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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Uma revolução pacífica em Leipzig


Uma revolução pacífica em Leipzig
Andrew Curry
Em Leipzig

Dia 9 de outubro é um dia monumental na história da Alemanha. Há 20 anos, os moradores de Leipzig tomaram as ruas sob o lema "somos o povo" e geraram outros protestos pacíficos que levariam à queda do Muro de Berlim apenas poucas semanas depois.

Os pastores cristãos Fuehrer e Christoph Wonneberger nunca viram tantas pessoas em Nicolaikirche, uma igreja de 800 anos no centro de Leipzig. Era dia 9 de outubro de 1989 e os dois jovens pastores sabiam que estavam no caminho de algo imenso. "Havia 8.000 pessoas dentro da igreja - não dava para entrar mais ninguém", disse Fuehrer. "Quando saímos, havia inúmeras pessoas se expressando e exigindo sua liberdade."

Não foi uma mobilização espontânea súbita. Os dissidentes da Alemanha Oriental estavam se reunindo na igreja de 800 anos de Nicolaikirche há quase uma década no verão de 1989, para orar e falar de política. Algumas vezes, havia menos de uma dúzia de pessoas, mas durante todos os anos 80, as reuniões ocorreram toda segunda-feira sem falta. Eventualmente, os encontros atraíram pessoas ansiosas em discutir uma gama de causas, desde o meio ambiente até o direito de viajar livremente.

No outono de 1989, as reuniões de preces tinham evoluído para um movimento nacional centrado em Leipzig. No dia 9 de outubro, a cidade abrigou o maior protesto na história da Alemanha Oriental: entre 70.000 e 100.000 manifestantes pacíficos enfrentaram milhares de policiais armados anti-motim e as advertências da temida polícia secreta, a Stasi, para marchar no centro da cidade. No final, a polícia nada fez, estabelecendo o palco para uma revolução pacífica que varreu a Alemanha Oriental.

Nesta sexta-feira, Leipzig celebra seu papel crucial na queda do comunismo com concertos, mostras, shows de luz e uma marcha de aniversário seguindo os passos da passeata do dia 9 de outubro, que abalou a Alemanha Oriental e ajudou a pavimentar o caminho para o colapso do Muro de Berlim, mais de um mês depois.

"As pessoas estavam dispostas a se arriscar"
Os eventos em Leipzig tendem a ser ofuscados pela súbita queda do Muro de Berlim, que foi fotografada e filmada por centenas de jornalistas e transmitida pelo mundo. Leipzig ficava fora do caminho. Há apenas algumas fitas de má qualidade das enormes manifestações de segunda-feira, e fora da Alemanha foram praticamente esquecidas.

Na época, contudo, o fato de Leipzig estar fora do holofote ajudou. Apesar de ativistas em Berlim terem melhores contatos com jornalistas ocidentais, a capital estava sob vigilância constante. "Berlim era uma vitrine. Em Berlim, todo mundo se cuidava por medo de ser enviado de volta a Karl Marx Stadt", disse Peter Claussen, diplomata norte-americano que trabalhava na embaixada americana em Berlim no final dos anos 80. "As pessoas estavam mais dispostas a correrem riscos fora de Berlim."

No final dos anos 80, alimentados em parte por alemães orientais frustrados que não podiam deixar o país, as reuniões de preces de segunda-feira em Leipzig atraíam centenas e depois milhares de pessoas - as maiores reuniões regulares na Alemanha. Cidadãos comuns começaram a perceber o movimento, assim como a Stasi: dezenas de pessoas foram presas por semanas por seu envolvimento nos encontros.

Fuehrer e Wonneberger, alvos de interesse e de pressão da polícia secreta, foram detidos no final de setembro e receberam ordens e ameaças para suspenderem as reuniões.

"Não estava claro que o evento seria pacífico"
Não era uma ameaça vazia. No verão de 1989, políticos da Alemanha Oriental elogiaram a decisão chinesa de usar violência contra ativistas pela democracia acampados na Praça de Tiananmen, em Pequim. Em setembro e início de outubro, a polícia da Alemanha Oriental tinha reprimido à força manifestantes em Dresden, Berlim e Plauen. No dia 2 de outubro, ativistas de Leipzig foram espancados pela polícia. "As pessoas tinham visto fotografias de Pequim. Não estava claro que o evento seria pacífico", disse Jens Schoene, historiador e autor de "The Peaceful Revolution: Berlin 1989/90 -- The Path to German Unity" (A revolução pacífica: Berlim, 1989/90 - O caminho para a união alemã).

No dia 9 de outubro, Wonneberger e os outros de Nicolaikirch decidiram prosseguir com as passeatas marcadas. Parecia que toda a Alemanha Oriental estava segurando o fôlego. "Estávamos com muito medo que eles viriam e atirariam em todo mundo", disse Dorothee Kern, que na época era aluna de pós-graduação na cidade de Halle. "Ficamos arrepiados o dia todo e o dia anterior."

