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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Gladiadores na Roma Antiga: dos combates às paixões cotidianas

Maria Aparecida de Oliveira Silva

Doutoranda no Departamento de História – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – USP – 05509-900 – São Paulo/SP. Bolsista FAPESP. E-mail: madsilva@usp.br


GARRAFFONI, Renata Senna. Gladiadores na Roma Antiga: dos combates às paixões cotidianas. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2005.

As interpretações sobre a história da gladiatura em Roma perpassam a fronteira do racional, em muitos momentos, os relatos atingem o campo do fantástico, do maravilhoso. Em parte, a idealização desse fenômeno coletivo ocorre em razão da grandiosidade e da complexidade dos espaços reservados às lutas dos gladiadores, o que desperta a imaginação de seus observadores. Na tessitura dessas construções imaginárias, temos ainda a presença das famosas histórias de prisioneiros de guerra, criminosos, condenados ou escravos-mercadoria que se tornaram homens abastados. Segundo essa visão histórico-romântica da gladiatura, esses indivíduos oriundos das camadas populares obtinham a liberdade e a riqueza após alcançar sucessivas vitórias na arena. Dessa maneira, a conquista da glória e da fama permitia ao gladiador administrar escolas de gládio – percebendo grandes quantias com a venda de escravos e a organização de espetáculos – ou desposar belas e ricas mulheres.

Em geral, as publicações sobre a história romana reservam dezenas de suas páginas ao relato de fatos pitorescos ocorridos nos combates. Muitos historiadores, atentos aos aspectos bizarros da gladiatura, centram-se na descrição de sangrentas batalhas e inauditos episódios desse espetáculo. Outros deslocam seu olhar para a revolta de Espártaco, alimentando o romantismo da corrente marxista que vê no conflito um exemplo de sublevação das massas. No entanto, apesar da aparente contradição dessas correntes, existe um ponto de contato entre elas que se faz perceber no disseminar da visão panis et circenses em suas exegeses sobre a gladiatura. Em ambas, o gladiador perde sua humanidade e sua agência no processo histórico atuando como um objeto a ser manipulado pelas elites aristocráticas.

A recente publicação da professora Renata Senna Garraffoni, intitulada Gladiadores na Roma Antiga: dos combates às paixões cotidianas, surge como alternativa para o distanciamento desses topoi exegéticos. De um lado, suas reflexões distanciam-se das repetidas análises atentas à natureza espetacular dos munera, como as manobras e táticas de luta. De outro, ponderam sobre o significado da violência manifesta nas apresentações dos gladiadores, rebatendo as tradicionais interpretações sobre a violência como demonstração de força e crueldade romanas. Além disso,

uma abordagem bastante comum é o estudo de extensas regiões sob o domínio romano, sem levar em conta a particularidade de cada local. Como buscamos ressaltar a diversidade dos espetáculos, optamos por restringir nossa pesquisa ao Ocidente romano, mais especificamente a Roma, Pompéia e alguns pontos da Hispania. (p.25)

Assim, o grande mérito do livro em epígrafe consiste em trazer ao leitor abordagens diferenciadas sobre a gladiatura.

O estudo apresentado no livro circunscreve-se aos governos de Augusto e de Trajano, compreendendo todo o período augustano até os primeiros anos de Trajano.

Estabelecidos os recortes espacial e temporal, a autora apresenta o objeto de seu estudo:

abordaremos apenas os aspectos da gladiatura, pois nossa preocupação central está em analisar as relações cotidianas dos gladiadores com os espetáculos bem como sua receptividade nas camadas populares no século I d.C., aspecto ainda pouco explorado pelos especialistas (p.26),

dessa maneira, distanciando-se de conceitos como de política do "pão e circo", plebe ociosa e apática e Romanização, pertencentes às narrativas dos historiadores da Antigüidade em nossos dias, reprodutoras de pensamentos firmados ainda no século XIX. O caminho traçado por Renata Garraffoni para a escrita de seu livro rompe com análises totalizantes da gladiatura no Império Romano, revelando a multiplicidade de suas práticas. A precisa metodologia empregada guia o leitor para novas paisagens e, por conseguinte, para conclusões diferenciadas sobre o fenômeno da gladiatura em Roma.

O debate principia com uma ampla análise bibliográfica, na qual a autora critica assertivas generalizantes como

a idéia de uma manobra política da elite para divertir a plebs e mantê-la afastada das decisões, seu papel na constituição da identidade romana em oposição à bárbara, sua importância dentro das festas religiosas e triunfos, a expressão do poder romano por meio das lutas entre gladiadores de diferentes etnias (em outras palavras, a idéia de romanização aplicada aos combates), além de mais recentemente, uma preocupação com a violência, são temas que aparecem com mais ou menos ênfase nos trabalhos de classicistas que se dedicaram a estudar a arena romana. (p.34-35).

Para ilustrar a predominância de uma visão amplificadora da violência exposta na arena, a qual reduz o contexto social dos gladiadores e minimiza sua participação nessa sociedade, a autora se debruça sobre textos contemporâneos no segundo capítulo de seu livro, com o intuito de identificar as permanências dessas interpretações nas opiniões dos modernos. Como salienta

o discurso [...] exprime de uma só vez uma série de preconceitos sobre a sociedade romana que ainda circulam com vida: a idéia do romano que deturpava ou copiava a elaborada cultura grega e o conceito de plebe ociosa que se divertia com espetáculos sangrentos. Estas idéias, aliadas a uma terceira na qual somente os cristãos eram mortos na arena, constituem uma imagem muito forte de decadência, perversão e violência presente na mídia em geral e que acaba por formar um quadro negativo da sociedade romana. (p.65)

O capítulo seguinte destina-se ao estudo do locus no qual se realizavam os combates, pois, como afirma a autora,

a grandiosidade dos edifícios, o cuidado em sua decoração, as entradas separadas de acordo com a condição social, o tamanho e forma da arena possibilitaram a realização de um número maior de combates e caçadas, além de produzir novas formas de comunicação visual. A tecnologia desenvolvida para a construção dos anfiteatros de pedra tornou possível a presença de um número maior de pessoas, expressando hierarquias e acirrando divergências. (p.113)

Em seu último capítulo a autora remete o leitor ao cotidiano dos gladiadores, empregando não apenas fontes escritas, mas também epigráficas para sua interessante leitura sobre a gladiatura na sociedade romana. A conclusão a que chega a autora é a de que

da mesma forma que havia uma teia de pessoas envolvidas na construção dos anfiteatros, a realização dos combates de gladiadores, do evento em si, também contava com o trabalho de diversos profissionais [...] Sua organização, desde os primeiros anos de Principado, contava com uma intrincada rede administrativa. Os registros remanescentes nos fornecem indícios das diversas repartições ou cargos, bem como nos abrem caminhos para pensar como a gladiatura e sua organização envolvia distintas camadas sociais. (p.152)

Nas palavras da autora,

acreditando na possibilidade de propor leituras menos normativas do cotidiano daqueles que lutavam ou apreciavam os munera, elaboramos um estudo que visou, principalmente, a interdisciplinaridade [...] Por meio de uma constante discussão entre História, Arqueologia e Epigrafia vimos emergir outras vozes e percepções da gladiatura dispersas entre os membros das camadas populares. (p.198)

Tal preocupação com a visibilidade histórica das camadas populares constitui a grande contribuição da obra Gladiadores na Roma Antiga: dos combates às paixões cotidianas, em que Renata Senna Garraffoni foca suas lentes no cotidiano dos gladiadores embasada em fontes literárias e arqueológicas, convidando o leitor a conhecer as várias faces de uma sociedade plural como a romana.

