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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

AFRICANOS NO BRASIL

Sérgio Buarque de Holanda

quarta-feira, 02 de agosto de 1950.
Depois dos estudos sucessivos de um Calogeras, de um Simonsen, de um Taunay, entre poucos mais, sobre os numeros de trafico africano para o Brasil, pareciamos ter alcançado o extremo limite de precisão possível em domínio tão naturalmente vago. O milagre do sr. Mauricio Goulart, em seu livro recente sobre a Escravidão Africana no Brasil - Das Origens à Extinção do Trafico (São Paulo, Livraria Martins Editora, S. A., s.d.), está em ter conseguido introduzir neste assunto algumas precisões importantes e mal suspeitadas. E tambem em ter podido construir um livro dos mais ricos e estimulantes que se podiam desejar, a proposito de controversia tão arida e, à primeira vista, tão futil.
Em realidade, essa controversia representa o motivo central do livro do sr. Goulart, e está presente, praticamente, em todas as suas paginas. Mas pretender reduzir a ela a contribuição que nos oferece para o conhecimento da historia da escravidão no Brasil seria diminuir injustamente o significado dessa contribuição. Através de seu minucioso esforço para reduzir a termos plausiveis tudo quanto se tem dito sobre o assunto, apresentam-se novos aspectos, novas formulações do problema, que de hoje em diante deverão ser considerados pelos historiadores.
De qualquer modo, para abordar devidamente o estudo do sr. Mauricio Goulart é inevitavel partir e, um pouco, participar daquela controversia. "Neste assunto, negros," - diz-nos ele (à pg. 98) - "têm sido desprezadas as verdades mais corriqueiras, postas de lado, sumariamente, as conclusões do bom senso". O bom senso manda, por exemplo, que em toda tentativa de fixação do volume do trafico, só se considerem os elementos comprobatorios no seu conjunto e em sua inter-relação. É sobretudo o exame parcial e isolado de tais elementos que conduziu historiadores diversos, e dos mais ilustres, a resultados extremamente divergentes.
Simonsen, por exemplo, fundou-se principalmente no calculo da vida efetiva e da produtividade dos escravos nos engenhos e minas. Calogeras, na taxa negativa de sobrevivencia, aplicada ao total dos negros existentes no país às vesperas da Independencia. O primeiro avalia em três milhões e trezentos mil o numero de escravos importados: o segundo, em dez a doze milhões, na melhor hipotese em oito a nove milhões.
Colocado em face de soluções tão discrepantes, o sr. Goulart inclina-se decididamente para a primeira, a de Simonsen, visto como Calogeras se limitara a um elemento, e elemento que não apresenta correlação com os outros dados do problema. Sua solução - cerca de 3.600.000 negros importados - é semelhante à de Simonsen e rigorosamente coincidente com a de Taunay, na versão final dos seus valiosos "Subsidios para a Historia do Trafico", publicados no tomo X dos Anais do Museu Paulista (o autor serve-se de versão anterior e menos completa, a dos Anais do Terceiro Congresso de Historia Nacional).
Para chegar a tal cifra, ele não deixa fugir nenhum dos numerosos dados da questão, entre eles o numero de escravos necessarios em cada engenho; a produção media anual dos negros, na lavoura do açucar, nas minas, nos cafezais; a porcentagem dos que se aplicariam em outros misteres; a taxa de sobrevivencia; a massa dos que se exportaram da Africa... E é a consideração atenta, bem desenvolvida e documentada, desses elementos, ainda mais do que o motivo central do estudo, que faz, no meu entender, sua admiravel riqueza. Em mais de um caso, pode-se mesmo lamentar que a absorvente presença deste motivo central não deixe o autor fixar-se melhor, mais livremente, naqueles aspectos parciais. Em outras palavras, seria desejavel que os abordasse um pouco menos na medida em que valem como argumento e mais na medida em que possam constituir objeto direto da pesquisa. Pois que a ambição, justificavel em si, de consertar enganos alheios pode conduzir insensivelmente a outro tipo de engano quando se torna empolgante: engano ou exagero correspondente, de algum modo, àquilo que na ciencia linguistica recebeu o nome de ultracorreção.
Quando, por exemplo, no enumerar os calculos quinhentistas, naturalmente imprecisos, sobre os escravos que viveriam então na colonia, é caracteristico de sua prudencia que prefira as cifras mais modestas de um Fernão Cardim e de um Gabriel Soares, às de Anchieta, duas vezes mais altas, ou quase tanto.
Uma das razões propostas, e que me parece má, para a preferencia, está em que a estimativa anchietana contraria os outros dois testemunhos, e que estes, vindos de fontes bem distintas, se harmonizariam bem entre si. A verdade, diga-se de passagem, é que não se harmonizam tanto, pois Gabriel Soares apresenta mais negros para Pernambuco (quatro a cinco mil contra quatro mil), Cardim, mais para a Baía (três a quatro mil contra dois mil). Por outro lado, o total de dez mil, que Anchieta indica para Pernambuco (contra três mil para a Baía), parece condizer melhor com a circunstância de, segundo diferentes depoimentos, existirem mais engenhos na primeira do que na segunda dessas capitanias (66 contra 36, di-lo o proprio Cardim, que faz avultar o numero de negros da Baía). E tambem com o fato das possibilidades de recorrerem os senhores de engenho ao braço indigena serem aparentemente muito menores em Pernambuco, onde Cardim já encontrou bem diminuido o numero de indios em 1583 ("os indios da terra já são poucos", escrevia na "Narrativa Epistolar"), quando no Reconcavo ainda eram fartos e densos seus aldeamentos.
A outra razão sugerida contra o calculo de Anchieta, de que "dez mil negros para os 55 ou 66 engenhos de Pernambuco, seriam negros demais", um "esbanjamento de negros", parece relacionar-se à tendencia, constante no autor, para diminuir a importancia numerica dos que não se empregavam no negocio do açucar. Reiteradas vezes se avaliam aqui em 70% do total os negros que trabalhavam em engenhos de cana (e em 80% , mais tarde, os que se aplicariam na mineração). Ora, considerando que um mínimo de 20 e mesmo de 30% dos pretos desembarcados da Africa seriam "peças femeas", alheias, por conseguinte, àqueles trabalhos, quantos pretos machos ainda ficariam para outros misteres: milicia, serviços domesticos, familiares ou caseiros, todo genero de fabrica e manufatura, sem falar em outras lavras ou lavouras? E sem falar na parte, nada irrelevante, dos que, destinados primeiramente aos engenhos, neles não permaneciam. Dos negros, já dizia em uma das suas cartas, de agosto de 1608, o governador d. Diogo de Menezes, que sendo eles "a maior parte da pobreza dos homens", porque em adquiri-los gastam quanto têm, "quando cuidam que têm cinquenta negros (...) acham-se com menos da metade, porque fogem e metem-se pelos matos, e são tantos os que desta maneira andam, que já fazem aldeias, e andam alevantados e ninguem pode com eles..."
Com razão, opõe-se o autor à cronica de Calogeras, de que das 53.053 peças saidas de Angola para o Brasil, entre 1575 e 1591, conforme o relatorio de Abreu e Brito, todas, ou quase todas, se destinavam ao Brasil. Pondera bem que, nessa epoca, a maior parte iria para as Indias de Castela. Por outro lado, não parece levar na devida conta que o relatorio fala em negros embarcados, e que muitos deles não terão chegado nem à America Espanhola, nem à Peninsula Iberica, nem ao Brasil. Sobre esse ponto, são acordes todos os depoimentos da epoca: um deles ousa dizer que, dadas as más condições de transporte, onde "el mismo olor basta a matar los más", era maravilha que a vigesima parte dos embarcados pudesse chegar ao seu destino. "Não ha quatro meses", exclama, "dois mercadores tiraram para a Nova Espanha, de Cabo Verde, quinhentas em uma nau, e só em uma noite amanheceram mortas cento e vinte..." Esse depoimento está na obra de Tomas del Mercado intitulada Tratos y Contratos de Mercadores, publicada em 1569 e que pode ser consultada em nossa Biblioteca Nacional. O sr. Mauricio Goulart, em outra parte de sua obra (à pg. 275), toma conhecimento de noticias semelhantes, mas desconfiado por principio das cifras muito generosas, associa-as a exageros, liricos ou interessados, de abolicionistas e de traficantes.
Se em determinadas ocasiões, no Quinhentos, sobretudo, a America espanhola recebeu sem duvida mais africanos do que o Brasil, não parece exato que isso tenha ocorrido sempre, como tende a presumi-lo o autor (às pgs. 51, 101,111, 117 etc.). As restrições de carater religioso à introdução de escravos negros, que prevaleceram de inicio em dominios de Castela, e não em terras de Portugal, teriam contribuido, no primeiro caso, para certos escrupulos dos reis catolicos com relação ao seu comercio. E quando esses escrupulos se afrouxaram, não deixariam os soberanos espanhóis de reservar o privilegio do trato a particulares e companhias, que para isso pagavam taxas consideraveis. A proprosito de um dos mais antigos textos conhecidos de acordo para a introdução de negros no Novo Mundo - o acordo de 1542 entre Fernão Cortes e o marquês del Valle, só ultimamente publicado - consta que o intermediario genovês pagava então a soma de sete ducados para cada um dos novecentos africanos que negociasse. E em meados do seculo seguinte, segundo mostra o historiador Clarence Haring, os contratadores deveriam pagar à Coroa de trinta a quarenta ducados por cabeça, alem de uma taxa suplementar de três a trinta reais.
Observa o sr. Mauricio Goulart, para mostrar a maior importancia do trafico com as possessões espanholas, que os assentistas tinham muito mais empenho "em amealhar proveitos com a venda de negros para as Indias de Castela" do que para o Brasil. Mas isto é claro, pois que desfrutavam no primeiro caso de um monopolio exclusivo, que não lhes era dado no segundo, e monopolio que lhes custara avultadas somas. E quanto às constantes queixas dos nossos lavradores sobre a escassez de negros disponiveis, creio que essa escassez deva ser interpretada, não em sentido absoluto, mas apenas em relação com as grandes exigencias da lavoura.
Tudo isso nos leva a hesitar um pouco diante de alguns argumentos usados pelo autor em beneficio da tese defendida. Mas as objeções que seu estudo possa merecer só atingem aspetos parciais do problema e não modificarão sensivelmente os seus resultados. No conjunto, trata-se de contribuição exemplar e já hoje de consulta obrigatoria para quem se disponha a estudar o mesmo problema.

Folha de São Paulo

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil e em Cuba, c. 1830-1860

Resultado de imagem para moradia dos escravos
Rafael de Bivar Marquese

Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo


Moradia escrava e historiografia

Comecei a visitar velhas plantations do Sul basicamente para satisfazer minha curiosidade a respeito da organização física da escravidão. Também esperava adquirir alguma perspectiva histórica para meu trabalho como arquiteto afro-americano. Meu interesse pelo assunto retrocede a meados dos anos 1960, quando grande parte da atenção nacional voltou-se para o povo negro. Escritores, músicos e líderes políticos afro-americanos estavam demonstrando à nação o quanto sua vida interior havia sido ignorada pelo fato de a experiência de sua população afro-americana ter sido silenciada (ANTHONY, 1976, p.8).

Essas palavras do arquiteto norte-americano Carl Anthony são bastante elucidativas a respeito do interesse que a historiografia passou a nutrir sobre a cultura escrava a partir da década de 1960. Com efeito, é certo que desde o início do século XX os historiadores prestaram atenção a temas como a família, a religião e a vida material dos escravos, mas somente com o boom da historiografia sobre a escravidão verificado após os anos sessenta é que a abordagem desses assuntos tomou corpo. Em resposta direta a questões sociais e políticas de seu tempo, os estudiosos passaram a pesquisar sistematicamente os vários aspectos da vida dos escravos africanos e de seus descendentes no Novo Mundo, encarando-os como sujeitos ativos na construção de seu devir2.

A nova ênfase na agência escrava, por sua vez, permitiu a investigação aprofundada dos temas relativos à cultura material. No que se refere ao assunto deste artigo, a moradia escrava, pode-se afirmar que, nas três últimas décadas, consolidou-se na historiografia duas vertentes de análise, não raro empregadas simultaneamente pelos pesquisadores. Grosso modo, a primeira se ocupa dos modelos arquitetônicos das moradias escravas, isto é, suas origens, tipologias e técnicas construtivas, enquanto a segunda trata dos usos e apropriações escravas desses espaços. Ainda que as pesquisas disponíveis tratem de lugares e épocas variadas, nos últimos tempos vem se construindo certo consenso interpretativo sobre a questão. Os historiadores apontam que, quando tiveram oportunidade para tanto, os escravos configuraram suas moradias baseando-se em formas e técnicas africanas, exercendo assim considerável grau de autonomia na conformação de sua vida material3.

Um bom exemplo dessa perspectiva pode ser encontrado no livro recente de Robert Slenes, Na senzala, uma flor, cujo foco é a família escrava no Sudeste cafeeiro do Brasil oitocentista. Ao analisar os significados da organização familiar para os próprios cativos, o autor ressalta a importância que davam para a formação de núcleos familiares como arma na luta contra os senhores. O estabelecimento de laços conjugais estáveis, assim, lhes facultaria maior autonomia para o controle de vários aspectos de sua vida material e cultural. Era isso, segundo o autor, o que ocorria com a moradia.

Baseando-se em relatos de viajantes que percorreram o Centro-Sul do Brasil ao longo do século XIX, Slenes distingue três tipos de vivenda escrava: as senzalas " pavilhão" , edifício único com pequenos recintos ou cubículos separados para os escravos solteiros e casados, as senzalas " barracão" , onde viveriam escravos e escravas solteiros em grandes recintos separados, e as senzalas " cabana" , onde viveriam escravos casados ou solteiros de um mesmo sexo. Ao sintetizar sua análise sobre a questão, Slenes escreve que

o que chama a atenção na maioria destes depoimentos é que o casar-se [...] conferia acesso a um espaço construído próprio, seja um cubículo num barracão/pavilhão, seja num barraco separado. Mesmo não sendo necessariamente maior do que os cubículos [nos barracões], os compartimentos [nos pavilhões] ou os casebres dos solteiros, a moradia da pessoa casada – ou pelo menos da recém-casada, sem filhos – geralmente congregava menos gente [...]. Além disso, e mais importante, era uma habitação dividida com um parceiro de vida, não apenas de roça. Enfim, o casar-se freqüentemente implicava para o escravo ganhar mais espaço construído; mas, sobretudo, significava apoderar-se do controle desse espaço, junto com o cônjuge, para a implementação de seus próprios projetos (SLENES, 1999, p. 159).