Dissidentes se prepararam para o pior. Casais com filhos tomaram o cuidado de não irem os dois, caso a polícia agisse com violência. Rumores correram pela cidade: hospitais estocaram sangue e prepararam leitos; estádios estavam prontos para receber multidões de manifestantes detidos. Naquele dia, Hans George Kluge lembra-se de ver a cidade enchendo-se de soldados e policiais enquanto caminhava para casa do trabalho. "Todo mundo tinha que ver que o Estado podia reprimir qualquer demonstração. Violentamente, se necessário", diz ele.

"Somos o povo"
Às 17h, mais de 8.000 pessoas lotaram a Nicolaikirche. Quatro outras igrejas da cidade abriram para acomodar milhares de manifestantes. Após uma missa de uma hora, Fuehrer levou os fiéis para fora. A Augustusplatz, próxima, estava lotada de pessoas segurando velas. Cidadãos proeminentes - inclusive Kurt Masur, maestro da Gewandhaus Orchester de Leipzig - leram um apelo tanto aos manifestantes quanto à polícia, instando-os a manterem a paz.

Lentamente, a multidão começou a caminhar pelo anel rodoviário de Leipzig, passaram pelo quartel da Stasi na direção da estação de trem. Havia tantas pessoas nas ruas que carros e bondes não podiam passar. Os motoristas deixaram os carros no meio da rua e se uniram à marcha. Atrás das cenas, membros da polícia e da Stasi estavam tentando freneticamente se comunicar com superiores em Berlim, sem sucesso.

Quando a multidão se aproximou da estação de trem de um século - acompanhada por milhares de policiais de confronto com capacetes- a tensão cresceu. Mas, em um momento decisivo, a polícia deu passagem aos manifestantes. "Eles não atacaram", disse Fuehrer. "Não tinham por que atacar." Os organizadores fizeram questão de não dar motivos para a polícia atacar. Eles não carregavam nada além de velas e cartazes dizendo "somos o povo". A Stasi plantou policiais à paisana na multidão para criarem problemas, mas eles foram rapidamente cercados e neutralizados por manifestantes dizendo "sem violência".

O historiador Erhard Neubert mais tarde chamou aquela noite de "Revolução de Outubro". Ao menos 70.000 pessoas - talvez até 100.000 - foram às ruas, tornando o dia 9 de outubro de 1989 a maior manifestação da Alemanha Oriental. "As pessoas estavam nas ruas e tinham coragem", diz Schoene.

Os tempos de violência tinham terminado. Cenas da passeata gravadas secretamente foram transmitidas na televisão da Alemanha Ocidental, inspirando as Manifestações de Segunda-Feira em toda a Alemanha Oriental nas semanas que se seguiram. As reuniões em Leipzig dobravam de tamanho a cada semana, atraindo indivíduos de toda a Alemanha Oriental. No dia 23 de outubro de 1989, um pouco menos de duas semanas após o Muro de Berlim cair, mais de 300.000 pessoas lotaram o centro de Leipzig, carregando velas e cartazes. Leipzig foi apelidada de "heldenstadt", ou "cidade heroica".

Ninguém sabia na época, mas o movimento pacífico de Leipzig exerceu uma pressão irresistível pela reforma do regime da Alemanha Oriental - e levou diretamente à queda do muro cinco semanas depois. "Foi uma auto-libertação. Fizemos sem o dólar ou o DAX, sem os exércitos norte-americanos ou soviéticos", diz Fuehrer. "Foram as pessoas que agiram."

Tradução: Deborah Weinberg

Der Spiegel

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Ascensão e queda do Muro de Berlim

Caricatura: a longínqua União Soviética se transformou em cenário para turistas (Foto: João Correia)


Ascensão e queda do Muro de Berlim
Assim como a Primeira Guerra, o Muro de Berlim mudou o mapa-múndi. Hoje, sabe-se que as aristocracias anteriores a 1918 desapareceram na história. Mas, se os ideais de uma sociedade igualitária ainda vão retornar renovados, é questão para o futuro

Por: Flávio Aguiar Fotos: João Correia

Publicado em 07/10/2009

Até hoje ninguém sabe com absoluta certeza quem foi o pai da ideia, se o premiê soviético Nikita Krushev (1894-1971), o premiê da então Alemanha Oriental, Walter Ulbricht (1893-1973), ou se Erich Honecker (1912-1994), na época secretário de Segurança do Comitê Central do Partido Comunista Alemão. Dos três, o menos provável é Ulbricht, que nem sequer seria simpático à ideia, embora tenha assinado a ordem de fechar a fronteira. E o mais é Krushev, convicto de que a Guerra Fria seria decidida em Berlim. Honecker foi o encarregado de torná-la realidade. Ele assinou a ordem de fechar as fronteiras entre a Alemanha Oriental e Berlim Ocidental num sábado, 12 de agosto de 1961.

No dia seguinte, cercas de arame começaram a ser reforçadas e a estabelecer a separação física em torno da parte ocidental da cidade. O muro envolveria, ao longo de 163 quilômetros, o lado então administrado pelas potências ocidentais, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. E faria de Berlim, no dizer do escritor Ignácio de Loyola Brandão, que lá esteve naquela época, a última cidade medieval da Europa: cercada por um muro que de fato funcionava.