Revista Historia - UNESP

As mulheres ou os silêncios da história

Dali


A discreta e sedutora "História das mulheres"*

Diogo da Silva Roiz

Mestre em História pela UNESP, Campus de Franca. Coordenador do curso de História da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Campus de Amambai. diogosr@yahoo.com.br

As mulheres conquistaram o direito de terem a sua história também escrita no século XX. A "história das mulheres" é hoje um campo de pesquisa consolidado em universidades do mundo todo (ainda que em cada país ocorram níveis diferenciados de desenvolvimento e aceitação do campo). Percebe-se, cada vez mais, que a mulher não apenas tem história, mas também fez e faz (a sua) história. De um lado, a conquista do direito ao voto, ao trabalho (e a uma carreira profissional), a uma igualdade de direitos entre os sexos, portanto, buscados com afinco pelos movimentos feministas, a partir do início do século XX, deram margem aos estudos produzidos (em maior escala) – a partir dos anos de 1960. De outro, com os movimentos de massa daquela década, que repercutiram em todo o mundo, ganhando ainda maior repercussão com os movimentos estudantis de "Maio de 1968", vieram também a justificar ainda mais os estudos sobre a mulher, principalmente, com a abertura dos campos de pesquisa produzidos nos anos de 1970.

Mas nem sempre foi assim. Pelo contrário, durante muito tempo as mulheres, e a escrita de sua história, foi um tema opaco e sem sentido, particularmente para pesquisadores do sexo masculino. Tanto nas fontes, quanto nas pesquisas, o que se via era o silêncio, delas e sobre elas, que se prolongava ainda mais com a escassez de documentos, os quais, quase sempre, não demonstravam a sua presença. O que torna imprescindíveis os seguintes questionamentos: Como a mulher começou a aparecer nos estudos históricos como tema de pesquisa? O que é a "história das mulheres"? Quais os procedimentos e documentos mais adequados para perceber sua presença na história? Porque é importante escrever a "história das mulheres"?

Por mais de três décadas, a historiadora Michelle Perrot, uma das maiores estudiosas desse tema na França (e reconhecida no mundo todo), sentiu-se incomodada (e inspirada) por esses questionamentos, geralmente efetuados por colegas do sexo masculino, que a levaram a se engajar política e intelectualmente nesse projeto de escrita de uma "nova" história, onde as mulheres fossem incluídas (por direito e por importância) e não ficassem mais em silêncio.

Fruto direto dessas pesquisas, As mulheres ou os silêncios da História reúne parcela significativa de sua contribuição sobre o tema. Ao longo de seus 23 capítulos1 publicados entre 1974 e 1998 em revistas especializadas e em livros, a autora passa em revista as principais pesquisas, abordagens e documentos (pesquisados) sobre a "história das mulheres". Aí incluindo sua trajetória no interior desses debates (em que esteve desde o final da década de 1960) e sua contribuição para o tema, em que ainda se destaca a obra A história das mulheres no Ocidente (publicada originalmente entre 1990 e 1992), organizada em cinco volumes com Georges Duby (e a contribuição de outros pesquisadores e pesquisadoras) entre o final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990.

De forma didática, a autora dividiu a obra em cinco partes: a) na primeira, Traços, em que aparece a discussão de diários e correspondências do século XIX (por ela pesquisados), em quatro capítulos (29-146), nos quais, segundo ela, a "dificuldade da história das mulheres deve-se inicialmente ao apagamento de seus traços, tanto públicos quanto privados"; b) na segunda, Mulheres no trabalho, principalmente o do lar e o das fábricas, com seis capítulos (149-258), em que, segundo ela, a "questão do trabalho constituiu um front pioneiro da pesquisa sobre as mulheres"; c) na terceira, Mulheres na cidade, apresenta-se sua ação na política e nos debates sobre gênero, cidadania e direitos, em cinco capítulos (261-360), que segundo a autora,

a história das mulheres interessou-se inicialmente por seus papéis privados, observando-os, de certa forma, lá onde elas estavam, em seus corpos, sua casa, seus gestos cotidianos, correndo o risco de fechá-los em uma repetição (...) [mas] a questão do poder colocou-se rapidamente, pois ela funda a relação entre os sexos (261);

d) na quarta, Figuras, Perrot estuda o perfil de Flora Tristan e George Sand, em dois capítulos (363-424), tendo em vista que:

Flora Tristan e George Sand não gostavam muito uma da outra. Elas se impacientavam com seus respectivos comportamentos. Flora invejava George, que já era célebre, enquanto ela penava para poder publicar. George se irritava com as recriminações de Flora. Na verdade, estas contemporâneas mal se cruzavam. Flora morreu em 1844 e George, trinta e dois anos mais tarde (1876). No entanto, diversos traços as aproximam, a ponto que se pôde falar de 'vidas no espelho': sua revolta contra a condição das mulheres, que ambas experimentaram na carne; sua vontade de justiça social (...) sua idêntica preocupação com a moral em política (363);

e) finalmente, na quinta parte, Debates, ela apresenta alguns dos principais debates e abordagens sobre o tema, ao longo de seis capítulos (427-503), que avaliam, principalmente, as obras de Georges Duby, Mona Ozouf e Michel Foucault, pois, como diz a "história 'das mulheres' coloca numerosas questões, a começar por seu título, constituindo as mulheres em objeto (...) [que] é também um tanto fragmentado" (427-8).

O livro é, portanto, uma exposição amadurecida e articulada, por mais de trinta anos, sobre o que é, e como deve e pode ser feita, a "história das mulheres". Mas para poder atingir todos os objetivos almejados na obra, a autora diz que, antes, foi necessário definir por que houve tamanho silêncio sobre a questão, e como o tema passou a ser de interesse de pesquisadoras no mundo todo. Para ela,

a irrupção de uma presença e de uma fala feminina em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares, é uma inovação do século 19 que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória e, ainda mais, da História, este relato que, por muito tempo, 'esqueceu' as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas tivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento (9).

Isso quer dizer que durante muito tempo

as mulheres [foram] mais imaginadas do que descritas ou contadas, e fazer a sua história é, antes de tudo, inevitavelmente, chocar-se contra este bloco de representações que as cobre e que é preciso necessariamente analisar, sem saber como elas mesmas as viam e as viviam (11).

