou melhor, fosse o resultado a vida ou a morte, a recompensa era sempre vantajosa. É esse argumento que serve ao príncipe D. Afonso, futuro D. Afonso Henriques, para convencer o seu exército a enfrentar o exército mais numeroso dos mouros:

Matamdo, ganharemos terra e homrra temporall, morrendo, guanhamos o çeeo e gloria eterna. Matamdo tolhemos a uida a nossos jmijgos, morremdo damola a nos pera sempre [5].
Deus era um benfeitor incontestável, assim como era incontestável a sua onipotência e onipresença, motivos mais que suficientes para conduzir os homens a se posicionarem como seus leais servidores e subordinados satisfeitos. Entendiam os cronistas que não havia coisa que a Deus escapasse, pois Ele detinha o controle de todos os acontecimentos, os passados, os presentes e os vindouros, e a orientação que lhes dava era sempre a melhor:

E Deos que o a esto chamou, emcaminhara seus feitos de bem em melhor, e o tragera em sua guarda, e aa fim que ell deseja (...) [6].

Tudo estava em Deus, a vitória ou a derrota, a alegria ou a tristeza. Jamais os cristãos se viam desamparados, porque ao seu Deus nem as mínimas coisas escapavam. Os muitos obstáculos com os quais o homem se defrontava não eram vistos como uma ausência de Deus ou como um abandono voluntário de sua parte. Deus não era causador dos males. Os males vividos pelo homem eram sempre atribuídos a ele próprio, ou melhor, podiam até vir de Deus, mas eram sempre por responsabilidade da criatura. Assim, se a fortuna se mostrasse ingrata ou se as dificuldades se fizessem muitas, não se julgava que fosse por uma falta ou impotência divina, antes deveria ser por algum erro ou pecado humano. Cabia, portanto, ao homem, com a ajuda dos conselheiros espirituais - que em casos extremos poderia ser o próprio papa -, rever os seus atos para tentar compreender e evitar a ira divina. Conta o cronista de 1419 que o papa Celestino III, tendo sabido acerca das adversidades que afetavam Portugal nos tempos de D. Sancho I,

...cuidou que era por azo daquelle casam~eto que fora feito sem dispenssasaõ entre dous diuidos tam chegados como elrej D. Affonso de Leão era sobrinho delrej D. Sancho seu sogro fº de sua jrmaã (...) [7].

O desamparo de Deus, quando não interpretado como castigo pelos pecados cometidos, podia ser considerado ausência de merecimento: ...que eu daquy nom sairey, senon por mjlagre muy grande, o qual eu nom mereço que Deus faça por my [8]. Esse desamparo e os sucessivos padecimentos daí decorrentes podiam ser ainda tomados como atestação do poder e autoridade do criador, uma espécie de alerta para a sua soberania:

Ell poem sua esperamça em multidõ de muita gemte, pera nos destroir s~e por que, e nos esperemos em hu~u soo Deos que nos livrara de suas maãos; o quall nos leixou padeçer tamtas pressas e tribullaçoões como vistes, por teermos rrazom de o mais amar quamdo nos dellas livrasse [9].

As demonstrações do poder divino, entretanto, não se faziam sentir apenas de forma negativa, ao contrário, as maiores provas do controle de Deus sobre o devir mostravam-se nas situações em que ele auxiliava os fiéis. Na Crónica de D. João I, por exemplo, Fernão Lopes toma como dado que,

...amtre todallas cousas em que o devinall poderio veemos que mais rresplamdeçe, assi he naquellas que de todo pomto som desesperadas (...) [10].
Não é, pois, por acaso que o apelo do homem a Deus e a esperança na sua intervenção surgem como lugares comuns nas crônicas. Enquanto geeral causador e postumeyra fim [11], Deus, como vimos, era aquele que dominava o desenrolar das coisas, até mesmo das coisas mais banais:

...mas Deus, cuja he toda nobreza e senhorio e alteza quis quebrantar a sua presumpçõ (...) [12];
E estãdo asy prestes a batalha pera seer prouue a Deos que a desuiou (...) [13];
...e sem duvjda desta guisa fora, se Deos per outro modo mais apressa nom deram a esta guerra (...) [14].

Por crer nessa sua onipotência, as personagens retratadas pelos cronistas aguardam sempre de Deus, princípio de quaisquer feitos, que seja boõ meo e fim delles [15].


Tamanha esperança faz com que, no mundo construído nas crônicas, as evocações do nome de Deus sejam numerosas, freqüentes e diversificadas. Fosse simplesmente para louvá-lo ou agradecer-lhe, fosse para implorar piedade, para solicitar ajuda e salvação, para pedir conselhos ou até mesmo para pedir sinais daquilo que haveria de vir, o nome de Deus não seria poupado. Os próprios cronistas, logo no prefácio, não se esquecem de lembrar que também a sua tarefa depende da ajuda do todo poderoso:

...recebo fauor e tanta ousança [do Rei] para hir adiante com minha obra, nom cesando dela nem tornando atras, ataa seer acabada com ajuda de todo poderoso Deus, que aos seus prometeu de dar boca e lingoa, a que seus aduersarios nom podessem contradizer [16].
E também não se esquecem de, no final, agradecer por terem conseguido levar a cabo a obra. O exemplo de Zurara é significativo. Ao concluir a "Crónica de Guiné", o cronista, retornando àquilo que foi seu estímulo inicial, dá graças a Deus por lhe ter proporcionado um fim melhor do que ele esperava e aproveita também para agradecer ao Persoal Ternario: Pai, Filho e Espírito Santo [17] - sobre o qual se encontra a Unidade essencial - a arte, a persistência e a inspiração que lhe deram.