Havia meios de comunicação com a Alemanha Ocidental. O mais importante era um corredor rodoviário que podia ser percorrido até a fronteira entre as duas Alemanhas. Os cidadãos do lado ocidental e turistas ocasionais podiam visitar o lado oriental mediante a concessão de vistos de entrada – os de 24 horas eram concedidos com alguma facilidade. Já as visitas do leste para o lado ocidental eram mais complicadas. De 1961 a 1964 foram totalmente interditadas; daí para diante a proibição foi parcialmente relaxada, até um ponto de equilíbrio em que cidadãos aposentados de mais de 65 anos, mais quem comprovasse uma necessidade familiar ou profissional relevante, podiam passar sem problemas.


Misturados a restos do muro,cartazes e outdoors tomam a cidade Os que tentassem cruzar a fronteira sem autorização podiam até ser alvejados. Assim mesmo, muitos iam em frente. Saltar era o meio mais comum, e o mais complicado. Houve fugas em balão, em ultraleve, em carros jogados contra as barreiras, em porta-malas de carro. Estima-se um total de 5 mil fugas bem-sucedidas. E em até duas centenas os mortos na tentativa. Oficialmente, são136, relembrados por cruzes dispostas nas imediações do local onde foram abatidos.

No começo era um correr de arames. A partir de 1965 começou a parecer muro mesmo. E de 1975 em diante tomou sua forma definitiva: uma sucessão de placas de concreto de três metros de altura, encimadas por canos redondos para dificultar a escalação, num conjunto reforçado por muros suplementares, barreiras aquáticas, cercas de arame, cães de guarda, soldados, mais de uma centena de torres de observação equipadas com holofotes e metralhadoras. Tudo isso custou na ocasião a bagatela de US$ 3,6 milhões. As justificativas para a construção do muro iam desde impedir o contrabando até dificultar a espionagem. Mas no centro da ideia estava a competição entre o regime capitalista e o comunista, a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.

Frentes e símbolosHavia a frente militar. O incidente mais grave ocorreu em 22 de outubro de 1961. Em Checkpoint Charlie, uma das passagens por onde estrangeiros podiam atravessar, armou-se uma discussão sobre se um diplomata norte-americano podia ser revistado ou se devia mostrar seu passaporte. A discussão degenerou tanto que em poucos dias dez tanques norte-americanos e dez soviéticos estavam frente a frente, a menos de 100 metros uns dos outros. Outros 30 tanques soviéticos tinham tomado posição de ataque em frente ao Portão de Brandemburgo, não muito longe. A coisa ferveu, e só terminou com um telefonema do presidente John Kennedy ao premiê Nikita Krushev, pedindo que os soviéticos dessem o primeiro passo no recuo. Assim foi.

Mas a frente mais importante era a simbólica. Havia uma competição entre os dois lados para mostrar melhor padrão de vida. Do lado oriental para o ocidental havia – alegavam os comunistas – uma permanente evasão de cérebros e trabalhadores mais qualificados. E a proximidade entre familiares, amigos, conhecidos, de ambos os lados de Berlim, era um atrativo muito sedutor. Daí, dizem muitos, nasceu a “ideia” do muro, um dos maiores erros da Guerra Fria, símbolo palpável de opressão e restrição de movimentos. Os cercados eram os habitantes de Berlim Ocidental; mas os confinados eram os do leste.

Se hoje se pode dizer que começou a cair a partir de sua construção, atitude política que se provou insustentável, não era essa a impressão de seus contemporâneos. No começo de 1989, Honecker, já premiê da Alemanha comunista no lugar de Ulbricht, deu uma declaração de que o muro poderia existir por mais um século. Era um sentimento geral. Naquele ano, em que se discutiam o futuro e o século 21, falava-se de tudo, menos da queda. Foi a insolvência dos regimes comunistas que solapou os alicerces do Muro de Berlim. Além disso, o desejo de reunificação das Alemanhas tocava todos os setores do país que saíra dividido e devastado da loucura nazista: cultural, familiar, político, social e econômico, pois a reunificação, na época, era vista quase como sinônimo de “prosperidade” para o lado oriental, o que não se provou verdade, com o declínio do emprego e dos indicadores sociais.

A primeira jabuticaba


Ane-Sofhie é berlinense e declara-se “oriental”. Passou pelo Chile e está hospedada em São Paulo desde o início de setembro, onde presta serviços voluntários numa associação que acompanha a vida de bolivianos do ramo de tecelagem no bairro do Bom Retiro. Tem 19 anos e estava na barriga da mãe quando o muro foi demolido. Seu avô paterno era membro da polícia secreta. O pai, funcionário do Estado, ainda mantém distância do lado ocidental. A mãe, professora de inglês e literatura, se encantou com a quantidade de livrarias a que teve acesso. Ane-Sofhie diz que seus amigos vivem debatendo vantagens e desvantagens, os colegas ocidentais ainda criticam a falta de liberdade no leste; e os orientais reclamam do nariz empinado do outro lado. “Apoiamos a derrubada porque somos jovens, queremos viajar. Mas as Alemanhas não estão reunificadas”, completa. (Paulo Salvador)