Na seqüência, Slenes examina as matrizes arquitetônicas africanas das senzalas " cabana" construídas pelos escravos no Centro-Sul cafeeiro. Procedentes em grande parte da zona congo-angolana da África central, esses cativos teriam recriado no Brasil várias das técnicas de construção empregadas em seu continente de origem, como o uso de paus de forquilha para a sustentação da cobertura, a adoção de um formato retangular para as cabanas, com teto de duas águas e cômodos pequenos, ou a ausência de janelas. Afora os elementos formais da construção, o sentido básico da moradia negra – " a definição de como se usavam espaços internos e externos" – teria permanecido o mesmo na passagem da África para o Brasil: a cabana não era o local de moradia em um sentido burguês, mas apenas o local do sono ou do abrigo contra as variações do tempo; o habitar, portanto, se desenrolaria antes no entorno da cabana do que no seu interior (SLENES, 1999, p.149-180).

O trabalho de Robert Slenes demonstra o proveito em se adotar uma perspectiva atlântica para o exame dos padrões de vida material escrava nas Américas. No entanto, deve-se ressaltar que não apenas as experiências dos escravos foram trazidas da África para o Novo Mundo, mas também as experiências dos poderes escravistas. Por ter enfocado mais a agência escrava do que a agência senhorial, Slenes deixou passar despercebida a novidade contida em certos arranjos de moradia que foram adotados em algumas das grandes fazendas de café do Vale do Paraíba. Refiro-me ao que a documentação coeva registra como senzala em quadra, isto é, edifícios contínuos erigidos em formato retangular e subdivididos em compartimentos ou cubículos, todos voltados para um terreiro ou pátio com entrada única guardada por um portão de ferro.

O que pretendo neste artigo é justamente analisar a novidade histórica representada pelas senzalas em quadra, sem me ocupar das apropriações escravas desses espaços. Contudo, para obter uma compreensão mais adequada das razões para a adoção desse modelo arquitetônico, é necessário examiná-lo em conjunto com os barracones cubanos, isto é, as grandes senzalas erigidas nos engenhos mecanizados e semimecanizados do cinturão açucareiro da colônia espanhola. As senzalas em quadra das fazendas de café brasileiras e os barracones dos engenhos de açúcar cubanos trouxeram uma ruptura substantiva em relação aos padrões de moradia escrava anteriormente existentes nas Américas, já que negavam brutalmente a autonomia escrava em sua construção. Ademais, ambos os arranjos arquitetônicos surgiram em um mesmo momento, a década de 1840. Em um contexto de aceleração da produção de café e açúcar, aumento no volume do tráfico negreiro transatlântico ilegal e acirramento das tensões internas e externas em torno da escravidão, os grandes senhores brasileiros e cubanos recorreram a um modelo arquitetônico bastante difundido nas áreas litorâneas da África em que operavam seus respectivos traficantes.



Senzala em quadra e barracão de pátio

Os primeiros esforços sistemáticos para ordenar a moradia escrava apareceram na literatura agronômica do Caribe inglês e francês em fins do século XVIII, como parte de um impulso mais amplo de controle e otimização da força de trabalho cativa (MARQUESE, 2004a). Com efeito, são poucos os indícios disponíveis sobre a normatização da moradia escrava pelos proprietários rurais das diversas regiões de plantation do Novo Mundo antes do final do século XVIII. Houve, é claro, aqueles que cuidaram pessoalmente da construção das vivendas escravas, mas a regra parece ter sido a concessão de autonomia para os cativos erigirem esses espaços de acordo com seus próprios padrões culturais.

Para os autores caribenhos que escreveram sobre o assunto, o primeiro item que lhes preocupou foi o estado sanitário das senzalas. As prescrições de Jean Baptiste Guisan – um engenheiro militar suíço com vasta experiência agrícola no Suriname, contratado na década de 1780 pelas autoridades francesas da Guiana para aí aplicar as técnicas agrícolas da colônia holandesa – são típicas a respeito do assunto. De acordo com Guisan, os alojamentos destinados aos cativos deveriam merecer atenção cuidadosa dos senhores. Em sua avaliação, os proprietários franceses (tanto os das ilhas caribenhas quanto os da Guiana) eram em geral displicentes em relação ao problema, deixando a construção das senzalas a cargo exclusivo dos escravos, que as erigiam conforme seus hábitos africanos, isto é, em casebres feitos de barro, madeira e palha, isolados uns dos outros e sem ordenação aparente. A prática dos holandeses no Suriname, contudo, era diferente. A construção das senzalas seguia o modelo das casernas, em edifício único com total simetria. Guisan advertiu que os escravos resistiam o quanto fosse possível ao modelo de moradia do Suriname, demonstrando nítida preferência por palhoças isoladas. A reforma das senzalas deveria atender em parte às demandas dos escravos, separando-as em alojamentos distintos para cada família ou casal; ao senhor, porém, competia certas interferências com vistas a garantir o máximo de salubridade possível. Assim, as senzalas deveriam ser erigidas unicamente em madeira, com certa elevação do solo para evitar a umidade excessiva e assegurar boa circulação do ar, e distribuídas de tal forma a evitar a comunicação de fogo de uma a outra (GUISAN, 1825, p. 245-247).

A reforma das senzalas, portanto, deveria tomar de empréstimo o modelo arquitetônico dos destacamentos militares. Esse impulso para a militarização da moradia escrava fica ainda mais evidente no trabalho de outro autor caribenho do período, P. J. Laborie, um grande produtor escravista de café de São Domingos. Laborie foi um daqueles senhores que, no curso da revolução escrava na década de 1790, apoiaram a invasão inglesa da colônia francesa como meio para restabelecer a ordem escravista. Para tanto, redigiu, com base em sua experiência de cafeicultor, o manual The Coffee Planter of Saint Domingo, destinado a guiar os eventuais investidores ingleses no processo de reconstrução da economia escravista da colônia. O projeto de Laborie foi derrotado com a vitória das tropas de ex-escravos comandadas por Toussaint L'Ouverture, mas seu manual persistiu como a principal referência agronômica sobre o assunto por todo o século XIX. A razão disso consistiu no fato de Laborie ter sintetizado as técnicas agronômicas que haviam garantido para São Domingos o posto de maior produtora mundial de café antes da Revolução Francesa.

O tratado foi dividido em quatro capítulos, que abordaram respectivamente a escolha e preparo dos terrenos para o plantio do café, a construção e distribuição dos edifícios, a cultura e processamento dos grãos e, por fim, a administração dos escravos. Dentro desse plano, Laborie dedicou atenção particular à organização espacial das plantations cafeeiras. Tanto é assim que o texto se fez acompanhar de várias pranchas nas quais eram apresentadas plantas arquitetônicas de grandes fazendas de São Domingos, com a indicação exata da localização dos edifícios, dos cafezais, das matas e dos pastos. Um cuidado especial foi reservado à exposição do plano de reforma da arquitetura da moradia escrava. Laborie propunha a construção das senzalas em linha, divididas em cubículos com 10 x 20 pés, cada qual reservado para três escravos; os cubículos, por sua vez, seriam subdivididos " em dois quartos, um, A, onde se faz o fogo, outro, B, para dormir. Pode-se acrescentar por detrás uma galeria, C, da largura de seis pés, para suas aves" (Figura 1).




Em sua organização interna, essas unidades seguiam claramente o padrão de moradia ioruba, adotado por grande parte dos escravos em São Domingos quando tinham a autonomia para tanto4. O sentido que Laborie lhes imprimiu, contudo, foi outro. Um rápido exame da figura 2 bem demonstra a filiação arquitetônica de suas senzalas às casernas européias. Sendo assim, o que buscou com a conjugação das diferentes unidades habitacionais escravas em edifícios únicos, simétricos e uniformes, dispostos de forma alinhada em torno dos terreiros de café ou em locais observáveis a partir da casa de vivenda senhorial, foi exatamente potencializar o controle senhorial sobre a morada dos cativos. Em suas palavras,

as casas [...] devem ser de maneira situadas, que possa o senhor ver tudo, ouvir e dar ordem. A exação, e cuidado da manufatura, o serviço do hospital, que se deve guardar de dia, e de noite, a polícia das senzalas, e o cuidado do gado de toda a casta, inteiramente dependem da presença e vigilância do senhor (LABORIE, 1798, p.83) (Figura 2).

Para nossos fins, importa salientar que as prescrições desses autores antilhanos foram difundidas no Brasil e em Cuba na passagem do século XVIII para o XIX. Com efeito, dentro dos esforços para recuperar as respectivas posições de Portugal e Espanha no quadro internacional, os administradores ilustrados desses dois impérios elaboraram um amplo programa de reformas econômicas, com ênfase especial na questão da política colonial. Parte dessa política consistiu na tentativa de aplicar às colônias de plantation portuguesas e espanholas o receituário que havia garantido às possessões antilhanas de franceses e ingleses o posto de maiores produtoras mundiais de artigos tropicais. Sendo assim, vários dos textos agronômicos compostos para o Caribe francês e inglês foram traduzidos para o português e castelhano. Tal foi o caso do manual de Laborie, vertido para a primeira língua em 1800 e para a segunda em 18105.

A despeito dessas traduções, os novos modelos de moradia escrava propostos pelos autores caribenhos não foram adotados nas plantations brasileiras e cubanas. Noutras palavras, antes da década de 1840, as unidades cafeeiras e açucareiras que foram montadas no Brasil e em Cuba mantiveram os padrões anteriores de habitação escrava. Tome-se o exemplo do Vale do Paraíba em fins da década de 1810 e inícios da de 1820, momento do deslanche da produção cafeeira na região. O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, ao percorrer em abril de 1822 o Caminho Novo da Piedade, retornando de São Paulo ao Rio de Janeiro, registrou, na altura da freguesia de Areias, as seguintes observações:

Hoje, comecei a notar, tanto à beira da estrada como a alguma distância, casas um pouco mais bem tratadas do que as vendas, e habitadas por agricultores mais abastados. Desde ontem começei a ver plantações de café, hoje mais numerosas. Devem aumentar mais ainda à medida que me for aproximando do Rio de Janeiro. Esta alternativa de cafezais e matas virgens, roças de milho, capoeiras, vales e montanhas, esses ranchos, essas vendas, essas pequenas habitações rodeadas das choças dos negros e as caravanas que vão e vem, dão aos aspectos da região grande variedade (SAINT-HILAIRE, 1974, p.100).

A feição exata dessas " choças dos negros" – ou senzalas " cabana" , para empregarmos a expressão cunhada por Robert Slenes – fica evidente se observarmos um outro registro do período. No desenho aquarelado de Thomas Ender, que percorreu o mesmo caminho de Saint-Hilaire cinco anos antes, pode-se ter uma idéia mais precisa do que eram essas " choças" : o que se nota à esquerda da figura 3 são casebres que seguem os padrões africanos de moradia escrava estudados a fundo por Slenes (Figura 3).



Esse parece ter sido o modelo das moradias escravas nas fazendas do Vale do Paraíba até a quarta década do século XIX. É certo que já na década de 1830 alguns fazendeiros estavam erigindo senzalas em linha nas unidades cafeeiras do Vale do Paraíba (o inventário do proprietário da fazenda Cachoeirinha de Baixo, na vila de Bananal, São Paulo, dono de 26 escravos, registra em 1836 a existência de uma senzala contínua com sete lanços cobertos de telha) (CARRILHO, 1994, p. 62), mas até então não houve a deliberação para se construir um espaço diferenciado de habitação escrava. Nesse período, contudo, surgiu uma atenção mais detida com a normatização dos espaços de moradia nas fazendas. Isso pode ser observado com clareza nos manuais agrícolas publicados no período.

O exemplo mais significativo disso reside no trabalho de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, barão de Pati do Alferes. Ao publicar sua Memória sobre a fundação de uma fazenda na província do Rio de Janeiro em 1847, primeiro nas páginas do periódico Auxiliador da Indústria Nacional e logo em seguida em livro, Werneck apresentou a síntese do saber escravista gestado nas fazendas de café do Vale do Paraíba (fluminense e paulista) na primeira metade do oitocentos. Já na abertura do trabalho, ao traçar as instruções para a construção da senzala, Werneck recomendava cuidado com a saúde dos escravos e vigilância estrita sobre eles. A senzala deveria ser erguida em uma só linha, num lugar sadio e enxuto, com quartos de 24 palmos quadrados e com uma varanda de oito palmos de largo em todo o seu comprimento; cada cubículo deveria acomodar quatro escravos solteiros, e, no caso dos casais, marido e mulher com os filhos. As portas dos cubículos estariam voltadas ao quadro da fazenda, que conformava uma espécie de pátio em torno do terreiro, sendo cada face ocupada respectivamente pela casa do senhor, pelos paióis, tulhas e cavalariças, pelos engenhos de pilões e de mandioca e pela senzala. A moradia escrava, assim, permaneceria sempre sob a vista e o controle do senhor (WERNECK, 1985, p.57-58).

A semelhança com algumas das plantas reproduzidas por Laborie é evidente. No entanto, o manual de Werneck deve ser lido à luz do que se começou a construir no Vale do Paraíba a partir da década de 1840. A novidade veiculada em seu trabalho consistiu no fechamento do terreiro, dispondo-se as senzalas em uma mesma quadra contínua à casa senhorial e aos edifícios da manufatura (engenhos, tulhas, etc.). Exatamente nesse período os inventários das fazendas começaram a registrar uma nova forma arquitetônica, denominada como " quadro de senzalas" , ou " senzalas em quadra" . Há um caso que ajuda a melhor iluminar o assunto. No inventário de 1855 da fazenda das Antinhas (Bananal, São Paulo), com um total de 137 escravos, anotou-se a existência de " um quadro de senzalas com trinta lanços" 6. Por si só, esse registro pouco esclarece, mas há uma pintura a óleo dessa propriedade, composta duas décadas após a realização do inventário, que muito auxilia a compreensão do arranjo arquitetônico (Figura 4).



A disposição das senzalas em L, com as portas avarandadas e voltadas ao terreiro, é bem evidente ao fundo da imagem. A casa de vivenda localiza-se à direita, sendo que um muro a separa do terreiro. Do lado oposto ao da senzala, há mais uma construção em linha (possivelmente as tulhas com seis lanços, como indica o inventário de 1855). O que mais chama a atenção, no entanto, é o fato de o conjunto ser fechado: os vazios entre os edifícios são preenchidos com grades altas em balaústre, sendo que o único acesso ao terreiro – e às senzalas – é dado por um portão, visível na parte inferior esquerda da imagem.