Deus era ainda o único que podia agraciar o cronista com o bem que ele mais desejava alcançar, escrever verdade: E sse o Senhor Deos a nos outorgasse o que a allgu~us escrevemdo nom negou, convem a saber, em suas obras clara certidom da verdade(...) [18]. Nesse excerto, portanto, Fernão Lopes deixa claro que, no seu entender, também a verdade, objetivo por excelência da sua história, resulta da revelação divina.


Mas não foi somente pelo benefício da escrita que Deus mereceu louvores. Um dos grandes confortos dos cristãos, contam-nos os cronistas, era depositar toda a sua esperança em Deus, o qual tornaria possível o alcance dos fins desejados: E Deus, que sabe todas estas cousas e todo o mal que el contra nos cuida, el sera nosso capitam em aquel dia e nos dara delle vemçimento (...) [19]. Movidos pela fé, os devotos tinham pouco a temer, pois estavam certos de que o melhor de todos os cavaleiros lutava ao seu lado, dando-lhes força e coragem para combater os mais numerosos exércitos:

Tanto que ho Ifante foi dentro de seu arrayal, carregárom logo sobr'elle infindos Mouros, que, de todalas partes e com grande ousadía, começárom de ho cercar e combater; pero Nosso Senhor deu tanto esforço e acordo aos Christaaõs, que com mortes e feridas assi os escaramentárom, que lhes convêo afastar-se, maravilhados de tam grande resistencia e tamanha força em tam pouca gente (...) [20].
Se, porém, para as personagens das crônicas e para os próprios autores, o mundo era controlado, nos seus mínimos movimentos, pela Providência, a responsabilidade do homem sobre o seu próprio destino também não era insignificante. Não menos forte do que a esperança em Deus estava a convicção de que, nessa vontade soberana, a conduta quotidiana de cada um interferia de forma decisiva. Em harmonia com o pensamento dos filósofos cristãos, os cronistas acreditavam que, como as demais criaturas, também o homem era governado pela Providência, mas, diferentemente delas, era dotado de razão. Tal traço distintivo conferia-lhe a capacidade de participar no seu destino, isto é, ele não era apenas governado pelo supremo, mas também se governava a si mesmo [21]. Em outras palavras, e para abordar um outro aspecto da questão, se o destino estava nas mãos de Deus, isso não significava que o homem devesse estar passivo à espera da intervenção divina. As qualidades do criador de provedor, encaminhador e revelador eram inegáveis, todavia, para merecer o gallardom do nosso Senhor Deos [22], o homem não podia deixar de fazer uso daquilo de que foi dotado: de razão. Ter, portanto, esperança no criador e fazer uso da própria faculdade de julgar e avaliar eram duas virtudes irmãs; esquecer-se da segunda podia pôr em causa a primeira, pois seria esperar muito, tendo feito pouco. Desse modo, a esperança em Deus não dispensava que o homem usasse de sabedoria e de prudência. Esperar apenas da Providência podia ser visto como um insulto a Deus, um abuso da sua boa vontade:

...e [Nuno Álvarez] seguio o emcalço hu~ua gramde legoa ataa que per noite foi forçado de sse tornar, dizemdolhe algu~us dos seus, que aquelle era temtar Deos, nom sse comtentar da merçee que lhe Deos fezera (...) [23].
Por ter sido dotado dessa capacidade de julgar, o homem, embora controlado por Deus em última instância, podia agir de forma imprevisível. Ele era, entre as criaturas, o único que possuía a singularidade de estar no mundo por si mesmo e não somente pela sua espécie. A razoabilidade conferia-lhe o direito de fazer escolhas pessoais, de decidir livremente. Entretanto, se isso era um privilégio, por um lado, era um encargo, por outro. A ele estava reservada a responsabilidade de conduzir espiritual e moralmente a sua vida, servindo a Deus e cultivando as virtudes na relação com os seus semelhantes [24].


Cientes de que os homens compartilhavam com Deus essa responsabilidade sobre o seu próprio destino, os cronistas destacam como virtuosas aquelas personagens que não esperam apenas Dele as soluções para as suas vidas, mas que se empenham nos deveres de bom cristão. É assim que, nas crônicas, vemos freqüentemente a defesa da fé católica ou a devoção serem usadas como justificativa ou estímulo para ações mundanas como vencer uma batalha arriscada, recuperar ânimo após uma peleja perdida, alcançar adeptos e apoio para empreendimentos de risco, explicar as perdas humanas do campo adversário ou do próprio campo. Os esforços dos filhos de D. João I para convencê-lo da viabilidade da tomada de Ceuta são um bom exemplo. O rei D. João só autoriza o empreendimento quando se certifica da excelência do seu objetivo:

Ca vos digo em verdade que ajnda que entendesse de cobrar todo o mundo por meu. como eu sentisse que em algu~ua parte nam era seruiço de Deus. eu o nam teria por vitoria nem o faria por nenhu~ua guisa [25].
A evocação do nome de Deus e a crença na sublimidade das tarefas a realizar serviam igualmente, como adiantamos, de encorajamento ante as diversas dificuldades, especialmente as de caráter guerreiro. São muitos os casos em que, após algumas palavras de esforço, ora reafirmando o valor por si só do serviço a Deus, ora recordando que para os que sobrevivessem estaria reservada a honra e para os que morressem, a salvação da alma, os capitães ou o próprio rei conseguiam inverter uma derrota ou encorajar as suas gentes, em desvantagem numérica, para os mais arriscados combates:

...e tamto mais dauamtagem de nossos jmijgos deue seer nosso coraçam e esforço, quamto teemos mais justas causas e rrezam da pelleia. Nos pelleiamos por Deus, polla ffe, pella verdade. Estes arrenegados que ueedes, pelleiam comtra Deus, pella falssidade [26].
Mesmo nesses casos em que o homem assume um papel mais ativo no desenrolar dos acontecimentos, a fé continua a ser o sustentáculo de tudo, pois crê-se que o sentido das coisas está em Deus e que um desígnio especial foi deixado aos homens.
Foi a partir dessa convicção de que o que realmente importava era o fim ao qual os homens foram destinados, ou melhor, de que havia um significado que transcendia os acontecimentos mundanos, que os cronistas procuraram organizar as suas narrativas. Assim sendo, as circunstâncias a que as personagens estão sujeitas nas crônicas, bem como todos os seus feitos, encontram a sua explicação no supremo saber do Senhor Deus, por cuja prouidemçia se nam faz nada neste mumdo (...) [27].


Afinados com o ideário cristão, os cronistas estabeleceram para os seus heróis uma meta que ultrapassava o plano da experiência, o que explica a freqüência das passagens em que esses se debatem na tentativa de compreender o significado transcendente dos acontecimentos e das coisas. Em tudo, era preciso interpretar os sinais deixados por Deus. A vida na terra era vista como apenas uma etapa da história do homem, motivo pelo qual ele deveria conduzi-la tendo em conta o que se seguiria: a vida depois da morte.


As ações dos protagonistas das crônicas encontram-se, por isso, quase sempre respaldadas num fim que ultrapassa a vida mundana, só podendo ser alcançado depois dela, pois acreditava-se, ou dizia-se acreditar, que a glória conseguida nesse mundo não chegava aa gloria e louuor do premio, que no outro ante Deus se alcançava [28] .

Notas:

[1] D. Duarte, Leal Conselheiro, cap. XCVIII, p. 426.
[2] Infante D. Pedro, Livro da Virtuosa Bemfeitoria, Livro V, cap. VII, p. 713.
[3] Id., ibid., Livro V, cap. I, p. 702.
[4]Rui de Pina, Crónica de D. João II, cap. LVIII, p. 999.
[5]Duarte Galvão, Crónica de El-Rei D. Afonso Henriques, cap. XIV, p. 53.
[6]Fernão Lopes, Crónica de D. João I. Parte Primeira, cap. LXXV p. 128.
[7] Crónica de Cinco Reis de Portugal, p. 155.
[8]Frei João Álvares, Crónica do Infante Santo D. Fernando, p. 86.
[9]Fernão Lopes, Crónica de D. João I. Parte Primeira, cap. CLI, p. 280.
[10] Id., ibid., cap. CXLIX, p. 272.
[11] Infante D. Pedro, Op. cit., Livro VI, cap. XI, p. 761.
[12]Crónica Geral de Espanha de 1344, vol. IV, cap. DCCLIV, p. 311.
[13]Crónica do Condestável, p. 37.
[14]Fernão Lopes, Crónica de D. Fernando, cap. LXXX, p. 210.
[15]Id., Crónica de D. João I. Parte Primeira, cap. XLIV, p. 78.
[16]Frei João Álvarez, Op. cit., p. 2.
[17] G. E. de Zurara, Crónica de Guiné, p. 411.
[18]Fernão Lopes, Crónica de D. João I. Parte Primeira, prólogo, p. 2.
[19]Id., Crónica de D. João I. Parte Segunda, cap. XXXI, p. 65.
[20]Rui de Pina, Crónica de D. Duarte, cap. XXX, p. 550.
[21]Sobre a filosofia cristã medieval, veja-se Étienne Gilson, L' Esprit de la Philosophie Médiévale. No que se refere à condição especial do homem em relação às demais criaturas, veja-se especialmente p. 173.
[22] G. E. de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta, cap. XI, p. 37.
[23]Fernão Lopes, Crónica de D. João I. Parte Primeira, cap. XCV, p. 160.
[24]Infante D. Pedro, Op. cit., Livro III, cap. IV, p. 655.
[25] G. E. de Zurara, Crónica da Tomada de Ceuta, cap. X, p. 33.
[26]Duarte Galvão, Op. cit., cap. XIV, p. 52.
[27]Id., ibid., cap. XXII, p. 84.
[28]Id., ibid., cap. XXV, p. 127

Revista Brasil de Literatura

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Canudos como cidade iletrada: Euclides da Cunha na urbs monstruosa

Canudos como cidade iletrada: Euclides da Cunha na urbs monstruosa

Roberto Ventura
Professor de teoria literária e literatura comparada da USP e autor de Estilo tropical (São Paulo, Companhia das Letras, 1991).