O muro começou a cair naquele ano com uma série de manifestações “pela liberdade”. Alguns dias antes da queda, 1 milhão de pessoas se concentraram na Alexanderplatz, perto do Portão de Brandemburgo, reivindicando a livre passagem. No dia 9 de novembro o governo da Alemanha Oriental autorizou a passagem de um lado para o outro mediante a facilitação da concessão de vistos no local. Mas o que era para ser um fluxo controlado logo se tornou uma torrente impetuosa. Na madrugada de 9 para 10 o muro foi abolido como fronteira; e os regimes comunistas do Leste Europeu, inclusive o da União Soviética, ruíram. Alguns de forma mais pacífica, como a hoje também extinta Tchecoslováquia; outros de forma sangrenta, como a Romênia.

Assim como na Primeira Guerra Mundial, a ascensão e a queda do Muro de Berlim representou muito mais do que hoje se pode imaginar: o apogeu de um mundo (o da Guerra Fria) e a derrota e o desaparecimento dos regimes comunistas na Europa. Também como naquele conflito, o mapa-múndi mudou de forma palpável. Ao fim de 1918, impérios como o Austro-Húngaro e o Otomano e a monarquia alemã passavam a ser parte da história pregressa. Todo um mundo remanescente das oligarquias aristocráticas seculares, seus valores, seus costumes, desapareciam. Mas com o Muro de Berlim o que soçobrava era uma forma de futuro, pois viam-se os regimes comunistas – com desprezo e terror ou com admiração e esperança, conforme as opções ideológicas – como uma forma possível e provável de futuro da humanidade.

Basta rever os filmes engajados de esquerda daquela época ou, do outro lado, muitos dos filmes de ficção científica em que sociedades opressivas e controladoras, com tecnologia avançada mas hábitos medievais, eram confrontadas por sucessivos “punhados de bravos” dispostos a conquistar a liberdade. As velhas aristocracias não têm volta. Mas, se os ideais de uma sociedade igualitária, como no começo se propunha a comunista, vão retornar renovados, essa é uma questão para o futuro. Esperemos que retornem, mas sem muros, como o de Berlim.

O fim de uma fronteiraPor Ute Hermanns


Na noite de 9 de novembro de 1989, eu estava com muito sono e demorei para me dar conta do que acontecia. Na manhã seguinte eu tinha um compromisso com o escritor Rubem Fonseca, bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico. Encontraríamos o casal Engler em Berlim Oriental, em frente à estação de metrô Friedrichstrasse. Erhard Engler era uma instituição. Todos os escritores brasileiros que chegavam a Berlim queriam conhecê-lo. Tinha traduzido para o alemão Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e contos de vários autores. Editou um livro de ensino de língua portuguesa, tinha textos sobre Jorge Amado, Loyola Brandão, entre outros. Lecionava na Universidade Humboldt e era intérprete de conferências, até que sua primeira mulher fugiu para o lado ocidental. Então, Erhard Engler não mais recebeu a permissão para viajar. Felizmente encontrara Christina, simpaticíssima, também tradutora de português.

Pelo barulho das buzinas, comecei a me dar conta de que algo extraordinário acontecia. Rubem Fonseca e eu fomos de metrô até a fronteira com Berlim Oriental. Vagões e estações estavam lotados. Passamos pelo controle e vimos o casal na multidão. Engler acenava. Rubem e eu tínhamos combinado convidá-los para um passeio no lado ocidental. Mas ambos temiam não poder voltar. Atravessar sem permissão era temerário. Não havia mais volta. Era exílio permanente, pois as pessoas achavam que o muro era eterno. Abordei um guarda da fronteira e ele afirmou que agora quem quisesse podia passar de um lado para o outro e voltar.

Atravessamos. Compramos champanhe e brindamos no apê do Rubem Fonseca às possibilidades que se abriam. Engler e Christina quiseram conhecer a biblioteca do Instituto Ibero-Americano, uma das maiores do mundo para pesquisadores lusófonos e hispanofônicos. Almoçamos num restaurante italiano. Vimos a igreja erguida em honra ao imperador Guilherme, um dos pontos mais conhecidos de Berlim, e seu ar de ruína da Segunda Guerra. Eles não queriam saber de compras. “Basta ter liberdade”, sussurrava Engler. A noite caía quando vimos o casal regressar a Berlim Oriental.

No domingo, 12, estava prevista a abertura do muro na Potsdamer Platz. Quando chegamos, os guardas tinham acabado de abrir um pedaço do muro. Os carros do lado oriental entravam buzinando, com as pessoas alegres; as do lado ocidental aplaudiam, moças entregavam rosas, caminhões da empresa de biscoitos Bahlsen distribuíam confeitos. Também apareceram caminhões para presentear os recém-chegados com bananas, fruta exótica que conheciam apenas pela televisão ocidental.