Uma outra imagem, do mesmo período e da mesma região, é ainda mais esclarecedora quanto ao arranjo arquitetônico da senzala em quadra. Refiro-me à fazenda Boa Vista, pertencente a Luciano José de Almeida, um notável cafeicultor de Bananal, dono de mais de 800 escravos quando de sua morte em 1854. Em seu inventário, há referência a dois conjuntos de senzalas em quadra na fazenda Boa Vista, um com 49 e outro com 60 lanços7. Observando-se a pintura a óleo dessa propriedade, percebe-se claramente qual a disposição das duas quadras. A primeira, com 60 lanços mais tulhas e engenho (localizados na parte superior direita do terreiro), localizava-se em frente à casa de vivenda; a segunda, apenas com os lanços das senzalas, encontrava-se atrás. Na quadra frontal, nota-se novamente a existência de um único portão de entrada; todas as portas dos lanços da senzala, por sua vez, voltavam-se para o terreiro (Figura 5).



As senzalas em quadra, enfim, caracterizavam-se por seu isolamento, garantido por meio de sua disposição retangular, pelos compartimentos de habitação dos cativos que se comunicavam apenas com o terreiro, pela inexistência de janelas, pelos muros altos ou cercas em balaústres e pela entrada única fechada com portão. O estado atual das pesquisas indica que essa solução arquitetônica foi uma disposição específica do Vale do Paraíba cafeeiro entre as décadas de 1840 e 1880, pois, com exceção de algumas grandes fazendas cafeeiras do Centro-Oeste paulista, não há registros de seu emprego em outras regiões escravistas de plantation no Brasil oitocentista8. As explicações que os estudiosos fornecem para sua adoção apontam para a herança da arquitetura rural do norte de Portugal. Nessa tradição, esclarece Carlos Lemos (1999, p.29), a disposição dos edifícios em torno de um terreiro,

com os cômodos de serviço à volta, constitui a peça-chave da circulação, servindo não só de distribuição como de local de manipulação dos gêneros agrícolas. É onde a família portuguesa trabalha com os raros empregados, é o espaço muito bem definido e acessível por um só portão.

O terreiro à moda portuguesa, no Brasil, teria sido aplicado de início em Minas Gerais. Na passagem do século XVIII para o XIX, com a montagem da cafeicultura no Vale do Paraíba, o modelo teria sido disseminado por reinóis ou colonos vindos de Minas e adquirido sua configuração específica nas fazendas de café da região. Nessa interpretação, a inscrição das senzalas no terreiro da fazenda responderia antes à " necessidade de controle sobre as atividades no interior do quadro do que a formas rigorosas de confinamento" da mão-de-obra escrava (CARRILHO, 1994, p.125).

Há, no entanto, uma outra explicação possível para a adoção das senzalas em quadra no Vale do Paraíba, que o caso cubano torna inteligível. Até a terceira década do século XIX, a moradia escrava típica das plantations cafeeiras e açucareiras de Cuba foi o bohío (palavra de origem taino), que mesclava elementos da arquitetura indígena com o padrão ioruba de moradia e não tinha qualquer interferência senhorial (VLACH, 1990, p.125-127; WATTS, 1992, p.106). Em meados dos anos 1820, algumas das autoridades coloniais e dos senhores de escravos cubanos passaram a defender a adoção de um novo modelo de vivenda para os escravos. Tal foi o caso de Cecilio Ayllon, governador, militar e político de Matanzas. Em 1825, a região foi agitada por uma série de revoltas escravas, notadamente em Guamacaro. Diante disso, Ayllon, " convencido da importância e necessidade de que seja uniforme o regime e governo interior das fincas rurais para afiançar melhor a segurança dos campos" , consultou vários senhores da região sobre as medidas mais adequadas a serem tomadas para garantir a disciplina escrava. O resultado final foi um projeto para um código negro que recebeu o título de Reglamento de esclavos9.

Ayllon dividiu seu regulamento em quatro partes: medidas de segurança, obrigações dos senhores, normas penais e vigilância. A parte que mais interessa para os fins deste artigo é a primeira, que cuidou do controle disciplinar da escravaria. Seu princípio básico consistiu na incomunicabilidade total dos escravos com o mundo externo às plantations. Sendo assim, recomendava-se proibição expressa da entrada de homens de cor livres e brancos desconhecidos na plantation para a venda de gêneros aos cativos, bem como o pernoite de pessoas estranhas nos alojamentos dos escravos. Após a oração noturna das nove horas, o portão da finca seria trancado e os escravos impedidos de circularem dentro da propriedade. Os vigilantes brancos fariam de duas a três rondas noturnas, verificando se todos os escravos se encontravam descansando nas senzalas. Os instrumentos agrícolas de ferro seriam trancados à noite, e as armas de fogo pertencentes aos proprietários e brancos permaneceriam sempre guardadas e seguras. Em três anos, todas as propriedades com mais de 30 escravos deveriam substituir os bohíos independentes por senzalas de alvenaria, em edifício único, com alas separadas por sexo com uma só porta e trancas de ferro (AYLLON, 1825, p.1-6).

O código de Ayllon pode ser entendido como uma das primeiras propostas formuladas em Cuba para a construção de um novo tipo de moradia escrava, capaz de aumentar o controle espacial dos trabalhadores. Honorato Bernado de Chateausalins, médico de origem francesa, certamente ajudou a difundir a nova planta arquitetônica proposta por Ayllon. Nascido em 1791, e formado em medicina pela prestigiosa Universidade de Paris, Chateausalins foi contratado pela família Drake, no início da década de 1820, para cuidar dos escravos de suas plantations cafeeiras em Cuba, na região de Matanzas. Chateausalins logo se tornou membro da Sociedade Econômica dos Amigos do País de Havana, e, calcado em sua experiência como médico de escravos, publicou, em 1831, El vademecum de los hacendados cubanos. O livro obteve grande sucesso entre os senhores de escravos cubanos, tendo sido reimpresso em 1848, 1854 e 1874.

Novamente, interessam aqui as orientações de Chateausalins a respeito da moradia escrava. Suas recomendações foram idênticas às do Reglamento de Ayllon, o que parece indicar a existência de um consenso a respeito do assunto, entre os senhores de Matanzas, a partir da década de 1830. Em substituição aos bohíos de barro cobertos com palhas,

sempre aconselharei que se fabriquem em forma de barracão com uma só porta aberta, cuidando o administrador ou feitor de recolher a chave pelas noites. Cada quarto que se fabrique, não terá outra entrada que uma só portinhola, e ao lado uma janela fechada com balaústres para que o negro não possa de noite comunicar-se com os outros (CHATEAUSALINS, 1848, p.14).

Como se vê, Chateausalins empregou um novo vocábulo – barracão – para se referir à moradia escrava que estava prescrevendo. Sua proposta e a de Ayllon para a construção de novas senzalas em substituição aos antigos bohíos, no entanto, não representava ainda uma ruptura significativa, pois se tratava de uma variação do edifício em linha prescrito pelos autores caribenhos ingleses e franceses de fins do século XVIII. A virada veio na década de 1840 e, como sugeriu o historiador Juan Perez de la Riva (1983, p.16-30), conectou-se diretamente ao aumento da resistência escrava. Nessa década, começou a ser erigido nos engenhos cubanos um novo tipo de moradia escrava, que se afastava profundamente dos padrões anteriores.

Para apreender essa novidade arquitetônica, cabe examinar algumas das publicações agrícolas cubanas de meados do século XIX que procuraram sistematizá-la. Tal é o caso do manual de Antonio de Landa, impresso em 1857 e reeditado com acréscimos em 1866, que pode ser tomado como o termo lógico de mais de 40 anos de reflexão sobre a gestão escravista em Cuba. Landa trabalhou 20 anos como administrador de engenhos na região de Matanzas, o centro da economia açucareira cubana até a década de 1860; seu livro, destinado à gestão de plantations pertencentes a proprietários absenteístas, pretendia apontar os erros mais comuns cometidos pelos administradores, indicar os meios para evitá-los e instruir os neófitos nos segredos da função.

A proposta de Landa para a moradia escrava seguiu claramente a inovação arquitetônica que apareceu na região de Matanzas na década de 1840, o barracão de pátio. Tratava-se de uma construção de alvenaria, em quadrilátero fechado em torno de um pátio e com uma única entrada com portão de ferro. Todos os cubículos onde dormiriam os escravos (que passaram a ser chamados de bohíos, termo anteriormente empregado para designar as choças independentes dos cativos) dariam para o pátio interno, sendo que cada um teria uma pequena janela gradeada para a entrada de ar e luz, também ela voltada para o pátio. Os bohíos seriam trancados após o toque de recolher, assim como o portão de ferro que dava acesso ao pátio. Os solteiros (escravos e escravas) ocupariam bohíos separados, enquanto os casais com filhos teriam bohíos específicos. No meio do pátio do barracão, haveria uma cozinha telhada, com no mínimo 30 varas de largura e sete de comprimento e mesas de tábuas, para os escravos lá comerem nos dias de chuva. Ao lado da cozinha, deveria ser aberto um poço para servir toda a escravaria; se isso não fosse possível, bastaria um tanque ladrilhado, abastecido por um canal pelo poço mais próximo. Em uma das faces internas do barracón, haveria ainda uma prisão, com os troncos destinados à punição dos escravos (LANDA, 1866, p.30-31)10.

No manual de Landa, não foram inseridas imagens, mas outras publicações do período apresentaram plantas arquitetônicas detalhadas do barracão de pátio. Tal foi o caso de uma cartilha anônima publicada em 1862, que indicava em uma gravura bastante precisa quais seriam as dimensões ideais do edifício, suas divisões internas e externas e o desenho da fachada, seguindo, em linhas gerais, os mesmos elementos que haviam sido prescritos por Landa: entrada única (15), compartimentos separados para casados (9) e solteiros (10, 13), cozinha no centro do pátio (1) (Figura 6).



Tal como a senzala em quadra, que foi empregada apenas nas grandes fazendas de café do Vale do Paraíba, os barracões de pátio foram construídos sobretudo nos grandes engenhos mecanizados e semimecanizados de Cuba, montados a partir da década de 1840. Nessa época, os senhores cubanos mais capitalizados começaram a adotar técnicas que vinham sendo criadas na Inglaterra e França para o fabrico do açúcar de beterraba. Em substituição ao terno de caldeiras abertas, passaram a empregar caldeiras a vácuo, que aumentavam enormemente a produtividade do engenho e reduziam em muito a demanda de trabalho e combustível. As novas caldeiras aproveitavam a energia a vapor que era gerada para movimentar a moenda horizontal. Aliás, nesse período, um cubano inventou esteiras móveis que interligavam diferentes conjuntos de moendas horizontais, aumentando consideravelmente a capacidade de moagem de cana dos engenhos. No que se refere ao preparo final do produto, as centrífugas eliminaram o difícil e prolongado processo de purga necessário para a cristalização do açúcar. Por fim, não se pode esquecer da construção, a partir de 1837, da malha ferroviária cubana, que viabilizou o estabelecimento de engenhos afastados dos portos marítimos. As ferrovias, além de diminuírem os custos de transporte dentro da ilha, permitiram a ampliação da escala de produção das unidades açucareiras: a construção de trilhos dentro das maiores plantations facilitava e acelerava o transporte de cana para as moendas11.

A combinação do emprego das moendas horizontais movidas a vapor, das caldeiras de múltiplo efeito a vácuo, das centrífugas e das ferrovias deu origem aos engenhos açucareiros completamente mecanizados de Cuba. Essas unidades se destacaram no contexto do escravismo moderno não apenas por sua tecnologia avançada, mas igualmente por sua força de trabalho numerosa: alguns desses engenhos chegaram a empregar de 400 a 500 escravos, afora uma quantidade considerável de collies chineses em regime de servidão temporária.

Para se ter uma idéia da inscrição dos barracões de pátio no espaço dos engenhos mecanizados, o registro mais adequado é a obra de Justo Cantero e Eduardo Laplante, que, em meados da década de 1850, apresentou um notável panorama das maiores unidades produtivas açucareiras de Cuba. Na planta reproduzida como Figura 7, que representa o engenho Armonía, vê-se que o centro do espaço é ocupado pela casa das moendas e das caldeiras, complementada, à direita, pela casa de purgar. Abaixo, localiza-se a casa de vivenda senhorial, ladeada à direita pela serralharia e à esquerda pela enfermaria dos escravos. O barracão se encontra isolado, à esquerda do conjunto.



Portanto, ao contrário da senzala em quadra brasileira, que se articulava de forma estreita à casa senhorial por meio do terreiro de café, o barracão de pátio cubano era erigido como um edifício autônomo e afastado da casa de vivenda (Figura 8). Outra diferença importante se encontrava no sistema construtivo: enquanto os barracões cubanos eram de alvenaria, as senzalas brasileiras adotavam a técnica da taipa de mão. Essas distinções, entretanto, não escondem o que havia de comum aos dois arranjos de moradia escrava: a entrada única com portão, as trancas noturnas, os cubículos sem janelas, as pequenas frestas gradeadas, as portas todas voltadas ao pátio ou ao terreiro. Tratava-se, enfim, de uma solução espacial que cerceava brutalmente a autonomia escrava. Esses pontos em comum, além do mais, sugerem a existência de uma mesma matriz arquitetônica para a construção das senzalas em quadra no Brasil e dos barracões de pátio em Cuba.



Barracões africanos, tráfico ilegal e moradia escrava

Há um bom tempo os historiadores cubanos assinalam que o vocábulo barracón foi tomado de empréstimo das práticas do tráfico transatlântico de escravos. Na costa africana, a palavra designava as construções onde os cativos eram confinados antes do embarque nos navios negreiros. Algumas descrições contemporâneas ajudam a se ter uma idéia de sua arquitetura. Em sua memória sobre o tráfico de escravos em Angola, composta em 1793 e publicada em 1812, Luís Antônio de Oliveira Mendes (1977, p. 47) anotou que, ao chegarem ao litoral, os cativos eram " metidos em um pátio seguro, de altas paredes, que não podem pela mesma escravatura ser saltadas, ficando ali ao tempo; e de noite há um telheiro, ou armazém também térreos, aonde é recolhida" . Com efeito, os barracões – ou quintais, expressão também utilizada pelos portugueses em Angola – caracterizavam-se por altos muros, erigidos em alvenaria ou com fortes paliçadas unidas por lâminas de ferro, e galpões dentro do cercado para abrigar os cativos das variações climáticas, sendo todo o conjunto vigiado por homens fortemente armados. Nos maiores edifícios, podiam ser acondicionados de quatro a seis mil escravos; nos menores, eram alocados de cem a seiscentos escravos12.