De acordo com ela, esse

...defeito de registro primário é agravado por um déficit de conservação dos traços. Pouca coisa nos arquivos públicos, destinados aos atos da administração e do poder, onde as mulheres aparecem apenas quando perturbam a ordem, o que justamente elas fazem menos do que os homens, não em virtude de uma natureza rara, mas devido à sua fraca presença, à sua hesitação também em dar queixa quando elas são as vítimas. Conseqüentemente, os arquivos de polícia e de justiça, infinitamente preciosos para o conhecimento do povo, homens e mulheres, devem ser analisados até na forma sexuada de seu abastecimento" (12).

Por outro lado, diz a autora, "a consideração crescente da vida privada, familiar ou pessoal, modificou o olhar negligente que se tinha sobre as correspondências ou os diários íntimos" nos estudos históricos. No entanto, o

volume e a natureza das fontes das mulheres e sobre as mulheres variam conseqüentemente ao longo do tempo. [Por isso] longe de ser fruto do acaso, a constituição do Arquivo, da mesma forma que a constituição ainda mais sutil da memória, é o resultado de uma sedimentação seletiva produzida pelas relações de força e pelos sistemas de valor [e o] mesmo ocorre no que concerne à narrativa histórica, outro nível destes silêncios encaixados uns nos outros (14).

Não era por acaso que a autora se questionasse como esse silêncio foi rompido e, em seguida, se debruçasse em como as coisas aconteceram na França, lugar onde ela atua como pesquisadora do tema desde a década de 1960. Como esclarece, em cada país houve especificidades quanto ao desenvolvimento e a valorização dos estudos sobre a mulher. No caso da França, foi fundamental a contribuição da obra pioneira de Georges Duby, a partir dos anos de 1970. No campo das Ciências Humanas, os estudos sobre o sexo e a sexualidade humana também foram centrais para o desenvolvimento deste campo de pesquisa. De acordo com ela, três fatores foram fundamentais: a) os científicos "ligados à crise dos grandes paradigmas explicativos e à renovação dos contatos disciplinares nas décadas de 1960-70"; b) os sociológicos, em função da

feminização da universidade, inicialmente no nível do público, e depois, mais tardiamente, dos professores, favoreceu o nascimento de novas expectativas, de questionamentos diferentes, e conseqüentemente o desenvolvimento de cursos e pesquisas sobre as mulheres. As paixões e os interesses se conjugam, de maneira mais clássica, na constituição de um novo "campo" (17);

c) e os políticos, pois, "o movimento de liberação das mulheres – o MLF – surgido nos anos 70 dos silêncios (mais um deles) de Maio de 1968 sobre as mulheres". Nesse sentido, Perrot indica sua própria trajetória e como percorreu esses caminhos na França, no decorrer de suas pesquisas. Em suas palavras:

Experiência insubstituível para aquelas e aqueles que a fizeram, a história das mulheres (...) [no entanto] não mudou nem a atitude histórica, ainda reservada, nem as instituições universitárias, que se opõem a lhe dar um lugar, ainda que modesto. Os inevitáveis conflitos de território conduzem às vezes a tensões, internas e externas aumentadas, e cuja conta pode vir a ser paga pelas pesquisadoras mais jovens. E a França, sob este ângulo, parece mais arcaica do que a maioria de seus vizinhos. A história das mulheres também não mudou muito o lugar ou a "condição" destas mulheres. No entanto, permite compreendê-los melhor. Ela contribui para sua consciência de si mesmas, da qual é certamente ainda um sinal (26).

Assim, compreender, os percalços que ainda subsistem na pesquisa que empreende a escrita da história das mulheres não é uma tarefa nada fácil. Ao percorrer, no século XIX, as razões que levaram aos silêncios sobre as mulheres e, parcialmente, inviabilizaram a escrita de sua história, indica que:

Da História, a mulher é diversas vezes excluída. Ela o é, inicialmente, na narrativa, que, passadas às efusões românticas, constitui-se como encenação dos acontecimentos políticos. O positivismo opera um verdadeiro refluxo no tema feminino e, mais amplamente, no cotidiano. O austero Seignobos, grande mestre dos estudos históricos na Universidade, expulsa Eva, ao passo que as paredes da Sorbonne cobrem-se de afrescos em que flutuam diáfanas alegorias femininas (...). A "profissão de historiador" é um trabalho de homens que escrevem a história no masculino. Os campos que eles abordam são os da ação e do poder masculino, até mesmo quando eles se aventuram por novos territórios (...). Também – e esta é a segunda volta da chave – os materiais utilizados pelos historiadores (arquivos diplomáticos, ou administrativos, documentos parlamentares, biografias ou publicações periódicas...) são o produto de homens que têm o monopólio da escrita tanto quanto da coisa pública (...). Essa exclusão é, aliás, apenas a tradução, redobrada, de uma outra exclusão: a das mulheres da vida e do espaço público na Europa Ocidental no século XIX (197-8).

Para ela, uma exceção no século XIX sobre essa questão foi Jules Michelet, que empreendeu uma exaustiva pesquisa sobre a feitiçaria. Ressalta que as raras exceções de pesquisa e trabalhos sobre a mulher no período se devem ao próprio tipo de temas e abordagens então praticados nos estudos históricos que inviabilizavam a presença feminina no processo histórico e a percepção de sua existência.

Por outro lado, Perrot observa como a sociedade (entendida aqui no masculino) se preocupava em pensar o que era o "trabalho de mulher":

Os homens do século 19 europeu tentaram, de fato, isolar a força crescente das mulheres, tão fortemente sentida na era das Luzes e nas Revoluções, cujas infelicidades lhes seriam muitas vezes atribuídas, não somente enclausurando-as em casa, e excluindo-as de certos domínios de atividade – a criação literária e artística, a produção industrial e as trocas, a política e a história – mas também, e ainda mais, canalizando sua energia para o doméstico revalorizado, e até mesmo para o social domesticado (279).

Para ela, a "história das mulheres escreve[u]-se inicialmente sobre o modo da exceção: exceção das pioneiras que quebram o silêncio". Por isso, é possível entender porque ao longo de muitos destes ensaios, a autora volta a ressaltar incansavelmente os tipos de silêncio impostos às mulheres do passado – e a escrita de uma história das mulheres no século XX – enfatizando os detalhes, como os olhares sobre o corpo feminino, os espaços de fala e debates femininos, e a função da política, da cidadania e das guerras sobre a ação feminina. Por isso também, se preocupa tanto em equacionar os debates sobre a "história das mulheres" e os avanços alcançados pelas pesquisas ao longo do tempo. Em função de todas essas qualidades, este livro é uma bela contribuição para o tema, tema este que está em permanente processo de construção.


* Resenha do livro de Michelle Perrot, As mulheres ou os silêncios da história, 2005.

Cadernos Pagu

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Prisioneiros da Liberdade

Christiana Panella

Englund, Harri. --Prisioneiros da Liberdade. Direitos Humanos e Banco Africano de Pobres. Berkeley-Los Angeles-Londres, University of California Press, 2006, biblio., Index, 247 p.