Conversávamos em português. Um jornalista se aproximou e perguntou: “Vocês são brasileiros?” Era Luiz Carlos Azenha, da TV Manchete. Rubem Fonseca, famoso por nunca dar entrevistas, puxou o boné sobre o rosto e comentou: “Meu nome é José Rubem Fonseca, sou brasileiro. Estamos presenciando um evento histórico. Hoje não temos ideia de como vai mudar o futuro do mundo, mas será uma mudança severa. É com grande alegria que temos de encarar essa transformação histórica”.

Menti: “Meu nome é Clara Maria da Silva, sou de Blumenau, Santa Catarina”. Estava aflita, pressentia uma profunda mudança para os alemães do ocidente e não sabia que rumo ia ter a vida no futuro. Mas admirei o comentário de Rubem e muito depois fui entender todo o significado das suas palavras. Minha mentira foi logo descoberta. Azenha perguntou se eu conhecia alguém disposto a acompanhar a equipe a locais interessantes e para traduzir entrevistas. Dei meu telefone. Rubem disse: “Bem, acho que você pode fazer esse trabalho. Só não pode falar que a gente se conhece. Diz que me conheceu por acaso na multidão”. No dia seguinte, o jornalista me ligou aflito: “Você sabe onde mora aquele homem que a gente entrevistou ontem?” O jornalista ficou em apuros por não ter reconhecido o peixe grande que lhe caíra na rede e se fora.

Todos intuíamos que não voltaríamos mais ao passado, um mundo ruía e outro surgia, de contornos indefinidos. O escritor brasileiro deu uma explicação que se revelou sábia sobre o momento histórico. A revista Veja de então relatou o episódio. Publicou uma foto do Rubem acompanhado por Clara Maria da Silva, numa página junto com a foto do Gorbatchev e sua esposa Raissa e a foto do George Bush, o pai, que perturbou a vida dos mortos praticando jogging num cemitério.

Hoje é bom não mais ter o muro separando a cidade. Convivemos, ex-orientais e ex-ocidentais, e acho que ainda temos de trabalhar muito para nos compreendermos. Em todo caso, é maravilhoso. Ter acesso à natureza ao redor, coisa que os ex-ocidentais não tínhamos, é um privilégio. Viver nessa nova cidade em constante processo de transformação vale a pena, apesar dos engarrafamentos, que também não tínhamos, e agora temos.

Ute Hermanns é tradutora, professora do Instituto 
Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim
Revista do Brasil

sábado, 20 de outubro de 2018

Muro de Berlim - A revolução que salvou o mundo


Há vinte anos, os alemães-orientais derrubaram o Muro de Berlim, libertando-se de quatro décadas de totalitarismo e enterrando para sempre a experiência comunista. Os efeitos do regime falido são sentidos até hoje na antiga Alemanha Oriental, mas prevê-se que em dez anos não haverá diferenças no país reunificado

Diogo Schelp, de Berlim

Peter Turnley/Corbis /Latinstock


A QUEDA
Em 11 de novembro de 1989, dois dias depois de os alemães-orientais forçarem a passagem para o Ocidente, os guardas do regime comunista ainda tentavam, sem muita vontade, impedir que o muro fosse desmantelado


Em Berlim, para lembrar é preciso olhar para baixo. As cicatrizes estão marcadas no chão da capital da Alemanha. Discreta, quase imperceptível, uma estreita faixa de paralelepípedos corta uma avenida de asfalto impecável, invade a calçada e desaparece sob a parede de um moderníssimo prédio. Em outros trechos, a menção ao símbolo maior da Guerra Fria traz uma mensagem mais direta: placas de metal encravadas no solo com a inscrição "Muro de Berlim – 1961-1989" informam que por ali passava a barreira que dividiu a Alemanha, a Europa, a Terra. A queda do muro, em 9 de novembro de 1989, foi um desses eventos raros em que a ruptura com o passado é tão brusca que uma única data marca o início de uma nova era. O efeito mais óbvio daquela noite de outono berlinense, em que os alemães-orientais forçaram a abertura das fronteiras para o oeste, foi dar um fim ao conflito entre Estados Unidos e aliados no mundo civilizado e União Soviética. A Guerra Fria, como se chamava esse conflito, se não resultou em embate direto entre as duas superpotências nucleares, por causa do risco de aniquilamento total, configurou o planeta em metades capitalista e comunista que descarregavam a tensão permanente em guerras localizadas, como a da Coreia e a do Vietnã. Com a queda do muro, a Alemanha voltou a ser uma só nação e ficou evidente quem eram os vencedores: o capitalismo, a democracia, a liberdade. O ano de 1989 representou, assim, o fim da história para o comunismo, um regime que, nos países em que se instalou à força de baionetas, ceifou 100 milhões de vidas e eliminou o horizonte de progresso material e espiritual de quem estava sob seus tacões. Nos dois anos seguintes, o império soviético esfacelou-se por completo. Hoje, o sistema que o engendrou sobrevive como curiosidade quase que zoológica apenas numa ilha do Caribe e na metade de uma península asiática. Até a poderosa China, nominalmente comunista, aderiu ao capitalismo, embora esteja a milhões de anos-luz de ser democrática.