Barracões de escravos com tais características não foram exclusivos da costa angolana. O comandante da marinha inglesa Sir Henry Huntley, responsável pelo combate ao tráfico ilegal na costa da África ocidental entre 1831 e 1838, registrou as seguintes observações a respeito dos barracões que o célebre traficante baiano Francisco Félix de Souza (o Chachá) mantinha no reino do Daomé:

perto da residência de De Souza estão os barracões ou depósitos de escravos, que são grandes espaços descobertos rodeados de muros ou de fortes paliçadas, no interior dos quais estão os abrigos para os negros no caso de mau tempo, durante o extremo calor do dia ou durante a noite. Ali estão freqüentemente reunidas numerosas centenas de jovens, de adultos, de homens e de mulheres (apud VERGER, 1987, p. 464).

Nada diferia os barracões de Chachá de seus congêneres em Luanda e Benguela, o mesmo podendo ser afirmado sobre os numerosos depósitos que traficantes hispano-cubanos como Pero Blanco e Julian de Zulueta mantinham no Senegâmbia e no Golfo de Guiné (FRANCO, 1980, p.169, 178, 182, 200, 201). Além do mais, os barracões do tráfico de escravos guardaram muitas semelhanças formais e funcionais com os fortes e feitorias que os europeus estabeleceram desde o século XVI ao longo do litoral da África Ocidental. A gravura inserida no livro do padre francês Jean Baptiste Labat, referente às feitorias portuguesa, inglesa, francesa e holandesa em Savi, Daomé, bem o demonstra (Figura 9). Não obstante suas variações, barracões, fortes e feitorias eram compostos por muros altos e vigiados, com uma única entrada, e buscavam controlar de forma estrita enormes grupos de escravos antes do embarque nos navios negreiros.




Foi esse o princípio que governou a construção das senzalas em quadra do Vale do Paraíba e dos barracões de pátio de Cuba. A rigor, as vivendas escravas americanas aqui analisadas representaram uma reelaboração dos barracões da costa africana, e são as circunstâncias da adoção dessas soluções de moradia escrava que permitem falar em filiação arquitetônica direta.

No contexto da " era das Revoluções" , o escravismo atlântico passou por uma alteração estrutural. O surgimento do movimento antiescravista, a crise do sistema colonial, a industrialização e a conseqüente expansão do mercado mundial de artigos tropicais trouxeram um enorme impacto para a escravidão negra nas Américas. As modificações ocorridas na economia internacional na passagem do século XVIII para o XIX impuseram aos senhores de escravos a necessidade do aumento constante da produtividade do trabalho de seus cativos, sob o risco de serem excluídos do mercado mundial. Isso levou, por um lado, à crise de antigas regiões produtoras como as Antilhas inglesas e francesas, acuadas por movimentos abolicionistas metropolitanos; por outro, à especialização produtiva das regiões escravistas das Américas que refundaram a instituição a partir de novos arranjos políticos. Assim, o arranque da cafeicultura brasileira, com a elevação de sua produtividade, colocou em cheque a cafeicultura cubana; a especialização dos produtores escravistas de Cuba na economia açucareira, por sua vez, foi um dos fatores centrais da crise da produção de açúcar do Brasil (TOMICH, 2004).

De todo modo, o motor do crescimento da produção escravista brasileira e cubana na primeira metade do século XIX foi, sem sombra de dúvidas, o tráfico transatlântico de escravos, que cresceu de forma inaudita para essas duas regiões após 1808. Nessa data, além de o comércio negreiro transatlântico ter se tornado monopólio português e espanhol (no ano anterior, o tráfico para as colônias inglesas e para os Estados Unidos havia sido abolido), Brasil e Cuba se conectaram diretamente ao mercado mundial, por conta da abertura dos portos brasileiros e do fato de a Espanha ter perdido, no contexto das guerras napoleônicas, o controle comercial sobre suas possessões americanas. No entanto, após 1815, Portugal e Espanha tiveram que fazer frente a uma fortíssima pressão diplomática da Inglaterra pela abolição do tráfico transatlântico de escravos. Em 1820, os ingleses conseguiram arrancar dos espanhóis a proibição legal do comércio negreiro, o mesmo ocorrendo em 1831 com os brasileiros, que, após a independência, herdaram de Portugal todo o problema político a respeito do assunto (BLACKBURN, 2002).

Não obstante esses decretos que aboliam o tráfico nas letras da lei, o comércio negreiro brasileiro e cubano, entre as décadas de 1820 e 1850, prosseguiu e cresceu na ilegalidade, assim como as gestões inglesas sobre os impérios do Brasil e da Espanha para que o encerrassem de forma definitiva. A resposta brasileira e hispano-cubana, por sua vez, foi relativamente uniforme, o que demonstra a unificação política, geográfica e operacional do tráfico negreiro transatlântico no século XIX. No plano diplomático, as autoridades brasileiras e hispano-cubanas recorreram a uma mesma argumentação e estratégia. No plano concreto do tráfico, os mercadores brasileiros e hispano-cubanos não só atuaram de forma conjunta nas mesmas regiões da costa da África (zona congo-angolana e costa da Mina; a exceção foi a costa da Alta Guiné, na qual agiram apenas os hispano-cubanos) como elaboraram novas modalidades de gestão do negócio, com operações articuladas e sofisticadas que com freqüência envolviam praças comerciais em três continentes distintos (Rio de Janeiro, Salvador, Havana, Nova Iorque, Londres, Sevilha, Lisboa, afora os diversos portos africanos) e buscavam burlar a vigilância naval inglesa (VERGER, 1987; CONRAD, 1985; ELTIS, 1987; TAVARES, 1988; AMARAL, 1999; SILVA, 2004).

Nessas operações, os barracões africanos desempenharam grande importância. A forma arquitetônica havia sido aplicada desde o século XVI para controlar o risco de revoltas de escravos ainda em solo africano. Com o endurecimento da política antiescravista pela Inglaterra, que montou uma esquadra sediada em Serra Leoa destinada exclusivamente ao combate e à captura dos negreiros, os barracões adquiriram uma outra função, qual seja, a de apressar o ritmo do circuito do tráfico. Como assinala Robin Law (1998, p.102)

o armazenamento de escravos [em barracões] em antecipação ao embarque, apesar de ser realizado antes, tornou-se uma prática bem mais comum na era do tráfico ilegal, dada a necessidade de acelerar a partida dos navios negreiros para minimizar os riscos de interceptação.

A sofisticação dos negócios negreiros não ocorreu apenas no lado africano do Atlântico. Em Cuba e no Brasil, os traficantes diversificaram consideravelmente seus investimentos ao longo do século XIX. Uma parcela considerável das fortunas cafeeiras do Vale do Paraíba teve origem no tráfico de escravos. Na colônia espanhola, a imbricação entre o setor agroexportador e o tráfico transatlântico foi ainda mais profunda: as ferrovias – que permitiram a ampliação da fronteira açucareira – e os grandes engenhos mecanizados foram em grande parte financiados com capitais amealhados no tráfico ilegal de africanos. Dois exemplos são particularmente significativos para o que se está discutindo aqui: Luciano José de Almeida, proprietário da fazenda Boa Vista, envolveu-se diretamente com o tráfico ilegal, como comprova seu papel no " caso do Bracuhy" , em 1852; Miguel de Aldama e José Luis Alfonso, donos do engenho Armonía, tinham participação ativa no comércio negreiro transatlântico para Cuba13.

Nas décadas de 1830 e 1840, diante do aumento da pressão inglesa, da aceleração do tráfico ilegal, do incremento da exploração da força de trabalho para responder à demanda do mercado mundial e do aumento da resistência escrava – a revolta dos Malês e a conspiração de La Escalera, eventos fundamentais para a conformação da consciência senhorial brasileira e cubana no século XIX, ocorreram exatamente nesse período (REIS, 2003; PAQUETTE, 1988) –, os fazendeiros de café e os senhores de engenho no Brasil e em Cuba se viram ante a necessidade de aumentar o controle sobre seus cativos. Para tanto, o modelo do barracão africano, uma solução arquitetônica bastante familiar para alguns dos grandes proprietários escravistas brasileiros e cubanos, muito tinha a oferecer.

Na passagem pelo Atlântico, o modelo recebeu modificações relevantes. Enquanto os barracões foram a norma na costa africana, as senzalas em quadra e os barracões de pátio encontraram pouca difusão no Brasil e em Cuba. Apenas os grandes engenhos cubanos mecanizados e semimecanizados os adotaram, o mesmo ocorrendo no Vale do Paraíba, onde somente fazendas com mais de 100 escravos – que não eram a regra, mas sim a exceção – o fizeram. A permanência dos cativos nos barracões africanos era breve, os cuidados com a higiene do local, mínimos, e o agrilhoamento, bastante comum; além do mais, para acolher os escravos das variações climáticas, havia apenas pequenas coberturas feitas de palha. Já as senzalas em quadra e os barracões de pátio eram concebidos como moradias permanentes. Por essa razão, a preocupação com a higiene era bem maior, os materiais de que eram feitas, mais consistentes, e, acima de tudo, os cubículos que abrigavam os escravos pressupunham a existência de uma comunidade com relações familiares estabelecidas.

As diferenças, entretanto, não escondem a filiação: a forma retangular, o muramento, a entrada única e a supervisão estrita estiveram presentes nos dois lados do Atlântico14. O impulso básico para a adoção de um modelo arquitetônico do tráfico transatlântico nas plantations cafeeiras e açucareiras do Brasil e de Cuba foi a militarização da moradia escrava, vista como um meio capaz de ajudar a conter a escravaria em um contexto externo e interno profundamente tenso. Nesse sentido, as senzalas em quadra e os barracões de pátio deram continuidade à normatização dos autores antilhanos de fins do século XVIII, mas de um modo muito mais acentuado e explícito.



Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material - USP

Revisitando casas-grandes e senzalas: a arquitetura das plantations escravistas americanas no século XIX


Resultado de imagem para CASA GRANDE E SENZALA
Rafael de Bivar Marquese
Docente do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. E-mail: marquese@usp.br

A tradição da casa-grande e as plantations escravistas do Novo Mundo

O surgimento da tradição da casa-grande na Europa ocidental do início da Idade Moderna fez parte do mesmo processo histórico que levou à formação das primeiras plantations escravistas do espaço atlântico. Como Reinhard Bentmann e Michael Müller demonstraram há mais de trinta anos, a sistematização do movimento arquitetônico que ficou associado ao nome de Andrea Palladio – notabilizado pela tentativa de trazer para o mundo moderno a linhagem das villas romanas do mundo antigo – foi em grande parte uma resposta das elites mercantis venezianas à crise que se abateu sobre a economia de sua república com os descobrimentos marítimos da passagem do século XV para o XVI. Com efeito, a expansão ultramarina portuguesa e espanhola trouxe enorme impacto negativo para a economia veneziana, até então totalmente estruturada em torno do comércio com o Levante. Após 1530, quando ficou evidente que a crise seria persistente, ocorreu a virada decisiva dos interesses das elites mercantis da "Sereníssima" para a chamada terraferma, a vasta planície que servia de retaguarda para o enclave portuário na laguna do Adriático e que vinha sendo ocupada desde o século XIV. A partir da quarta década do século XVI, como parte de um movimento intelectual e social mais amplo denominado villegiatura, a paisagem da terraferma passou a ser dominada por suntuosas villas, que, ao buscarem as tradições arquitetônicas e literárias clássicas, procuravam neutralizar as graves tensões sociais que marcavam a República de Veneza (BENTMANN; MÜLLER, 1975).

O quadro histórico que deu origem às villas romanas, no entanto, era profundamente diferente do Vêneto quinhentista. Antes de tudo, pelo simples fato de se tratar de um universo social regido pelo escravismo. Em seu esforço para recompor o mundo clássico, o palladianismo e a villegiatura tiveram que enfrentar um outro obstáculo ainda maior, pois, antes das escavações arqueológicas setecentistas, não havia exemplares arquitetônicos das villas romanas que pudessem ser diretamente observados pelos coevos (GUARINELLO, 1993). A arquitetura das casas de vivenda rurais que apareceu na terraferma veneziana do século XVI, pretensamente baseada nas villas romanas, foi, portanto, muito mais uma tradição inventada do que uma recuperação integral e intocada de modelos clássicos (ACKERMAN, 1990; HOBSBAWM; RANGER, 1984).

No exato momento em que estava sendo criada essa tradição, um esquadro societário análogo ao romano, composto por senhores e grandes massas de trabalhadores escravizados, ressurgia no espaço atlântico. Fruto do alargamento da base geográfica da economia-mundo européia (WALLERSTEIN, 1974), as unidades produtivas açucareiras fundadas pelos europeus nas Canárias e na Madeira, na segunda metade do século XV, guardavam ainda muitos dos elementos que haviam caracterizado a atividade no Mediterrâneo durante a Idade Média, como uma tecnologia rudimentar, adaptada de outros processos produtivos (como o do vinho e do azeite), e uma mão-de-obra mista, com uso apenas parcial de escravos. O ponto de virada veio com a implantação da indústria açucareira em São Tomé e Hispaniola na primeira metade do século XVI e, sobretudo, com a formação da rede de engenhos na costa nordeste da América portuguesa na segunda metade desse século. Na mesma década em que eram impressos na Itália os Quattro Libri dell'Architettura, de Palladio (1570), Bahia e Pernambuco iniciavam o incrível arranque de sua produção escravista de açúcar, com unidades que, em breve, combinariam "especialização na produção de bens para exportação", tecnologia avançada, "mão-de-obra exclusivamente escrava e uma posse de terra consolidada" (MILLER, 1997, p. 17).

O advento do escravismo de plantation no espaço atlântico e o do palladianismo e da villegiatura na Itália setentrional, enfim, fizeram parte de uma ação mais ampla de recuperação, reconfiguração e projeção do mundo antigo para a modernidade. Palladianismo e escravismo de plantation, contudo, só iriam se cruzar de forma clara e evidente a partir do final do século XVIII. É verdade que, já na segunda metade do século XVII, parece ter havido uma certa leitura de Palladio para o universo dos engenhos na América portuguesa. Todo o quadro pictórico empregado por Frans Post para tratar da paisagem dos engenhos de açúcar de Pernambuco, por exemplo, baseou-se claramente nos princípios do palladianismo, como a disposição da paisagem construída na forma de teatro, localizando-se a casa-grande e a capela no alto da encosta, as instalações produtivas no plano médio e a várzea ao fundo. Sabendo-se, no entanto, que os documentos visuais não podem ser tomados como registros fiéis e neutros de práticas materiais (MENESES, 1996), é possível aventar a hipótese – a ser confirmada com futuras pesquisas arqueológicas – de que essa leitura de Palladio tenha ocorrido antes no campo das representações visuais do que no da prática construtiva dos engenhos.