O discurso sobre os direitos humanos hoje banhada em uma paisagem "moral" em forma de lei por culturas seculares, culturas de consumo e moral do neotradicionalismo1. Em Prisioneiros da Liberdade Englund descreve a dinâmica das desigualdades subjacentes a este difícil equilíbrio entre o direito universal, a acumulação e estratificação social por meio de uma etnografia das cenas da democratização recente no Malawi. A partir da observação direta da gestão do programaEmpowerment para a população indígena de Lilongwe, a autora mostra que as máquinas do processo de democratização na virada da década de 1990 apenas manter ou mesmo aumentar a desigualdade social, eliminando a dimensão individual do ser humano por trás da propaganda de "liberdade individual.


No primeiro capítulo, "A Situação dos Direitos Humanos: Debating Governance and Freedom" Englund analisa as várias facetas do interesse público para os direitos humanos. Em particular, acende-se a sinergia entre as elites, a condicionalidade ea ONG no discurso universal sobre os direitos humanos na sequência da liberalização econômica no âmbito do programa de ajustamento estrutural em 1981. O contexto deste capítulo introdutório está disponível através de três exemplos da mercantilização de pessoas nas práticas dos direitos de discurso: a tradução de textos sobre direitos humanos em Chichewa linguagem, sessões de educação Localização de Nice (Iniciativa Nacional para Educação Cívica) e os Serviços de Assistência Judiciária HRRC (Human Rights Resource Center).

O segundo capítulo, "Direitos como a liberdade: Traduzindo Direitos Humanos", é o primeiro caso etnográfico da desigualdade social apresentada por Englund tradução de textos sobre os direitos civis para as línguas Africano. Através de exemplos de Kiswahili, Luganda eo Chichewa / Cinyanja, Englund mostra como a legalização do discurso sobre direitos humanos, incluídas as de nivelamento de conceitos locais de "direita" e "liberdade" e " independência ", referida nos significados locais, autoridade moral. Ao fornecer uma descrição minuciosa das representações da marginalidade incorporado na relação contraditória entre os idiomas Inglês e local, Englund mostra que a retórica dos direitos humanos é acompanhada por uma negligência manifesta na tradução de textos de divulgação. Esta falta de atenção para a classe trabalhadora levou a traduções enganosas e tradução aproximada não é considerado uma prioridade da agenda Direitos Humanos.

As ferramentas de análise de discriminação ativistas dos direitos humanos se estende até o próximo capítulo, "The Hidden Aulas de Educação Cívica: Formação de Portadores da Tocha. Através do exemplo de cursos de educação cívica oferecidas pelo NICE, Englund mostra como os técnicos dos Direitos Humanos e ONGs forjar um estilo de comunicação para consolidar o seu poder de discriminação. Os critérios para a admissão à formação e ao uso do Inglês são duas ferramentas de discriminação indirecta e revelam, ao mesmo tempo, sobre a lacuna entre os objetivos declarados e escondidos estratégias de ação dos agentes flush NICE.

O quarto capítulo, "cães de guarda Unleashed? Encontrando a Grassroots "põe-nos no contexto da ideologia universalista do discurso sobre os direitos humanos através da crítica do princípio do" desenvolvimento comunitário ". Isso inclui, de acordo com Englund, a captação de programas de desenvolvimento local de Nice, em relação às prioridades dos projetos destinatário posteriormente discriminado por diferenciação social alfabetizados / analfabetos veiculada pelas elites e apoiada pelo governo nacional. O tema da discriminação continua nos capítulos quinto e sexto, "Legal Aid for Abused Trabalho: Individualizar Queixas" e "Crimes de Funcionamento: Dehumanizing tem Lorry Boy", no qual o autor apresenta o contexto etnográfico de serviços de assistência jurídica propostos pela HRRC. Se a denúncia Yamikani Chikondi, um empregado negro mal e terminou antes do termo do seu contrato, revela que os agentes de HRRC eventualmente cair para o empregador e não a denúncia. Apesar das intenções da propaganda dos direitos individuais, os agentes HRRC exercer pressão psicológica desumanizar o objetivo de minar as razões da denúncia e para persuadi-lo a abandonar a causa.



6Primeiro, Englund mostra que os ativistas de ONGs, longe de formar uma massa crítica de independentes, são funcionais para a manutenção da status quo do poder local, no caso específico, a obediência dos subordinados à sua entidade patronal. Por outro lado, ele chama, no fundo, uma política de discriminação e marginalização com base na cor da pele e acesso à renda. No Malawi, a dominação econômica dos comerciantes asiáticos e europeus, já certificadas no âmbito da administração britânica, envolveu a exploração de trabalhadores indígenas. Embora o apartheid, nunca foi estabelecido, a segregação social é prioridade qu'Englund em muitas áreas da vida diária (habitação, transporte, alimentação) é a base de infra-estruturas sociais e económicas. A universalidade dos direitos humanos parece bem enquadrado na cultura muito mais sutil e impalpável, determinando uma mudança nas exigências para a igualdade social para essas diferenças entre os grupos sociais2.



O sétimo capítulo, "Human Rights and Moral Panics: ouvir queixas Popular" é dedicado à descrição de um caso de "pânico moral". Englund usa este termo ao referir-se uma reação em massa que ocorreu em um Chinsapo Township Lilongwe, em 2003, na sequência de rumores sobre o tráfego em partes do corpo de crianças usadas por políticos e empresários em rituais de acumulação e poder. O autor mostra como a mídia tem retratado o conceito pejorativo de "justiça máfia" para dar uma negativa e irracional para mobilizar Chisapo nascido, no entanto, como uma forma de gestão popular da desigualdade social. Esta manipulação, apoiada pelo governo, constitui um elemento adicional desautorização Lilongwe camadas sociais populares. Através deste exemplo de resistência ao Estado, apenas os casos aparentemente desconexos etnográfico Englund anterior fechado a abordagem do processo fisiológico de relações de poder e declarações contraditórias geradas pela política nacional de obediência cívica começou nos capítulos III a VI.


O caso etnográfico que acabei de referir parece sugerir que o autor compartilha a distinção entre um Habermas direitos humanos baseado moralmente "e" juridicamente consagrada aos direitos humanos "3. Em particular, os mecanismos de reificação Englund emergentes da luta contra a pobreza e as relações desiguais alimentada pela gestão económica e política da legitimidade do discurso sobre direitos humanos. Ele mostra, por fim, que a população de Lilongwe é considerado como "cidadãos" na medida em que se justifica uma idéia abstrata da cidadania. O homem reificado na retórica dos direitos humanos encontra a sua razão de ser apenas como um link em um indistinguée massa.



O último capítulo, "A redenção da Liberdade" é uma síntese dos temas já discutidos em capítulos anteriores: a ação desautorização ONGs e marginalização política das populações locais, através de uma reflexão sobre a relação entre a condicionalidade ea democratização no Malawi e, mais genericamente, na África. Englund aqui reitera o piloto tema de seu trabalho: o impacto da transição democrática em África através do conflito construção de filtro de cidadania. Em vez de constituir um campo de integração e visibilidade, a imposição de uma "hierarquia de valores globais"4 o discurso sobre direitos humanos tem vindo a aumentar a segregação social e reduziu a dimensão humana do indivíduo, encaixado na propaganda dos "direitos individuais".