RESUMO: Euclides da Cunha interpretou o conflito de Canudos (1896-7) a partir de fontes orais, para afirmar o caráter sebastianista e messiânico do movimento. Baseou-se em poemas populares e em profecias apocalípticas, que atribuiu a Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões (1902), um retrato sombrio do líder da comunidade. Os sermões do Conselheiro, recolhidos em dois volumes manuscritos a que Euclides da Cunha não teve acesso, mostram um líder religioso, muito diferente do fanático místico retratado em Os sertões. Revelam um setanejo letrado, capaz de exprimir suas concepções políticas e religiosas, vinculadas a um catolicismo tradicional, corrente na igreja do século XIX.

PALAVRAS-CHAVE: Euclides da Cunha, Antonio Conselheiro, guerra de Canudos, messianismo.


Euclides da Cunha interpretou a guerra de Canudos a partir de fontes orais, como os poemas populares e as profecias religiosas, encontrados em papéis e cadernos nas ruínas da comunidade. Baseou-se em profecias apocalípticas, que julgou serem de autoria de Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões, um retrato sombrio do líder da comunidade. Estes poemas e profecias foram o ponto de partida de sua visão de Canudos como movimento sebastianista e messiânico, vinculado à crença no retorno mágico do rei português d. Sebastião, para derrotar as forças da República e restaurar a monarquia.

Euclides projetou sobre o Conselheiro muitas de suas obsessões pessoais, como o temor da irracionalidade, da sexualidade, do caos e da anarquia, para construir um personagem trágico, guiado por forças obscuras e ancestrais e por maldições hereditárias, que o levaram à insanidade e ao conflito com a ordem. Viu Canudos como desvio histórico capaz de ameaçar a linha reta que ele, Euclides, se impusera desde a juventude. Recorria, nas cartas aos amigos e familiares, à imagem da linha reta para expressar sua fidelidade aos princípios éticos aprendidos com o pai, ancorados na crença no progresso da humanidade e no caráter redentor da República (Cunha, 1996).

Os sermões de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, recolhidos em dois volumes manuscritos a que Euclides não teve acesso, mostram um líder religioso muito diferente do fanático místico ou do profeta milenarista retratado em Os sertões. Revelam um sertanejo letrado, capaz de exprimir, de forma articulada, suas concepções políticas e religiosas, que se vinculavam a um catolicismo tradicional, corrente na Igreja do século XIX.

Antônio Conselheiro, o futuro líder de Canudos, pregou por volta de 1870 pelo interior do nordeste e organizou mutirões para a construção de igrejas e cemitérios. Foi proibido de pronunciar sermões pela Igreja Católica em 1882. Seus conflitos com a ordem estabelecida se agravaram com a proclamação da República. Conselheiro se opunha ao novo regime, que via como a personificação do Anticristo, e criticava o casamento civil e o registro de mortes e nascimentos, introduzidos com a Constituição de 1891.

Após liderar rebelião contra a cobrança de impostos, fixou-se com seus seguidores, em 1893, na região de Canudos, às margens do rio Vaza-Barris, no nordeste da Bahia. Criou Belo Monte como refúgio sagrado contra as secas da região e as leis seculares da República. O atraso na entrega de madeira, comprada em Juazeiro para a construção de igreja, foi o estopim de um conflito armado, que se estendeu por quase um ano, de novembro de 1896 até outubro de 1897, até o completo extermínio da comunidade. Quatro expedições militares foram enviadas contra Canudos.

Foi uma guerra de extermínio, que o escritor-engenheiro Euclides da Cunha criticou em Os sertões, publicado em 1902, cinco anos após o massacre. Mais de doze jornais mandaram repórteres e fotógrafos na primeira cobertura ao vivo de uma guerra no Brasil, que a instalação das linhas telegráficas tornara possível. O conflito terminou com a morte de 5 mil soldados e o massacre da segunda maior cidade da Bahia, com cerca de 25 mil habitantes.

A destruição de Canudos se deveu menos ao anti-republicanismo do Conselheiro do que a fatores políticos, como os conflitos entre facções partidárias na Bahia, a atuação da Igreja contra a atuação pouco ortodoxa dos beatos e pregadores e as pressões dos proprietários de terras contra a comunidade, cuja expansão trazia escassez de mão-de-obra e rompia o equilíbrio político da região.

Outros conflitos políticos em nível nacional transformaram o povoado em alvo de grupos e facções, como os embates entre civilistas e militaristas, ligados à sucessão do presidente Prudente de Morais (1894-8). A guerra serviu de pretexto à repressão aos grupos monarquistas e aos setores jacobinos, tendo contribuído para a implantação da política dos governadores, criada pelo presidente Campos Sales (1898-1902), em que as lideranças civis de Minas Gerais e de São Paulo passaram a se alternar no poder.

Pressões da Igreja também foram decisivas para o agravamento do conflito. Com a política centralizadora exercida pela Santa Sé a partir de 1860, no pontificado de Pio IX, o clero brasileiro passou por um processo de romanização, em que os padres foram submetidos à autoridade dos bispos e das arquidioceses, que passaram a combater a ação dos pregadores leigos (Levine, 1992; Villa, 1995).