Seja como for, antes do final dos setecentos, a tradição da casa-grande desenvolveu-se bem mais no Velho do que Novo Mundo. A difusão que o palladianismo então encontrou em diferentes lugares da Europa ocidental, como na Inglaterra hanoveriana e na Lombardia habsburga, deveu-se em grande parte às inscrições políticas do ideal da villa, tal como expresso nos Quattro Libri de Palladio e em outros textos da villegiatura, como os de Alvise Cornaro (Discorsi intorno alla vita sobria, 1583-1595) e Vincenzo Scamozzi (Idea dell'archittetura universale, 1615). Afinal, propagava-se nesses textos a visão da villa como uma "pequena cidade", como um mundo fechado, um lugar onde o gentil-homem poderia ser senhor de si, completamente autônomo no governo de sua família e de seus dependentes (BENTMANN; MÜLLER, 1975). O ideal servia tanto aos whigs ingleses, que o empregaram como forma de afirmação contra a "tirania" Stuart, como aos aristocratas e proprietários rurais da Lombardia, onde o palladianismo funcionou como uma arma política contra a dominação da corte vienense (ACKERMAN, 1990; HARRIS, 2003).

Esse caráter político e ideológico do palladianismo, somado à grande adaptabilidade de seu vocabulário estilístico, foram dois dos fatores que, a partir do final do século XVIII, permitiram sua adoção mais sistemática por senhores de escravos do Novo Mundo. Os casos mais notáveis, nesse ponto, certamente são os senhores virginianos George Washington e Thomas Jefferson, proprietários, respectivamente, das famosas plantations de Mount Vernon e Monticello. Construtores de um Estado nacional recém-independente assentado na escravidão negra, Washington e Jefferson pretendiam expressar em suas plantations os ideais de ordem, liberdade e autonomia que serviam de fundamento para seu projeto político (DALZELL JR.,1993).

De fato, ao longo da primeira metade do século XIX, houve uma nova onda de apropriação do palladianismo pelos senhores de escravos das Américas, relido agora por meio da corrente neoclássica. Em um contexto de expansão acelerada, e em escala global, da economia mundo–capitalista, tal como a ocorrida entre as décadas de 1820 e 1870, as sociedades escravistas do Novo Mundo passaram por profundas alterações econômicas e políticas. Enquanto antigas áreas escravistas, como o Caribe inglês e francês, entraram em crise, outras regiões verificaram notável crescimento, como foi o caso da colônia espanhola de Cuba, do Império do Brasil e dos estados meridionais da República norte-americana (TOMICH, 2004). Nesse movimento, a arquitetura das plantations e as práticas de administração de suas paisagens foram igualmente modificadas. Novas idéias sobre a gestão agrícola e do trabalho foram combinadas com novas modalidades de construção dos espaços de produção e de moradia, que, não raro, inspiraram-se diretamente na tradição inaugurada por Palladio. Para os propósitos deste artigo, importa ressaltar o surgimento de unidades rurais escravistas com plantas inéditas, que guardavam uma relação direta com os quadros políticos que foram então erigidos em cada uma dessas regiões.

Meu objetivo é analisar a planta arquitetônica de algumas das maiores unidades rurais escravistas do Vale do Paraíba cafeeiro (Brasil), do cinturão açucareiro de Matanzas–Cienfuegos–Trinidad (Cuba), e do cinturão algodoeiro do Alabama e do baixo vale do Mississippi nos Estados Unidos, todas elas construídas na primeira metade do século XIX. Convém dizer que os exemplares aqui examinados, dadas suas dimensões, elaboração arquitetônica e força de trabalho que empregaram, constituíram a exceção, e não a regra em suas respectivas regiões. De todo modo, vale lembrar a advertência de John Vlach sobre o peso que, no sul dos Estados Unidos, tiveram essas grandes plantations, de resto válida para Brasil e Cuba. Em suas palavras,

como um lugar tão pouco representativo como a grande plantation veio dominar a auto-percepção do sul é um ponto sobre o qual tem havido considerável discussão. Basta dizer aqui que tanto aqueles fazendeiros que possuíam poucos escravos como aqueles que não tinham nenhum ficavam impressionados pelas pródigas plantations habitadas pela gentry, mirando essa classe e suas construções com uma mistura de admiração e inveja. A deferência com a qual eram tratados os grandes planters em todos os condados se relacionava, sem dúvida, às mensagens que eram visualmente expressas no design de suas propriedades, indicações mais do que claras de uma dominação senhorial que requeria, ao mesmo tempo, a submissão do trabalhador negro e a do visitante branco (VLACH, 1993, p. 8).

Tais exemplares arquitetônicos, em resumo, marcaram profundamente a paisagem escravista do sul dos Estados Unidos, de Cuba e do Brasil. Dado o limite de espaço, meu foco incidirá sobre as relações entre os processos produtivos e a disposição das casas de vivenda senhoriais e das moradias escravas na planta das grandes fazendas e engenhos sulistas, cubanos e brasileiros. Pretendo, com isso, examinar o peso respectivo que a função e a representação arquitetônicas tiveram na conformação desses espaços.

Cabe ainda uma rápida explicação para a escolha do título do artigo. Gilberto Freyre, em uma das obras mais famosas da literatura mundial sobre a escravidão negra nas Américas, adotou como título justamente esses dois espaços de moradia, empregando-os como uma metáfora capaz de sintetizar o conjunto das relações sociais que pretendia apreender. Além de todos os problemas de Casa-grande & Senzala – já exaustivamente apontados pelos críticos há mais de meio século –, dois em especial chamam a atenção: primeiro, a anulação do tempo histórico; segundo, o completo olvidamento da dimensão do poder expressa nesses espaços de moradia. Daí a necessidade de revisitar, do ponto de vista da arquitetura e do poder, as relações históricas entre casas-grandes e senzalas na paisagem americana.



Processos produtivos, função e representações arquitetônicas

Há um bom tempo os historiadores da arquitetura no Brasil trabalham com a categoria "programa de necessidades" para entender de que modo os espaços construídos são determinados pelos usos funcionais a que se destinam (COSTA, 1941; LEMOS, 1999). Trata-se, sem dúvida, de uma ferramenta bastante útil para compreender as articulações entre os processos produtivos do algodão, do açúcar e do café e a implantação dos edifícios que compunham as fazendas e engenhos do sul dos Estados Unidos, de Cuba e do Brasil. Útil, porém insuficiente. Noutros termos, essas unidades rurais escravistas foram erigidas articulando de modo estreito as preocupações funcionais com os efeitos simbólicos que pretendiam produzir nos diversos grupos sociais nelas envolvidos – senhores, trabalhadores livres, escravos e comunidade externa à plantation. Para demonstrá-lo, é preciso antes de tudo examinar as demandas criadas pelos processos produtivos desses artigos sobre a implantação das fazendas e engenhos.

Começo pelo caso do algodão. O artigo foi cultivado para fins mercantis em todas as Américas desde o século XVI, mas, até meados do XVIII, seu valor comercial para as metrópoles foi diminuto. A razão se encontrava, sobretudo, na reduzida demanda européia. A partir do quarto final dos setecentos, com o advento da industrialização, o consumo do produto aumentou substantivamente, o que estimulou diversas regiões do Novo Mundo – como as terras baixas da Carolina do Sul e da Georgia, as Antilhas francesas e inglesas, as Guianas, o Suriname, Maranhão e Pernambuco – a produzirem o artigo. Até a década de 1790, predominou nas plantações americanas o granjeio das variedades do algodão arbóreo de fibra longa, cujo descaroçamento podia ser facilmente realizado por mecanismos (derivados da churka oriental) compostos de dois rolos pequenos postos em paralelo, que se moviam em direções opostas e eram acionados manualmente ou por pedais; o acondicionamento nos fardos, por sua vez, era feito com o próprio peso dos trabalhadores escravos (VELLOSO, 1806, p. 5-7) (Figura 1). Até então, o algodão herbáceo de fibra curta não tinha destinação comercial, haja vista as grandes dificuldades para o seu beneficiamento.

Na década de 1780, as maiores regiões produtoras de algodão do Novo Mundo eram Maranhão e Pernambuco (América portuguesa) e São Domingos (Antilhas francesas). Os estados do sul dos Estados Unidos eram, nesse momento, produtores marginais do artigo no mercado mundial. A virada veio na década seguinte, com a revolucionária invenção do descaroçador de Eli Whitney. O invento fez parte de um conjunto de esforços sistemáticos para ultrapassar os obstáculos que impediam a conversão do algodão herbáceo de fibra curta em gênero agrícola mercantil. A adoção do novo descaroçador de Whitney na então fronteira escravista do sul – as terras altas da Carolina do Sul e da Geórgia – foi imediata: além de aumentar enormemente a capacidade de beneficiamento do produto, permitindo o plantio do algodão de fibra curta em larga escala, o baixo custo do mecanismo tornou-o disponível a todos os proprietários escravistas das terras altas. A fácil conversão do cultivo do tabaco e do trigo para o do algodão simplificou a transição agrícola para o novo produto (GRAY, 1958, p. 2, 678-686; CHAPLIN, 1993, p. 277-329).

Se a invenção de Whitney superou de forma definitiva o gargalo para o beneficiamento do algodão de fibra curta, permaneciam as dificuldades para sua colheita. O cultivo não apresentava tantos problemas, pois já na década de 1790 adotou-se a técnica de plantá-lo em regos, com o uso do arado, e de efetuar a capina com o emprego combinado de arados e enxadas. Por outro lado, as variedades ordinárias de algodão de fibra curta – cultivadas na passagem do século XVIII para o XIX nas terras altas da Carolina do Sul e da Geórgia – reduziam em muito a capacidade de colheita por escravo, devido à dificuldade de retirar as cápsulas do vegetal. No Baixo Sul (Alabama, Mississippi, Louisiana), em fins da década de 1800, a criação de variedades híbridas de algodão de fibra curta (valendo-se para tanto de sementes do algodão mexicano) solucionou o problema. Os novos tipos de algodão que passaram a ser cultivados nos estados do sul a partir da década de 1810, mais produtivos e mais fáceis de serem colhidos, tiveram importância considerável no deslanche da economia algodoeira norte-americana, com o notável aumento da produtividade agrícola, tendência que ganhou impulso ainda maior com a ocupação e o cultivo, após 1820, da região da Black Prairie do Alabama e Mississippi, e das terras de aluvião do rio Mississippi (GRAY, 1958, p. 2, 689-690; WHARTENBY, 1977, p. 100-115; WRIGHT, 1978, p. 15-22).

Esse é um ponto fundamental para compreender a arquitetura das plantations algodoeiras no sul dos Estados Unidos. O foco do processo produtivo residia no campo, e não na manufatura. Antes da Guerra Civil, o aumento constante da produção algodoeira norte-americana escorou-se basicamente na ampliação da área de cultivo e no aumento de produtividade da planta e do trabalho escravo nas fainas agrícolas (WHARTENBY, 1977). Após a invenção de Whitney, as únicas inovações ocorridas na etapa de beneficiamento consistiram no melhoramento do mecanismo criado em 1793 e na aplicação de prensas mecânicas para o acondicionamento da fibra nos fardos destinados à exportação. Os edifícios reservados para tanto eram três: 1) o cotton gin, onde ocorria o descaroçamento, em geral um edifício de madeira com dois pavimentos, sendo o superior destinado à alimentação do maquinário com a matéria-prima e o inferior reservado à tração (animal ou à vapor) e à saída da fibra já descaroçada; 2) a prensa, movida por tração animal, com um eixo de madeira capaz de comprimir as fibras em fardos de 180 a 270 quilos; 3) o armazém destinado aos fardos (AIKEN, 1973; VLACH, 1993) (Figura 2). Esses edifícios podiam ser dispostos em qualquer ponto da sede da fazenda. No caso da produção algodoeira, por conseguinte, não houve um programa de necessidades que impusesse de forma rigorosa as demandas do processo produtivo sobre a implantação arquitetônica da unidade rural.

O mesmo não se pode afirmar a respeito do açúcar. Desde o início do século XVII, quando se criaram, em Pernambuco e na Bahia, as linhas gerais do padrão técnico que iria vigorar em todas as plantations americanas até o final do século seguinte, a complexidade do processo de produção impôs um certo programa de necessidades a ser atendido na construção do engenho (GAMA, 1983; WATTS, 1992). Como se sabe, a transformação do sumo da cana em açúcar envolve etapas distintas, porém articuladas. Após o corte, a cana precisa ser moída em menos de 24 horas, sob o risco de inviabilizar a produção. A primeira imposição do processo produtivo sobre a arquitetura dos engenhos, portanto, derivou desse elemento. Houve, desde o século XVII até o presente, uma relação estreita entre os meios de transporte disponíveis e a extensão e distância dos canaviais em relação à fábrica.

Mas não apenas isso. Antes do século XIX, o engenho de açúcar teve o caráter de manufatura orgânica. Conforme indicou a análise de Marx sobre esta base técnica, a proporcionalidade matemática existente entre cada uma das atividades a serem desempenhadas só permitiria a ampliação da escala de produção por meio da multiplicação simétrica de todas as etapas do processo produtivo, com seu respectivo número de trabalhadores (MARX, 1990, v. I, p. 280-281). Foi o que ocorreu nas plantations açucareiras dos séculos XVII e XVIII. A quantidade de cana a ser plantada era determinada pela capacidade de produção do engenho, que, por sua vez, obedecia à correlação entre capacidade de esmagamento das moendas, de processamento do caldo no terno das caldeiras e de purificação dos pães de açúcar na casa de purgar. O equilíbrio existente entre essas fases significava que, caso fosse adotada uma mudança em uma determinada etapa, todo o processo teria que ser revisto para atender à proporcionalidade que regia o conjunto (CASTRO, 1976).

Em que pesem algumas propostas surgidas em fins do século XVIII, como a de Jacques-François Dutrône para São Domingos (1790), a arquitetura dos engenhos de açúcar do Novo Mundo foi relativamente uniforme durante todo esse período. Moenda e casa das caldeiras faziam parte de uma única edificação ou eram inscritas em construções contíguas. Nos engenhos da América portuguesa e das Antilhas francesas – que produziam açúcar branco e não apenas açúcar bruto (como nas Antilhas inglesas) –, a casa de purgar constituía um edifício à parte. Por fim, no caso das moendas movidas à água ou vento, havia uma outra determinação, qual seja, a da proximidade das fontes de energia3.