Evidentemente, não foi preciso esperar até 1989 para constatar o fracasso do socialismo. A própria construção do Muro de Berlim, iniciada em 13 de agosto de 1961, foi motivada pela incapacidade do sistema de cumprir as promessas de uma vida melhor à população. Até aquela data, 3 milhões de pessoas haviam fugido da Alemanha Oriental para a Ocidental. "Para evitar o colapso do país por falta de gente, o regime comunista precisou prender os seus cidadãos, e não havia maneira mais barata de fazer isso do que construir um muro", diz o historiador inglês Frederick Taylor, autor de Muro de Berlim – Um Mundo Dividido – 1961-1989. Na órbita soviética, cultivava-se a ideia de que, como os alemães eram um povo eficiente, seriam capazes de fazer o socialismo funcionar e, assim, transformar o seu país numa vitrine do sistema. De fato, os alemães-orientais eram mais eficientes do que os seus companheiros do Leste Europeu. Tanto que exacerbaram, mais do que em qualquer outra latitude, o único atributo comunista: o total controle do estado sobre os cidadãos. Controle este que se estendia aos intestinos das crianças. Na pré-escola, todas eram obrigadas a ir ao banheiro na mesma hora.


Fotos reprodução e AFP


OPRIMIDOS E OPRESSORES
À esquerda, crianças comemoram a chegada dos aviões aliados a Berlim, bloqueada pelos soviéticos em 1948. À direita, em 1962, guardas da RDA recolhem o corpo de Peter Fechter, morto ao tentar pular o Muro de Berlim

Não havia uma Polônia Ocidental ou uma Hungria Ocidental, mas havia uma Alemanha Ocidental. Para além de se haver com a total irracionalidade de um sistema que havia banido a propriedade privada e a liberdade de opinião e associação, a República Democrática Alemã (RDA), como era chamada oficialmente a Alemanha Oriental, tinha de se confrontar com a laboriosidade dos alemães-ocidentais, que, dos escombros da II Guerra, construíram uma das nações capitalistas mais pujantes do planeta. No fim da década de 70, os dirigentes da Alemanha Oriental admitiram, para sua vergonha, que o desenvolvimento tecnológico da RDA estava duas décadas atrasado em comparação ao da República Federal da Alemanha (RFA). Provavelmente o abismo era ainda maior, e ele só fez aumentar com o passar do tempo. Em Berlim Oriental, a paisagem urbana era dominada por Trabants, um modelo de carro da década de 50 produzido na RDA. Enquanto no Ocidente a indústria automobilística equipava os veículos com acessórios eletrônicos cada vez mais modernos, o Trabant funcionava com um motor de dois tempos. Para comprar um, era preciso colocar o nome numa lista e esperar quinze anos. "Como resultado, um Trabant usado era mais caro do que um novo", diz o historiador berlinense Hanno Hochmuth. Uma contradição mais do que dialética.

A baixíssima produtividade da indústria da RDA é considerada um dos principais fatores que levaram à queda do muro. Não havia imprensa livre no país, mas não era preciso recorrer aos jornais para verificar o desastre econômico. As fábricas obsoletas, muitas das quais com equipamentos da década de 30, ora não contavam com peças de reposição para as máquinas, ora ficavam sem matéria-prima para produzir. A oferta de produtos era muito limitada. Café e banana, por exemplo, eram artigos de luxo. Como em outros países comunistas, as pessoas acostumaram-se a sair de casa sempre munidas de sacolas. Se encontrassem uma fila na porta de uma loja, entravam, mesmo sem saber o que estava à venda.

A falta de produção e, consequentemente, de recursos explica em parte por que a RDA gostava tanto de fazer presos políticos. A liberdade de cada um deles podia ser vendida por até 100 000 marcos ao governo da Alemanha Ocidental, o equivalente hoje a 50 000 euros. Entre 1963 e 1989, 3,5 bilhões de marcos ocidentais foram parar nos cofres do regime comunista por causa desse tipo de sequestro oficial. O principal objetivo do estado policial da Alemanha comunista, no entanto, era manter a submissão ideológica de seus cidadãos. Nisso, a eficiência também era germânica. A Stasi, corruptela em alemão para Segurança de Estado, era um ministério que abarcava inúmeras funções de repressão, desde a espionagem internacional e doméstica até a investigação criminal. Seus mais de 90 000 funcionários diretos e 180 000 informantes vasculharam em detalhes a vida de um em cada três habitantes da Alemanha Oriental. "Não dava para saber em quem confiar, pois houve casos de dedos-duros entre casais, irmãos e até pais e filhos", diz o historiador Bernd Floriath, pesquisador da repartição pública que administra os arquivos da Stasi. "Na minha ficha, por exemplo, descobri que minha vizinha contava até o número de garrafas de vinho da minha lata de lixo." Uma questão incômoda na Alemanha atualmente é se pessoas que espionaram para a Stasi no passado podem ocupar cargos públicos de destaque. Muitos ex-colaboradores da repressão comunista estão hoje ascendendo na política. A maioria é filiada ao partido Die Linke (A Esquerda), um herdeiro do Partido Comunista da RDA cuja representação no Parlamento alemão aumentou em 30% após as eleições deste ano. A chanceler Angela Merkel é um dos poucos políticos oriundos da Alemanha Oriental sem um passado a esconder.