Euclides da Cunha em Canudos

Euclides foi enviado à frente de batalha como correspondente de O Estado de S. Paulo, para escrever uma série de reportagens e preparar um livro sobre a guerra. Participou, de agosto a outubro de 1897, da quarta e última expedição. Tomou contato com uma cidade semi-destruída pelos constantes bombardeios, com seus habitantes privados de água e comida devido ao cerco do Exército. Sua observação foi prejudicada por tais condições, que se somaram à formação científica, de base positivista e evolucionista, com os preconceitos raciais próprios à época, que traziam a crença na inferioridade dos não-brancos.

Passeou, dentro da cidade, em 29 de setembro, como contou no penúltimo artigo para o jornal: "passeio perigosamente atraente, com os jagunços a dois passos apenas, nas casas contíguas". Anotou, no mesmo dia, na caderneta de bolso que trazia consigo: "Não posso definir a comoção ao entrar no arraial." Decepcionou-se com o aspecto daquela povoação estranha, cujas ruas eram substituídas por um "dédalo desesperador de becos estreitíssimos". As casas se acumulavam "em absoluta desordem", como se tudo aquilo tivesse sido construído "febrilmente — numa noite — por uma multidão de loucos!" Criticou a ausência de linha reta e de planejamento no traçado de Canudos. Assustou-se ainda com o interior miserável dos casebres escuros, sem ar e com pouca mobília (Cunha, 1975:69; 1939:107-9).

Presenciou menos de três semanas de luta, ao todo 18 dias, de 16 de setembro até 3 de outubro. Retirou-se doente de Canudos na manhã de 3 de outubro, dois dias antes do fim da guerra, por causa de acessos de febre, provocados pelas condições da guerra, com pilhas de mortos e feridos, falta de alimento e noites de sono interrompidas por tiroteios. Não assistiu ao massacre dos prisioneiros, à queda final de Canudos, à exumação do cadáver do Conselheiro e à descoberta de seus manuscritos, ou ao incêndio da cidade com tochas de querosene, ocorridos nos últimos dias. Tais cenas, ausentes de suas reportagens, foram relatadas com poucos detalhes no livro de 1902 (Calasans, 1969).

O silêncio de Euclides sobre as atrocidades da guerra foi acompanhado por quase toda a imprensa. Os materiais enviados pelos correspondentes, sobretudo pelo telégrafo, eram submetidos à censura militar. Mas outros jornalistas, como Manoel Benício, do Jornal do Comércio, e Fávila Nunes, da Gazeta de Notícias, chegaram a mencionar atos de violência das tropas. A crueldade da campanha só foi revelada, com veemência, pelo estudante de medicina Lélis Piedade, no Jornal de Notícias, da Bahia, e pelo monarquista Afonso Arinos, no Comércio de São Paulo (Galvão, 1977).

Talvez Euclides se sentisse tolhido, como repórter, para atacar o Exército. Era, desde 1896, tenente reformado e fora nomeado adido ao Estado-maior, com direito a ordenança, para a cobertura da guerra. Daí o crescente silêncio das reportagens que escreveu de Canudos, interrompidas, de forma súbita, em 1 de outubro. Escreveu sobre as manhãs admiráveis, com os raios de sol que iluminavam o círculo de montanhas.

Mais tarde, em Os sertões, chamou a cadeia de serras de "anfiteatro" do maior drama da história brasileira e denunciou a campanha militar como crime. Fez a confissão de culpa da omissão de suas reportagens, ao mencionar fatos sobre os quais antes silenciara: a degola dos prisioneiros e o comércio de mulheres e crianças. Criticou a hipótese de uma conspiração política, apoiada por grupos monárquicos e por países estrangeiros, que havia justificado o massacre.

A oralidade em Os sertões
O crítico uruguaio Angel Rama tratou, em La ciudad letrada, do papel das camadas letradas na América Latina, encarregadas das tarefas da administração colonial e da catequização da população indígena. Formada por profissionais, escritores e servidores intelectuais, que detinham a escrita em uma sociedade de analfabetos, a cidade letrada fazia a comunicação e a mediação entre a metrópole e os grupos locais, exercendo funções culturais e simbólicas nas estruturas de poder (Rama, 1984).

Euclides criou, em Os sertões, uma imagem de Canudos como cidade iletrada, dominada por fanatismos e superstições transmitidos de forma oral. Construiu um modelo interpretativo para dar conta das relações e conflitos entre a sua própria cultura, letrada e urbana, e a cultura oral sertaneja, marcada por mitos messiânicos e pela tradição católica. Procurou dar voz ao outro, objeto de seu discurso e inimigo de suas concepções políticas, ao incorporar textos destinados à oralização, produzidos segundo uma lógica mítica e religiosa que lhe era estranha.

Foi além da narração da guerra, ao construir uma teoria do Brasil, cuja história seria movida pelo choque entre etnias e culturas. Recorreu à teoria do sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz (1838-1909), que considerava a história guiada pela luta entre raças, com o esmagamento inevitável dos grupos fracos pelos fortes. Alarmado com o avanço da cultura estrangeira, lançou seu brado de alerta em Os sertões: "Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos" (Cunha, 1902:145).