A imposição das necessidades do processo produtivo açucareiro sobre a planta arquitetônica das unidades rurais escravistas acentuou-se ainda mais após 1830, com a revolução tecnológica ocorrida no setor. Nas Américas, isso se deu sobretudo em Cuba e, em menor escala, no Delta do Mississippi. Quebrando com o caráter de manufatura orgânica, o engenho de açúcar adquiriu nessas regiões o estatuto de verdadeira indústria no campo. A moagem, o cozimento e a purificação foram, então, profundamente transformados. As novas moendas horizontais, construídas com ferro fundido e movidas a vapor, ampliaram em muito a capacidade de extração do sumo da cana. Essa inovação era compatível com o padrão técnico manufatureiro anterior, mas em contrapartida exigia a multiplicação do número de ternos de caldeiras abertas e a ampliação substancial nas dimensões da casa de purgar, o que tornava ainda mais complicados os controles técnicos do processo produtivo (Figura 3). A solução para o problema veio com as caldeiras a vácuo, que aumentavam enormemente a produtividade do engenho, garantiam um controle técnico preciso sobre o cozimento, e reduziam em muito a demanda de trabalho e combustível, pois aproveitavam a energia a vapor que era gerada para movimentar a moenda. No que se refere ao preparo final do produto, as centrífugas eliminaram o difícil e prolongado processo de purga necessário para a cristalização do açúcar (FRAGINALS, 1987; SITTERSON, 1973) (Figura 4).

Tudo isso implicou a revisão profunda da planta arquitetônica dos engenhos. Criou-se a necessidade, antes de qualquer coisa, de um enorme alargamento da área de cultivo. Em regiões já densamente ocupadas por uma rede estabelecida de engenhos, como nas colônias inglesas e francesas no Caribe ou no Recôncavo baiano, esse ponto representou considerável obstáculo para a inovação. Em Cuba, pelo contrário, havia amplas reservas de terra virgem no interior do território. A construção, a partir de 1837, da malha ferroviária cubana viabilizou o estabelecimento de engenhos afastados dos portos marítimos. As ferrovias, além de diminuírem os custos de transporte dentro da ilha, permitiram a ampliação da escala de produção das unidades açucareiras, pois, dentro das maiores plantations, a construção de trilhos facilitava e acelerava o transporte de cana para as moendas (GARCÍA; ZANETTI, 1998). A combinação do emprego das moendas horizontais movidas a vapor, das caldeiras de múltiplo efeito a vácuo, das centrífugas e das ferrovias deu origem aos engenhos açucareiros completamente mecanizados de Cuba, que passaram a dominar a paisagem até então desocupada no interior da região centro-ocidental da ilha. As unidades que foram aí erguidas obedeciam em grande parte às demandas funcionais criadas pelo novo padrão técnico da indústria açucareira, adotando um modelo de implantação arquitetônica inédito na história do produto (TOMICH, 2005a) (Figura 5).

Tal como o açúcar, a produção de café requeria certos procedimentos que condicionavam de forma decisiva a construção da fazenda. No entanto, no que se refere à complexidade do beneficiamento, a cafeicultura é bem mais próxima da produção algodoeira do que da fabricação do açúcar, pois se trata de um processo físico, e não químico. O beneficiamento do café consiste apenas na separação da semente dos dois invólucros que a revestem, a polpa e o pergaminho. O método que os árabes – primeiros produtores do artigo – haviam adotado para tanto era deixar os frutos maduros secarem por um longo tempo, em panos dispostos no chão e expostos ao sol, até o ponto em que a polpa e o pergaminho fossem facilmente retiráveis em pilões manuais (VELLOSO, 1800). Quando, na virada do século XVII para o XVIII, os poderes coloniais europeus passaram a produzir o artigo, foram introduzidas modificações importantes, visando, em especial, ao aumento na escala da produção. Isto ocorreu sobretudo com o sucesso da aclimatação do arbusto na América. Na segunda metade do século XVIII, ocasião em que as Antilhas francesas se tornaram a maior produtora mundial do gênero, criou-se um conjunto de normas técnicas que, em suas linhas gerais, é até hoje seguido por uma parte considerável dos produtores globais.

Esse padrão pode ser observado no trabalho de P. J. Laborie, um grande produtor escravista de café de São Domingos. Laborie foi um daqueles senhores que, no curso da revolução escrava na década de 1790, apoiaram a invasão inglesa da colônia francesa como meio para restabelecer a ordem escravista. Para tanto, redigiu, com base em sua experiência de cafeicultor, o manual The Coffee Planter of Saint Domingo, destinado a guiar os eventuais investidores ingleses no processo de reconstrução da economia escravista da colônia. O projeto de Laborie foi derrotado com a vitória das tropas de ex-escravos, comandadas por Touissaint L'Ouverture, mas seu manual persistiu como a principal referência agronômica sobre o assunto por todo o século XIX.

O tratado foi dividido em quatro capítulos, que abordaram a escolha e preparo dos terrenos para o plantio do café, a construção e distribuição dos edifícios, a cultura e processamento dos grãos e, por último, a administração dos escravos. Para nossos fins, importa salientar de que modo as técnicas prescritas por Laborie determinavam a implantação da unidade rural. O método por ele recomendado, dada a alta pluviosidade caribenha, era o que por lá se denominava "preparação em casca", conhecido no Vale do Paraíba como "via úmida". Neste método, a polpa dos frutos era imediatamente retirada após a colheita por uma máquina despolpadora acionada por energia hidráulica; envolvidos apenas pelo pergaminho, em seguida os grãos eram lavados durante 24 horas em tanques com água corrente, com o duplo propósito de tirar a goma das sementes e de separar os grãos maduros dos cochos que, ao serem colocados nesses tanques, subiam à superfície – estes grãos, apartados dos maduros, davam posteriormente um café de inferior qualidade. Após a lavagem, os grãos em pergaminho eram levados aos terreiros (ou plataformas de secar, nome que lhes era dado nas Antilhas francesas), e, quando completamente secos, procedia-se à retirada final do pergaminho nos moinhos de descascar (no caso, em um mecanismo que, no Brasil, seria conhecido como carretão ou ripes), encerrando-se o processo com a escolha dos grãos e o seu ensacamento (LABORIE, 1798).

Dois pontos se destacavam nessas técnicas: 1) a importância fundamental do abastecimento constante de água para a movimentação dos mecanismos de beneficiamento e lavagem dos grãos; 2) a centralidade dos terreiros. A rigor, pelas pranchas que apresentavam algumas das mais eficientes plantations cafeeiras de São Domingos, nota-se facilmente como o terreiro gerava o conjunto arquitetônico da fazenda (Figura 6).


Após o colapso da produção de São Domingos com a vitória da revolução escrava, Brasil, Cuba e Java herdaram a posição da antiga colônia francesa no mercado mundial do artigo. A partir da década de 1830, com o deslanche da cafeicultura escravista no Vale do Paraíba, essa posição coube exclusivamente ao Brasil (VALVERDE, 1985). Por aqui, entretanto, houve algumas alterações no que se refere à base técnica da produção, tanto na esfera agrícola como na manufatura. O que nos interessa é a segunda parte. Entre as décadas de 1830 e 1860, o processo de beneficiamento adotado por praticamente todos os cafeicultores do Vale do Paraíba foi o da "via seca", que consistia na secagem dos frutos colhidos em terreiros de chão batido (após 1850, não raro asfaltados ou ladrilhados) até o ponto em que as polpas estivessem completamente secas. A separação da polpa e do pergaminho ocorria num engenho de pilões – mecanismo que reunia quatro pilões movidos a água num só conjunto (Figura 7) – , tendo, por vezes, ventiladores unidos ao eixo da roda para limpar a poeira originada com a quebra dos revestimentos dos grãos do café; em seguida, o grão já limpo ia para a casa da escolha, após o que o café estava pronto para ser ensacado e enviado ao mercado (AGUIAR, 1836, p. 15-17).



A despeito dessas alterações, o terreiro – compreendido na documentação coeva como o centro do "quadro da fazenda" – permaneceu como a forma geradora do conjunto arquitetônico cafeeiro (CARRILHO, 1994, p. 120). O principal manual agrícola do Vale do Paraíba oitocentista, a famosa Memória, do barão do Paty do Alferes, reconheceu isso de modo muito evidente. Ao fornecer as instruções para a construção de uma fazenda de café, escreveu Lacerda Werneck:

[...] apenas achado o lugar para sentar as máquinas, que, se for possível, devem ficar no quadro da fazenda, tirará ou mandará tirar a planta, com a designação da casa de moradia, de todas as máquinas que forem necessárias, de paióis e armazéns, de cavalariças e senzalas para a moradia dos pretos (WERNECK, 1985, p. 57).

Mesmo com os melhoramentos da segunda metade do século XIX, como o emprego do maquinário Lidgerwood, a construção de terreiros asfaltados e ladrilhados ou a adoção da "via úmida" de beneficiamento, não houve mudança nessas demandas construtivas (Figuras 8 e 9). No caso da cafeicultura brasileira, portanto, a inovação técnica não se traduziu em revisão radical da implantação arquitetônica, tal como ocorreria com a produção açucareira.

Do que foi exposto até o momento, é possível depreender que as exigências de processos produtivos como os do açúcar e o do café criaram um claro programa de necessidades para a construção de engenhos e fazendas, o que em absoluto significa afirmar que responderam sozinhas pela implantação dessas unidades. Outras escolhas estiveram em jogo, mesmo para fazendas e engenhos que seguiam um padrão técnico análogo ou que produziam artigos distintos. Uma rápida comparação entre plantations das regiões examinadas servirá para comprová-lo.

Tome-se, em primeiro lugar, o exemplo da habitation cafeeira de São Domingos, veiculado por Laborie, e um esquema de implantação da fazenda Boa Vista (Bananal, Vale do Paraíba paulista), feito a partir de um óleo de Georg Grimm. Tanto em um caso como em outro, o terreiro ocupa posição central no conjunto arquitetônico. Todavia, enquanto na habitation de Laborie a casa de vivenda se localiza fora de seu eixo central e as senzalas ocupam apenas uma de suas faces (Figura 6), na fazenda Boa Vista a casa de vivenda – monumental, diga-se de passagem – não só ocupa o eixo central do terreiro como o partido arquitetônico obedece claramente ao modelo em U proposto por Palladio, conjugando-o com duas senzalas em quadra, uma defronte e outra atrás da casa de vivenda (Figuras 10 e 11). Um segundo exemplo pode ser buscado na Louisiana e em Cuba. A plantation Uncle Sam e o ingenio Manacas tinham o mesmo padrão técnico, isto é, eram engenhos semimecanizados, que compatibilizavam o emprego de moendas horizontais a vapor com ternos de caldeiras abertas (Figuras 12 e 13). No que se refere à implantação arquitetônica, entretanto, a Uncle Sam era muito mais parecida com as plantations algodoeiras do sul dos Estados Unidos do que com suas equivalentes açucareiras em Cuba.

Para entender essas diferenças, é necessário recorrer a uma chave interpretativa que não se limite à mera explicação funcional. Em outras palavras, atentar para os elementos de representação mobilizados na ordenação dos espaços de produzir e de morar dessas plantations pode ajudar a compreendê-las devidamente. No que se segue, apresento em poucas páginas um esquema geral de interpretação dessas relações em grandes fazendas e engenhos do sul dos Estados Unidos, de Cuba e do Brasil, que se apropriaram de elementos particulares da tradição do palladianismo e do vocabulário estilístico do neoclássico, reconfigurando-os conforme os condicionamentos locais, isto é, de acordo com as sociedades escravistas e os quadros políticos a que pertenciam.



O sul dos Estados Unidos e o republicanismo jeffersoniano

Retomemos a penúltima imagem que foi apresentada (Figura 12). Trata-se de um desenho a vôo de pássaro da plantation Uncle Sam, feito nos anos 1940. Localizada no Delta do Mississippi, essa propriedade pertencente a Samuel Faggot foi erguida na segunda metade da década de 1830. Em meados do século, sua unidade açucareira semimecanizada movida a vapor contava com cerca de 165 escravos (VLACH, 1993, p. 191). A casa de vivenda, de inspiração neoclássica, era secundada simetricamente por duas garçonnières, dois escritórios e dois pombais, e localizava-se logo na entrada da propriedade, defronte ao rio Mississippi. As moradias dos escravos estavam dispostas em dois locais distintos. Uma primeira fileira de senzalas, que se iniciava com a enfermaria, encontrava-se à esquerda da casa senhorial, ao passo que um segundo agrupamento de moradias, também enfileiradas, ficava bem ao fundo da sede da plantation. Em posição transversal entre os dois conjuntos de senzalas, assentavam-se as instalações produtivas – moendas, caldeiras, armazéns.

Sua implantação, portanto, separava de forma nítida os espaços de moradia de senhores e escravos. A Uncle Sam tinha uma semelhança muito acentuada com outra plantation açucareira do Delta do Mississippi, a Evergreen, que, até recentemente, mantinha de pé suas senzalas oitocentistas. A casa de vivenda localizava-se na entrada da plantation e se encontrava voltada para o rio, ao passo que a fileira de casebres escravos ficava à sua esquerda, nitidamente separada da casa senhorial (Figuras 14). Enquanto a casa de vivenda atendeu ao revival grego corrente no sul dos Estados Unidos a partir da década de 1820 (Figuras 15 e 16), as senzalas geminadas – cada qual destinada a duas famílias escravas – foram construídas seguindo rigorosamente as prescrições da teoria administrativa coeva (Figura 17), isto é, enfileiradas, sombreadas, uniformes em tamanho e aparência, providas de janelas e varandas, erigidas em madeira, assoalhadas, elevadas a dois pés de altura do chão, com chaminés de pedra e tijolos (MARQUESE, 2004, p. 361-362).

Uncle Sam e Evergreen, além de serem da mesma região, produziam um mesmo artigo. A plantation Thornhill, por sua vez, ficava na Black Prairie algodoeira do estado do Alabama. Construída entre 1833 e 1835, às vésperas da Guerra Civil empregava 156 escravos. Como se pode depreender de uma elevação frontal da casa de vivenda feita um século após sua construção, seu estilo combinava seis colunas jônicas – um aporte oitocentista – com um risco de estilo georgiano, típico da Virgínia setecentista (Figura 18). Ainda que o vocabulário fosse distinto, a implantação arquitetônica era praticamente igual ao que se observava no Delta do Mississippi (Figura 19): casa de vivenda voltada para a entrada da plantation (no caso, na beira da estrada, e não do rio), moradias escravas em linha, na retaguarda e afastadas da casa senhorial, instalações produtivas ao final da alameda das senzalas. Vlach (1993, p. 189-190) esclarece que nem todos os cativos de Thornhill residiam nas moradias que aparecem no plano; cerca de dois terços da escravaria vivia em dois agrupamentos de senzalas próximos aos campos de algodão.