Pode-se lamentar a falta de estruturação de um "clássico" este livro teimoso e tocar. Uma ligação mais clara entre as conseqüentes caso etnográfico e de fundo político. Também poderia situar-se entre as linhas de muitas anedotas que desarrumam o livro, um pouco de auto-referencialidade do autor em sua abordagem de campo para o acabamento. O fato é que Prisioneiros da Liberdade é um livro para ler, principalmente por causa de seus ritmos fragmentados, por vezes incoerente, fiel reflexo da turbulência diária de Lilongwe marginal. Um traço comum une a questão do ativismo dos direitos humanos em relação à utilidade da Chichewa: "onde você vai com ela?" E o menino camião "Yamikani Chikondi e pais que pedem Chinsapo seus filhos de estrangeiros que fogem (p. 180). Vidas indefesas tão bem representada pelo título de um dos números do segundo capítulo, memento perturbando a humanidade dos esquecidos pelos Direitos do Homem: "Traduções de pobres pobres". O autor de tal título merece atenção.

Notas1 P. Rabinow, "meio Antropologia Problems" Antropologia Cultural 17 (2), 2002: 135-149.

2 J. Cowan, M.-B. Dembour & R. Wilson (eds.), Cultura e Direitos Humanos. Anthropological Perspectives, Cambridge, Cambridge University Press, 2001.

3 Sr. Carleheden & R. Gabriels, "An Interview with Jürgen Habermas" Teoria, Cultura e Sociedade 13 (3), 1996: 1-17.

4 K. Schramm, "The Politics of Dance. Mudando representações da nação em Gana " Afrika Spectrum 35 (3), 2000: 339-358.

Referência Eletrônica
Christiana Panella"Englund, Harri. --Prisioneiros da Liberdade" Africaines Cahiers d'études, 195 2009, [Online], posted setembro 22, 2009. URL: http://etudesafricaines.revues.org/index14061.html. Retrieved October 10, 2009.

africaines Cahiers d'Études

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Família na contemporaneidade: mudanças e permanências



Carolina M. B. de Souza

SINGLY, François de. Sociologia da família contemporânea. Trad. Clarice Ehlers Peixoto. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007. 208 p. (Família, geração & cultura).

Ao longo das últimas décadas o debate sobre a crise da família, no Ocidente, foi propiciado pelos efeitos da generalizada aceitação social do divórcio, do declínio da instituição do casamento e da baixa taxa de fecundidade. Esses acontecimentos tanto indicaram a compreensão de que se delineara o enfraquecimento da família, quanto sugeriram a análise do surgimento de novos modelos familiares, caracterizados, por sua vez, pelas mudanças nas relações entre os sexos e as gerações, tais como: controle mais intenso da natalidade, autonomia relativa da sexualidade referente à esfera conjugal (posto que o exercício da atividade sexual deixa de estar circunscrito à esfera do matrimônio), inserção massiva da mulher no mercado de trabalho, questionamento da autoridade paternal, atenção ao desenvolvimento das necessidades infantis e dos idosos, entre outras.

Essa segunda vertente de entendimento é a perspectiva condutora das análises de Singly (2007) em Sociologia da família contemporânea, que aborda a individualização das relações familiares, especificamente na França, estabelecendo associações entre as mudanças da modernidade e seus efeitos na família. O autor, que dirige o Centre d'Études sur les Liens Sociaux (Centro de Estudos sobre os Laços Sociais), em suas pesquisas, focaliza os comportamentos interpessoais no âmbito conjugal, procurando demonstrar que, nas sociedades contemporâneas ocidentais, os indivíduos não se parecem com aqueles das gerações precedentes, devido ao surgimento do indivíduo original e autônomo, resultante da imposição dessas sociedades, as quais fazem vigorar razões tanto ideológicas quanto objetivas. Salienta que a procura de si não traduz, primordialmente, narcisismo; solicita, contrariamente, destaque do olhar dos outros. Considera a dimensão relacional presente no processo constitutivo da identidade pessoal dos indivíduos, em que os outros significativos são, em geral e prioritariamente, o cônjuge ou o parceiro para um homem ou uma mulher, os pais para os filhos e reciprocamente.

O livro compõe-se de três partes. Singly visa a elucidar a família contemporânea, demonstrando sua dependência em relação ao Estado (parte I) e sua independência quanto aos grupos de parentesco (parte II) e à família (parte III). Os argumentos apresentados em seu desenrolar examinam algumas características: a família contemporânea é relacional, é privada e pública, é individualista e precisa de horizonte intergeracional - eixos norteadores através dos quais explicita suas idéias.

A característica referente ao duplo movimento da família contemporânea de ser privada e, ao mesmo tempo, pública, é destacada pelo autor, que apreende a família como um espaço no qual os indivíduos acreditam proteger a sua individualidade, ao tempo em que sofrem intervenção do Estado mediante o apoio e a regulação sobre as relações dos seus componentes - como exemplo, refere-se à criação de leis que objetivam limitar o direito da punição paternal.

Os argumentos apresentados no desenvolvimento do livro remetem à idéia central de Singly - a família contemporânea se define mais pelas relações internas travadas no cerne familiar e menos como instituição. O ponto em comum existente entre a família antiga e a família moderna, na compreensão do autor, consiste em contribuir para a função da reprodução biológica e social da sociedade, e ambas procuram manter e melhorar a posição da família no espaço social de uma geração a outra. O autor, que formula uma abordagem sociológica da percepção de como se expressam sentimentos e emoções no âmbito da família durante o século XX, destaca a predominância, a partir da segunda metade desse século, de relações menos hierarquizadas, quer entre o casal, quer entre pais e filhos - ambas sob o olhar atento dos agentes do Estado (demógrafos, psicólogos, assistentes sociais e sociólogos). Assinala, todavia, que os conflitos não deixam de existir no contexto familiar.

"A dependência da família em relação ao Estado" é o título da Parte I de Sociologia da Família Contemporânea, em que Singly examina detalhadamente as relações travadas entre Estado, escola e família. Nesse sentido, reflete sobre análises de Parsons, contrapondo-se à sua idéia, predominante na sociedade norte-americana nos anos 1950, de que toda responsabilidade assumida pela instituição escolar é retirada da família. Na tentativa de elucidar os elos existentes entre a família e a escola, Singly ratifica algumas concepções de Àries (1981), como aquela de que as preocupações educativas são pilares norteadores da família moderna, e de Bourdieu (1996), ao salientar a predominância do capital escolar nas sociedades contemporâneas.

Um esboço da tendência geral dos processos de formação familiar pelas novas gerações é traçado por Singly na segunda parte da obra, ressaltando o desuso da recorrência aos casamentos arranjados e questionando se as alianças são seladas apenas pelo amor e pelo desinteresse. O autor utiliza, então, o conceito de capital cultural formulado por Bourdieu para apreender algumas mediações que tornam possível o amor desinteressado e a defesa dos interesses sociais - o corpo e o caráter revelam os capitais escolares e sociais.