O conflito entre Canudos e a República resultou, para Euclides, do choque entre dois processos de mestiçagem: a litorânea e a sertaneja. O mestiço do sertão apresentaria vantagem sobre o mulato do litoral, devido ao isolamento histórico e à ausência de componentes africanos, que tornariam mais estável sua evolução racial e cultural. "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral." (Cunha, 1985:179).

Revelou, na abertura do livro, seu propósito de se identificar aos sertanejos, vítimas da guerra. Citou a este respeito o historiador francês Hyppolite Taine, para quem o "narrador sincero" deveria ser capaz de se sentir como um bárbaro entre os bárbaros, como um antigo entre os antigos. Taine formulou, na Histoire de la littérature anglaise (1863), a concepção naturalista da história, determinada a partir de três fatores: o meio, com o ambiente físico e geográfico; a raça, responsável pelas disposições inatas e hereditárias; e o momento, resultante das duas primeiras causas (Taine, 1905:xxxix, v. 1).

Tal concepção naturalista foi seguida por Euclides, ao dividir Os sertões em três partes, correspondentes aos fatores de Taine: "A terra", "O homem" e "A luta". Tratou, em "A terra", da geologia brasileira e do meio físico do sertão baiano, com o clima do semi-árido e a vegetação da caatinga. Em "O homem", discutiu as origens do homem americano, a formação racial do sertanejo e os males da mestiçagem. Finalmente, em "A luta", narrou a guerra de Canudos como confluência dos fatores naturais, étnicos e históricos.

Apesar da sua intenção de narrar a história com sinceridade, construiu uma visão negativa de Canudos que chamou de "urbs monstruosa" e "civitas sinistra do erro", dominada pela desordem e pelo crime. O povoado era, para ele, um ajuntamento caótico e repugnante de casas, onde haveria o amor livre e o coletivismo dos bens (Cunha, 1985:232-9). Considerou-a como grupo homogêneo, formado por mestiços de branco e índio, sem perceber que se tratava de uma sociedade diferenciada com a presença de comerciantes, e com forte presença de mulatos e índios.

Mas propôs uma outra visão de Canudos como comunidade messiânica, em que haveria a espera do rei português d. Sebastião, para derrotar as forças da República. Segundo Euclides, o isolamento histórico da sociedade sertaneja permitiu a preservação dos mitos sebastianistas, transmitidos com a colonização portuguesa. O movimento de Canudos teria reatualizado o mito de d. Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Quibir em 1578, na tentativa de expandir os domínios portugueses na África. Com a morte de d. Sebastião, o trono português ficou vago e Portugal foi anexado a Castela, só tendo recuperado a autonomia política em 1640.

Surgiu o mito do retorno glorioso do monarca desaparecido, que se manteve em Portugal até o século XIX. Este mito se manifestou, no Brasil, em movimentos messiânicos, como na Cidade do Paraíso Terrestre, de 1817 a 1820, e em Pedra Bonita, de 1836 a 1838, ambos em Pernambuco, ou no Contestado, região entre o Paraná e Santa Catarina, de 1912 a 1916. A crença esteve presente em Canudos, de 1893 a 1897 (Monteiro, 1977; Queiroz, 1976).

Euclides se baseou nos poemas e profecias, que transcreveu em uma caderneta. Os poemas fazem parte de dois ABCs, narrativas da guerra, estruturadas como seqüência de estrofes iniciadas com as letras do alfabeto, que servem como recurso de memorização. Copiou ainda duas profecias apocalípticas, que julgou serem do próprio Conselheiro.

Comentou, de forma negativa, estes manuscritos, que desqualificou como "pobres papéis", com "ortografia bárbara" e "escrita irregular e feia", que mostrariam o "pensamento torturado" dos sertanejos: "Valiam tudo porque nada valiam". Conselheiro pregava, para ele, com uma "oratória bárbara e arrepiadora", "misto inextricável e confuso de conselhos dogmáticos, preceitos vulgares da moral cristã e de profecias esdrúxulas..." (Cunha, 1985:194 e 249).

Euclides citou, em Os sertões, sete quadras de um dos ABCs, que colocou em ordem cronológica, de forma a sintetizar a concepção mítica e religiosa dos seguidores do Conselheiro, que acreditariam no retorno de d. Sebastião. Este ABC, composto de 28 quadras e 1 terceto, contém uma narrativa popular dos primeiros anos da República, que introduziu o casamento civil, perseguiu Antônio Conselheiro e trouxe guerras civis e especulação financeira. Duas dessas quadras se referem à vinda de d. Sebastião, para extinguir o casamento civil e punir aqueles que se encontrariam sob "a lei do Cão", a "eleição" do novo regime, considerada contrária à lei de Deus:

"Sebastião já chegou
comta muito rijimento
acabando com o Civil
e fazendo os casamento"

"Visita vem fazer
Rei D. Sebastião
Coitadinho d'aquele pobre
que estiver nalei de Cão" [Cunha, 1975:58-9]
A República é tida como o reino do Anticristo, personagem do Apocalipse que surgiria antes do fim do mundo, para semear a impiedade e a discórdia até ser vencido pelas forças divinas. Caberia ao Conselheiro a tarefa de derrotar o Anticristo republicano:

"Nassio o Antecristo
p.a o mundo governar
ahi estar o concelheiro
p.a dele nos livrar" [Cunha, 1975:58]

O segundo conjunto de versos é o "ABC das incredulidade", com 26 estrofes, que Euclides copiou na caderneta, mas não chegou a utilizar em Os sertões. Este ABC foi escrito em comemoração à vitória de Canudos contra a 3ª expedição. Seu comandante, o coronel Moreira César, vindo a Canudos "para dar carne aos urubu", recebe a alcunha de "corta-cabeças" ou "corta-pescoço", por seus atos de violência na repressão à Revolução Federalista, em Santa Catarina (Cunha, 1975: 59-61). Morto em Canudos, seu corpo foi retalhado e queimado pelos jagunços após ficar exposto por alguns dias.