Fotos reprodução, Corbis/Latinstock e Album/AKG/Latinstock



AMEAÇAS AO MURO
No alto, Kennedy olha por cima do muro, em 1963. À esquerda, guarda encarregado de vigiar a barreira foge para o lado ocidental. À direita, igreja situada na "zona da morte" é implodida, em 1985

As informações recolhidas pela Stasi eram usadas para punir os cidadãos que não se mostrassem "bons comunistas". Função semelhante tinham as diversas organizações militares ou paramilitares da RDA. "A militarização da sociedade tinha como objetivo quebrar a vontade própria do indivíduo e começava já no jardim de infância", diz Tom Sello, um dos 3 000 alemães-orientais que se arriscaram a fazer oposição na Alemanha Oriental. Entre outras atividades, as crianças tinham de fazer simulações de manobras contra hipotéticas invasões capitalistas. Na adolescência, os alunos eram pressionados a aderir à Juventude Livre Alemã, uma organização paramilitar que tinha entre suas atividades quebrar as antenas de TV dos moradores que assistiam aos canais ocidentais. Impedidos de viajar, era assim que os cidadãos sob o regime comunista verificavam que a vida do outro lado era muito melhor. A região de Dresden, onde as características topográficas dificultavam a captação de sinais de TV do Ocidente, era chamada de Vale dos Inocentes.

Muro derrubado, a Alemanha voltou a ser um só país em 1990. Até agora, o custo da reunificação já bateu em 1,5 trilhão de euros. No início, o processo produziu uma espécie de milagre alquímico: os alemães-orientais puderam trocar seu dinheiro por marcos alemães-ocidentais, então uma das moedas mais fortes do mundo, na proporção de 1 para 1. No mercado negro a proporção era de 1 para 5. Quase vinte anos depois, os efeitos são vistosos na infraestrutura. A porção oriental de Berlim reluz como a parte ocidental e as rodovias no antigo território oriental são melhores do que as do resto da Alemanha. Mas os problemas permanecem, se não insuperáveis, bastante grandes. Os subsídios governamentais atraíram empresas para o leste, mas não na proporção necessária para empregar todos os trabalhadores. Além disso, os sindicatos alemães não aceitaram que os salários fossem mais baixos nos estados que compunham a Alemanha Oriental, o que seria natural dada a menor qualificação dos trabalhadores de lá. Desse modo, as empresas em busca de mão de obra mais barata preferiram instalar-se, em sua maioria, nas outras ex-repúblicas comunistas – que adoraram, é claro, receber o investimento.

O corolário do sindicalismo míope é que o desemprego entre os alemães-orientais é o dobro do registrado no restante da Alemanha e, nos últimos vinte anos, a migração para a parte ocidental fez a região perder 8% de sua população. Um passeio a pé por Halle, uma importante cidade industrial nos tempos da RDA, deixa claro o perfil dos que saem do leste: há poucas mulheres jovens nas ruas. Uma em cada cinco residências de Halle está abandonada, e o governo chegou a demolir modernos conjuntos habitacionais cons-truídos após a reunificação, por falta de gente para morar. "O erro maior é acreditar que os problemas econômicos e demográficos são culpa da reunificação ou da transição para o capitalismo", diz Udo Ludwig, do Instituto de Pesquisas Econômicas de Halle. "Na verdade, tudo isso ainda é efeito das décadas em que estivemos apartados do resto da Alemanha." É como um braço amputado: depois de reimplantado, custa a fun-cionar normalmente.

A Alemanha Ocidental tornou-se uma potência exportadora nos anos 50 e 60, quando tinha pouca concorrência internacional. Já a Alemanha Oriental fez a transição para a economia de mercado em um momento em que a disputa é bem mais acirrada: além de todo o Leste Europeu, há a China, o novo chão de fábrica do mundo. Pouco a pouco, no entanto, a diferença entre os alemães está diminuindo. O PIB per capita no leste da Alemanha é de 75% da média nacional. "Os alemães-orientais devem alcançar a proporção de 85% em dez anos", diz Wolfgang Tiefensee, até o mês passado titular do Ministério para a Reconstrução do Leste. Desde 2005, as ofertas de emprego na região aumentaram. E mesmo os que não têm trabalho vivem melhor com a renda do seguro-desemprego do que há vinte anos sob o comunismo. Como explicar, então, a onda de "ostalgia" (neologismo que une as palavras ost, leste em alemão, e nostalgia)? "A questão é que centenas de milhares de pessoas perderam a posição de destaque que tinham na RDA e hoje têm de se contentar com atividades de status mais baixo", diz Rainer Eckert, diretor do Fórum de História Contemporânea de Leipzig.