Singly demarca que o período contemporâneo se caracteriza pelo maior domínio do destino individual e familiar, devido a um sistema de valores que aprova a autonomia e a recusa dos indivíduos em seguirem costumes referentes ao desempenho dos papéis sociais de marido e esposa, das gerações passadas. Consequentemente, ocorre o duplo movimento - recusar a instituição do casamento e criticar a divisão do trabalho entre os sexos. Menciona, como exemplo, as condições objetivas que permitem o controle desse domínio individual, especialmente as técnicas modernas de controle dos nascimentos.

Considera que as transformações da família têm uma grande coerência, embora deem a impressão de certa desordem e de uma incerteza, que poderiam preocupar. Singly destaca que a história da família contemporânea pode ser dividida em dois períodos. Assinala a evidência verificada em todos os meios sociais, durante meio século (1918-1968), do fato de o homem trabalhar fora para ganhar o dinheiro da família e de a mulher ficar em casa para se ocupar, o melhor possível, dos filhos. Essa tipologia familiar é designada, pelo autor, de família moderna 1, ou da primeira modernidade - está centrada no grupo, e os adultos estão a serviço da família e, principalmente, das crianças. A partir dos anos 1960, quando a modernidade na Europa muda de direção e entra no período denominado por Giddens (1991) de "modernidade avançada", a família atribui peso ao processo de individualização. Singly qualifica essa segunda tipologia familiar de família moderna 2.

A diversidade das formas familiares e a menor estabilidade da vida conjugal não devem induzir a um diagnóstico errôneo, na elucidação de Singly, que constata, em suas pesquisas, o ideal da vida conjugal para um grande número de pessoas. Contrariamente ao celibato ou à vida solitária, a vida conjugal é mais atrativa, pois assegura a impressão de que não se é somente um personagem público ou um indivíduo que deve viver, sobretudo, segundo a lógica do interesse e das relações de competição que dominam a esfera do trabalho.

O triplo movimento da segunda fase da família contemporânea, do ponto de vista das relações entre os sexos, é assinalado por Singly: diminuição sensível da dependência objetiva da mulher, manutenção dos investimentos profissionais e domésticos diferenciados segundo o sexo e fuga dos papéis sexuais que surgiram com o compromisso conjugal.

No entender do autor, o movimento de individualização que perpassa as relações conjugais encontra-se inacabado, indicando a permanência das desigualdades do trabalho doméstico, devido à atribuição desse trabalho às mulheres, bem como a exclusão dos homossexuais do casamento. Considera que as sociedades ocidentais não seguem nem seguirão um processo similar de etapas, o que não significa que elas estejam ao largo da modernidade - entendida sob a perspectiva da individualização.

Reflete, enfim, que, tal como a modernidade, a família se define por um futuro incerto, pois, embora os entraves e constrangimentos sociais estejam presentes, os indivíduos constroem suas histórias.



REFERÊNCIAS

ÀRIES, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981. 234p.

BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas, SP: Papirus, 1996. 224p.

CICHELLI, Vincenzo; PEIXOTO, Clarice Ehlers; SINGLY, François de. Família e individualização. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. 200p.
GIDDENS, Anthony. Conseqüências da modernidade. São Paulo: Ed. Universidade Federal Paulista, 1991. 177p.

Carolina M. B. de Souza. Socióloga, doutoranda em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA e professora substituta do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da UEFS. carolinamarback@yahoo.com.br.
Caderno CRH

sábado, 3 de novembro de 2018

Revisitar as Raízes do Choque Civilizacional. O Islão e o Ocidente na Travessia dos Séculos

Revisitar as Raízes do Choque Civilizacional. O Islão e o Ocidente na Travessia dos Séculos

João Pedro Vieira

Christopher J. Walker.
O Islão e O Ocidente. Uma Harmonia Dissonante de Civilizações.
Lisboa, Edições 70, 2006, 302 páginas


UMA PONTE ENTRE CIVILIZAÇÕES

A história das relações entre o Ocidente e o islão tornou-se um tema clássico da produção intelectual ocidental das últimas décadas. O mediatismo recentemente adquirido pela actuação das organizações terroristas islâmicas veio expandir poderosamente a atenção e sensibilidade dos investigadores e do público ocidental para o islão, sendo precisamente neste contexto que a presente tradução portuguesa da obra de Christopher Walker se situa.

Conquanto não ao nível de autores especializados como Bernard Lewis, Walker, autor de duas publicações sobre a história contemporânea da Arménia e dotado de uma experiência profissional diversa ligada à Sotheby’s e à Penguin, procura escrever «um estudo das relações entre o Oriente e o Ocidente» (p. 10) ao longo de nove capítulos. Obra de síntese, O Islão e o Ocidente convoca para a sua construção uma diversidade de temáticas, recursos expressivos e tipos de discurso aplicados ao estudo não só das relações entre as duas civilizações, mas igualmente da representação do islão entre as elites europeias e da sua importância no desenvolvimento da civilização ocidental.

Nessa medida, a obra cobre um vasto lapso cronológico que se estende desde o século iv d. C. até às vésperas da I Guerra Mundial e que corresponde ao desenvolvimento de um trabalho historiográfico não raro atravessado por momentos de criatividade literária, produzindo uma síntese cuja orientação global se fixa na valorização dos aspectos positivos do contacto e relação multissecular entre o islão e o Ocidente.



UMA HISTÓRIA DAS RELAÇÕES ENTRE ISLÃO E OCIDENTE?
A problematização do significado civilizacional das alianças informais de Isabel I e da rainha Vitória com o Império Otomano marca a abertura do estudo e lança o interesse de uma indagação histórica que explique o facto de tais opções políticas não terem suscitado grande celeuma nas respectivas sociedades. Tais contactos, assim como as experiências pretensamente multiculturais do al-Andalus e da Sicília, demonstram a possibilidade de uma coexistência pacífica e tolerante e contrastam veementemente com a época das Cruzadas, que merece a profunda reprovação do autor.

É a necessidade de explicar as origens profundas das Cruzadas que leva o autor a recuar até ao século iv d. C. para analisar as origens da peregrinação a Jerusalém como fenómeno religioso cristão. Para o autor, esse foi um momento de ressurgência dos aspectos «totémicos», sensitivos e politeístas que o cristianismo primitivo expurgara da religião. Paralelamente, também os conflitos político-militares entre bizantinos e sassânidas tinham integrado a conquista de espaços sagrados e de relíquias, favorecendo a imbricação entre política, religião e ideologia. O conflito estrutural entre os dois impérios enfraqueceu-os e abriu espaço para a afirmação político-militar e religiosa do islão, que oferecia, segundo o autor, uma simplicidade tolerante e unificadora a um universo religioso povoado por sinuosidades teológicas e perseguições.