O último exemplo a ser apontado para o caso norte-americano é, certamente, o mais célebre, e servirá para demonstrar a existência de um padrão comum em todo o sul dos Estados Unidos, de Chesapeake ao Golfo do México. Refiro-me a Monticello, a famosa plantation de Thomas Jefferson, visitada exaustivamente desde o século XIX e transformada em um dos principais lugares da memória da República norte-americana. Seu projeto, elaborado pelo próprio Jefferson, baseou-se em uma leitura direta dos Quattro Libri de Palladio, combinando essa referência com outras matrizes arquitetônicas. De todo modo, a primeira referência foi primordial, sobretudo na consecução do plano em U (Figuras 20 e 21). Palladio considerava essas dependências laterais como os "braços" da villa, cuja cabeça e tronco seriam exatamente a casa-grande; por essa razão, aos braços eram reservadas as instalações voltadas para a produção e o serviço da casa de vivenda. Em seu projeto de 1772, Jefferson inspirou-se claramente em Palladio, imprimindo-lhe, no entanto, a brutalidade das relações escravistas de poder. Organizados em dois pavimentos, os braços do Monticello tinham, em sua parte superior, um terraço para desfrute da família e visitantes brancos, e, em sua parte inferior, as dependências de serviço e os alojamentos dos escravos domésticos.

Os brancos literalmente andavam sobre as cabeças dos negros. Subjacente a tal escolha arquitetônica, havia a idéia de apagar do raio de visão senhorial a presença da população escravizada, e é nisso que Monticello se aproximou das demais plantations do sul dos Estados Unidos. Tal como nas outras unidades escravistas examinadas, os trabalhadores rurais que Jefferson mantinha no cativeiro residiam em agrupamentos alinhados de senzalas, afastados da sede (ACKERMAN, 1990, p. 186, 193; DALZELL JR., 1993).

Como explicar esse modelo de implantação? Como se viu, a resposta não se encontra no programa de necessidades da produção do açúcar, do algodão ou de outros gêneros, mas sim no quadro das relações sociais e políticas mais amplas. Dentre as sociedades escravistas do Novo Mundo, o sul dos Estados Unidos se notabilizou pela cisão absoluta entre o universo dos brancos livres e o universo dos negros escravizados, algo que foi sendo paulatinamente construído ao longo do século XVIII, consolidando-se de forma definitiva na primeira década dos oitocentos, quando a pele negra se tornou marca de um estatuto permanentemente subalterno. Isso foi decorrência, em primeiro lugar, da virtual ausência de alforrias no sul (a exceção foi o breve período que se seguiu à Guerra de Independência), que levava a uma associação quase imediata entre a cor negra e a condição escrava, e, em segundo lugar, do próprio mecanismo de reprodução de seu sistema escravista. Como se sabe, o crescimento vegetativo da população escrava – presente em Chesapeake desde o início do século XVIII e, em Lowcountry, desde sua segunda metade – possibilitou, na centúria seguinte, a incrível expansão do escravismo norte-americano sem a necessidade do tráfico negreiro transatlântico (GENOVESE, 1974; BERLIN, 1998; MORGAN, 1998).

O fato de a escravaria ser crioulizada, de se organizar em núcleos familiares relativamente estáveis e de a população negra livre ser diminuta e estritamente vigiada pelos poderes públicos dispensou a adoção, dentro das plantations, de formas rigorosas de confinamento espacial. Em uma frase, o risco de fugas ou rebeliões não teve qualquer papel na conformação da moradia escrava no sul dos Estados Unidos. Daí as senzalas não terem trancas e não serem vigiadas de perto pelo olhar branco, o que em absoluto significou ausência de controle ou interferência senhorial. Simetria e uniformidade arquitetônicas eram, em si, um terrível ato de expressão do poder dos senhores sobre seus escravos, algo que os últimos percebiam de forma cristalina (VLACH, 1993, p. 162-165).

Mais importante, no entanto, foi o fato de as casas de vivenda buscarem poucos efeitos de representação diante dos escravos. De acordo com a sugestão de Epperson (1999, p. 168), a escravaria não era a audiência primordial da arquitetura veiculada pelas casas-grandes do sul dos Estados Unidos. Elas, afinal, davam suas costas para as senzalas, voltando-se antes aos rios e às estradas, isto é, às vias por onde trafegavam aqueles que iriam consumi-las visualmente. Noutras palavras, seu público-alvo era a comunidade branca, e, para entender corretamente o ponto, deve-se mirar para o sistema político norte-americano anterior à Guerra Civil.

É hoje assente, na historiografia, que os estados do sul eram regidos por uma verdadeira democracia eleitoral, baseada, no entanto, numa clivagem racial profunda entre brancos – inclusive os pobres – com plenos direitos políticos, e negros, sem direito algum. A rigor, era justamente a presença da escravidão negra que fornecia a base material e ideológica para a igualdade política entre os brancos. A fim exercerem o controle do jogo político, os grandes proprietários tinham que lutar pelos votos e pelo apoio dos pequenos proprietários escravistas ou mesmo dos não-proprietários de escravos (COOPER JR., 2000; PARISH, 1989, p. 124-138). Nesse jogo, o papel das casas-grandes monumentais foi de grande relevância: ao exprimirem o poder, o sucesso empresarial e a capacidade de liderança de seus senhores, acabaram por prestar serviços importantes ao exercício da hegemonia dos grandes plantadores sobre a sociedade sulista.

O círculo se fecha uma vez mais com Monticello. O republicanismo jeffersoniano ofereceu aos senhores de escravos sulistas o núcleo duro de sua ideologia política. Esse ideário bebia diretamente no modelo de ordem e independência veiculado pela tradição dos teóricos ingleses da commomwealth e também do palladianismo, e que, por sua vez, era plenamente compatível com o paternalismo que estava na base do ethos senhorial (MORGAN, 1975; OAKES, 1990; ASHWORTH, 1995). Por todas essas razões, segundo o raciocínio dos proprietários, seus escravos, racialmente inferiores e equivalentes a adolescentes brancos, jamais poderiam ocupar a face mais visível das plantations.



Cuba e o estatuto colonial

Os grandes engenhos açucareiros cubanos erigidos após a década de 1830 seguiram um padrão radicalmente distinto de implantação arquitetônica. Bem o demonstram os exemplares apresentados no álbum ilustrado Los Ingenios, editado em Havana em 1857. Já tivemos oportunidade de observar algumas de suas litografias na primeira parte deste artigo (Figuras 3, 4 e 5). O livro, publicado sob a patronagem, e com textos explicativos, do proprietário escravista Justo Cantero, nascido em Trinidad e formado em medicina pela Universidade de Harvard, pretendia servir simultaneamente como uma peça de propaganda do setor mais empreendedor da classe senhorial – afinada com o espírito científico e tecnológico do mundo industrial – e como um meio de difundir entre todos os produtores cubanos o avanço técnico que vinha ocorrendo nos grandes engenhos de açúcar da ilha. Seu destaque, contudo, não era o texto de Cantero. A obra continha vinte e oito litogravuras coloridas, de grande beleza, compostas com um notável apuro técnico pelo artista francês Eduardo Laplante, até então empregado na indústria tabaqueira cubana. Dessas litogravuras de Laplante, vinte e seis representavam os grandes engenhos mecanizados e semimecanizados de Cuba, acrescidas por mais seis plantas arquitetônicas de alguns deles (VENEGAS, 1996; TOMICH, 2005b).

Passemos ao exame da implantação de três engenhos desta série. O primeiro deles – o Flor de Cuba, pertencente à família Arrieta – foi o que recebeu maior destaque no livro, pois, afora uma vista do conjunto, Laplante inseriu em sua obra a planta arquitetônica e uma representação interna da casa das caldeiras (Figura 4). Fundado em 1838, esse engenho localizava-se a doze léguas da baía de Cárdenas. Com uma capacidade produtiva superior a 3 mil toneladas métricas anuais, garantida pela completa mecanização do processo de fabricação, em 1857, o Flor de Cuba empregava uma força de trabalho composta por 409 escravos e 170 collies chineses (CANTERO; LAPLANTE, 1857). Na vista composta por Laplante, dois edifícios chamam a atenção do observador (Figura 22). A despeito de o primeiro plano ser ocupado por um açude e pelas oficinas de carpintaria, o olhar é logo atraído para o edifício localizado ao fim da estrada de acesso, tanto mais destacado pela presença de três altas chaminés. Trata-se da casa das caldeiras movidas a vapor, que abrigava não apenas o maquinário a vácuo mas igualmente o jogo das centrífugas e as moendas horizontais interligadas por esteiras móveis. O outro edifício em questão é o enorme barracão que alojava os trabalhadores do engenho, localizado ao fundo na imagem. Medindo 144 por 128 metros, foi um dos maiores construídos em Cuba (FRAGINALS, 1987). A casa de vivenda senhorial de dois pavimentos, em posição perpendicular entre a casa das caldeiras e a casa de purgar, praticamente desaparece diante dessas grandes construções.

Ainda que suas dimensões fossem menores, o ingenio Unión, pertencente a Lamberto Fernández e localizado na jurisdição de Cienfuegos, tinha uma planta semelhante ao Flor de Cuba. Como se pode ver em sua litografia (Figura 23), o centro do conjunto é ocupado pelo eixo composto por casa das caldeiras – totalmente mecanizada, algo que se depreende visualmente pela presença de uma única chaminé – e casa de purgar. Entre esses dois edifícios, projeta-se o campanário do engenho, ponto de observação dos trabalhos no batey e locus da marcação do tempo do engenho pelo relógio. Em lados opostos, ficam a casa de vivenda, com plano em L, e o barracão dos escravos, em plano retangular. Novamente, para se encontrar a casa senhorial, exige-se do observador uma certa atenção.

O terceiro exemplo é o do ingenio Armonía, localizado na jurisdição de Güines e pertencente à sociedade de Miguel de Aldama e José Luís Alfonso. Neste caso, Laplante optou por conjugar uma vista interna da casa das caldeiras (Figura 24) com a planta do conjunto arquitetônico (Figura 25). Como bem ressalta o historiador Carlos Venegas,

[...] o ingenio Armonía [...] era um modelo de distribuição espacial – daí seu nome – por sua orientação geográfica, posição dos edifícios, delineamento dos campos, tudo harmonicamente organizado a partir de uma grande casa de máquinas com planta em forma de cruz, que ocupava o centro da plantação, com acessos de todos os ângulos facilitando o ritmo da produção desde os mesmos campos, como uma totalidade agroindustrial (Venegas, 1996, p.97).

A esse registro, deve-se acrescentar algo a respeito das posições relativas da casa de vivenda e da senzala. Assim como em muitos dos grandes engenhos cubanos mecanizados e semimecanizados, a moradia escrava do Armonía consistia em um enorme barracão, de pátio construído em alvenaria, cujas características marcantes eram a entrada única, fechada com portão de ferro, as trancas noturnas, os cubículos sem janelas, com pequenas frestas gradeadas e portas voltadas ao pátio (MARQUESE, 2005). Do lado oposto ao barracão, encontrava-se a casa de purgar. Abaixo, localizava-se a casa de vivenda senhorial, ladeada, à direita, por uma horta e pela serralheria e, à esquerda, por um jardim e pela enfermaria dos escravos. Moradia senhorial e moradia escrava, portanto, eram claramente separadas e ocupavam, no conjunto, uma posição secundária frente à centralidade dos edifícios voltados à produção açucareira.

Uma mirada na totalidade das litogravuras de Laplante levanta um problema: com exceção dos engenhos Manacas e Buena Vista, ambos localizados no Valle de los Ingenios, em Trinidad, e o segundo deles pertencente a Cantero, todos os demais não tinham casas de vivenda que se destacassem no conjunto das edificações. Com efeito, mesmo nas maiores unidades açucareiras ou em engenhos como o Manacas e o Buena Vista, as casas senhoriais, ainda que seguissem padrões de arquitetura erudita claramente filiados ao movimento neoclássico, eram relativamente simples, caso as comparássemos com suas equivalentes do sul dos Estados Unidos e, como se verá adiante, do Vale do Paraíba cafeeiro. Além do mais, em muitos desses engenhos a moradia escrava se caracterizava por uma forma arquitetônica única no conjunto das plantations americanas, o barracão de pátio.

Novamente, para compreender a especificidade da implantação arquitetônica dos engenhos cubanos, devemos voltar nosso foco ao esquadro das relações sociais e políticas. O dado fundamental, aqui, é a ordem colonial da ilha. No contexto da crise do regime colonial espanhol, Cuba e Porto Rico foram as únicas colônias que permaneceram atadas à metrópole. Como há muito é salientado pela historiografia sobre o caso cubano, esse caminho derivou do projeto escravista de suas classes senhoriais. Em troca do apoio espanhol para a manutenção da escravidão e do tráfico negreiro transatlântico diante das crescentes pressões inglesas, sua elite seguiu à risca o tema da "sempre fiel ilha de Cuba". Tal opção valeu tanto para os períodos em que seus representantes tiveram assento nas Cortes peninsulares, gozando Cuba da condição de província do reino espanhol (como ocorreu entre 1810-1814 e 1820-1823), como para os períodos de regresso absolutista (1814-1820, 1823-1836). Mesmo por ocasião das Cortes liberais de 1836-1837 – quando Cuba deixou de ser considerada província da Espanha e seus deputados foram impedidos de tomar assento em Madri –, a elite escravista não questionou a relação com a metrópole. Se a decisão representou uma derrota para os liberais reformistas cubanos, a elite açucareira escravista aceitou de bom grado o novo estatuto da ilha4.

Qual o significado disso tudo para a arquitetura dos engenhos? Ora, o locus para o exercício da política não se encontrava no nível local, na região dos engenhos, mas sim em Havana, onde residiam o Capitão-Geral e o Intendente, responsáveis respectivamente pelo governo militar-civil e pelo governo econômico da ilha. Os grandes senhores, proprietários de vários engenhos, só estacionavam em suas unidades açucareiras no período de safra, efetuada no inverno ou na estação seca, quando diminuíam as chuvas e o clima se tornava mais agradável. Noutras palavras, as casas de vivenda dos engenhos cubanos não desempenhavam qualquer papel no jogo político insular, representando apenas um pouso ou, no máximo, um lugar de deleite familiar (VENEGAS, 1996).