Euclides mencionou, em Os sertões, duas profecias apocalípticas que atribuiu, de forma errônea, a Antônio Conselheiro: a profecia das nações e a profecia de Jerusalém. A profecia das nações se refere ao fim do mundo, em que irá aparecer um anjo, para fazer pregações, fundar cidades e construir igrejas e capelas. É provável que os sertanejos identificassem o Conselheiro a este anjo. São previstas desgraças, como a construção de estradas de ferro, a grande fome, a prisão de fiéis e guerras civis, que precederão o retorno de d. Sebastião e de Jesus para inaugurar uma nova era: "Em verdade vos digo, quando as Nações brigarem com as Nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prúcia com a Prúcia; das ondas do mar dom Sebastião sair com todo seu exército desde o princípio do mundo que se encontrou com todo seu exército, em guerra, e restituiu em guerra."

A profecia de Jerusalém é datada de 1890, tendo Belo Monte como local. Não há referências a d. Sebastião nesta profecia, que contém uma cronologia política, que vai da independência do Brasil até o fim do mundo, anunciado para 1901, passando pela abolição dos escravos e a proclamação da República. São previstos o apagar de todas as luzes, seguido de chuvas de estrelas e queda de meteoros, até que apareça o pastor capaz de guiar o rebanho. Guerras são profetizadas para o ano de 1896, que coincidiu com o início do conflito de Canudos: "Em 1896 há de haver guerra Nação com a mesma Nação, o sangue há de correr na terra".

Ambas as profecias contêm uma visão escatológica, que anuncia o fim do mundo e a criação do Reino dos Céus na terra, em que deverão ser eliminadas as diferenças sociais — "não se conhecerá rico nem pobre" — e erradicados os conflitos políticos pela unificação dos homens sob a autoridade divina: "um só pastor e um só rebanho". As regiões climáticas também serão invertidas e o sertão se tornará terra de promissão, com fartura de carne e peixe, ao virar "praia", expressão utilizada para designar as zonas úmidas entre o litoral e o semi-árido: "Em 1894 há de vir rebanhos de mil correndo do centro da Praia para o certão então o certão virará Praia e a Praia virará certão" (Cunha, 1975:73-5).

Os sermões do Conselheiro

Euclides não teve acesso, quando escreveu Os sertões, aos dois volumes manuscritos, que o Conselheiro redigiu do próprio punho, ou ditou a um assistente. Tomou por base profecias populares, como a das nações e a de Jerusalém, que atribuiu ao Conselheiro. Só teve acesso a um dos manuscritos deixados pelo líder de Canudos, quase sete anos após a publicação de Os sertões, poucos meses antes de morrer em 1909. Mas se inclinava, dada sua formação evolucionista, a desqualificar o discurso religioso como primitivo.

Conselheiro redigiu dois livros manuscritos, em meio aos conflitos com a Igreja e o governo, que se encerravam com uma mensagem final de despedida aos fiéis. Deixou uma espécie de testamento religioso, ao perceber o agravamento do confronto com os poderes estabelecidos. Seu profetismo, com o ideal de martírio e o desejo de salvação, se relacionava ao catolicismo dos pregadores leigos, muito freqüentes no nordeste.

O papel de conselheiro, que se pregou, como epíteto, ao nome de Antônio Vicente Mendes Maciel, era previsto em obra divulgada pela Igreja portuguesa e brasileira: Missão abreviada para despertar os descuidados, converter os pecadores e sustentar o fruto das Missões, do padre Manoel José Gonçalves Couto. Para o padre Couto, toda povoação deveria ter um missionário, de preferência um sacerdote, e "na falta dele qualquer homem ou mulher que saiba ler bem, e duma vida exemplar", para conduzir o povo em orações e lhe dar instruções religiosas (Couto, 1878: 7). O Conselheiro seguiu as recomendações da Missão abreviada, volume que trazia consigo junto com uma Bíblia bilíngüe, em latim e português.

Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, datado de 1895, é o primeiro manuscrito do Conselheiro. É um livro de orações, inédito até hoje, escrito após o fracasso da missão dos frades italianos, enviados para submeter o líder e seus fiéis à autoridade eclesiástica. Contém partes copiadas e adaptadas da Missão abreviada e da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Apresenta ainda os dez mandamentos e os sacramentos e obrigações religiosas.