Inicialmente, o islão era uma religião pouco controversa, como atestam diversos testemunhos literários sírios, arménios e ocidentais dos primeiros séculos do islão. As raízes cristãs do islão eram reconhecidas, tanto mais que a nova religião era considerada pelos teólogos cristãos orientais como uma derivação heterodoxa do cristianismo. Datam desta época os primeiros contactos diplomáticos entre o Ocidente e o islão, quando ainda não existia um antagonismo pronunciado entre os dois mundos e o islão vivia um intenso florescimento civilizacional a que corresponderam, segundo Walker, grandes manifestações de coexistência pacífica na Palestina pré-cruzada e já no al-Andalus.

Todavia, o relacionamento entre o Ocidente e o islão sofreu uma profunda transformação entre os séculos xi e xiii, com o movimento das Cruzadas. Deste modo, o capítulo 2 é preenchido por uma visão altamente crítica sobre as Cruzadas e as suas consequências, não se inibindo o autor de adoptar uma posição moralizada – e.g., repreende a arrogância da ideologia de cruzada como interpretação abusiva da vontade divina. Para o autor, a militarização do cristianismo ocidental destruiu a relação entre as religiões e assinalou o início de um período obscuro e sangrento. A afirmação da intolerância, da violência e da brutalidade causou atrocidades que, no entanto, não destruíram universalmente a relação entre cristãos e muçulmanos, e foi de facto no al-Andalus do século xi e na Sicília normanda medieval que a coexistência, a tolerância e a cooperação atingiram supostamente o seu auge.

O encerramento da época das Cruzadas ocorre num momento em que «o cres-cimento do conhecimento estava a devolver aos europeus o uso da razão» (p. 57). O desvanecimento desse movimento, representando o fim da perversão e da depravação humana, foi forçado quer pelo despontar do conhecimento na Europa, quer pela transformação do quadro geopolítico internacional e pela progressiva secundarização da religião na administração do Estado e na diplomacia internacional.

No capítulo 3, o leitor é levado num roteiro cultural pelo plurissecular processo de transmissão do saber clássico ao islão e pelo desenvolvimento da cultura islâmica, considerando o conhecimento filosófico e teológico e percorrendo o pensamento filosófico desde Platão e Aristóteles a Ibn S¯ın¯a, al-R¯az¯ı e Ibn Ruˇsd, entre outros. Contudo, a análise é guiada pela história europeia, ou seja, é o processo de «perda e recuperação do saber» pela Europa que importa explorar, num momento em que o conservadorismo político-religioso se começava a impor no mundo islâmico e a Europa redescobria o legado clássico. Porém, a Europa estava também a assimilar um legado islâmico, por exemplo, com a difusão do averroísmo, influente na filosofia e teologia medievais europeias.

Lentamente, as elites europeias desenvolviam uma nova atitude face ao islão francamente divergente do espírito cruzadístico e anti-islâmico, processo acompanhado e estimulado pelo incremento dos contactos comerciais e diplomáticos. Entretanto, conforme sintetiza o capítulo 4, o Médio Oriente começava a sentir as consequências dramáticas da infiltração turca e mongol. Do caos político resultou uma reorganização drástica do quadro geopolítico da região, que passou a ser dominado no século xvi pelo Império Otomano e pela dinastia safávida, potências que se enfrentavam num conflito de grandes proporções. Por outro lado, a Turquia otomana vinha agora colocar as fronteiras da Europa Oriental e Central sob pressão.

É esta a base do período moderno das relações entre a Europa e o islão e o pano de fundo do início de relações diplomáticas directas entre a Inglaterra, por um lado, e o Império Otomano e a Pérsia safávida, por outro. A narrativa do autor entra então, nos capítulos 5 e 6, num registo mais biográfico e centra-se, sem esquecer o contexto religioso europeu resultante da Reforma e da reacção tridentina, no percurso de William Harborne, Edward Borton, ambos embaixadores ingleses na corte otomana, e dos irmãos Anthony e Robert Sherley, que segundo o autor apostaram numa diplomacia freelance entre a Inglaterra e a Pérsia.

A par do incremento dos contactos comerciais e diplomáticos, a Inglaterra dos séculos xvi e xvii manifestava um crescente interesse pelo islão para além dos estudos apologéticos dedicados à refutação teológica da religião muçulmana. Foi contudo sob a égide dos estudos bíblicos, como mostra o capítulo 7, que o estudo da cultura árabe se iniciou, contando para isso com o patrocínio de William Laud, bispo da Igreja Anglicana, e o dinamismo de Edward Pococke, arabista inglês e precursor nos estudos árabes e islâmicos. Simultaneamente, ramos heterodoxos antitrinitários como os socinianos e os unitaristas começavam a cultivar a ideia de uma afinidade religiosa entre o seu cristianismo depurado e o islão, assente na rejeição do dogma trinitário, como testemunham os exemplos de Miguel Servet, Sebastião Castellio e Hugo Grócio.

No capítulo 8, Walker mostra como a Europa esclarecida da segunda metade do século xvii e do século xviii estava a desenvolver representações positivas sobre o islão que confluíram na criação de um imaginário para que muito contribuiu a difusão das traduções de Hayy ibn Yaqz¯an, de Ibn Tufayl – uma das fontes do empirismo de Locke –, e das Mil e Uma Noites. Entretanto, Simon Ockley, Edward Gibbon e Voltaire, entre outros, insistiam em diversos quadrantes da actividade intelectual europeia numa imagem mais concreta e objectiva do islão, ainda que em larga medida no contexto da tendência anticatólica manifestada por muitos deles.

Todavia, o islão perdera o seu brilho e o Médio Oriente dos séculos xviii e xix era marcado pelo lento declínio do Império Otomano, pela multiplicação das tensões regionais, mormente no Egipto, e pelo anquilosamento das estruturas sociopolíticas. O recuo do império na Europa Oriental acentuava-se verificando-se simultaneamente uma espécie de «domesticação» política dos otomanos na cena internacional. A Inglaterra voltou então a aproximar-se da Turquia, compreendida aqui no âmbito do equilíbrio de poderes, destacando-se nesse processo duas personagens: William Pitt, dentro das esferas do poder instituído, e Urquhart, essencialmente na periferia desse mundo, actuando de modo informal e muitas vezes ilícito.

Desta forma, Walker regressa no capítulo final ao registo da história política como fio condutor da narrativa. A intrusão das potências europeias no Médio Oriente, a ineficácia das reformas otomanas, a expansão do nacionalismo quer na Europa Oriental, quer mesmo no mundo árabe, revelavam claramente o declínio turco.

A obra detém-se precisamente no momento em que a Turquia otomana sentia o peso dos fracassos políticos e militares, a crescente pressão expansionista da Rússia e a infiltração da Grã-Bretanha e da Alemanha no Médio Oriente, enquanto a imagem do império sofria uma degradação evidente aos olhos da opinião pública inglesa.