Espaço de pouso e deleite, dominado, no entanto, por uma população predominantemente africana e refratária ao mando senhorial. A despeito de sua proibição em 1820, o tráfico transatlântico de escravos para Cuba prosseguiu na ilegalidade até bem entrada a década de 1860. A concentração de enormes massas de africanos escravizados nas plantations da ilha acirrou suas tensões sociais. Os constantes levantes e os crescentes rumores de planos de articulação entre abolicionistas ingleses e escravos dos engenhos levaram os grandes senhores cubanos a adotar formas rigorosas de confinamento dos trabalhadores cativos. Para tanto, recorreram à experiência que tinham como traficantes de escravos na Costa d'África – caso de Aldama, Alfonso e muitos outros. Como procurei demonstrar em outro texto, os barracões de pátio que foram construídos em Cuba após a década de 1830 se inspiraram diretamente nos barracões de embarque dos cativos antes da travessia transatlântica (MARQUESE, 2005).

Elaborar a imagem de que submetiam seus escravos por laços paternais nunca passou pela cabeça dos grandes senhores cubanos. Aos cativos, cabia o cárcere do barracão, longe da vista da casa de vivenda, reservada para a safra. O engenho era compreendido antes como uma fábrica no campo do que como o lugar de moradia de uma família extensa, representação senhorial corrente no sul dos Estados Unidos e no Brasil. As plantations açucareiras exigiam pesados investimentos, e, no caso das unidades mecanizadas, uma complexa tecnologia que as colocava no mesmo passo do desenvolvimento industrial dos países centrais. Para uma classe senhorial ciosa de sua imagem empreendedora, era mais do que lógico que o centro do conjunto arquitetônico fosse ocupado pela casa das caldeiras.



Império do Brasil e o jogo do clientelismo

As plantations do Vale do Paraíba cafeeiro guardaram pontos de contato e de afastamento em relação às suas congêneres do sul dos Estados Unidos e de Cuba. O primeiro exemplo a ser exposto é o da fazenda Boa Vista (Bananal, província de São Paulo) (Figura 10). Fundada em fins do século XVIII, a sede, composta por terreiros, engenhos, senzalas e casa de vivenda, foi finalizada por Luciano José de Almeida – então seu proprietário – na década de 18405. Em inventário de 1854, além da listagem de 815 escravos, dos quais mais da metade residia na Boa Vista, há referência à existência de dois conjuntos de senzalas em quadra. Por uma pintura oitocentista da fazenda, percebe-se claramente qual a disposição delas. A primeira localizava-se em frente à casa de vivenda, e era composta por sessenta lanços de senzalas mais tulhas e um engenho de pilões, ambos assentados em um único edifício disposto na parte superior direita do terreiro. A segunda quadra, apenas com os quarenta e nove lanços de senzalas, encontrava-se atrás. Na quadra frontal, nota-se a existência de um único portão de entrada; todas as portas dos lanços da senzala, por sua vez, voltavam-se para o terreiro. A planta seguia claramente o partido em U proposto por Palladio, cujo eixo era dado pela casa de vivenda.

O segundo exemplo, ainda que não tenha obedecido a esse plano palladiano, acompanhou as demais soluções da Boa Vista. Trata-se da fazenda do Retiro, de Paraíba do Sul (atual Bemposta, Rio de Janeiro), uma das inúmeras propriedades do clã dos Werneck (TAUNAY, 1939, p. 8, 329). Como documento para essa fazenda, temos um óleo pintado por Georg Grimm em 1881 (Figura 26). Nele, observa-se a presença de dois terreiros de café, um fora do risco da sede, outro disposto no interior da quadra que abrigava os cubículos dos escravos, as habitações do feitor, a tulha e o engenho. Seguiu-se, aqui, o típico padrão vale-paraibano da senzala em quadra: isolamento em relação ao espaço externo à fazenda, garantido por meio de sua disposição retangular, pelos compartimentos de habitação dos cativos que se comunicavam apenas com o terreiro, pela inexistência de janelas, pelos muros altos e pela entrada única fechada com portão. Uma de suas faces, além do mais, era parcialmente preenchida pelo volume do sobrado senhorial. Em fotos atuais da fazenda (Figura 27), vê-se que a parte do pavimento inferior que se conectava com o quadrado era reservada às dependências de serviço da casa de vivenda, havendo ainda, nesta face, uma capela em pé-direito duplo (Figura 28), com acesso independente fora do muro – a última porta do rés-do-chão. Em sua fachada, a casa-grande se apropriava de parte do vocabulário neoclássico, como se observa na composição ordenada, no entablamento adotado, na moldura e pestana das janelas ou nos capitéis das pilastras dos cunhais. E, tal como na Boa Vista, todo o conjunto regia-se por uma integração estreita entre moradia escrava e moradia senhorial.

O último exemplo é, certamente, o mais grandioso. A fazenda Flores do Paraíso (Figura 29) foi construída em meados do século XIX no coração da cafeicultura fluminense, no então município de Valença. Seu proprietário era Domingos Custódio Guimarães, nascido em São João del Rei em 1800, barão em 1854 e visconde do Rio Preto em 1867. A origem da fortuna de Custódio Guimarães datava da década de 1820, quando, em sociedade com o também mineiro José Francisco de Mesquita, fundou a companhia Mesquita & Guimarães, especializada no abastecimento de carne para a Corte Imperial e na venda de escravos africanos serra acima (LENHARO, 1993, p. 62; TAUNAY, 1939, p. 5, 183-184). Na década seguinte, inverteu seus capitais, acumulados no comércio e no tráfico, na compra de terras e no plantio de café na região do vale do rio Preto (afluente do Paraíba), divisa das províncias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. O centro de suas atividades foi a sesmaria das Flores, adquirida em 1843, onde levantou a sede da Flores do Paraíso, finalizada dez anos depois (MUNIZ, 1979, p. 80-85; ALEGRIO, 2004, p. 33). Conhecida como a "jóia de Valença", a fazenda notabilizou-se pela adoção de uma série de inovações técnicas, como iluminação a gás, terreiros asfaltados e um avançado maquinário de beneficiamento cafeeiro implantado no início da década de 1860. Afora tudo isso, em 1875 a fazenda foi registrada pelo pincel de Nicolau Facchinetti, em uma das mais belas paisagens desse pintor italiano (MARTINS; PICCOLI, 2004).

O que nos interessa é a sua planta. A via de acesso, que já no século XIX contava com a alameda de palmeiras imperiais ainda hoje existente, conduzia diretamente ao vão central da casa de vivenda. Com feições de palacete urbano, suas três portas da entrada eram encimadas por arcos plenos com bandeiras de ferro, em uma composição bem ao gosto do estilo neoclássico corrente na Corte Imperial (Figuras 30, 31 e 32). O partido palladiano em U – preenchido pelos dois terreiros de café – era obtido por meio dos edifícios voltados ao processo produtivo e à morada dos trabalhadores. Assim, em seu braço esquerdo, estavam dispostas a casa do engenho e a tulha (Figura 9). O braço direito, por sua vez, era ocupado pela grande enfermaria da propriedade (Figura 33) e pela morada dos trabalhadores cativos. Neste ponto, Palladio se encontrava com o tráfico negreiro transatlântico: acoplada à ala direita, estava a enorme senzala em quadra da Flores do Paraíso (Figura 34). Quando do falecimento do Visconde do Rio Preto, em 1868, residiam aí cerca de 540 escravos, o que a aproximava dos maiores barracões de Cuba. No entanto, ao contrário da colônia espanhola, o contato visual entre moradia escrava e moradia senhorial era muito próximo (Figuras 35 e 36).



Sendo assim, as fazendas do Vale do Paraíba combinaram alguns elementos presentes nas grandes plantations do sul dos Estados Unidos – como as casas de vivenda monumentais que se destacavam no conjunto das edificações – com outros dos engenhos mecanizados cubanos – como os enormes barracões destinados ao confinamento rigoroso da escravaria. E, destoando de ambos, avizinharam de modo estreito casa-grande e senzala.

A explicação para essa especificidade, uma vez mais, deve ser buscada no quadro social e político mais amplo. Para o exercício do poder pela classe senhorial escravista, no Império Constitucional do Brasil (tal como no sul dos Estados Unidos), o jogo eleitoral teve importância decisiva. Por aqui, todavia, esse jogo foi, desde a Regência (1831-1840), mediado por relações de clientelismo que atavam em redes assimétricas verticais todos os atores políticos envolvidos, dos membros do gabinete ministerial aos eleitores de paróquia. Para exercer o mando no nível do município e, por vezes, da província, os grandes senhores precisavam se apresentar como patriarcas capazes de obter a deferência de seus clientes (aliados políticos, parentes, agregados e demais dependentes), garantindo-lhes, em troca, proteção e espaço para se inserirem positivamente nas hierarquias locais (FRANCO, 1983; MATTOS, 1987; GRAHAM, 1997).

No Vale do Paraíba fluminense (eixo Cantagalo-Resende) e no fundo do Vale paulista (eixo Bananal-Lorena), onde, como parte do movimento de formação da zona cafeeira, quase todas as vilas e cidades foram criadas após a independência, as grandes sedes das fazendas assumiram papel relevante na política calcada em práticas clientelistas. As casas de vivenda monumentais, somadas aos terreiros, instalações produtivas e senzalas dispostas em quadra, constituíam um conjunto arquitetônico com uma enorme carga de representação. As imagens elaboradas pelos viajantes europeus que percorreram o Vale são bastante esclarecedoras quanto a isso. Veja-se, por exemplo, o relato de Augusto Zaluar, que, em setembro de 1859, visitou a fazenda do Ribeirão Frio, município de Piraí:

Assentada no meio de uma vasta planície, circundada por um horizonte de montanhas cujo recorte se desenha com facilidade, a casa espaçosa e branca avulta dentro de um terreiro de trezentas e onze braças de circunferência! É o maior que tenho visto. Esta imensa praça é fechada em torno pelas senzalas, engenho e mais oficinas, de modo que forma uma larga cidadela para onde se entra por dois grandes portões laterais. As senzalas, caiadas todas e construídas uniformemente, destacam-se, bem como a casa, do verde graduado das florestas, e dão a esta propriedade um aspecto novo e agradável. [...] Uma propriedade rural montada no pé em que se acha, o Ribeirão Frio é mais do que um prédio de simples vivenda; é uma cidade em ponto pequeno, onde se cultivam muitos ramos de indústria e se põem em movimento todas as gradações do trabalho (ZALUAR, 1975, p. 29).

Essas "cidades em ponto pequeno" – imagem que derivava diretamente de Alberti e Palladio (BENTMANN; MÜLLER, 1975, p. 51-52) – funcionavam, ao fim e ao cabo, como um dos principais vetores do poder social e político de seus senhores sobre as comunidades locais. A associação visual que os proprietários pretendiam estabelecer entre suas fazendas e a cidade do Rio de Janeiro – por meio de alamedas de palmeiras imperiais ou de pinturas murais, como a da sala de jantar da Flores do Paraíso (Figura 37) – operava dentro dessa mesma lógica. A mensagem a se transmitir era a de que a fazenda não representava uma cidade qualquer, mas nada mais nada menos do que a própria Corte Imperial (REIS FILHO, 2004, p. 122-124). Não por acaso, a primeira onda de construção das vivendas monumentais no Vale do Paraíba coincidiu exatamente com a primeira leva de títulos nobiliárquicos concedidos por D.Pedro II aos potentados cafeeiros (STEIN, 1990; PANG, 1988).

Resta entender o confinamento dos escravos nas senzalas em quadra e sua posição contígua às casas-grandes. A chave para tanto se encontra na teoria coeva da gestão escravista. As razões que levaram os produtores de café do Vale do Paraíba a adotarem tal arranjo arquitetônico foram as mesmas que motivaram os sacarocratas cubanos a transplantarem pelo Atlântico o modelo dos barracões de embarque de cativos da Costa d'África. Ambas as classes senhoriais, que tinham conexões estreitas com os traficantes que operavam na ilegalidade, pretendiam, com isso, aumentar o controle sobre uma escravaria majoritariamente africana em um contexto de sobreexploração do trabalho e de incremento da resistência cativa (MARQUESE, 2005).

No Império do Brasil, contudo, o modelo do barracão teve de se ajustar ao paternalismo que informava os valores ideológicos senhoriais. As fazendas vale-paraibanas foram uma clara manifestação disso: os escravos eram entendidos como parte da família extensa ou mesmo como prolongamento físico de seus senhores e, por essa razão, cabia aproximar as quadras das senzalas das casas de vivenda. Mas, como se viu em item anterior, no sul dos Estados Unidos, onde as relações escravistas também foram apreendidas pela grade do paternalismo, os casebres escravos ficavam distantes das casas-grandes. Voltamos, aqui, ao clientelismo. Por conta da dinâmica da alforria e da contínua produção de dependentes, algo evidente na paisagem cafeeira, com o avultado número de sítios e fazendolas que rodeavam as grandes unidades e que não raro pertenciam a grupos sociais egressos do cativeiro (LAËRNE, 1885, p. 278), os escravos eram concebidos como participantes da clientela de seus senhores.

Tal concepção encontrou expressão em uma componente importante da arquitetura das fazendas de café que, em geral, passa despercebida aos especialistas. Refiro-me às capelas, invariavelmente inscritas no corpo da casa de vivenda e sempre voltadas para o lado das senzalas (Figuras 38 e 39). O pé-direito duplo de muitas delas traduzia, por si só, a hierarquia e o poder que regiam as relações escravistas, já que o acesso ao balcão superior era restrito à família branca, enquanto o acesso ao piso térreo, onde ficavam os escravos, era feito por uma entrada independente. Cabe lembrar, todavia, que nessas capelas eram realizados batismos e casamentos não apenas da escravaria pertencente ao dono da fazenda, mas igualmente dos cativos de seus vizinhos. Com isso, multiplicavam-se as hierarquias: pequenos proprietários que levavam seus escravos para serem batizados em capelas de grandes fazendas/senhores que os recebiam; senhores que promoviam casamentos e batismos de seus escravos/conjunto da escravaria; os que ficavam no andar superior/os que ficavam no inferior. As capelas, enfim, não só expressavam as redes de clientelismo que cortavam de cima a baixo a sociedade escravista no Vale do Paraíba, como também funcionavam como vetores na criação de novas relações sociais, de resto algo válido para todo ambiente construído das plantations escravistas do Novo Mundo. Isto, no entanto, é assunto para outro texto.

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