O segundo manuscrito, que Afrânio Peixoto deu a Euclides, foi concluído em 12 de janeiro de 1897, quando a cidade se preparava para o combate à 2ª expedição. Tinha por título, Tempestades que se levantam no Coração de Maria por ocasião do Mistério da Anunciação, contendo a vida de Jesus Cristo e da Sagrada Família sob a ótica da Virgem Maria, seguido de "Os dez mandamentos da lei de Deus" e de textos extraídos da Bíblia, além de prédicas e discursos. Foi publicado por Ataliba Nogueira, em 1978, como Antônio Conselheiro e Canudos. Parte da obra é dedicada ao relato da Paixão, o que permite supor que houve a identificação imaginária entre o sacrifício exemplar de Cristo e o extermínio iminente do grupo.

O manuscrito contém ainda um texto propriamente político, o sermão "Sobre a República", em que atacava a República como "grande mal para o Brasil" e "tirania para os fiéis", regime político contrário à vontade de Deus. Para Conselheiro, a restauração da monarquia e o retorno da família real ao Brasil eram fatos inevitáveis, inscritos em uma ordem natural: "Negar estas verdades seria o mesmo que dizer que a aurora não veio descobrir um novo dia." (Maciel, 1978:175-7).

As crenças sebastianistas, messiânicas e milenaristas, de que os poemas e as profecias transcritos por Euclides são evidência, permitem explicar tanto a luta quase suicida de parte dos conselheiristas, como a intensa migração para Canudos em pleno acirramento do conflito. É possível que, nos últimos meses de agonia da comunidade, a visão escatológica tenha se reforçado entre aqueles que, ao invés de abandonarem o povoado, fizeram a sua defesa até a morte.

Antrópologos e historiadores, como Duglas Teixeira Monteiro, Robert Levine e Marco Villa, consideram porém que Canudos não foi uma comunidade predominantemente milenarista, pois não chegou a apresentar o misticismo extremado ou a crença coletiva na proximidade do fim do mundo, presentes em outros movimentos religiosos, como no Juazeiro e no Contestado. A espera do fim do mundo teria sido, em Canudos, um elemento do discurso religioso, presente nas profecias apocalípticas que circularam entre seus habitantes, mas não se pode precisar hoje qual foi o grau de adesão a tais concepções (Levine, 1992; Monteiro, 1977; Villa, 1995).

Ao contrário dos poemas e profecias citados por Euclides, os sermões de Antônio Conselheiro não contêm referências a d. Sebastião, nem revelam expectativas na vinda de um Messias, capaz de trazer a vitória do Bem sobre o Mal, ou esperanças milenaristas na criação do paraíso na terra. Conselheiro foi mais um líder religioso, que atuou como autoridade religiosa exemplar e organizou uma comunidade segundo laços de solidariedade.

Um pouco de poesia e mistério
Euclides admitiu, nas reportagens, que havia subestimado a resistência dos sertanejos e sua capacidade de luta. Observou, em artigo de 16 de agosto de 1897, que o combate apresentava uma "feição primitiva, incompreensível, misteriosa." Surpreendia-se que os jagunços, já em número reduzido, aguardassem que o Exército fechasse o cerco da cidade, em vez de fugirem, enquanto ainda lhes restava uma estrada aberta para a salvação (Cunha, 1939:29).

Machado de Assis já havia enfocado tal feição de mistério, ao escrever sobre Canudos na Gazeta de Notícias. Em crônica de 22 de julho de 1894, comparava, com bastante humor, os seguidores do Conselheiro aos piratas das canções românticas de Victor Hugo. Deixava-se encantar pelo toque de poesia e mistério que envolvia o líder religioso, além de criticar a imprecisão das notícias sobre o movimento (Assis, 1944a: 155-9).

Machado protestou, em plena guerra, em janeiro de 1897, contra a perseguição que se fazia ao Conselheiro e à sua gente. Comentava que pouco se sabia sobre sua seita e doutrina, capazes de mobilizar milhares de seguidores: "De Antônio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não se lhe conhecem discursos." Como as mortes nos combates não afastaram os fiéis de seu líder, perguntava-se: "Que vínculo é esse [...] que prende tão fortemente os fanáticos ao Conselheiro?" Devido à falta de informações sobre o grupo, concluía que só restava a imaginação para descobrir a doutrina da seita e a poesia para floreá-la (Assis, 1944b:412-6).

Euclides da Cunha tentou penetrar em uma camada opaca ao observador: as formas de consciência e de representação em uma comunidade que lhe era estranha, entrevista em meio aos combates e bombardeios, do outro lado da trincheira. Procurou esclarecer o mistério em torno de Canudos, ao afirmar a existência de crenças sebastianistas que tornariam inteligíveis alguns dos aspectos subterrâneos da guerra, como o apelo da mensagem de seu líder e a resistência heróica dos combatentes. O catolicismo devocional presente nos sermões do Conselheiro revela, porém, que o sebastianismo pode ter sido menos difundido do que supôs o autor de Os sertões.

Euclides adotou um modo historiográfico ousado, ao dar um arranjo poético ao conflito, criando uma obra híbrida entre a narrativa e o ensaio, entre a literatura e a história. Lançou um olhar irônico sobre suas próprias crenças, para compreender o horror da guerra e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar a sua significação particular. A epopéia gloriosa da República brasileira, pela qual combatera na juventude, adquiriu caráter de tragédia na violenta intervenção militar que testemunhou em Canudos.

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