ENTRE A SÍNTESE HISTÓRICA E O ENSAIO LITERÁRIO

Concluída esta visão panorâmica, impõem-se alguns comentários especialmente centrados sobre o conjunto de opções discursivas e princípios conceptuais que fundamentam a obra. Em primeiro lugar, o resumo dos conteúdos acima desenvolvido permite perceber que a síntese das relações entre o islão e o Ocidente não se desenrola de um modo uniforme e carece mesmo de alguma coerência global, sensação reforçada pela inexistência de uma conclusão final que o escopo da obra e a multiplicidade dos dados aconselharia.

Compreensível enquanto estudo dedicado às relações entre o islão e o Ocidente temática e narrativamente segmentado, a obra revela-se no entanto insuficiente como síntese histórica das relações entre as duas civilizações: desde logo, devido à forte tendência verificada a partir do capítulo 5 para a concentração da narrativa, no que respeita a margem ocidental desse relacionamento, sobre a história, religião, política e cultura britânicas, o que a torna preferencialmente orientada para um público anglo-saxónico. Essa tendência acaba mesmo por se revelar negativamente limitativa, na medida em que resulta numa certa lateralização do próprio plano das relações entre o Ocidente e o islão. Este aspecto remete para um outro problema de fundo da obra: a notável escassez de perspectivas islâmicas sobre o Ocidente. Fala-se do modo como o islão é representado, imaginado, utilizado, da sua influência na história europeia, mas ignora-se flagrantemente as representações que o islão produziu sobre o Ocidente.

Nesta medida, a obra de Walker poderá ser mais propriamente considerada como uma espécie de digressão histórico-literária ao longo da história milenar das relações entre Ocidente e islão. Política, religião e cultura são os prismas de análise prioritários pelos quais essa relação é avaliada, quer de modo tematicamente integrado, quer de modo disseminado, conforme mostra a estrutura interna dos capítulos. As correntes de pensamento antitrinitárias, a filosofia árabe, as Cruzadas, os contactos diplomáticos e comerciais entre a Inglaterra e o Império Otomano, assim como a evolução dos equilíbrios geopolíticos na Europa Oriental e no Médio Oriente, configuram um variegado conjunto de temáticas que adquirem ascendente conforme o momento da narrativa, mau grado os conteúdos de tipo cultural e especificamente religioso pareçam fornecer uma das linhas temáticas dominantes. A obra oscila, por conseguinte, entre a história política, diplomática e militar, a história da cultura e mentalidades, e a biografia.

Esta flutuação temática é significati-vamente acompanhada por uma certa polivalência discursiva que acaba por emprestar ao estudo uma natureza dúplice e o afasta de certo modo do género historiográfico. Com efeito, a obra acolhe concomitantemente preocupações e procedimentos explicativos de tipo historiográfico e marcas de discurso literário, nomeadamente o recurso consistente e sucessivo a imagens e metáforas que -chegam a desempenhar o papel de argumentos.

Há no entanto um conjunto de opções e procedimentos que se afiguram altamente desaconselháveis e contestáveis do ponto de vista historiográfico: o deslizamento frequente do discurso para a esfera do pitoresco, a utilização de argumentos -subjectivos e do domínio do acidental, o impressionismo da linguagem, os juízos morais e a recriação biográfica abusiva de figuras históricas. De notar ainda que o autor aparenta assentar o seu processo interpretativo numa concepção essencialista da História, impressão apoiada pela inclusão de noções como verdade histórica, realidade das coisas, juízo da História e pela consequente retroprojecção de categorias e valores morais.

De facto, embora demonstrando uma postura de valorização histórica de culturas não-europeias, o autor parece continuar a alimentar uma perspectiva particularmente enviesada sobre a própria história medieval europeia, perspectiva essa claramente tributária da historiografia renascentista e iluminista, que via na Idade Média uma época de trevas e de simples regressão civilizacional. Além disso, apoia substancialmente a sua interpretação não na historiografia contemporânea, mas sim em obras de época como a História do Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon, escrita nas décadas finais do século xviii e de leitura cuidadosa, subscrevendo ainda juízos morais nelas formulados acerca de outros contextos históricos.

São extremamente discutíveis, duvidosos ou contestáveis diversos momentos do estudo em análise. Em primeiro lugar, a projecção da ideologia multiculturalista sobre o al-Andalus e a Sicília normanda, que resulta na produção de uma visão -idealizada das respectivas sociedades, convertidas numa espécie de paraísos da coexistência pacífica assentes na tolerância, no diálogo e na cooperação entre fés e culturas. É a propósito do al-Andalus que o mito da sociedade multicultural é mais visivelmente utilizado: «Aqui, judeus, cristãos e muçulmanos esqueceram as suas diferenças (e a maior parte dos seus pecados) e encetaram uma viagem dedicada ao conhecimento, à literatura e ao prazer» (pp. 28-29). Porém, Walker não menciona nem as profundas divisões internas que agitavam a sociedade do al-Andalus e que suscitaram a periódica proliferação de revoltas e entidades políticas autónomas, muitas delas de fundo cristão, nem o movimento de reacção cristão dos mártires de Córdova (850-859), duramente reprimido e sintomático de um profundo mal-estar no seio das elites cristãs.

Outros exemplos se sucedem: no atinente ao significado da peregrinação aos lugares santos do cristianismo da Antiguidade Tardia e ao tratamento dos factores explicativos do movimento das Cruzadas. Por outro lado, a importância histórica do islão encontra-se em larga medida reduzida a um papel de transmissão, transformado subrepticiamente aquele numa espécie de civilização de mediação.

Por fim, importa registar um conjunto adicional de exemplos que, conquanto se trate de uma tradução, exprimem claramente o tipo de discurso frequentemente utilizado pelo autor. Acerca da atracção e influência exercida pelos anacoretas e eremitas cristãos dos desertos sírios sobre as tribos árabes, afirma o autor: «Eram visões de esperança e de nostalgia, presenças brilhantes que dissolviam as trevas da alma» (p. 14). Já a propósito da dimensão histórica das Cruzadas na primeira metade do século xiii, estas são classificadas de «propensão malsã» e «opiáceo de masculinidade, esteróide de narcisismo» (p. 54). Nos parágrafos dedicados a Tamerlão, declara que este «acreditava, não na governação tranquila, mas na devastação e em pirâmides de crânios» (p. 109). Note-se finalmente a seguinte frase: «O credo é uma fraude em matéria de religião» (p. 121).

Em suma, apesar de constituir uma interessante tentativa de síntese, de explorar o entrosamento de diversas áreas na -história das relações entre o islão e o Ocidente, e de apostar num certo embele-zamento literário, o estudo de Walker revela-se algo deficiente em matéria de rigor, objectividade e espírito crítico. Infelizmente, o islão, um dos eixos estru-turantes do estudo, tende por vezes a apagar-se ou a ser representado através de uma imagem passiva ou mesmo espectral, como um outro ausente sobre o qual as elites europeias discutiam. Ainda assim, a obra desenvolve nitidamente um esforço no sentido de matizar a imagem de um antagonismo irredutível entre as duas civilizações, salientando nesse sentido os contextos de aproximação e coexistência, no que residirá porventura o seu principal valor.

Instituto Português de Relações Internacionais

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