Como não poderia deixar de ser, a reunificação alçou a Alemanha a um novo patamar de liderança externa e a queda do muro deu impulso à União Europeia. "A UE expandiu-se rapidamente para o leste, onde se mostra fundamental para melhorar a gestão pública e manter a estabilidade", diz o historiador inglês Tony Judt, especialista em Europa. O fim do comunismo, representado pela derrubada do muro, também propiciou a aceleração do processo de globalização econômica e o enfraquecimento das visões estatizantes em países como o Brasil e a Índia, hoje duas potências emergentes. Há vinte anos, porém, a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand tinham calafrios ao imaginar a possibilidade da reunificação do país. "Gosto tanto da Alemanha que prefiro duas", dizia Mitterrand. Recentemente, a divulgação de gravações feitas pelos russos revelou que Thatcher chegou a pedir ao líder soviético Mikhail Gorbachev que impedisse a reunificação. Em 1990, Thatcher disse a Gorbachev: "Toda a Europa está assistindo a tudo isso não sem uma dose de temor, lembrando muito bem quem começou as duas guerras mundiais". Lothar de Maizière, o último governante da RDA, diz que foi o chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl, quem conseguiu convencer Mitterrand de que não era preciso se preocupar com as ambições da Alemanha. Thatcher era mais resistente. "Eu próprio tentei tranquilizá-la, dizendo que ninguém na Alemanha pensava em fazer reivindicações de território ou colocar em dúvida as fronteiras existentes", conta De Maizière.

Fotos Peter Turnley/Corbis/Latinstock e Sygma/Corbis/Latinstock
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À esquerda, Gorbachev e Erich Honecker, líder da RDA, ambos de chapéu, um mês antes da queda do muro. À direita, Reagan e Thatcher, em 1987

As preocupações de Thatcher eram perfeitamente justificadas para alguém que conheceu as agruras da II Guerra e se criou politicamente no período de tensões da Guerra Fria. Para não causar mais problemas, a Alemanha derrotada em 1945 emergiu do conflito partilhada pelas forças de ocupação. Foram criados um setor americano, um francês, um inglês e um soviético. Esse padrão se repetiu na capital, Berlim, encravada no coração do território alemão sob influência soviética. Em 1949, a Alemanha foi dividida em dois estados, um comunista e um capitalista. Nesse contexto, Berlim tornou-se o palco de alguns dos momentos mais críticos da Guerra Fria. Em 1948, Stalin, que queria Berlim inteira para si, ordenou um bloqueio à parte ocidental – furado por uma ponte aérea organizada pelos americanos. Ninguém resumiu tão bem o significado de Berlim como centro de resistência ao totalitarismo comunista quanto o presidente americano John Kennedy, em visita à cidade, em 1963. Em discurso aos moradores da parte ocidental, ele disse: "Todos os homens livres, onde quer que vivam, são cidadãos de Berlim. E é assim, como um homem livre, que me orgulho dessas palavras: eu sou berlinense!".

O Muro de Berlim não teria caído em 1989 se não fosse pelo líder soviético Mikhail Gorbachev. "O russo, ele próprio às voltas com reformas na União Soviética, deu espaço às outras repúblicas comunistas do Leste Europeu para experimentarem algum tipo de abertura", diz o americano Michael Meyer, autor do livro 1989 – O Ano que Mudou o Mundo. O presidente americano Ronald Reagan, Thatcher e Kohl souberam aproveitar a disposição de Gorbachev de reduzir as tensões entre os blocos comunista e capitalista, e a nova realidade política foi interpretada da seguinte forma no Leste Europeu: "O líder soviético não está disposto a usar a força para salvar o comunismo". Em maio de 1989, Miklós Németh, o primeiro-ministro reformista da Hungria, mandou desativar a cerca elétrica na fronteira de seu país com a Áustria. Estava aberta a primeira brecha na Cortina de Ferro. Atropelado pelas reformas iniciadas nos países vizinhos e pela crescente onda de protestos, o governo da RDA ensaiou uma tímida lei que permitiria aos cidadãos viajar ao exterior. No dia 9 de novembro, ao final de uma entrevista coletiva com jornalistas ocidentais, o porta-voz do regime Gunter Schabowski comentou as novas regras para viagens. "Quando isso entra em vigor?", perguntou um jornalista. "Imediatamente", respondeu Schabowski, um pouco confuso.

Na verdade, o plano era que as viagens pudessem ser feitas a partir do dia seguinte e de maneira organizada. Mas, logo nas primeiras horas após a entrevista, uma multidão começou a se aglomerar nos postos de controle do muro e a exigir o direito de passar para o outro lado. Um chefe da guarda acabou cedendo. A festa atravessou a madrugada e continuou no dia seguinte, quando marretas e picaretas começaram a ser empregadas para arrancar os primeiros pedaços do muro. A razão imediata que levou à queda dessa barreira ignóbil foi a mesma que justificou a sua construção: o desejo dos cidadãos de deixar para trás a claustrofobia do regime comunista. Vinte anos após a queda do muro, os pés dos berlinenses ignoram as linhas que sinalizam a localização da barreira da vergonha. Eles cruzam de um lado para outro sem tomar conhecimento da extinta divisão entre leste e oeste. Não podia haver exaltação maior à liberdade.



Revista Veja

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